(Post 35) Assalariados descartáveis

A palavra “descartável” tornou-se, nos nossos dias, aplicável a uma das dimensões da precariedade laboral que atravessa o mundo do trabalho. Ela:

  1. reforça a ideia de que ninguém é insubstituível; 
  2. enfatiza a tendência de formatar o trabalho como conjunto de tarefas executáveis e aferíveis por resultados observáveis e mensuráveis, tarefas essas que devem, portanto, ser o menos possível dependentes de quem as executa (ou seja, que preferivelmente devem ser o mais impessoais o possível); institui-se assim um ideia de formação que fica reduzida a um adestramento para executar funções;
  3. significa que a procura por emprego excede em muito a oferta, facto que contribui para que seja fácil, a quem emprega, substituir rapidamente funcionários ou, então, optar por políticas de rotatividade em que o princípio é sempre o curto prazo, o termo certo e a não criação de vínculos ou compromissos para com os trabalhadores;
  4. a ideia de “descartável” anda a par da degradação moral do humano, privilegiando uma visão instrumental da força de trabalho em detrimento da valorização da empatia e do trabalhador enquanto pessoa;
  5. é concomitante da substituição do humano pela automação e pelas tecnologias que lhe estão associadas (as quais consumam a ideia de executar tarefas de uma formas eficaz e impessoal);
  6. instala o medo e a insegurança, esvaziando poderes reivindicativos, estimulando a subserviência e dificultando qualquer projeto a mais longo prazo;
  7. gera, por parte do trabalhador, a resistência em criar vínculos e a investir num trabalho que, tendo horizontes precários, passa a ser visto de uma forma meramente instrumental, um modo de ganhar dinheiro e assegurar a subsistência; 
  8. transforma a luta pela subsistência numa tarefa competitiva em que o outro surge como uma ameaça, estimulando pouco a cooperação, o espírito comunitário e a solidariedade, fomentando, ao invés, o individualismo e o “cada um por si”;
  9. conduz, finalmente, à tentativa de perseverar condições de miséria como se fosse “uma sorte” ter um trabalho e uma fonte de receita que a todo custo há que procurar manter. É uma forma de aprisionamento assente na naturalização da precariedade e no roubo da esperança no futuro.

(Post 34) Ventriloquismo e voz própria

A repetição e a insistência são das mais poderosas estratégias persuasivas. Num primeiro momento a mensagem invade o ouvido e vai-se introjetando no corpo à revelia do querer ouvir ou do voluntário prestar atenção dos indivíduos. Depois ganha consistência ontológica constituindo-se numa espécie de ressonância que comanda nos momentos em que a falta de tempo ou o incómodo da não-resposta cruza a necessidade imediata de eventuais decisões práticas. Com efeito, como não podemos estar sempre a parar para pensar, nem temos a possibilidade de estar a colocar tudo sempre em dúvida, o lema da ação acaba por ser: seguir em frente. Ora é justamente neste «seguir em frente» que as ressonâncias se tornam nossas guias. Há aí todo um prévio irrefletido pronto a vir ao pensamento e ao discurso, um recurso ao já dito e a lugares comuns, ao habitual e ao familiar, que nos permite responder em tempo útil e de uma forma presumivelmente não desfasada com o que é aceite, porque habitual. O ventroloquismo é de facto um recurso essencial para a inclusão social, para a criação de um sentimento de pertença a uma comunidade e para a promoção de uma convivencialidade baseada em elementos partilhados e supostamente comungados pelas pessoas «normais». O reverso do ventroloquismo é a fragilidade de um ser exposto à eficácia dos mecanismos ideológicos que o fazem tomar por suas ideias que ele próprio apropriou por sujeição a parâmetros de modos alheios de considerar a realidade e o seu significado.
Sei, pois, de há muito, que começamos sempre por ser ventríloquos, habitados pelos jogos e pelos usos de uma linguagem que não inventámos, por um falar anónimo que julgamos ser nosso, mas que essencialmente replica a transmissão normalizada de uma visão do mundo. Sei que, ao contrário do que geralmente julgamos, não é apenas, nem em primeiro lugar, a força do pensamento aquilo que comanda a ação, pois as ações em que nos vemos envolvidos antes de sobre elas refletirmos constituem a raiz material que conduz a modos de dizer, enquadrar e justificar verbalmente as nossas opções práticas.
Arrancarmo-nos a este ventriloquismo constitutivo é uma tarefa a que poucos dispensam o seu esforço. Sim, é certo, todos gostam de sentir que são eles próprios, mas esta busca pela “propriedade” que seria a nossa é apenas caminho, nunca ponto de chegada. E é por isso que aqueles que apenas encontram conforto no ato de chegar a conclusões seguras, lidam mal com a incerteza, com a ausência da necessidade lógica, com a pluralidade dos possíveis e com o aberto do “em questão”. É também por essa razão que descartam como ociosos os esforços dos ensaios metafísicos. Não se preocupam com os efeitos de arrasto em que a linguagem os envolve e o seu foco é pragmático: tirar partido das situações tal como elas surgem sem se deterem em juízos rígidos e deixando de lado qualquer sentimento de culpa, pois “o mundo é o que é e não fui eu quem o criou”.
Outros há para quem a questão do “ser-si-próprio” é fulcral. Alguns vivem na ilusão de saberem muito bem quem são. Outros renovam frequentemente a esperança de chegarem a saber, repetindo o jogo da descoberta de que não sabiam quem eram, mas, agora, conseguiram chegar lá. Volta e meia perdem esse ponto de chegada e retomam o caminho até chegarem, com convicção redobrada, a um “agora é que é”. Outros, dando-se conta de que ali existe um padrão circular, uma espécie de eterno retorno, acabam por aceitar que se trata de uma aprendizagem infinita, um processo com produtos, mas sem produto final, um caminho com percursos, mas realmente não susceptível de leituras teleológicas.
Pela minha parte vejo no imperativo do “ser-si-próprio” uma condição de busca cujo exercício constitui a própria experiência do viver: uma tensão susceptível de ser vivida com intensidades variáveis, correspondendo o nível zero de inquietação a um estado de dormência (e também de encantamento ingénuo) e o nível mais elevado a uma postura alerta e vigilante que pode até roçar a loucura enquanto instância definidora desse efeito homogeneizador de distância que permite classificar algo como “normal”.
De qualquer forma, fazer ensaios e tentativas para diminuir a força da condição ventríloqua, fazer surgir um processo de apropriação seletiva através do qual podemos sentir que as nossas opções estão presentes no processo de triagem inerente a qualquer discurso, isso, já é uma conquista considerável. O primeiro passo é o de compreendermos que, mais do que falarmos, somos falados e habitados por um tecido interdiscursivo que nos aguarda à nascença e ao qual iremos dar continuidade. De facto, primeiro continua-se, depois começa-se, embora tenhamos frequentemente a ilusão do contrário. Mas não são todos os que começam e muitos daqueles que o fazem desistem aos primeiros passos. Baixam os braços quando se apercebem dos perigos da barreira da descontinuidade, dessa barreira que, uma vez transposta, não tem regresso, pois após a transpormos nunca mais voltamos “os mesmos”: não há como ignorar (embora haja muitas maneiras de procurar esquecer ou de atenuar) aquilo que vimos e que talvez preferíssemos nunca ter visto.

