Cultura democrática: o diálogo e a coexistência no dissensus

Num recente livro, intitulado Apologie de la Polémique (PUF, 2014), Ruth Amossy sugeriu um belo ideal — o da «coexistência no dissensus» — no que diz respeito à ligação entre as práticas argumentativas e a democracia.

O ideal da uma «coexistência no dissensus» é filosoficamente importante a vários níveis. Em primeiro lugar, porque assume a irredutibilidade de perspetivas diferentes e a sua recorrente conflitualidade. Em segundo lugar, porque — não dramatizando a impossibilidade de consensos ou acordos alargados (que aliás são bem-vindos quando viáveis) — considera que no coração da democracia deve estar uma cultura do compromisso e da negociação ou, para o dizer com outras palavras, um ambiente intelectual no qual as pessoas ou os grupos podem não estar de acordo mas, apesar disso, se podem entender.

A fecundidade do referido ideal é que ele permite, de facto, assumir identidades e filiações diferentes, fazendo do diálogo um forma de procurar convergências e acordos e assim estabelecer plataformas de coexistência onde se articulam o preferível e o possível.

Digamos que é um pouco como no amor. Há quem considere — doentiamente, aliás, ainda que comummente — que a fórmula do amor é 1+1=1. É a ideia de uma amor fusional, uníssono, que só será verdadeiro quando a identificação fizer desaparecer as identidades próprias. Mas há quem considere que a fórmula do amor é 1+1=3. A ideia, aqui, é a de que o amor cria um espaço próprio, o espaço do nós, espaço que cada um, a partir da sua identidade própria, deve cuidar se quiser assegurar a sua permanência.

É uma demonstração de menoridade intelectual e democrática rejeitar compromissos resultantes de negociações, argumentando e justificando — como fazem tantos jornalistas — que a existência de diferenças irredutíveis entre quem se compromete mina e torna inviável a confiabilidade e a consistência do compromisso. Das duas uma: ou isso mostra que essas pessoas desconhecem os poderes do diálogo, da retórica e da argumentação e acham que a expressão «coexistência no dissensus» é uma contradição nos termos, ou então isso torna evidente que tais pessoas apenas ostentam uma fachada democrática quando a democracia lhes corre de feição e quando a posição de poder que ocupam não está em perigo mas, quando se sentem afrontados por algo de alternativo com o qual não sabem lidar, revelam-se efetivamente segregacionistas.

Por mim, acho lindo e estimulante o ideal de uma «coexistência no dissensus»; quero continuar a acreditar, em nome da boa convivencialidade que, apesar de não estarem de acordo, as pessoas se podem entender; e continuo a concordar com a visão que Francis Jacques apresenta do diálogo ao enfatizar que ele «não é forçosamente consensual, ele é também o lugar onde se veem crescer os verdadeiros desacordos, mas não sem que nos consigamos entender sobre o próprio desacordo. (…) O ideal é que cada um possa formar a ideia de um acordo pelo menos possível sobre o qual se ergue o desacordo. É também a única forma de chegar a um verdadeiro dissentimento, que não repouse num mal-entendido. Aliás, o prazer do diálogo, que aos meus olhos é sem igual, é menos o do consenso do que o das fecundações incessantes e o da probidade no controlo mútuo do pensamento».

Resgatar a Universidade do Wall Street intelectual

Quem hoje lançar um olhar sobre os modos de avaliação da atividade docente universitária depressa se aperceberá do sequestro de que foi alvo o trabalho intelectual.

Uma das vias pelas quais se opera o sequestro é a linguística e consiste numa gradual expropriação identitária. Sob o pretexto da internacionalização (escorado, aliás, numa certa ideia de globalização) — os financiadores impõem o inglês como língua de trabalho. E, como todos já percebermos, em nome das boas intenções do trabalho, do seu progresso, da melhorias das suas condições e da sua eficácia, vale tudo. Para suavizar o escândalo, começa por preferir-se — como se de uma questão técnica se tratasse — os «outputs» aos resultados. Querer obstinadamente resultados é uma compulsão demencial e acaba por reduzir a educação a um adestramento para a produção. E que adopta a produção industrial como paradigma, acabando por triturar tudo que seja pensamento «fora da caixa» e fomentando o ódio ao pensamento interrogativo. Mas, para os provincianos que aspiram a ser alguém, «outputs» é coisa fina e digna. Orgulhosos, não sentem qualquer vergonha em exibir no seu curriculum a lista de publicações em revistas escalonadas segundo o ranking (eis mais uma palavra que espelha o neocolonialismo linguístico dos nossos tempos) do impacto. Hoje temos publicações «cotadas em bolsa» por entidades nublosas que se apropriaram da atividade intelectual e da investigação académica enquanto negócio rentável. E quem quer progredir na carreira (carreira é um termo português, mas confesso que me arrepia) dispõe-se mesmo a pagar para ver os seus papers (inglês, de novo) publicados na revista de impacto máximo. A publicação será exibida no curriculum como um troféu e buscará uma qualquer adjetivação superlativa apropriada ao star system (ainda o inglês) que hoje domina o imaginário coletivo acerca do que é ser uma pessoa realizada. E, com sorte, a relevância do facto não escapará aos meios de comunicação social, os quais, sedentos de estrelas (que, quando se fala de conhecimento, têm necessariamente adjacente o epíteto de «especialistas»), não hesitarão em fazer disso notícia e em desmultiplicar até à rentabilização máxima a especulação comunicativa.

Que saudades tenho da «estupidez natural», dessa mesmo que não deixa que a complexidade seja o pretexto para a alienação da capacidade de nos posicionarmos e de decidirmos sem termos de consultar uma qualquer autoridade. Mas hoje, tudo nos desautoriza e tudo normaliza a impotência. Tudo torna insignificante o nosso poder deliberativo porque, de tão individualizados, nos tornarmos órfãos de comunidade, carentes do olhar do outro, cegos para a semelhança dos outros em nós.

Que saudades tenho da inutilidade. Dessa mesma da qual brotam os laços mais humildes da curiosidade e da admiração. E em que a descoberta nunca é sem o medo da imprudência. Dessa que gera o companheirismo do caminho, próprio de quem se sabe parte de um ensaio no qual o risco, o humor e a ignorância se irmanam na definição da nossa própria condição.