(Post9) A) Os sofistas, a retórica, Platão e Aristóteles

Os sofistas têm certamente o seu peso no rumo do pensamento de Platão e de Aristóteles, o que facilmente se entende se considerarmos que as posições filosóficas são também, muito frequentemente, contraposições. Ora, quer em Platão, quer em Aristóteles, encontramos uma posição de adversidade relativamente aos sofistas. Muitos dos diálogos do primeiro têm o nome de sofistas e existe mesmo um importante diálogo intitulado Sofista. De Aristóteles, são bem conhecidas as Refutações Sofísticas, por exemplo. Ora, com se refletiu esta influência dos sofistas no pensamento destes dois filósofos de referência?

A) os sofistas e a retórica

É óbvio que não podemos dar uma mesma resposta para cada um dos casos. Podemos, contudo, traçar uma pincelada larga e dizer que os sofistas tinham uma concepção não-teoricista, prática e social do conhecimento e partiam do princípio de que a linguagem não é uma forma de representar à realidade mas, muito mais do que isso, é criadora da realidade prática da vida dos homens. Porquê? Porque na vida prática, em que a deliberação e a necessidade de decidir são constantes, os homens são sensíveis aos poderes e impactos, simultaneamente sensíveis e inteligíveis, do discurso. O discurso, nomeadamente quando os homens que se debatem com questões de natureza dilemática, optativa e para as quais chegar a uma tendência de resposta exige reforços e diminuição de incerteza, o discurso, dizíamos, revela-se como um importante obreiro de persuasão. Ele acrescenta peso nos pratos da balança decisória, mexe com as emoções, molda estados de espírito.

Assim, de um ponto de vista prático, os sofistas tiveram a consciência de que o homem é um ser exposto aos efeitos do que é persuasivo e, simultaneamente, que o efeito de persuasão cria uma versão de realidade que conduz a considerar essa versão como real e verdadeira.

Com efeito, a persuasão é um forte operador de naturalização do «como se» hipotético — próprio do registo abdutivo em que o pensamento perscruta, sonda e se ensaia. Neste registo do «como se» o pensamento lida com a incerteza através suposições e aproximações  imaginativas que têm algum grau de suspensividade no que diz respeito a serem afirmadas como correspondendo à realidade (são suposições e estão, por isso, em estado hipotético). A persuasão ajuda a dar o passo seguinte, ou seja, ela revela-se como um mecanismo que ajuda o trânsito desse «como se» aproximativo a um «é o que é» tautológico e assertivo (ou, pelo menos, considerado como suficientemente bom ou sólido para poder ser afirmado). Como dizia Cícero um argumento é «algo de provável inventado para criar confiança» (probabile inventium ad faciendam fidem). Ao gravitar em torno da ideia de prova (das chamadas provas retóricas, ou seja, daquilo que não pode ser resolvido através do recurso à medição e ao cálculo), a persuasão constituiu-se não só uma forma de gerar confiança, reduzindo a complexidade e a incerteza, como permite dar resposta às exigências que a necessidade de escolher e de agir exerce sobre o pensamento, gerando o efeito de certeza ou quase-certeza associado à assertividade.

Esta intuição fundamental de alguns dos principais sofistas — que aqui explicitámos à nossa maneira — está aliás aliada à percepção da natureza convencional e mutante das instituições humanas que, com as suas leis, formatam os imaginários e regulam as práticas sociais.

Pensamos que esta é a moldura mais apropriada para reinterpretar o conhecido aforismo protagórico do homo-mesura: «O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são». Se quisermos encontrar um exemplo que possa ilustrar o alcance desta frase pense-se, por exemplo, no código das estradas, ou no complexo sistema de leis: cada revogação de algum aspecto faz com que o que antes era, deixe de ser; qualquer introdução de um nova regra faz com que, o que ainda não era, passe a ser.

Mas, insista-se, esta não é uma visão teoricista que se preocupa, por exemplo, com a pergunta «como é que do não ser algo pode vir a ser?». Parte antes da constatação de que, na  prática, as coisas acontecem assim e procura captar o modo como ocorre a dinâmica tensional entre o instituído e o instituinte. Aceita a mudança e está atenta à produção dos efeitos de realidade que linguagem e o discurso é capaz de produzir.

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