Técnicas especializadas e especialistas

«Em vez de alcançar a prometida redução do número de problemas que perturbam o controlo da vida, a crescente sofisticação das técnicas especializadas redunda na multiplicação dos problemas. Técnicas em busca de aplicação mascaram-se de problemas que pedem solução».

«O dano causado pela especialização só pode ser reparado através de mais especialização. Mais especialização significa, por sua vez, mais danos ainda um aumento da demanda da cura especializada, (…) O mercado prospera com a novidade que torna os velhos stocks obsoletos e abre ou convoca novos mercados. As forças do mercado estimulam a novidade».

«A competência especializada promete aos indivíduos os meios e técnicas para escapar da incerteza e ambivalência e assim controlar as suas próprias vidas. Ela apresenta a dependência face aos especialistas como uma libertação do indivíduo, a heteronomia como autonomia».

Zygmunt Bauman

Sobre a Verdade

«A verdade é um conceito essencialmente antagonístico».

Zygmunt Bauman

«A filosofia constitui o domínio, não da verdade, mas da tolerância. Nada há mais intolerante do que a verdade».

Chaïm Perelman

«A verdade é, por outras palavras, uma relação social (como poder, propriedade ou liberdade): aspeto de uma hierarquia feita de unidades de superioridade e inferioridade; mais precisamente, um aspeto da forma hegemónica de dominação ou de uma pretensão a dominar pela hegemonia».

Zygmunt Bauman

«Que é então a verdade? Uma exercício móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transportadas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal».

F. Nietzsche

Certeza e confiança

Os tempos conturbados e desorientados em que vivemos refletem uma crise de racionalidade que não é sem relação com os ideais característicos da modernidade e, mais precisamente, com a ideia de ciência que aí se forjou.

Uma das grandes bandeiras da ciência moderna é a aliança do conhecimento e do poder. Trata-se de um projeto de dominação da natureza e da realidade através de meios que permitam o seu controlo e manipulação. O conhecimento científico é justamente um conhecimento de procedimentos certificados pela capacidade que o homem demonstra para moldar e interferir nos nexos de causalidade. O ideal de cientificidade é um ideal de obtenção de certeza e de eficácia, as quais podem ser produzidas com a invenção de plataformas de objetividade. A mais convincente dessas plataformas de objetividade revelou-se na mensuração, na quantificação, na tradução numérica da realidade. Foi por esta via quantofrénica que a ciência moderna seguiu e nela permanece.

Um dos mal-entendidos que persiste na interpretação do conhecimento científico é a ideia de que ele corresponderia à realidade, de que seria um espelho do mundo através do qual curiosidade humana se satisfaria. Mas, como referimos anteriormente, aquilo a que ela de facto corresponde é a medos, inseguranças e ansiedades ancestrais que se expressam numa vontade de poder, de controlo e de dominação. A realidade construída pela ciência é um espelho dos nossos desejos de manipulação da natureza, não um espelho do seu funcionamento enquanto tal. A realidade construída pela ciência anda às ordens da certeza e da eficácia e tudo molda para que estas possam ser produzidas, recalcando o que se revele ambivalente e o que possa gerar incerteza.

Escreve Zygmunt Bauman em Modernidade e Ambivalência (p. 50):

«A ciência moderna nasceu da esmagadora ambição de conquistar a Natureza e subordiná-la à necessidades humanas. A louvada curiosidade científica que teria levado os cientistas ”aonde nenhum homem ousou ir ainda” nunca foi isenta da estimulante visão de controlo e administração de fazer as coisas melhores do que são (isto é, mais flexíveis, obedientes, desejosas de servir). Com efeito, Natureza acabou por significar algo que deve ser subordinado à vontade e à razão humanas — um objeto passivo de ação com um propósito, um objeto em si mesmo desprovido de propósito e, portanto, à espera de observar o propósito injetado pelos senhores humanos. O conceito de Natureza, na sua acepção moderna, opõe-se ao conceito de humanidade pelo qual foi gerada. Representa o outro da humanidade. É o nome do que não tem objetivo ou significado. Despojada de integridade e significado, a Natureza parece um objeto maleável às liberdades do homem».