(Post 33) A importância pedagógica do modelo de Toulmin

Várias aplicações do modelo de Toulmin são uma boa ilustração da mais-valia que este esquema pode ter em termos pedagógicos para ajudar os alunos a perceberem como se processa a estruturação justificativa do raciocínio.
De notar, também, que o esquema de Toulmin permite definir cinco tipos de falácias: ausência de razões (ou dados), razões (ou dados) irrelevantes, razões (ou dados) deficientes, alegações sem garantia e falácias da ambiguidade.
Assim, do ponto de vista pedagógico, este esquema proporciona não só um modelo para disciplinar o raciocínio argumentativo como, ainda, para avaliar a sua força ou «sonância» (soundness).
Mais do que a transposição «geométrica» dos discursos nas categorias touminianas, o que é interessante neste esquema é que ele focaliza a organização do raciocínio e permite perceber as suas subtilezas e complexidades, pontos fortes e fracos. E coloca-nos no plano de uma normatividade não necessariamente necessária porque articula o campo independente com o campo dependente. Ou seja, não fecha o raciocínio em si mesmo, mas abre-o à discutibilidade. E isso parece-me pedagogicamente muito relevante.
Há ainda outro aspeto de valia pedagógica no modelo de Toulmin: é que ele diz que «não basta alegar, também é preciso justificar». Isso carrega uma proposta de civilidade argumentativa (ou seja, procedimentos cuja racionalidade é não dispensar argumentos na fundamentação das alegações, nem ser surdo diante de argumentos apresentados).

