Porque é que o raciocínio, em sentido estrito, é insuficiente para ocupar o lugar central na análise das argumentações? Porque, se é verdade que proliferam raciocínios e inferências numa argumentação, mais importante que eles é movimento de tematização a que eles estão ligados. Tematizar significa trazer ao discurso (inventio) uma série de considerações que têm por função enquadrar o assunto em questão (ou seja, dizer em que termos ele é colocado, que vias foram escolhidas para o organizar e problematizar) ou, dito por outras palavras, a tematização significa colocar o assunto em perspetiva. Por exemplo, pode tematizar o assunto da governação de um país comparando-a à gestão de uma casa de família (recurso à analogia) e equacionar os problemas da governação em termos de gestão caseira. Ora é a partir desta tomada de perspectiva que se poderão encadear raciocínios baseados em juízos de facto, valor e ação. Como bem escreveu Willard (1983: 134 e 143): «quando uma pessoa escolhe entender os acontecimentos como, por exemplo, um economista e não como um psicólogo, ele está a fazer algo que deveria ser do máximo interesse para nós. Ele está a comprometer-se no sentido mais preciso do raciocínio ‘se então’, ou seja, a escolha dos padrões de juízo e de veracidade deste ou daquele campo implica que um actor implícita ou explicitamente pensa através das possibilidades de ‘dadas as regras de fundo da linguagem X, o meu raciocínio seguirá o este caminho; dadas as regras da linguagem Y, o meu raciocínio seguirá aquele caminho».
Mês: Maio 2019
(Post20) Argumentação no discurso e argumentação na interação
A argumentação no discurso e a argumentação na interação tem necessariamente focos diferentes. A primeira dá mais atenção à enunciação, aos mecanismos da língua, às tipologias argumentativas e às estratégias discursivas. A segunda foca mais a sua atenção na coconstrução ocorrida em situação de tensão entre discursos e de crítica do discurso de um pelo discurso do outro. De um ponto de vista das práticas argumentativas, penso que a segunda se aproxima mais às situações reais de argumentação nas quais comanda o primado da relação e em que se considera que a interação é sempre mais do que a soma de dois discursos individuais (mesmo que virtual ou dialogicamente participantes no interdiscurso).
(Post 19) É mais fácil obedecer do que decidir por si próprio
Para Perelman, «é normalmente mais fácil obedecer do que decidir por si próprio. É também frequentemente mais fácil lutar [fisicamente] com um oponente do que o convencer [através de palavras], porque não é de todo certo que [tenhamos sucesso] (PERELMAN 2009 [1949): 146). PERELMAN, Chaïm (2009 [1949]) «Le libre examen hier et aujourd’hui», in Modernité du libre examen. Textes de Chaïm Perelman et Jean Stengers, Ed. de l’ULB, Bruxelles, pp. 137-147.
(Post 18) Argumentação e procedimentos
“Se um orador, diante do Conselho ou diante do povo, se afasta do objeto da discussão, se ele não trata de cada assunto separadamente, ou se ele trata duas vezes do mesmo assunto na mesma reunião, se ele pronuncia insultos, se ele se deixa levar por invectivas, ou se ele interrompe um orador, se, no meio dos debates, ele toma a palavra sem subir à tribuna, se ele adverte o presidente ou o molesta, os proedros poderão, depois que a sessão da Assembléia ou do Conselho tiver sido encerrada, infligir-lhe uma multa podendo chegar a cinquenta dracmas, a ser embolsada pelos funcionários da receita. Se o delinquente é passível de uma pena mais elevada, os proedros, após terem-lhe infligido a multa de cinquenta dracmas, o enviarão diante do Conselho ou da Assembléia, na sua próxima sessão. Depois da citação em justiça, eles o julgarão, e se, em escrutínio secreto, uma condenação é pronunciada contra ele, eles encaminharão a sentença aos recebedores da receita” (Ésquines, Contra Timarco, 35).
(Post 17) Mantém o foco mas não percas à perspetiva!
Têm mais sentido falar de “pressupostos” da argumentação de que de “premissas” da argumentação. O termo premissa sempre foi um conotado com a lógica e funciona nesta como um dado de que se parte e que não se questiona. Mas, na argumentação, os pontos de partida são pressupostos. O acordo sobre eles pode fazê-los funcionar como assunções partilhadas, não sendo, contudo, inquestionáveis, nem permanecem assegurados seja a que título for (na realidade, ele tendem a ser precários, não por os participantes não honrarem os seus compromissos, mas porque o processo negocial e o processo de concessões pode desequilibrar os pratos da balança). Ora isto faz toda a diferença, porque nos aconselha a não ver as argumentações no plano mais estreito dos raciocínios proposicionais mas, antes, no plano das perspetivas e e no quadro de uma filosofia perspetivista. É caso para dizer: mantém o foco mas não percas à perspetiva!
(Post 16) Perelman, pensamento e formalismo
“Sa construction [d’ une théorie de l ‘argumentation, d’une science toute nouvelle, ou du moins, tombée dans l’oubli depuis des siècles], à partir d’éléments dont l’abondance effraie qui voudrait les systématiser, semble indispensable à qui désire comprendre la manière dont fonctionne notre esprit dans tous les domaines non formalisés de la pensée. (Perelman, sublinhado meu disponível em: https://dipot.ulb.ac.be/dspace/bitstream/2013/199258/4/VAR-57228-1001_11-05-2015_08-06-50_abbyy.pdf)
Os dois pontos essenciais a esclarecer e a elucidar aqui são: a) por um lado, para Perelman, teorizar a argumentação é uma empreitada cuja finalidade e alcance são de cariz filosófico; com efeito, trata-se de compreender o espírito humano, de projetar uma imagem de pensamento que desvele ao seu funcionamento, de construir uma imagem do humano — e não apenas do discurso — a partir das práticas argumentativas; em segundo lugar, e eventualmente mais problemático e complexo, é a referência aos «domínios não formalizados do pensamento». O que significa «domínios não formalizados do pensamento»? No contexto do pensamento e da formação de Perelman esta referência remete para a ascensão da lógica formal como expoente da racionalidade, para o modelo matemático como suporte epistemologicamente ideal, para a autonomização dos sistemas formalizados e para as plataformas de automação dos raciocínios. Dito de outra forma, os domínios formais são encarados por Perelman como sistemas fechados, desprovidos de ambiguidade e pautados pela construção de relações lógicas de necessidade.