A palavra “descartável” tornou-se, nos nossos dias, aplicável a uma das dimensões da precariedade laboral que atravessa o mundo do trabalho. Ela:
- reforça a ideia de que ninguém é insubstituível;
- enfatiza a tendência de formatar o trabalho como conjunto de tarefas executáveis e aferíveis por resultados observáveis e mensuráveis, tarefas essas que devem, portanto, ser o menos possível dependentes de quem as executa (ou seja, que preferivelmente devem ser o mais impessoais o possível); institui-se assim um ideia de formação que fica reduzida a um adestramento para executar funções;
- significa que a procura por emprego excede em muito a oferta, facto que contribui para que seja fácil, a quem emprega, substituir rapidamente funcionários ou, então, optar por políticas de rotatividade em que o princípio é sempre o curto prazo, o termo certo e a não criação de vínculos ou compromissos para com os trabalhadores;
- a ideia de “descartável” anda a par da degradação moral do humano, privilegiando uma visão instrumental da força de trabalho em detrimento da valorização da empatia e do trabalhador enquanto pessoa;
- é concomitante da substituição do humano pela automação e pelas tecnologias que lhe estão associadas (as quais consumam a ideia de executar tarefas de uma formas eficaz e impessoal);
- instala o medo e a insegurança, esvaziando poderes reivindicativos, estimulando a subserviência e dificultando qualquer projeto a mais longo prazo;
- gera, por parte do trabalhador, a resistência em criar vínculos e a investir num trabalho que, tendo horizontes precários, passa a ser visto de uma forma meramente instrumental, um modo de ganhar dinheiro e assegurar a subsistência;
- transforma a luta pela subsistência numa tarefa competitiva em que o outro surge como uma ameaça, estimulando pouco a cooperação, o espírito comunitário e a solidariedade, fomentando, ao invés, o individualismo e o “cada um por si”;
- conduz, finalmente, à tentativa de perseverar condições de miséria como se fosse “uma sorte” ter um trabalho e uma fonte de receita que a todo custo há que procurar manter. É uma forma de aprisionamento assente na naturalização da precariedade e no roubo da esperança no futuro.