(Post 32) Terapia Conversacional: princípios e prática

Introdução
Alguém disse que vivemos num mundo obeso de informação, mas carente de sentido. E, a esta acertada ideia, acrescentou uma outra: a de que a inflação acelerada da comunicação é exponencialmente proporcional ao aumento da solidão.
O que da invocação destas ideias se destaca são os termos «sentido» e «solidão». Duas palavras heuristicamente poderosas para nomear um núcleo problemático que remete para algum do mal-estar que se verifica nas sociedades atuais e, seguramente, para muito do mal-estar que atravessa a vida de muitas pessoas.
O conceito de terapia conversacional, que aqui deixo a imaginação conceber, como todas as terapias que procuram fazer abordagens holísticas e integrais, tem no seu centro a aliança entre a categoria de sentido e a noção de equilíbrio. Assume, por outro lado, que do ponto de vista do conteúdo, esta aliança está sujeita à historicidade do tempo. Longe de ser uma essência cristalizada, a aliança entre sentido e equilíbrio tem, antes de mais, uma dimensão existencial marcada pela epocalidade, pela contextualidade, pelo carácter situado da vida e pela própria singularidade de cada pessoa. É por essa razão que ela tem de ser trabalhada e conquistada. A terapia conversacional foi desenhada para acompanhar, facilitar e desenvolver os esforços de equilibração assentes na procura de sentido e de nexos, dando ênfase aos efeitos terapêuticos que esta demanda envolve.
Na medida em que se articula com uma visão do mundo em que vivemos, a terapia conversacional nunca é neutra, uma vez que interpretar o mundo de certo modo é sempre tomar uma posição. No entanto, no quadro terapêutico, estas tomadas de posição não são dogmáticas. Estão abertas, também elas, à interlocução, à discussão e à coconstrução, podendo converter-se num objeto partilhado de investigação.
A falta de um sentido que permita viver a vida de modo mais compacto, confiante ou simplesmente sereno, conduz, frequentemente, a sensações de angústia, a sintomas depressivos e a sentimentos de solidão. Estes últimos tornam-se ainda mais acentuados com uma diminuição das práticas conversacionais causada, por um lado, pela indisponibilidade crescente das pessoas, sempre ocupadas e aceleradas e, por outro lado, por um modo de vida cada vez menos disponível para formas de entreajuda comunitária e solidariamente dimensionadas.
Ora a conversação, pelo menos naquela em que se torna possível dialogar com problemas de um foro mais idiossincrático e pessoal, sempre teve efeitos equilibradores. Pelo contrário, a diminuição do espaço para tais interlocuções e a dificuldade em conseguir satisfação — nomeadamente em termos do nosso próprio crescimento e de reflexão sobre o seu percurso— com a qualidade das conversas que temos uns com os outros, tem conduzido ao aumento do sentimento de solidão, a uma maior dificuldade na articulação do sentido e, por conseguinte, a estados mais desorientados que se traduzem em mal-estar existencial.
A terapia conversacional parte deste diagnóstico societal e cria um espaço que faz da conversação uma oportunidade de aprendizagem para combater a solidão, a desorientação existencial e a carência de partilha. Mas, também, e não menos importante, para apropriar e expandir as suas potencialidades ou dotes tantas vezes em dormência.
Por isso a terapia conversacional pode ser considerada tanto como um espaço de hospitalidade, como um lugar de enriquecimentos e de aprendizagens que, sendo equilibrantes, se revelam também nos seus efeitos terapêuticos.

1. O que é?
A terapia conversacional parte de uma premissa simples: a de que a possibilidade de conversar sobre as suas preocupações ou problemas (procedendo assim a uma externalização), bem como a de refletir em conjunto sobre o que perturba, são fatores que contribuem para o equilíbrio e o bem-estar. Por isso, neste quadro terapêutico, descarta-se o tradicional binómio doença-cura e valoriza-se a disposição para a busca no sentido de operar transformações que permitam superar estados globais indesejados. Noutras palavras, que produzam equilíbrio e bem-estar.
Para esse bem-estar — entendido como um processo ativo, metamorfo e dinâmico de equilibração integral e não como um estado adquirido — contribuem, na prática, essencialmente três aspetos.
a) Em primeiro lugar, gera-se uma relação empática de proximidade estabelecida pela disponibilidade do terapeuta para ouvir. Ser escutado tornou-se, nos nossos dias, um bem escasso. Receber atenção e cuidados através da conversação tem um valor afetivo que, por si mesmo, é algo que contribui positivamente para o bem-estar.
b) Em segundo lugar, conversar e interagir através da palavra com alguém que lhe presta atenção ajuda a ordenar as ideias, combate a desorientação existencial e revela-se eficaz para localizar e equacionar as preocupações que provocam mal-estar ou instabilidades de vários tipos. Conversar sobre assuntos que nos perturbam resulta frequentemente numa redução do stresse, num aumento de tranquilidade e, por conseguinte, numa maior capacidade para lidar com eles.
c) Em terceiro lugar, conversar implica uma partilha que ajuda a combater a solidão e, por consequência, o desencantamento e a tristeza que dela frequentemente decorrem. Este efeito torna-se ainda mais intenso na medida em que, no quadro da terapia conversacional, o único modelo de que se parte reside na própria singularidade de cada um e nas potencialidades particulares que cada ser humano pode encontrar dentro de si para alcançar equilíbrio.

2. Prevenir a saúde a partir do bem-estar
A terapia conversacional não está direcionada para tratar problemas de saúde em sentido tradicional. Mas assenta, todavia, na convicção de que conseguir alcançar equilíbrio e bem-estar é algo de decisivo para prevenir problemas de saúde.
No quadro da terapia conversacional parte-se do princípio de que podemos sempre lidar melhor com aquilo que se passa de perturbador na nossa vida. Nesse sentido, o essencial, deste ponto de vista, não são queixas sobre o que nos acontece, sobre o que somos ou sobre como estamos mas, antes, aquilo que conseguimos fazer com tudo isso que nos envolve, ou seja, a descoberta da caminhos pessoais para gerar equilíbrios e bem-estar, potenciando assim maior tranquilidade e aumentando a qualidade de vida e as defesas no campo da saúde.

