(Post5) Definições. Como definir? E como definir a argumentação?

As definições, ou seja, o estabelecimento das âncoras pressuposicionais que enquadram conceptualmente algo, são, por tradição, um assunto filosófico. Se a ideia de fundamentos absolutos, típica da aspirações metafísicas tradicionais, foi colocada em causa na contemporaneidade, nem por isso a questão dos fundamentos foi deixada de lado, tal como não o foi o reconhecimento de que o tratamento dessas questões (hoje formulada em termos de pressupostos) pertencem a um registo filosófico do pensamento.

Pelas considerações que antecedem, fica claro que iremos procurar responder à questão «o que é a argumentação» assumindo que, por um lado, se trata de uma questão filosófica de enquadramento teórico-conceptual e, por outro, que ela deve ser formulada com o máximo nível de generalidade de modo a poder ser eventualmente articulada com níveis definicionais mais específicos, fruto de delimitações e fragmentações inerentes aos procedimentos de especialização (ou seja, do caminho de aprofundamento do conhecimento pela via analítica da divisão do todo em partes).

Também não alinharemos, na resposta a esta pergunta, às derivas definicionais pragmáticas, tão ao sabor dos tempos, as quais cedem à tentação de se satisfazer por critérios de utilidade, sobrepondo o «para que serve?» a outros critérios, eventualmente mais prudentes, de conceptualização.

É certo que qualquer definição é marcada pela historicidade; que os usos de noções se pautam por uma variabilidade epocal; e que a compreensão implica sempre contextualização. Mas tal não significa que não possamos desdenhar da dimensão abstrata inerente ao trabalho conceptual em detrimento da descrição e caracterização dos usos concretos historicamente circunscritos. A dialética temporal entre forma e conteúdo, entre geral e específico, entre ideação e realidade faz parte da própria articulação do pensamento e é inerente ao esforço do logos, o qual se consubstancia no capacidade de aplicação, ou seja, num processo de compreensão que interpreta subsumindo casos particulares e concretos a princípios gerais e abstratos. Muitos têm, aliás, apontado esta capacidade de distanciamento do imediato como traço distintivo do humano que, a invés de viver confinado ao ambiente, tem uma representação de mundo. Com efeito, sem reflexividade e sem um olhar que apreende conceptualmente a realidade não existiria o poder teórico de criar inteligibilidades. E isto é uma realidade tanto do ponto de vista antropogenético como do ponto de vista ontogenético.

Mas, deixemos de lado estas considerações iniciais, necessárias, todavia, para definirem o posicionamento filosófico de que partimos, e avancemos para a resposta, por etapas, à questão acima formulada.

Responder à questão «o que é a argumentação?» de um modo abrangente implica que a contextualizemos do ponto de vista humano, também ele abrangente. Um tal ponto de vista implica, desde logo:

• situar a argumentação no contexto histórico da sua emergência teórica-prática ou, dito de outro modo, no momento da diferenciação do pensamento filosófico (dito racional), do pensamento mágico (chamado também, entre outras designações, de concreto e mítico).

• articular a argumentação com o ideal de sociabilidade política a que a sua emergência se encontra associada;

• formular a questão da articulação entre logos e argumentação.

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