(Post6) Pensamento mágico e emergência do pensamento racional

Para não perder de vista o contexto histórico da emergência da argumentação e da retórica devemos ter em consideração o surgimento do pensamento filosófico. Com efeito, é com ele que se dá uma progressiva transição (sem que, no entanto, o segundo elimine o primeiro) do registo de pensamento mágico para o chamado pensamento racional e para um ideal de coexistência humana que a ele está associado.

O pensamento mágico pauta-se pelo recurso a narrativas míticas e apelos a forças sobrenaturais. Neste registo, recorre-se a histórias que explicam a origem dos fenómenos e justificam que eles assim sejam. O mito de Pandora, por exemplo, explica como é que o Mal se instalou no mundo. Também inúmeros mitos de criação explicam, através das suas narrativas de origem, porque é que o mundo é como é.

O pensamento mágico caracteriza-se por ser uma visão sacralizada da realidade (nele são fundamentais as categorias do sagrado e do profano, mas só o primeiro é significativo).

A progressiva passagem para o pensamento filosófico representa um passo no sentido da laicização. De algum modo vai-se operando uma cisão entre narrativas míticas e explicações que deixam de fazer apelo a forças sobrenaturais.

O aparecimento dos primeiros filósofos, também chamados físicos ou naturalistas, coloca-nos perante a tentativa de explicar a origem de todas as coisas a partir de uma substância e através de um processo evolutivo. Se, em alguns casos (como acontece em Empédocles, por exemplo) aparecem ainda forças como o Amor é o Ódio para explicar o devir, o facto é que no chamado período cosmológico a preocupação é a de explicar — de um modo que remete para os próprios processos da natureza — a origem de todas as coisas. Ao elaborarem tais explicações, os primeiros filósofos, por alguns designados de pré-socráticos, abandonam o plano do pensamento concreto e articulam abstratamente três grandes questões: a da unidade e da multiplicidade, a da explicação do devir e a da diferenciação entre ser e aparência. Estas questões permanecerão no cerne de todos os questionamentos filosóficos posteriores. Perelman, por exemplo, destaca que a última dissociação como fundadora da própria filosofia.

Do ponto de vista do que aqui nos interessa, o importante é realçar que a emergência do pensamento racional abandona o dogmatismo das narrativas centradas na categoria da revelação sobrenatural, cujo acesso apenas é permitido a alguns (sacerdotes), e passa a fixar-se na construção de hipóteses teóricas aferidas dentro de parâmetros laicos e discutíveis. Ou seja, este processo de secularização é também um caminho para um forma de pensar menos dogmática e mais crítica.

Este caminho insere-se, aliás, dentro da via mais larga que vai instituir um novo modo de vida política, uma nova concepção das instituições e uma nova matriz de interação entre os cidadãos. Referirmo-nos ao período esplendoroso da Grécia Clássica, na qual floresceu a Atenas democrática e, também, ao grande debate em torno daquilo que é por natureza e daquilo que é por convenção, ou seja, ao confronto entre direito natural e direito positivo. Com efeito, é importante assinalar que a retórica argumentativa tem como pano de fundo da sua emergência o questionamento de uma atitude dogmática que postula o monismo ontológico por uma atitude prática e uma visão sociológica do saber que quer dar conta das dinâmicas e metamorfoses sociais. É aqui que enraíza uma oposição destinada nada a persistir: a oposição entre filosofia e retórica, a que se associam as primeiras reflexões sobre a linguagem, suas funções e importância.

De facto, a laicização que ocorre na Grécia é um processo no qual se verifica uma crescente centralidade atribuída ao homem. Se, em termos de história da filosofia, se diz que ao período cosmológico se seguiu o período antropológico, isso é justamente uma forma de assinalar não só essa centralidade conferida ao humano, como, também, um modo de apontar o deslocamento do foco de interesse das questões sobre a natureza para as questões sobre o homem, sua convivencialidade e importância da cidadania e instituições políticas. Isso leva-nos ao segundo ponto, a saber, o de caracterizar o ideal de sociabilidade política a que a emergência da argumentação e da retórica estão ligados.

Um pensamento em “(Post6) Pensamento mágico e emergência do pensamento racional”

  1. Excelente síntese, clara e densa, de um momento importante da própria ‘invenção do homem’ enquanto ser social com aspirações à convivialidade e à ‘sociabilidade política’.
    Apreciei particularmente o quanto o texto sublinha o aspecto sempre inacabado deste processo de passagem ‘do mito à razão’. Na realidade estamos constantemente a fazer e desfazer este caminho, qual fio de Ariadne, que vai tecendo as nossas vidas individuais e a nossa história comum.
    Venham mais textos destes, que nos ilustram e interrogam!
    Parabéns Prof. Rui Grácio!

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