3. Alguns princípios da terapia conversacional
O bem-estar, tal como é concebido no quadro da terapia conversacional, não pode ser prescrito por receita. Ele é um fruto de um trabalho que ninguém pode fazer por nós. Por isso o terapeuta é alguém que acompanha o percurso dos seus interlocutores. Caminha ao lado deles, escuta as suas narrativas e faz da posição de escuta e de interação que ocupa um ponto a partir do qual contribui para incentivar processos de aprendizagem levados a cabo pelos próprios esforços de quem quer ultrapassar o seu mal-estar.
Outro dos princípios da terapia conversacional é que cada um deve ser o especialista da sua própria vida. Nesse sentido, ele promove a autonomia e não a heteronomia, o espírito aberto e não o dogmatismo, o livre exame e não a deferência que subjuga e nos torna subservientes. Por isso valoriza o autodidatismo baseado no valor da experiência da vida de cada um e da disponibilidade de com ela apreender.
Saber sentir-se, compreender-se, descobrir-se e crescer são, a par da confiança e do autocontrolo valores fundamentais desenvolvidos neste tipo de terapia.
Importa também dizer que a terapia conversacional não é algo que se restrinja a uma abordagem dos problemas de cada um em termos meramente individuais. Cada ser humano vive no mundo e é diretamente influenciado por ele. Compreender o mundo que nos rodeia, entender as causas da desorientação de alguém a partir de quadros mais amplos e complexos que os do indivíduo é uma das características da terapia conversacional.
Com efeito, ela considera que há uma articulação estreita entre a relação consigo mesmo, a relação com o mundo e a relação com os outros e que apenas a consideração conjunta destas dimensões permite que o sentido seja abordado de um ponto de vista holístico e, assim, adquira efeitos terapêuticos como, por exemplo, a redução da ansiedade.
Assim, se a terapia conversacional se centra na pessoa, nem por isso ela trata os problemas das pessoas como exclusivamente individuais. A maior parte dos problemas que são vistos como privados, ou seja, da exclusiva responsabilidade do indivíduo, remetem para condições sistémicas que vão muito para além dos poderes e responsabilidades individuais. Compreender isso, tal como entender como se processa a construção social da realidade, é um passo fundamental para mitigar a falta de auto-estima, a desorientação e o sentimento exacerbado de culpa que tantas pessoas carregam, tolhendo-as e tornando a vida muito penosa e sem alegria.
A impressão de que se carrega o mundo às costas conduz a um desgaste prejudicial. Saber situar-se no mundo de uma forma equilibrada implica conseguir discernir entre aspetos cujos constrangimentos não podemos controlar e aspetos em que a nossa intervenção se revela significativa e importante. A falta de uma posição balanceada entre as exigências com que nos defrontamos leva a extremos que não são saudáveis e que, ora provocam uma pressão e uma ansiedade excessivas, ora nos fazem cair num desleixo que diminui o amor próprio.
A terapia conversacional valoriza também a capacidade de iniciativa como fator de equilíbrio. No mundo de hoje, a sociedade de consumo bombardeia-nos com tantas ofertas que tendemos a escolher o que nos é dado e a não procurar interesses realmente próprios, ou seja, com os quais nos sentimos confortáveis. Com efeito, o apelo consumista descentra-nos, aliena-nos e esvazia o poder da auto-suficiência. Estamos constantemente a moldar-nos a formas que não condizem com o nosso ser, o que nos faz muitas vezes sentir num colete de forças. Por outro lado, quando dirigimos exclusivamente o olhar para o exterior ao pro- curamos soluções, esquecemo-nos de que a adaptação ao mundo é sempre muito mais harmoniosa quando vai ao encontro das nossas potencialidades e características próprias. Aprender a conhecer-se é um fator decisivo para uma relação equilibrada com o mundo, ou seja, para substituirmos a sensação de opressão pela de pertença. Mas essa aprendizagem requer um tempo diferente do tempo vertiginoso das notícias e dos acontecimentos. Por isso, ser capaz de desacelerar e de modificar o habitual sentido utilitário com que queremos conferir sentido às nossas ações é um caminho que a terapia conversacional deve seguir.
É importante ser sério, mas é também importante saber rir. Ser capaz de humor é um elemento decisivo para uma relativização que liberta e temperar a seriedade com a capacidade de brincar ajuda a tornar mais leve o nosso estar no ser e mais sorridente o nosso ser no estar.
O humor é libertador na medida em que permite romper com a certas formas de compulsividade obsessiva que tendem a fazer-nos concentrar numa negatividade para a qual não vislumbramos alternativa. Essas petrificações no lado pesado e desalentado da vida funcionam por vezes como prisões de que as pessoas não se conseguem libertar. A sua vida torna-se num permanente e sofrido arrastar dos dias. Amputadas de esperança no futuro, as pessoas veem-se confrontadas com a ausência de sentido na vida quotidiana. Tudo parece vão e sem significado. Tudo parece casuístico e avulso. Tudo parece esparso e caótico. Nada parece acolhedor ou possui valor suficiente para desencadear o nosso apego. O humor permite em muitos momentos estilhaçar as cristalizações depressivas porque liberta para modos de ver que não éramos sequer capazes de considerar e ativa a imaginação que é uma das faculdades mais importantes para remover as grades que, sem termos consciência, construímos em torno de nós mesmos.

