Mercado de trocas — a propósito da economia inclusiva

Vivemos num mundo desorientado e cada vez mais afastado do sentido comunitário da coexistência humana.

Um certo filósofo polaco distinguia entre três formas de coexistência: o existir-ao-lado, o existir-com e o existir-para. Vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre cada uma delas.

A primeira modalidade caracteriza-se por ser uma forma de contacto fragmentário, circunstancial, ad hoc e inconsequente. Na realidade, estamos inevitavelmente cercados por outras pessoas, em contacto com elas e temos de lidar com isso sem que contudo haja qualquer tipo de dedicação da atenção para além do estritamente convencional, funcional e socialmente correto.

No entanto, por vezes os contactos podem propiciar uma seleção que nos faz transitar do estar-ao-lado para o estar-com. Dito de outra forma, dispensamos a nossa atenção a alguns e com isso entramos numa esfera de coexistência mais apertada. No entanto, embora não seja tão instrumental como a anterior, é de certo modo calculada e possui uma dimensão defensiva. Proporciona partilhas de conveniência mas os contactos são intermitentes e não vinculativos.

Já o existir-para cria o laço emotivo de filiação que torna impossível a indiferença e, por isso, resiste a toda a objetificação. Cria uma paridade auroral, uma união de cuidados, um caminho comum a percorrer conjuntamente, uma responsabilidade gratuita.

Destas três formas de coexistência, a primeira foi a que se tornou mais representativa na sociedade contemporânea na qual o indivíduo foi privatizado.

O estado de guerra permanente que essa privatização gerou mandou a ética para o exílio e expropriou gradualmente o humano da gratuidade e da comunidade. Ou seja, fez sair da caixa de Pandora a indignidade que transforma as privações, também elas, em coisa privada.

A lógica da exclusão vem de longe e consiste numa estratégia de poder alienante e desumanizadora. Ela tem a sua realização plena da desautorização social do gratuito, ou seja, de uma partilha sem outro motivo que os imperativos não racionais do modo de coexistência do estar-com. Estar porque sim. Porque não sou indiferente à minha responsabilidade para com o Outro e porque na dinâmica do dar e receber podemos sentir a proximidade de uma ajuda que antes de mais me gratifica a mim mesmo na medida em que sou para os outros.

Aquilo que aqui é praticado no mercado de trocas é uma valiosa maneira de retornar a esse magma onde a dignidade da pessoa se eleva por cima da mercantilização generalizada movida pelo lucro. Onde, enfim, o lucro se torna ocioso, permitindo o resgate de uma coexistência que não obriga a desviar o olhar, mas a querer encontrar um sorriso no rosto a quem dedicamos incondicionalmente atenção.