(Post8) Logos, argumentação e retórica

A palavra logos aparece frequentemente traduzida pelo termo «razão», tal como surge ligada à ideia de «discorrer». Logos, linguagem e racionalidade aparecem assim irmanadas desde os alvores do chamado pensamento racional. Em sentido lato, elas remetem para a capacidade humana de inteligibilidade, ou seja, para um pensamento abstrato que opera por conceitos e que submete os fenómenos particulares a categorias abrangentes, configurando, através de um trabalho mental de interpretação e de articulação, uma ideia de mundo e uma ideia de ser.

No entanto, esta capacidade interpretativa que procura converter o sentido numa ordem inteligível, cedo se tornou ela própria objeto de reflexão e as filosofias de Platão e Aristóteles irão, quanto a este assunto, marcar todo o pensamento ocidental. Dito de outro modo, a questão do sentido do ser depressa desembocou em duas questões fundamentais: a questão ontológica (o que é o ser?) e a questão metodológica (qual o caminho que nos permite aceder ao que é?), sendo que esta última está, por sua vez, associada à distinção entre aparência e realidade e ao consequente esforço de se chegar à verdade para lá das aparências.

Não é por acaso que se chama «período ontológico» a este momento em que Platão e Aristóteles centram a sua reflexão no núcleo das relações entre ser e conhecer ou, dito de outro modo, na relação de conveniência entre teoria do ser e teoria do conhecimento. Não é também por acaso que as primeiras sistematizações da ontologia e da epistemologia, levadas a cabo pelos referidos filósofos, são acompanhadas por uma reflexão sobre a natureza e a função da linguagem, reflexão na qual, embora articulada, esta aparece como dissociável do pensamento. De facto, guiados pela metáfora da visão — são os mais olhos da alma que permitem o acesso à verdadeira realidade — a linguagem surgiu a estes filósofos como uma roupagem do pensamento e, por conseguinte, como algo de derivado e secundário na ordem dos próprios processos do conhecer.

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