4. Características da conversação terapêutica
As pessoas que se deslocam a uma sessão de terapia conversacional fazem-no porque sentem mal-estar com a vida e porque esse mal-estar lhes provoca sofrimento. Uma das funções da conversa terapêutica é remontar das narrativas que as pessoas efetuam à identificação e à formulação explícita dos problemas que lhes subjazem. Neste sentido, a separação entre o plano das vivências concretas e o plano do desenho mental dos problemas, a diferenciação entre a pessoa e os problemas, é considerada uma via de acesso para encontrar caminhos que permitam lidar melhor com o sofrimento.
Na conversação terapêutica é usual fazerem-se pontos da situação sobre a própria conversa. Com efeito, é importante verificar se a conversa está a ser produtiva, se deve ser aprofundada, se deve derivar para outros aspetos ou se há outros temas ou caminhos pelos quais importa seguir. O terapeuta, qual parturejador, está assim atento ao desenrolar da conversação e procura que esta se dirija ao que realmente interessa, ou seja, ao que contribui para um esclarecimento libertador e desbloqueador de dimensões oprimidas, recalcadas ou simplesmente perturbadoras.
A conversação que se desenvolve na terapia conversacional tem em consideração a dimensão intelectual, afetiva e cultural dos interlocutores, uma vez que é sempre preciso dimensionar a interação discursiva de acordo com o caso concreto com o qual o terapeuta lida.
A identificação e a descodificação dos universos afetivo-mentais de cada um, com as suas referências específicas, seus pré-construídos culturais, suas crenças, convicções e valores é uma das tarefas mestras do terapeuta conversacional. Apenas com base num quadro compreensivo bem delineado poderá a interação ser produtiva e bem orientada. Por isso se pode comparar o terapeuta conversacional a um hermeneuta que sabe situar o discurso nos contextos em que as palavras ganham um sentido forte e relevam um profundo sentido pessoal e existencial. Abeirar essa riqueza significativa é uma das condições de possibilidade da própria função terapêutica do discurso. A chegada a este núcleo intenso é o que permite diferenciar aquilo que são conversas normais e, sem dúvida, gratificantes — por exemplo entre amigos ou familiares — das conversações ocorridas no quadro da terapia conversacional, as quais devem ser vistas com um caminho de descoberta marcante para a superação do mal-estar.

5. A equilibração como processo
Como já anteriormente se disse, a terapia conversacional não privilegia o conceito de cura mas, sim, o de equilibração. Com efeito, o equilíbrio é fruto de uma conquista que implica aprendizagens e atenção continuadas. Dito de outro modo, o equilíbrio é um processo aberto e não um produto. Ele depende não só de fatores em constante variação e metamorfose, como está relacionado com elementos contextuais e situacionais que são, também eles, mutáveis.
Para os processos de equilibração contribuem vários fatores. O mais decisivo é capacidade de aprofundar o conhecimento de si mesmo. Saber escutar o corpo, conhecer o modo como somos afetados por certas coisas, perceber as causas que despertam em nós uma sensibilidade mais intensa (podendo mesmo causar descontrolo), tomar consciência do ciclo das nossas reincidências peculiares, compreender o que está na base da transformação das nossas disposições, conseguir antecipar, através da identificação de certos indícios, o que se está a passar e para onde estamos a caminhar — tudo isto é essencial nos processos de equilibração.
Outros fatores importantes são, por exemplo, o modo como aplicamos o nosso autoconhecimento a cada situação, a flexibilidade lúdica que deve acompanhar essa aplicação e a capacidade relacional desenvolvida de modo a proporcionar momentos de encontro.
Para finalizar, importa sublinhar que o conceito de equilibração deve ser interpretado dentro de uma escala gradativa. Dito de outro modo, as aprendizagens feitas não nos dão soluções definitivas mas conferem-nos, contudo, uma maior experiência. As pessoas com uma experiência mais aprofundada, ampla e consolidada naturalmente têm maior facilidade em lidar com os seus problemas do que aquelas cujos processos de aprendizagem são ainda escassos é pouco desenvolvidos.

6. A amplitude das formas de expressão na terapia conversacional
A terapia conversacional baseia-se na troca que se estabelece entre dois interlocutores com papéis diferentes e nela são importantes quer os aspectos verbais, quer os aspetos não verbais.
Além do mais, a interação conversacional não parte obrigatória ou exclusivamente de meios de comunicação discursivos ou de narrativas pessoais, podendo acolher formas de expressão diversificadas, com ênfase, por exemplo, na dimensão artística: um poema, uma música, um filme, uma notícia, um acontecimento, etc., podem ser pontos de partida para trilhar caminhos terapêuticos.
Longe de aspirar a racionalizações, a terapia conversacional não considera que a velha dicotomia entre a razão e as emoções conduza a formas de integrais de equilibro. Pelo contrário, na perspetiva desta linha terapêutica razão e afetos são vistos como inseparáveis. Por isso considera que a inteligência, para ser humanamente significativa, é também sempre emocional e que, em vez de recalcar a dimensão intuitiva e a considerar como incerta e perigosa, o importante é desenvolvê-la e aprender a lidar com ela. O ser humano é um ensaio temporal em constante aventura de reformulação.
Importa notar, a este propósito, que, do ponto de vista da sua criação e da sua articulação, a emergência de conceitos está sempre ligada a propósitos relacionados com o bem-estar, traduza-se este num aumento de segurança, num apaziguamento de medos, numa ordenação que tranquiliza ou numa compreensão que sossega.
O campo da filosofia tradicional está, aliás, cheio de exemplos da finalidade (ainda que não exclusiva) afeto-existencial da criação de conceitos. Com efeito, pensar em ideias como «fundamento último», o «originário», a «ausência de pressupostos», a «certeza indubitável» ou «o absolutamente garantido» mostra-nos que a precariedade existencial, a dissonância entre o homem e o mundo, o sofrimento com uma falha ontológica que coloca sob o signo da estranheza a nossa pertença e inclusão no mundo, estão na base de uma busca de segurança e de harmonia que, entre outros modos, se codifica através de conceitos e modos de pensar e interpretar.
Do mesmo modo, a busca obsessiva pela certeza e pelo controlo tem no seu reverso a imagem de um homem que se debate cronicamente com a falta de certeza e de controlo e que lida mal com isso. Sabemos, aliás, que a própria ciência moderna se desenvolveu não para uma exclusiva satisfação da curiosidade mas, essencialmente, como o desenvolvimento de instrumentos de poder humano: conhecer para dominar, conhecer para ter o poder de manipular, conhecer para antecipar e prevenir, conhecer para assegurar. Os termos falam por si no modo como ligam a intencionalidade existencial, na sua vertente emotiva e afetiva, com a aparente neutralidade e independência das criações conceptuais racionais que naquela está imbricada.

