Quem quer assumir um olhar crítico sobre as Humanidades Digitais deve explicitar como entende a noção de “crítica”. Lembremo-nos que o fomento de uma “atitude crítica” têm sido uma competência transversal a quase todas as disciplinas, justamente por ser considerada algo que nos leva para além da dimensão de utilizadores adestrados para a produção e nos desafia a pensar sobre a forma do questionamento, da reflexão sobre os valores epistémicos, o sentido para o mundo social da vida e suas formas culturais.
Assim, pelo meu lado, proponho definir a crítica como um exercício de atenção que visa discernir para poder por em perspetiva e avaliar sem cair em dogmatismos. Nesta proposta de definição, são importantes as palavras “perspetiva” e “avaliar” e “dogmatismos”. A primeira afasta-nos da dimensão funcional e instrumental, permitindo-nos ganhar distância e poder de questionamento; a segunda convoca-nos para uma atribuição de valor dentro de uma ética do provável; a terceira aponta para a incompatibilidade entre a crítica e formulações absolutistas, Diga-se, aliás, que é frequentemente uma das dificuldades de quem critica evitar essa tentação do passe de varinha mágica ontológica que, ao intensificar a sua perspetiva, passa a afirmá-la como sendo “o que é”).