(Post7) Um ideal de sociabilidade

Atentarmos no contexto de emergência da argumentação e da retórica obriga-nos a remontar à Polis grega a ao seu universo espiritual. Ninguém definiu este último melhor do que Jean-Pierre Vernant no seu livro As origens do pensamento grego. Eis uma passagem sintética e muito certeira:

«O que implica o sistema da polis é precisamente uma extraordinária premência da palavra sobre todos os outros instrumentos. Torna-se o instrumento político por excelência, a chave de toda a autoridade do Estado, o meio de comando e de domínio sobre outrem. (…) Entre política e o logos há assim uma relação estreita, vínculo recíproco. A arte política é essencialmente exercício da linguagem; e o logos, na sua origem, toma consciência de si mesmo, das suas regras, da sua eficácia, através da função política. (…). Uma segunda característica da polis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social. (…). Doravante a discussão, a argumentação, a polémica, tornam-se as regras do jogo político. O controle constante da comunidade exerce-se sobre as criações do espírito, assim como sobre as magistraturas do estado. (…). Aos dois aspectos que assinalámos — prestígio da palavra, desenvolvimento das práticas públicas — um outro traço se acrescenta para caracterizar o universo espiritual da polis. Os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem, de certa maneira, como ‘semelhantes’ uns aos outros. (…). O vínculo do homem com o homem vai tomar assim, no esquema da cidade, a forma de uma relação recíproca, reversível, substituindo as formas hierárquicas de submissão e de domínio. Todos os que participam do Estado vão definir-se como Hómoioi, depois, de maneira mais abstracta, como os Isoi, os iguais. (…). Esta imagem do mundo humano encontrará no século VI a.C. a sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia: igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder.» (Vernant, J.-P. (1986), As origens do pensamento grego, Difel: 34-42).

Desta citação realço a importância da palavra como reguladora da sociabilidade e das relações de poder que esta implica, a ideia de uma indissociabilidade entre racionalidade e usos públicos da linguagem e, finalmente, o postulado de uma paridade participativa no exercício do poder.

É certo que este ideal — e a sua prática — está restringido aos cidadãos e deixa de fora a grande maioria que não o é (por exemplo, os escravos e as mulheres). É também certo que esta matriz democrática de participação na coisa pública pressupõe nas suas condições o exercício de uma democracia direta, diferente das democracias representativas que hoje conhecemos. É ainda verdade que proclamação formal da reciprocidade participativa está materialmente dependente das reais competências que cada um possa desenvolver através de uma educação voltada já não para a guerra, mas para o uso da palavra influente junto da comunidade e das instituições.

Mesmo assim, estamos perante um ideal novo que decididamente coloca no epicentro da sociabilidade a capacidade de persuadir e influenciar em detrimento da imposição pela força.  A este propósito, Perelman escreveu o seguinte:

«Aquilo que é essencial, sejam quais forem os motivos do início da reflexão filosófica, é que ela não se concebe, a meu ver, sem uma ruptura da comunhão do homem com o seu meio, sem os primeiros questionamentos do que, até aí, não fazia problema(…); primeiros questionamentos quer das nossas crenças quer das nossas modalidades de acção. Ora, do questionamento ao desacordo e do desacordo ao uso da força para restabelecer a unanimidade, a passagem é tão normal que não necessita de quaisquer comentários. O que é excepcional, pelo contrário, e que constituiu um marco na história da humanidade, é ter-se permitido que em matérias fundamentais, reservadas à tradição religiosa e aos seus porta-voz, o uso da força pudesse ser substituído pelo da persuasão, que se pudessem colocar questões e receber explicações, avançar opiniões e submetê-las à crítica de outrem. O recurso ao logos, cuja força convincente dispensaria o recurso à força física e permitiria substituir a submissão pelo acordo, constitui o ideal secular da filosofia desde Sócrates. Este ideal de racionalidade esteve associado, desde então, à procura individual da sabedoria e à comunhão dos espíritos fundada sobre o saber. Como, graças à razão, dominar as paixões e evitar a violência? Quais são as verdades e os valores sobre os quais seria possível esperar o acordo de todos os seres dotados de razão? Eis o ideal desejado de todos os pensadores da grande tradição filosófica do Ocidente” (“L’idéal de rationalité et la règle de justice”, in C.A., pp. 289-290. Subl. meu).

Poderíamos dizer, por conseguinte, que o surgimento da argumentação e da retórica se encontra, por um lado, associado à ideia de que, nas coisas humanas, o logos é inseparável do uso da linguagem e, por outro, que é através de um ideal de coexistência que exclui o uso da violência ou da imposição pela força que se imagina a forma justa da política. A importância do poder persuasivo da linguagem reside, precisamente, na expectativa de que a via da confrontação verbal e da negociação entre partes em divergência é a condição de uma coexistência inclusiva. Inclusiva porque as partes são tomadas em consideração — são ouvidas — e os assuntos em questão sobre os quais é preciso decidir são objeto de uma deliberação assente no critério da maioria.

É menos interessante ver este cenário como um ideal perfeito do que como uma ideia reguladora de práticas sempre imperfeitas mas, apesar de tudo, o menos imperfeitas possível. Trata-se de um ideal que não procura superar a inevitável tensionalidade dos conflitos inevitáveis e recorrentes mas, antes, que procura lidar com eles da forma mais aceitável e justa possível. Esta matriz de um logos aplicável ao mundo humano conduz-nos ao nosso terceiro ponto, a saber, o das relações entre logos, argumentação e retórica.

2 pensamentos em “(Post7) Um ideal de sociabilidade”

  1. Esta dimensão de ideal democrático que emerge do uso persuasivo da linguagem em contexto de conflito sempre foi para mim uma das mais importantes conquistas da humanidade. Pergunto-me se na tão proclama substituição da palavra pela imagem, na sequência da revolução tecnológica que vivemos, conseguimos ainda manter a promessa de mais humanidade para todos, que ela contém desde os gregos….

  2. Tenho a mesma preocupação. Mas alguns enunciados me animam, como a recente colocação de Dominique Wolton em evento aqui no Brasil, ao lembrar que temos que recuperar a condição humana da comunicação e a ideia de tolerância. E complemento: a palavra nunca foi tão decisivamente importante nas relações humanas. Há novas formas estratégicas, novas retóricas se impondo, mas sempre havemos de perseguir o eterno retorno: a linguagem de nós mesmos.

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