7. Remover o lixo e escapar à avalanche da quantidade
Referiu-se anteriormente que cada um deve ser especialista de si próprio. Esta afirmação não significa apenas que é indesejável alimentar dependências que aumentem a nossa heteronomia mas é, também, um alerta para as visões fragmentadas da realidade.
Como se sabe, a fragmentação dos conhecimentos é a condição da especialização e ninguém pode negar que os especialistas sejam eficazes na sua pequena ilha de especialização.
Existe contudo um duplo problema no recurso aos especialistas: o primeiro ocorre quando o nosso problema é global (ou seja, multidimensional) e, para nele se avançar, é preciso articular as partes e o todo, quando é preciso ver não só a árvore como também a floresta. Com efeito, o círculo hermenêutico é essencial para a produção a apropriação do sentido e para se ter uma perspetiva global, ou de fundo, sobre os problemas. O segundo problema é que ao recorrermos a especialistas — o que em muitos casos é perfeitamente justificado e aconselhável — colocamo-nos frequentemente numa posição de impotência e de ignorância (e também de preguiça) perante problemas relativa- mente aos quais não deveríamos abrir mão enquanto decisores últimos, na medida em que, mais importante do que tomarmos decisões tecnicamente avalizadas é tomarmos posições relevantes, significativas e que nos fazem sentir mais compactos e confiantes. Neste sentido pode contrapor-se uma certa «estupidez natural», ou seja, uma aptidão mais ou menos intuitiva e natural para lidarmos com os problemas comuns com que nos defrontamos sem delegarmos as nossas decisões aos especialistas e ao «técnicos», à tendência generalizada que, fazendo-nos sentir simultaneamente responsáveis e tementes da ignorância nos co- locam inapelavelmente nas mãos dos especialista, tornando-nos de- pendentes da sua autoridade e desautorizados perante as nossas próprias capacidades.
Este é um aspeto fundamental do ponto de vista da terapia conversacional: ela não só não pretende criar qualquer tipo de dependência — e por isso a avaliação das transformações e dos progressos que possam ocorrer no âmbito das sessões terapêuticas tem sempre de ser realizada autonomamente por quem as frequenta —, como procura alargar o espectro das competências pessoais generalistas.
Na realidade, e não apenas em sentido figurado, vivemos numa sociedade produtora de lixo. Os imperativos do consumo e do poder levam a que se esteja sempre a inventar sedutoramente aquilo de que não precisamos e a converter o supérfluo em necessidade. Passa-se a vida a transformar e a substituir aquilo que deveria ser feito para per- durar. Vive-se freneticamente para o excesso e a diversificar o que já é satisfatório e suficiente. O capitalismo e o consumismo vendem a inovação e o empreendedorismo como a alma do negócio. Mas a vida não é um negócio, embora hoje muito daquilo que é nos apresentado como problema seja, antes de mais, uma estratégia para vender soluções e meios tecnológicos.
O que anteriormente se disse coloca-nos perante uma questão decisiva: a de se ser capaz de discernir entre os problemas com uma dimensão existencial profunda e significativa, de todos aqueles que só existem pelo apelo consumista, colocando-nos numa roleta artificial de identidades. A desintoxicação da sedução consumista não é uma tarefa nada fácil, mas conseguir trilhar alguns passos nela tende a fazer-nos encontrar um novo, mais simples e natural eixo para a vida.
Para a terapia conversacional é importante que as pessoas se desatulhem de todo o lixo que as intoxica, pois de outra maneira, a força da expropriação é sempre mais forte do que o esforço de apropriação de si mesmo. Neste sentido, deve ser desenvolvida uma nova atitude sobre as possibilidades. Se, no âmbito do frémito causado pelo vórtice do novo e das novidades, há uma atitude prévia favorável perante tudo que se torna possível, a postura reflexiva a desenvolver para contrariar esta atitude é a de saber dizer não a possibilidades cujo contributo seja dispensável e mesmo indesejável. No fundo, trata-se de construir uma sabedoria capaz de aceitar e de lidar com as limitações que a nossa finitude nos impõe e não tratar fugir dessa condição através de deificações que acabam no vazio existencial.
Dito de outra maneira, a assepsia mental e a reorganização da ecologia mental tem de se libertar do «quanto mais, melhor» e inverter a ideologia que subjaz a esta equação. Saber selecionar o qualitativamente relevante no imenso mar do quantitativamente irrelevante é uma aptidão essencial nos dias que correm. O lixo e o supérfluo intoxicam, tolhem o pensamento e escravizam as emoções. Mais precisa- mente, impedem o pensamento enquanto iniciativa significativa e as emoções enquanto expressão de liberdade. Além do mais, a intoxicação que o lixo produz faz perder o sentido comunitário em detrimento de um individualismo que aprofunda a solidão e que torna cada vez mais longínqua a proximidade que pode ser gerada por conversas genuínas e carregadas de empatia. Conversas que criaram laços e não apenas conexões. Que geram comprometimento e promessa e não instrumentalizações e intermitências que piscam ao sabor das conveniências unilaterais.