O avanço da ciência, desde a modernidade nascente até à modernidade tardia que é a nossa, concentrou-se obsessivamente na ideia de certeza, numa certeza utilitária que nos permite intervir eficazmente. Esta concentração pressupôs, contudo, uma estratégia de fragmentação constante (dividir, isolar e especializar, sempre e cada vez mais, para solucionar) cuja virtude reside em permitir absolutizar essas certezas e tornar infalível a eficácia. É verdade que são certezas insulares, produzidas graças a cuidadosas delimitações do objeto de estudo mas, dentro do paradigma, revelam-se funcionais nas suas potencialidades manipuladoras. O reverso negativo desta estratégia é que o processo de fragmentação produz um novo caos. Faz-nos navegar num mar de partes ao mesmo tempo que inviabiliza percecionar o todo. Fornece-nos eficácia, mas torna-nos carentes de sentido. Oferece-nos certezas, mas deixa atrofiada a nossa capacidade de gerar confiança através de argumentos que, como Cícero dizia, são «algo de provável inventado para criar confiança».

Deste modo, aquilo que a certeza proporciona — ou seja, o suposto descanso daquilo que queremos tomar por «solução» — acaba por voltar, qual regresso do recalcado, sob a forma da tormenta, da falta de sentido, da desorientação e da perturbação. É essa a consequência direta do privilégio dado à abundância de meios e do adiamento a que constantemente se vota a pergunta pelos fins.

Voltando à crise de racionalidade, direi que ela traduz justamente o desprezo por uma confiança que nunca nos dá garantias suficientes para apaziguar as nossas ansiedades (mas que é contudo vital do ponto de vista da comunidade humana, dos laços de vida construídos uns com os outros), em detrimento da idolatria da certeza como porto seguro para as nossas fragilidades.

Afigura-se-me, no entanto, que só há verdadeiramente segurança quando esta tem por base a confiança, não a certeza. É certo que, de um ponto de vista das garantias — e hoje todos exigem garantias que não existem, como se a segurança não coexistisse sempre com o risco — a confiança parece ser um parente pobre da certeza. Mas a confiança, com a esperança que envolve, é aquilo que verdadeiramente dimensiona prudencialmente a vida humana na sua condição histórica e finita e também aquilo que pode moldar com sentido as comunidades humanas na parte do percurso que lhes cabe trilhar.

Gerar a confiança é um trabalho lento e sempre frágil. Implica, acima de tudo, que a atitude ética se sobreponha à manipulação do que, ao ser demarcado como um outro excluído ou a excluir, a objetividade trata como coisa. Se assim acontecer, talvez possamos viver uns com os outros e uns para os outros e não em estado permanente de guerra ou como reféns enlouquecidos por uma obsessão de controlo que nos nega e que sacrifica a liberdade à miragem de uma segurança sem mácula.

O contrabalanço à racionalidade instrumental que herdamos da modernidade, e que hoje resplandece, reside, diz-nos Bauman (p. 62 da obra anteriormente referido), no «pluralismo do poder» que, descentralizando e diversificando as fontes autorizadas, possibilita a discussão, a confrontação e a ponderação de alternativas, remontando da ansiedade pela certeza e pela estabilidade às questões da confiança e, nesse mesmo passo, fazendo com que a ética retorne do seu exílio forçado.

Os colaboradores

Na nossa sociedade competitiva, os empregados passaram a ser colaboradores. Dá-se assim uma imagem cooperativa do trabalho que seria, sem dúvida, desejável para todos, mas que nada tem a ver com a ideologia neoliberal que os explora impiedosamente.

