(Post 36) «Isso é mera retórica!»

A desvalorização da retórica está intimamente ligada à à questão da verdade, desígnio dos filósofos. É por isso que a filosofia nasce de uma oposição à retórica, nomeadamente em Platão, que tem uma concepção metafísica da verdade: as Ideias platónicas são unas, imutáveis e representam a verdadeira realidade. Elas não estão sujeitas ao tempo nem à sociabilidade, tal como não são acessíveis por qualquer tipo de interesse pessoal ou prático. Além do mais, Platão parte da ideia de que a verdade é única e não admite alternativa. 

Esta concepção teoricista da verdade chocou com a visão prática que os sofistas tinham do conhecimento, uma visão que aliava os poderes da linguagem ao estabelecimento dos modos de ver a realidade e à força persuasiva que permite acolher algo como verdade. Ora para Platão a verdade impõe-se por ela mesma e não depende da persuasão. No melhor dos casos, a persuasão pode ajudar a alma no seu caminho para a verdade (e neste sentido pode ser uma psicagogia). No pior, ela é um instrumento de ilusão e manipulação. Em suma: entre a filosofia como discurso da verdade e a retórica enquanto obreira de persuasão, gerou-se uma oposição que levou a desqualificar esta última.

Por outro lado, fundou-se o acesso à verdade na intuição e em formas de evidência que nos permitem imediatamente a contemplação da verdade. Dessa forma, podemos dizer que a oposição filosofia / retórica é também uma oposição entre aceso direto à realidade / acesso mediado à realidade. Esta oposição permaneceu na modernidade e consolidou-se na dicotomia objetividade / subjetividade, pressuposto da ciência moderna. E, neste contexto, a retórica passou a ser o outro da objetividade e, por isso, desvalorizada.

Assim, se, por um lado, a herança da interpretação platónica já tinha descreditado a retórica (que, apesar de tudo, foi importante na Idade Média), a racionalidade científica moderna vai no mesmo sentido e de novo faz da retórica o outro do conhecimento científico, objetivo e verdadeiro. Neste movimento, a retórica dos conflitos tendeu a desaparecer e dar origem à retórica das figuras, naquilo a que Perelman chama uma «restrição da retórica». É a retórica como flores da boca.

Esta tradição do privilégio da racionalidade científica prolongou-se até ao século XX (e continua fazendo caminho), mas foi questionada pela importância dada à linguagem como forma humana de experiência o mundo. A linguagem passou a ser vista como uma mediação inescapável e sempre associada à construção humana da inteligibilidade. Com esta valorização da linguagem e, também, com a enfatização da sua dimensão social, deu-se a chamada crise dos absolutos e foi colocada em questão a ideia correspondencionalista da verdade, ou seja, de que o conhecimento espelha a realidade tal como ela é. Não só se passou para a ideia de que o conhecimento revela a realidade tal como nós a conhecemos, como, ainda, que toda a teoria é uma construção humana. Nesta sequência, da ideia de verdade como correspondência passou-se a uma ideia de verdade como acordo: aquilo que é considerado verdade (pois já não se acredita em verdades em si mesmas) é fruto do acordo e do assentimento que lhe é dado pelas comunidades relevantes. E foi desta maneira que, em vez de se opor retórica e ciência, se passou a falar de uma retórica da ciência (como aliás de muitos outros tipos de discurso).

Perelman, com efeito, foi um dos grande impulsionadores desta viragem que conduz de uma racionalidade sem retórica a uma visão retórica da própria racionalidade e de todas as transações comunicativas humanas (donde a ideia de «Império Retórico»). 

No entanto, o recurso de dissociar ou expulsar a retórica do discurso permanece, hoje como ontem, como um expediente retórico. Um expediente de desqualificação do discurso do outro relacionado com questões do exercício social da autoridade e do poder, recorrendo à conotação negativa que a retórica ainda possui no interdiscurso.

Nós, que estudamos retórica, sabemos que há uma retoricidade inerente à linguagem e que não há discurso neutros. Que não há, como diria Nietzsche, uma «neutralidade não retórica da linguagem». Sabemos que a retórica do discurso científico é a objetividade e que existe toda uma construção argumentativa das demonstrações. Sabemos que as mediações implicam sempre ver sobre determinados vieses e que a verdade é uma construção social que implica efeitos de persuasividade, ou seja, configurações retóricas. Que a retórica opera por efeito de saliência e de filtragem, e que é dessa forma que estabelece formas de perspetivar. Mas, como referi, isso não significa que a acusação «isso é retórica!» não funcione aos olhos do vulgo como uma acusação de vacuidade do discurso e lance uma suspeita de ausência de compromisso com a verdade. Sabemos que essa utilização é ela própria um expediente retórico, mas os expedientes retóricos são recursos incontornáveis na própria arte de persuadir e de impor regimes discursivos como verdadeiros. 

A segurança que nos é trazida pela ideia de verdade continua a ser muito sedutora e, enquanto houver desejo de verdade, haverá discursos que se apresentarão como estando na posse da verdade e que se fortificarão — porventura chamando-lhe «retórica» — opondo-se a todos os discursos que lhe são alternativos. Isso é aquilo a que Michel Meyer chamou retórica negra: a que quer trazer a solução, varrendo para debaixo do tapete as questões que estão em causa; a ela contrapôs a retórica branca, que é aquela que, assumindo e explicitando a problematicidade, permite o pluralismo das respostas múltiplas e o confronto de perspetivas que se procura propor e não impor.