8. Notas finais sobre o terapeuta conversacional
Como dissemos anteriormente, uma conversa com os amigos, com os familiares ou com pessoas que prezamos, podem ser muito produtivas e geradoras de bem-estar. Do mesmo modo, a convivencialidade pode revelar-se muito importante nos processos de equilibração das pessoas. No entanto, não devemos confundir os resultados do trabalho do terapeuta conversacional com os bens anteriormente referidos.
Em primeiro lugar, a condição de exterioridade é uma vantagem no que diz respeito à qualidade da escuta e acuidade das interpretações que dela decorrem. A familiaridade de quem nos é próximo tolda muitas vezes a capacidade de identificar atentamente a natureza dos problemas com que são confrontados. É frequente associar esses problemas ao feitio da pessoa e ponto final. Acontece também, frequentemente, que a expectativa de quem já conhece a outra pessoa faz com que não se seja capaz de ver para além disso, ou seja, do já esperado. Por outro lado, a disponibilidade é muitas vezes inexistente, uma vez que há sempre afazeres que nos esperam na azáfama dos dias.
O terapeuta conversacional, ao invés, está disponível para a interlocução. É certo que essa interlocução se processa de uma forma intermitente — ou seja, através de sessões que entre elas têm lapsos temporais —, mas nem por isso deixam de ter uma linha de continuidade ou um fio condutor. Mais ainda, o tempo entre sessões pode ser importante para clarificar e amadurecer as ideias, tornando assim cada sessão mais rica e intensa.
Surgindo o terapeuta como um guardador de percursos, o seu interlocutor confronta-se necessariamente com a sua própria identidade e com a imagem de si que vai construindo no curso das sessões, aspecto que é extremamente importante na terapia.
Para além da sua disponibilidade, e como anteriormente referido, o terapeuta conversacional deve ter uma sensibilidade apurada no que diz respeito às dimensões verbais e não verbais do discurso. Deve, além do mais, saber colocar a sua capacidade de leitura ao serviço da interação, não para impor seja o que for, mas para permitir abeirar o que é merecedor de foco e de atenção. A sua interação deve ser sempre uma co-construção e dela deve resultar uma compreensão partilhado que incentiva o aprofundamento dos assuntos em questão.
Por outro lado, e dada a articulação dos problemas individuais com o mundo em que vivemos, o terapeuta conversacional deve ser uma pessoa informada, com bagagem cultural ampla e com uma perspetiva histórica, sociológica e filosoficamente consolidada sobre os tempos em que vivemos. Sem essas características ele dificilmente poderá atuar de uma forma estimulante, bem enquadrada e possibilitadora de um alargamento de horizontes, aspeto relevante na terapia conversacional.
Deve ainda o terapeuta conversacional ser um bom comunicador, revelando-se hábil tanto na arte da palavra certeira quanto na gestão adequada dos silêncios. Nunca se deve esquecer que a comunicação implica a escuta e que desta fazem parte três dimensões importantes: a escuta de conteúdo, essencial para desenhar e identificar os focos problemáticos que emergem dos assuntos, a escuta empática, que gera uma moldura relacional propicia à interação e ao seu prosseguimento e a escuta crítica, imprescindível para que se efetuem questionamentos, suscitem confrontações e se proceda a avaliações.
A identificação de focos problemáticos causadores de desequilíbrios é um dos momentos cruciais na terapia conversacional e, por isso, o terapeuta deve compreender os movimentos de nuclearização e de pereferização através dos quais estes ganham forma e expressão. Não porque o terapeuta deva ter soluções ou receitas, mas porque ele deve centrar a interação no aprofundamento desses problemas. Conferir-lhes um enquadramento mais alargado, indo para além do ponto de dor, é essencial para poder lidar com eles. «Desenriçar» os seus capilares e converter em arquipélago o que parecia um único núcleo é também essencial para se ganhar perspetiva. Fazer variações imaginativas ajuda, por sua vez, a flexibilizar a mente e a criar alternativas que ajudam a desdramatizar e a descentrar. Ganhar agilidade e mobilidade conceptual quebra a rigidez em que muitas vezes se cristalizam os problemas. Estimula, por outro lado, a coragem para inventar caminhos em que deixamos de pensar contra nós mesmos e aprendemos a dar uma conotação emotiva e pessoalmente favorável aos nossos modos de pensar.
Enfim, o terapeuta conversacional deve ter especial atenção aos ritmos próprios de cada um para que a progressão possa fluir sem descompassos prejudiciais. O sentido do tempo e da oportunidade justa para interagir devem fazer parte da sensibilidade que o terapeuta desenvolveu através da sua formação, das suas práticas e da sua experiência de vida.
Através das competências referidas — e de outras aqui não enumeradas— a terapia conversacional deve ser praticada como uma arte da hospitalidade e do encontro, como uma prática de descoberta desafiante que promove transformações positivas, como uma via que abre caminho a processos de crescimento integral e como uma rota de conquista acompanhada com vista a um processo de equilibração que se tornou importante e premente.

