A repetição e a insistência são das mais poderosas estratégias persuasivas. Num primeiro momento a mensagem invade o ouvido e vai-se introjetando no corpo à revelia do querer ouvir ou do voluntário prestar atenção dos indivíduos. Depois ganha consistência ontológica constituindo-se numa espécie de ressonância que comanda nos momentos em que a falta de tempo ou o incómodo da não-resposta cruza a necessidade imediata de eventuais decisões práticas. Com efeito, como não podemos estar sempre a parar para pensar, nem temos a possibilidade de estar a colocar tudo sempre em dúvida, o lema da ação acaba por ser: seguir em frente. Ora é justamente neste «seguir em frente» que as ressonâncias se tornam nossas guias. Há aí todo um prévio irrefletido pronto a vir ao pensamento e ao discurso, um recurso ao já dito e a lugares comuns, ao habitual e ao familiar, que nos permite responder em tempo útil e de uma forma presumivelmente não desfasada com o que é aceite, porque habitual. O ventroloquismo é de facto um recurso essencial para a inclusão social, para a criação de um sentimento de pertença a uma comunidade e para a promoção de uma convivencialidade baseada em elementos partilhados e supostamente comungados pelas pessoas «normais». O reverso do ventroloquismo é a fragilidade de um ser exposto à eficácia dos mecanismos ideológicos que o fazem tomar por suas ideias que ele próprio apropriou por sujeição a parâmetros de modos alheios de considerar a realidade e o seu significado.
Sei, pois, de há muito, que começamos sempre por ser ventríloquos, habitados pelos jogos e pelos usos de uma linguagem que não inventámos, por um falar anónimo que julgamos ser nosso, mas que essencialmente replica a transmissão normalizada de uma visão do mundo. Sei que, ao contrário do que geralmente julgamos, não é apenas, nem em primeiro lugar, a força do pensamento aquilo que comanda a ação, pois as ações em que nos vemos envolvidos antes de sobre elas refletirmos constituem a raiz material que conduz a modos de dizer, enquadrar e justificar verbalmente as nossas opções práticas.
Arrancarmo-nos a este ventriloquismo constitutivo é uma tarefa a que poucos dispensam o seu esforço. Sim, é certo, todos gostam de sentir que são eles próprios, mas esta busca pela “propriedade” que seria a nossa é apenas caminho, nunca ponto de chegada. E é por isso que aqueles que apenas encontram conforto no ato de chegar a conclusões seguras, lidam mal com a incerteza, com a ausência da necessidade lógica, com a pluralidade dos possíveis e com o aberto do “em questão”. É também por essa razão que descartam como ociosos os esforços dos ensaios metafísicos. Não se preocupam com os efeitos de arrasto em que a linguagem os envolve e o seu foco é pragmático: tirar partido das situações tal como elas surgem sem se deterem em juízos rígidos e deixando de lado qualquer sentimento de culpa, pois “o mundo é o que é e não fui eu quem o criou”.
Outros há para quem a questão do “ser-si-próprio” é fulcral. Alguns vivem na ilusão de saberem muito bem quem são. Outros renovam frequentemente a esperança de chegarem a saber, repetindo o jogo da descoberta de que não sabiam quem eram, mas, agora, conseguiram chegar lá. Volta e meia perdem esse ponto de chegada e retomam o caminho até chegarem, com convicção redobrada, a um “agora é que é”. Outros, dando-se conta de que ali existe um padrão circular, uma espécie de eterno retorno, acabam por aceitar que se trata de uma aprendizagem infinita, um processo com produtos, mas sem produto final, um caminho com percursos, mas realmente não susceptível de leituras teleológicas.
Pela minha parte vejo no imperativo do “ser-si-próprio” uma condição de busca cujo exercício constitui a própria experiência do viver: uma tensão susceptível de ser vivida com intensidades variáveis, correspondendo o nível zero de inquietação a um estado de dormência (e também de encantamento ingénuo) e o nível mais elevado a uma postura alerta e vigilante que pode até roçar a loucura enquanto instância definidora desse efeito homogeneizador de distância que permite classificar algo como “normal”.
De qualquer forma, fazer ensaios e tentativas para diminuir a força da condição ventríloqua, fazer surgir um processo de apropriação seletiva através do qual podemos sentir que as nossas opções estão presentes no processo de triagem inerente a qualquer discurso, isso, já é uma conquista considerável. O primeiro passo é o de compreendermos que, mais do que falarmos, somos falados e habitados por um tecido interdiscursivo que nos aguarda à nascença e ao qual iremos dar continuidade. De facto, primeiro continua-se, depois começa-se, embora tenhamos frequentemente a ilusão do contrário. Mas não são todos os que começam e muitos daqueles que o fazem desistem aos primeiros passos. Baixam os braços quando se apercebem dos perigos da barreira da descontinuidade, dessa barreira que, uma vez transposta, não tem regresso, pois após a transpormos nunca mais voltamos “os mesmos”: não há como ignorar (embora haja muitas maneiras de procurar esquecer ou de atenuar) aquilo que vimos e que talvez preferíssemos nunca ter visto.