(Post10) B) Platão, a filosofia e a retórica

Ora, é aqui que podemos assinalar a oposição que se estabelece entre os sofistas e Platão. Para este último, a ideia de que o saber é uma questão de perspetiva e circunstância é considerada como um relativismo inaceitável, solidário de uma ontologia inconsistente e enganadora.

De resto, o pressuposto e o movimento do pensamento platónico são  conhecidos. Por um lado, parte da pressuposição de que a solidez do conhecimento depende das propriedades daquilo que é conhecido e, por conseguinte, que apenas de uma realidade estável, imutável e essencial se pode ter um conhecimento seguro e verdadeiro. Essa realidade não pode ser da ordem do sensível (sempre em devir) e apenas é acessível pela via do inteligível (o que significa conferir um primado da teoria sobre a prática, ou seja, do universal sobre o mundo circunstancial do caso a caso, uma primazia do pensamento e do intelecto sobre o corpo e os sentidos). Este pressuposto, que leva a dividir a ordem sensível da ordem inteligível e a colocar a verdade do lado desta última, vai ser complementado por um movimento que instaura a filosofia como metafísica. Ninguém melhor que François Chatelêt soube sintetizar este movimento, naquilo que classificou como o grande ‘desvio’ de Platão relativamente a Sócrates (cuja indagação visava o conceito e o discurso universal):

«o discurso universal, mesmo se se conseguisse elaborá-lo, ficaria sem alcance real, sem eficácia se não fosse discurso verdadeiro, se não assinalasse claramente o Ser de que é convenientemente expressão. O desvio consiste precisamente nisso, nessa passagem da noção de universalidade — que implica somente uma aproximação do homem com o homem — à de verdade — que significa uma relação de identidade entre o Pensamento e o Ser. (…) Para que o discurso universal tenha um sentido, para que a aposta filosófica não seja absurda, é preciso que a universalidade seja fundada em verdade. A metafísica nasce no momento em que a prática do discurso — do diálogo — desemboca naquilo que em última análise está em questão no discurso, quer dizer, no Ser» (Châtelet, F., Platão, Edições Rés, pp. 135 e 138).

Importa também sublinhar que esta instauração da filosofia como metafísica, que visa o acesso ao mundo inteligível e à verdadeira realidade (por oposição ao mundo das aparências), é solidária de uma secundarização da linguagem relativamente à visão. Com efeito, os meios discursivos serão considerados, na melhor das hipóteses, como auxiliares de um processo que deve culminar na contemplação de um dos olhar puramente inteligível. É precisamente essa ideia que nos aparece na noção platónica de dialética, assim definida na República:

«O método da dialética é o único que procede, por meio da destruição das hipóteses, a caminho do autêntico princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e eleva-os às alturas.» (533c-d).

Para quem tem dúvidas de que o pensamento filosófico, por ser dito ‘racional’, nada tem a ver com emoções e afetos, a citação precedente é bem esclarecedora. Com efeito, note-se que o grande motivo é o da segurança e da autenticidade: «tornar seguros os seus resultados» e «autêntico princípio». Mas, retomando a nossa questão do estatuto da linguagem em Platão, vemos que, na sua definição de dialética, o plano da linguagem é preterido relativamente ao modelo da visão e, mais precisamente, de uma visão inteligível. Platão não nos fala de uma visão física, mas de «olhos da alma», o que aliás é consistente com a sua distinção entre pensamento discursivo (dianoia) e pensamento intuitivo (noesis).

A linguagem é para Platão, da ordem da retórica e não da ordem do conhecimento. Quando muito, ela poderá ser uma auxiliar na condução da alma rumo à verdade, ou seja, cumprir a missão psicopedagógica de abrir as portas ao plano contemplativo, nomeadamente através da eliminação de hipóteses e, consequentemente, da preparação para o acesso ao nível intuitivo no qual a realidade é captada pelo olhar purificado do puro olhar.

A dupla abordagem que Platão faz da retórica, nomeadamente nos seus diálogos Górgias e Fedro, reflete precisamente isso. O ponto de partida é o mesmo, a saber, o de que a retórica é algo de instrumental.

No caso do Górgias, ela é criticada a partir daquilo que são os seus possíveis maus usos: o engano e a mentira, a afirmação de si, a vitória a todo o custo, a lisonja manipuladora, etc..

No caso do Fedro, a retórica é vista a partir do seu bom uso, surgindo como um processo de condutividade da alma rumo à verdade. O denominador comum destas visões, só aparentemente contraditórias, reside no mesmo critério filosófico que permite distinguir os dois tipos de uso: o critério do conhecimento e a ideia de que a verdade está do lado de quem sabe, ou seja, do filósofo.

O problema deste critério de autoridade filosófica está à vista: quem afere quem são os detentores do verdadeiro conhecimento? Não será inaceitável fazer do filósofo juiz em causa própria? E aceitar o filósofo como um iluminado não é desde logo colocar-se numa posição de subserviência intelectual?  Não será o posicionamento de Platão, em última análise, uma forma de subverter a vocação indagatriz e problematizante do filosofar rumo a um dogmatismo arrogante e a um autoritarismo que postula a ignorância de todos os que não são filósofos? Não estamos aqui perante uma visão que faz com que a ideia de Verdade toque o extremo da intolerância, uma vez que é apresentada como não discutível ou suscetível de controvérsia?

De facto, no pensamento de Platão, a retórica sai sempre a perder: ou é abominada porque não é filosofia, ou é secundarizada como uma mera propedêutica a algo muito mais valioso do que ela. Numa palavra a retórica não tem direito de cidade como dimensão que vale por si mesma; a sua existência é apenas admissível numa relação de heteronomia relativamente à filosofia, detentora do cetro e da última palavra do rei-filósofo.

Esta herança que opõe a retórica à verdade (e à verdade como poder) permaneceu até aos nossos dias, como bem atesta o uso da palavra ‘retórica’, por exemplo em debates, para desvalorizar o discurso do outro e lhe conferir uma conotação pejorativa.

O mesmo não aconteceu com o pensamento de Aristóteles que, apesar de discípulo de Platão, dimensionou de outra forma a retórica. Foi ele quem, pela primeira vez, a teorizou de uma forma sistemática, não lhe conferindo uma dimensão disciplinar e epistémica (no sentido de não ser um conhecimento nem especializado, nem do universal). Associou-a, antes, ao domínio dos processos de escolha, influência e deliberação no que diz respeito àquilo que não cabe nos critérios da necessidade lógica e que, sendo do domínio do preferível, do plausível e do maleável, se afere por graus de intensidade e não por um saber preposicional regido pelo binarismo do verdadeiro e do falso.

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