O termo «colaborador» rima bem com a condição de precariedade que hoje permite dissociar a dignidade da necessidade de subsistir através do trabalho. Ainda por cima, o colaborador — e a palavra até parece incluir a autonomia de um ato de vontade — tem que se converter e vestir a camisola.

Os seus corpos fardados fazem parte do pacote. A sua instrumentalização estende-se ao receituário comportamental que têm de seguir à risca e à linguagem formulaica de que não devem ousar fugir.

Adestrados para os procedimentos e para a imagem que devem exibir, despersonalizados de qualquer característica própria que estão proibidos de mostrar, os colaboradores têm de sorrir e tratar bem os clientes. E estão sujeitos a uma avaliação através da qual são constantemente monitorizados.

As suas vidas (vidas?) devem esgotar-se no consumo e nas suas obrigações de trabalho e para isto contribui o aumento de horas que devem disponibilizar e a exigência de flexibilidade que os fazem viver de plantão para o trabalho e de escape na miragem do consumo. Tudo, menos ter margem para comandar a sua vida. O colaborador deve ser dócil e subserviente e mostrar agrado e gratidão.

O colaborador sabe que é facilmente descartável. A sua relação de trabalho tornou-se, também ela, uma simples conexão (eventualmente) legal, sem vínculos ou laços humanos. A contenção do silêncio assenta-lhe bem. Deve comportar-se como profissional e submeter-se à hierarquia dos acessos que os cabrestos informáticos lhe impõem.

Hoje também é usual chamar-se aos colaboradores «assistentes operacionais» e, nas classificações profissionais, proliferam os «técnicos». É o trabalho na era da informática.

Para os deslumbrados, isso é sinal de progresso, mas para muitos — e para mim também — é um sistema de descriminação sem precedentes no seu cinismo e no silêncio com que pratica a exclusão.

O fascínio pela ordem infalível e pela eficácia sempre foi perigoso. E mais perigoso se tornou quando a sua manutenção se associou indelevelmente ao funcionamento maquínico e a processos formalizados que condenam o homem a uma condição inultrapassavelmente servil, temente da liberdade e despojado de qualquer ideia de libertação.

Hoje há ecrãs entre os olhos nos olhos.

Aprender a democracia: lições sobre o pluralismo

O tempo é de muitas conversas, debates e discussões. Conversa-se, debate-se e discute-se política.

Hoje vejo um povo a aprender sobre democracia, a interrogar-se sobre a democracia e a confrontar-se com o que é viver em democracia.

Vejo pessoas a sair da zona de conforto e a colocar questões. E os assuntos em questão, debatidos pelos cidadãos e pelos próprios políticos, jornalistas e comentadores, mudaram.

Aceitar o pluralismo como princípio ou ter de lidar com ele como um facto são coisas bem diferentes. É por isso que, neste último trimestre de 2015, se tem voltado às questões que estão no cerne da vitalidade democrática.

Em primeiro lugar, volta-se ao princípio do diálogo como atitude primeira de coexistência democrática. A maturidade a salientar, neste ponto, reside no facto do diálogo possibilitar alianças argumentativas passíveis de inventar novas possibilidades para além do que é calculado numericamente. O que isto traz de positivo é um sentimento de que a força que faz acontecer está do lado das pessoas e não se impõe como fatalidade inexorável. Ainda somos alguém e estamos vivos.

Em segundo lugar, vai-se operando uma decisiva mudança no léxico e nas suas sinonímias. Convergência não significa identificação total, mas partilha contextualizada de interesses. Apoio não significa incondicionalidade. Divergência não significa contradição. Expetativa e esperança não significam certeza. Garantias: eis um termo só pode fazer parte de um qualquer momento de publicidade enganosa ou servir de alimento a quem coloca a segurança acima da liberdade. O espírito pluralista e a sua humildade — que, entre outras coisas, aconselha a maior prudência quanto ao ato de fazer promessas — vai adquirindo uma nova sintonia.

