Os tempos conturbados e desorientados em que vivemos refletem uma crise de racionalidade que não é sem relação com os ideais característicos da modernidade e, mais precisamente, com a ideia de ciência que aí se forjou.
Uma das grandes bandeiras da ciência moderna é a aliança do conhecimento e do poder. Trata-se de um projeto de dominação da natureza e da realidade através de meios que permitam o seu controlo e manipulação. O conhecimento científico é justamente um conhecimento de procedimentos certificados pela capacidade que o homem demonstra para moldar e interferir nos nexos de causalidade. O ideal de cientificidade é um ideal de obtenção de certeza e de eficácia, as quais podem ser produzidas com a invenção de plataformas de objetividade. A mais convincente dessas plataformas de objetividade revelou-se na mensuração, na quantificação, na tradução numérica da realidade. Foi por esta via quantofrénica que a ciência moderna seguiu e nela permanece.
Um dos mal-entendidos que persiste na interpretação do conhecimento científico é a ideia de que ele corresponderia à realidade, de que seria um espelho do mundo através do qual curiosidade humana se satisfaria. Mas, como referimos anteriormente, aquilo a que ela de facto corresponde é a medos, inseguranças e ansiedades ancestrais que se expressam numa vontade de poder, de controlo e de dominação. A realidade construída pela ciência é um espelho dos nossos desejos de manipulação da natureza, não um espelho do seu funcionamento enquanto tal. A realidade construída pela ciência anda às ordens da certeza e da eficácia e tudo molda para que estas possam ser produzidas, recalcando o que se revele ambivalente e o que possa gerar incerteza.
Escreve Zygmunt Bauman em Modernidade e Ambivalência (p. 50):
«A ciência moderna nasceu da esmagadora ambição de conquistar a Natureza e subordiná-la à necessidades humanas. A louvada curiosidade científica que teria levado os cientistas ”aonde nenhum homem ousou ir ainda” nunca foi isenta da estimulante visão de controlo e administração de fazer as coisas melhores do que são (isto é, mais flexíveis, obedientes, desejosas de servir). Com efeito, Natureza acabou por significar algo que deve ser subordinado à vontade e à razão humanas — um objeto passivo de ação com um propósito, um objeto em si mesmo desprovido de propósito e, portanto, à espera de observar o propósito injetado pelos senhores humanos. O conceito de Natureza, na sua acepção moderna, opõe-se ao conceito de humanidade pelo qual foi gerada. Representa o outro da humanidade. É o nome do que não tem objetivo ou significado. Despojada de integridade e significado, a Natureza parece um objeto maleável às liberdades do homem».
O avanço da ciência, desde a modernidade nascente até à modernidade tardia que é a nossa, concentrou-se obsessivamente na ideia de certeza, numa certeza utilitária que nos permite intervir eficazmente. Esta concentração pressupôs, contudo, uma estratégia de fragmentação constante (dividir, isolar e especializar, sempre e cada vez mais, para solucionar) cuja virtude reside em permitir absolutizar essas certezas e tornar infalível a eficácia. É verdade que são certezas insulares, produzidas graças a cuidadosas delimitações do objeto de estudo mas, dentro do paradigma, revelam-se funcionais nas suas potencialidades manipuladoras. O reverso negativo desta estratégia é que o processo de fragmentação produz um novo caos. Faz-nos navegar num mar de partes ao mesmo tempo que inviabiliza percecionar o todo. Fornece-nos eficácia, mas torna-nos carentes de sentido. Oferece-nos certezas, mas deixa atrofiada a nossa capacidade de gerar confiança através de argumentos que, como Cícero dizia, são «algo de provável inventado para criar confiança».
Deste modo, aquilo que a certeza proporciona — ou seja, o suposto descanso daquilo que queremos tomar por «solução» — acaba por voltar, qual regresso do recalcado, sob a forma da tormenta, da falta de sentido, da desorientação e da perturbação. É essa a consequência direta do privilégio dado à abundância de meios e do adiamento a que constantemente se vota a pergunta pelos fins.
Voltando à crise de racionalidade, direi que ela traduz justamente o desprezo por uma confiança que nunca nos dá garantias suficientes para apaziguar as nossas ansiedades (mas que é contudo vital do ponto de vista da comunidade humana, dos laços de vida construídos uns com os outros), em detrimento da idolatria da certeza como porto seguro para as nossas fragilidades.
Afigura-se-me, no entanto, que só há verdadeiramente segurança quando esta tem por base a confiança, não a certeza. É certo que, de um ponto de vista das garantias — e hoje todos exigem garantias que não existem, como se a segurança não coexistisse sempre com o risco — a confiança parece ser um parente pobre da certeza. Mas a confiança, com a esperança que envolve, é aquilo que verdadeiramente dimensiona prudencialmente a vida humana na sua condição histórica e finita e também aquilo que pode moldar com sentido as comunidades humanas na parte do percurso que lhes cabe trilhar.
Gerar a confiança é um trabalho lento e sempre frágil. Implica, acima de tudo, que a atitude ética se sobreponha à manipulação do que, ao ser demarcado como um outro excluído ou a excluir, a objetividade trata como coisa. Se assim acontecer, talvez possamos viver uns com os outros e uns para os outros e não em estado permanente de guerra ou como reféns enlouquecidos por uma obsessão de controlo que nos nega e que sacrifica a liberdade à miragem de uma segurança sem mácula.
O contrabalanço à racionalidade instrumental que herdamos da modernidade, e que hoje resplandece, reside, diz-nos Bauman (p. 62 da obra anteriormente referido), no «pluralismo do poder» que, descentralizando e diversificando as fontes autorizadas, possibilita a discussão, a confrontação e a ponderação de alternativas, remontando da ansiedade pela certeza e pela estabilidade às questões da confiança e, nesse mesmo passo, fazendo com que a ética retorne do seu exílio forçado.