(Post 31) A dinâmica tensional da argumentação retórica: até onde vai?

Muitos autores têm assinalado a dimensão intermédia — entre o arbitrário e o necessário — da argumentação retórica. Marc Angenot refere-a mesmo a esta como uma «ciência do mais ou menos» e Perelman recorreu à ideia de «intensidade variável» para definir a influência persuasiva, caracterizando a lógica da argumentação retórica como informal, isto é, que ocorre fora de sistemas formais fechados e em aqueles que são considerados como pontos de partida acordados pode ser sempre questionados e tornarem-se objeto de controvérsia. Neste sentido, a argumentação é um processo aberto.
Postas estas ideias, cumpre perguntar, então, pelo que carateriza a dinâmica da argumentação retórica. E a resposta a esta questão é a de que a ela preside uma dinâmica tensional, a qual pode ser melhor compreendida quando assumimos a perspetiva da argumentação na interação.
Uma situação de argumentação pauta-se pela presença de uma oposição discursiva que progride pela tematização da divergência. Essa situação nunca está liberta de constrangimentos e limites e o contexto contribui fortemente para se avaliar o quadro aproximado de possibilidades de uma interação em termos dos seus eventuais pontos de chegada. Seja qual for a finalidade da interação — e considerando que ela inclui pelo menos dois argumentadores —, as possibilidades de uma argumentação contam sempre, inseparavelmente, com a força do discurso e dos argumentos e com a disponibilidade dos argumentadores, uma vez que, quando pensamos a argumentação retórica em termos de influência, temos sempre no horizonte um outro com a prerrogativa de se posicionar em termos da intensidade variável de uma eventual adesão ou rejeição e que, além disso, é capaz de criticar e de produzir um contradiscurso.
A questão pragmática que aqui se coloca é a de saber até onde se pode ir numa interação condicionada pela mutualidade do papel de argumentador que cada um assume na interação. Para responder a esta questão, Michel Meyer lançou mão do termo «negociação» e, de facto, ele traduz bem o carácter tensional das situações de argumentação retórica. Ora, o que é que fazemos quando negociamos? Norteamos-nos pelo preferível e, num processo de aferição dos retornos, procuramos levar a afirmação dos nossos pontos de vista preferenciais tão longe quanto possível. Tentamos fazer com que a interação tenda para a nossa perspectiva, mas esta tentativa implica atenção ao desenrolar dos turnos de palavra para vermos até onde podemos ir tendo em conta o espaço do interlocutor e a pressão do seu discurso.

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