O que tudo isto configura — e poderíamos prolongar a enumeração — é o facto de estarmos a ser bafejados pela vivência pluralista e a ser confrontados com algo que nunca se consolidou — talvez porque o lastro do passado demore a desaparecer em termos de mentalidades — em 40 anos de democracia: a ideia de que pensar diferente e expressar essa diferença é saudável, fecundo e não impeditivo da coexistência. Que, ao invés das campanhas de medo que tanto efeito de silenciamento produzem, sinalizar as diferenças e os dissensos é o mais saudável dos princípios para assegurar compromissos que permitam a boa coexistência.

Como escreveu Norberto Bobbio, num livro que intitulou O Futuro da Democracia. Uma defesa das regras do jogo, «o pluralismo, enfim, nos permite apreender uma característica fundamental da democracia (…): a liberdade — melhor: a liceidade — do dissenso. Esta característica fundamental da democracia dos modernos baseia-se no princípio segundo o qual o dissenso, desde que mantido dentro de certos limites (estabelecidos pelas denominadas regras do jogo), não é destruidor da sociedade, mas solicitador, e uma sociedade em que o dissenso não seja admitido é uma sociedade morta ou destinada a morrer.»

Enfim, espero que a TINA (There Is No Alternative) definhe de vez e que, neste momento mais maduro, a democracia se redefina como arte de reinvenção permanente da liberdade, tirando partido das virtudes do diálogo e deixando de estigmatizar e diabolizar o que difere, apenas porque difere. Aprender a conversar é, antes de mais, aprender a escutar.

Cultura democrática: o diálogo e a coexistência no dissensus

Num recente livro, intitulado Apologie de la Polémique (PUF, 2014), Ruth Amossy sugeriu um belo ideal — o da «coexistência no dissensus» — no que diz respeito à ligação entre as práticas argumentativas e a democracia.

O ideal da uma «coexistência no dissensus» é filosoficamente importante a vários níveis. Em primeiro lugar, porque assume a irredutibilidade de perspetivas diferentes e a sua recorrente conflitualidade. Em segundo lugar, porque — não dramatizando a impossibilidade de consensos ou acordos alargados (que aliás são bem-vindos quando viáveis) — considera que no coração da democracia deve estar uma cultura do compromisso e da negociação ou, para o dizer com outras palavras, um ambiente intelectual no qual as pessoas ou os grupos podem não estar de acordo mas, apesar disso, se podem entender.

A fecundidade do referido ideal é que ele permite, de facto, assumir identidades e filiações diferentes, fazendo do diálogo um forma de procurar convergências e acordos e assim estabelecer plataformas de coexistência onde se articulam o preferível e o possível.

Digamos que é um pouco como no amor. Há quem considere — doentiamente, aliás, ainda que comummente — que a fórmula do amor é 1+1=1. É a ideia de uma amor fusional, uníssono, que só será verdadeiro quando a identificação fizer desaparecer as identidades próprias. Mas há quem considere que a fórmula do amor é 1+1=3. A ideia, aqui, é a de que o amor cria um espaço próprio, o espaço do nós, espaço que cada um, a partir da sua identidade própria, deve cuidar se quiser assegurar a sua permanência.

É uma demonstração de menoridade intelectual e democrática rejeitar compromissos resultantes de negociações, argumentando e justificando — como fazem tantos jornalistas — que a existência de diferenças irredutíveis entre quem se compromete mina e torna inviável a confiabilidade e a consistência do compromisso. Das duas uma: ou isso mostra que essas pessoas desconhecem os poderes do diálogo, da retórica e da argumentação e acham que a expressão «coexistência no dissensus» é uma contradição nos termos, ou então isso torna evidente que tais pessoas apenas ostentam uma fachada democrática quando a democracia lhes corre de feição e quando a posição de poder que ocupam não está em perigo mas, quando se sentem afrontados por algo de alternativo com o qual não sabem lidar, revelam-se efetivamente segregacionistas.

