A questão persegue-me desde o início, e já lá vão quatro semanas de confinamento. Destituíram-me da capacidade de saber se estou ou não doente (neste caso específico, de poder ter a certeza de estar ou não infetado) e de agir em conformidade. Ao declarem-me ignorante (e o problema não é sê-lo ou reconhecê-lo, mas ser declarado por alguém) abrem-se as portas para ser tratado como um menor, tornando-me mais uma cabeça de gado que assim se junta à manada a ser “cuidada” pelos boiadeiros governamentais (replicados por um coro de cidadãos amedrontados, amplificados moralista e paternalisticamente pela matraca da comunicação social e obrigados à confinação espacial pelo aparelho repressivo do Estado, suas encenações e atuações de vigilância e punição).
A coisa tem força porque é uma expropriação coletiva permitida pelo medo e pela ignorância, pelo acenar do espectro da morte (essa certeza constantemente recalcada) e por um movimento de arrasto de grande poder. E tem também força porque, na senda do individualismo instalado, ela permite atomizar e encerrar cada um na sua própria célula. Porque é que ninguém pensou em fazer circunscrições comunitárias? Em vez de encerrar cada um nas suas casas, poder-se-ia alargar a unidade ao bairro, ao quarteirão, à vizinhança de proximidade. Fazer uma resistência comunitária, prudente, atenta mas corajosa. Tal como o fazem em grupo, por exemplo o grupo de pessoas que trabalham nos hospitais e que têm de confiar uns nos outros e que são intitulados, e bem, como «indispensáveis». Mas, não seremos todos indispensáveis? Fomentar relações de confiança em vez de desconfiança. Apelar ao discernimento, à responsabilidade e entreajuda comunitária de proximidade em vez de fomentar a ideia de reclusão individual. Descentralizar e deixar vir à tona a capacidade de auto-organização das comunidades unidas por objetivos comuns e sem prescindirem de ser comunidade. Esta é a única saída para não vermos a vida bloqueada e, simultaneamente, para evitarmos ficar expostos à paralisia social generalizada. De facto, ela não é tão generalizada assim, apenas o é para a grande maioria dos que são considerados dispensáveis ou apenas indispensáveis para serem orientados e cumprirem. Estamos nos antípodas do «ousa pensar» kantiano. Para muitos, hoje, o slogan implícito é «não ouses pensar» pois para pensar «estão lá eles».
Parece-me claro que tudo isto aponta para a insustentabilidade da expropriação do poder autárquico das pequenas comunidades e para a manutenção de um estado de subserviência em que nos temos de ver como governados e obedientes aos especialistas. E isso é um perigo maior do que qualquer vírus que ande por aí. Bem sei que quando o foco se estreita em excesso, num movimento metonímico que toma a parte pelo todo e acaba por lavar à perda da capacidade de por em perspetiva, toda a voz dissonante do coro de ventríloquos é votada ao ostracismo. E, no entanto, reitero: o que assinalei é um perigo maior do que qualquer vírus que ande por aí.