Por mim, acho lindo e estimulante o ideal de uma «coexistência no dissensus»; quero continuar a acreditar, em nome da boa convivencialidade que, apesar de não estarem de acordo, as pessoas se podem entender; e continuo a concordar com a visão que Francis Jacques apresenta do diálogo ao enfatizar que ele «não é forçosamente consensual, ele é também o lugar onde se veem crescer os verdadeiros desacordos, mas não sem que nos consigamos entender sobre o próprio desacordo. (…) O ideal é que cada um possa formar a ideia de um acordo pelo menos possível sobre o qual se ergue o desacordo. É também a única forma de chegar a um verdadeiro dissentimento, que não repouse num mal-entendido. Aliás, o prazer do diálogo, que aos meus olhos é sem igual, é menos o do consenso do que o das fecundações incessantes e o da probidade no controlo mútuo do pensamento».

Resgatar a Universidade do Wall Street intelectual

Quem hoje lançar um olhar sobre os modos de avaliação da atividade docente universitária depressa se aperceberá do sequestro de que foi alvo o trabalho intelectual.

Uma das vias pelas quais se opera o sequestro é a linguística e consiste numa gradual expropriação identitária. Sob o pretexto da internacionalização (escorado, aliás, numa certa ideia de globalização) — os financiadores impõem o inglês como língua de trabalho. E, como todos já percebermos, em nome das boas intenções do trabalho, do seu progresso, da melhorias das suas condições e da sua eficácia, vale tudo. Para suavizar o escândalo, começa por preferir-se — como se de uma questão técnica se tratasse — os «outputs» aos resultados. Querer obstinadamente resultados é uma compulsão demencial e acaba por reduzir a educação a um adestramento para a produção. E que adopta a produção industrial como paradigma, acabando por triturar tudo que seja pensamento «fora da caixa» e fomentando o ódio ao pensamento interrogativo. Mas, para os provincianos que aspiram a ser alguém, «outputs» é coisa fina e digna. Orgulhosos, não sentem qualquer vergonha em exibir no seu curriculum a lista de publicações em revistas escalonadas segundo o ranking (eis mais uma palavra que espelha o neocolonialismo linguístico dos nossos tempos) do impacto. Hoje temos publicações «cotadas em bolsa» por entidades nublosas que se apropriaram da atividade intelectual e da investigação académica enquanto negócio rentável. E quem quer progredir na carreira (carreira é um termo português, mas confesso que me arrepia) dispõe-se mesmo a pagar para ver os seus papers (inglês, de novo) publicados na revista de impacto máximo. A publicação será exibida no curriculum como um troféu e buscará uma qualquer adjetivação superlativa apropriada ao star system (ainda o inglês) que hoje domina o imaginário coletivo acerca do que é ser uma pessoa realizada. E, com sorte, a relevância do facto não escapará aos meios de comunicação social, os quais, sedentos de estrelas (que, quando se fala de conhecimento, têm necessariamente adjacente o epíteto de «especialistas»), não hesitarão em fazer disso notícia e em desmultiplicar até à rentabilização máxima a especulação comunicativa.

Que saudades tenho da «estupidez natural», dessa mesmo que não deixa que a complexidade seja o pretexto para a alienação da capacidade de nos posicionarmos e de decidirmos sem termos de consultar uma qualquer autoridade. Mas hoje, tudo nos desautoriza e tudo normaliza a impotência. Tudo torna insignificante o nosso poder deliberativo porque, de tão individualizados, nos tornarmos órfãos de comunidade, carentes do olhar do outro, cegos para a semelhança dos outros em nós.

Que saudades tenho da inutilidade. Dessa mesma da qual brotam os laços mais humildes da curiosidade e da admiração. E em que a descoberta nunca é sem o medo da imprudência. Dessa que gera o companheirismo do caminho, próprio de quem se sabe parte de um ensaio no qual o risco, o humor e a ignorância se irmanam na definição da nossa própria condição.