(Post 31) A dinâmica tensional da argumentação retórica: até onde vai?

Muitos autores têm assinalado a dimensão intermédia — entre o arbitrário e o necessário — da argumentação retórica. Marc Angenot refere-a mesmo a esta como uma «ciência do mais ou menos» e Perelman recorreu à ideia de «intensidade variável» para definir a influência persuasiva, caracterizando a lógica da argumentação retórica como informal, isto é, que ocorre fora de sistemas formais fechados e em aqueles que são considerados como pontos de partida acordados pode ser sempre questionados e tornarem-se objeto de controvérsia. Neste sentido, a argumentação é um processo aberto.
Postas estas ideias, cumpre perguntar, então, pelo que carateriza a dinâmica da argumentação retórica. E a resposta a esta questão é a de que a ela preside uma dinâmica tensional, a qual pode ser melhor compreendida quando assumimos a perspetiva da argumentação na interação.
Uma situação de argumentação pauta-se pela presença de uma oposição discursiva que progride pela tematização da divergência. Essa situação nunca está liberta de constrangimentos e limites e o contexto contribui fortemente para se avaliar o quadro aproximado de possibilidades de uma interação em termos dos seus eventuais pontos de chegada. Seja qual for a finalidade da interação — e considerando que ela inclui pelo menos dois argumentadores —, as possibilidades de uma argumentação contam sempre, inseparavelmente, com a força do discurso e dos argumentos e com a disponibilidade dos argumentadores, uma vez que, quando pensamos a argumentação retórica em termos de influência, temos sempre no horizonte um outro com a prerrogativa de se posicionar em termos da intensidade variável de uma eventual adesão ou rejeição e que, além disso, é capaz de criticar e de produzir um contradiscurso.
A questão pragmática que aqui se coloca é a de saber até onde se pode ir numa interação condicionada pela mutualidade do papel de argumentador que cada um assume na interação. Para responder a esta questão, Michel Meyer lançou mão do termo «negociação» e, de facto, ele traduz bem o carácter tensional das situações de argumentação retórica. Ora, o que é que fazemos quando negociamos? Norteamos-nos pelo preferível e, num processo de aferição dos retornos, procuramos levar a afirmação dos nossos pontos de vista preferenciais tão longe quanto possível. Tentamos fazer com que a interação tenda para a nossa perspectiva, mas esta tentativa implica atenção ao desenrolar dos turnos de palavra para vermos até onde podemos ir tendo em conta o espaço do interlocutor e a pressão do seu discurso.

(Post 30) «Uma coisa não tem nada a ver com outra».

Sim, até ao momento em que alguém estabeleça uma relação entre elas. A dissociação pode corresponder à forma mais comum e consensual de conceber, mas nem por isso exclui a possibilidade de se optar por ligar as coisas em vez de as disssociar. Ambos os procedimentos – de dissociação e de ligação – foram assinalados por Perelman como técnicas argumentativas fundamentais na medida em que correspondem a formas de engendrar, moldar e exercer a liberdade de pensamento, nomeadamente na maneira de enquadrar os assuntos, de balizar os termos das questões que sobre eles se podem colocar e, desse modo, definir um caminho de abordagem e um posicionamento.

(Post 28) A luta teórica pela escalas variáveis do mais ou menos

A minha luta teórica pelas escalas variáveis do mais ou menos (ou seja, a chamada de atenção para toda uma gama intermédia que pode evitar o recurso a extremos e ao pensamento fechado em dicotomias) teve sempre como seu polo antagonista o perigo dos dogmatismos absolutistas. Ela nunca visou — longe disso — a ideia de multiplicar os critérios a tal ponto que parecesse indiferente e arbitrário o caminho a tomar ou a escolha a fazer. Ela nunca teve como fito gerar a impotência de decidir com critério, mas teve sempre em mente a ideia de coexistência através de mediações dialógica através das quais as diferenças podem ser expostas e os conflitos ser acomodados da forma mais construtiva, ou seja, dando espaço à alteridade e à divergência. Considerando que a conflitualidade é constitutiva do humano e recusando a idealização de uma sociedade sem tensões, discriminações, segregações, desigualdades e outras injustiças, o que sempre me pareceu fundamental foi arranjar meios para articular — num plano o menos penalizador do humano o possível — os planos formal e pragmático através dos quais procuramos dar ordem ao mundo, aferir o sentido das suas metamorfoses e combater o arbitrário e o autoritarismo.

(Post 26) Linguagem, ontologia e condição antropológica dual

A linguagem tem não só a propriedade de ligar a nomeação à realidade, sendo neste sentido co-contrutora desta última, como permite ainda construir realidades possíveis em estado suspensivo, no modo da hipótese verosimil ou da interrogação desafiante no sentido de criar dúvida ou vislumbrar alternativas. Neste espaço assim aberto pelos poderes da linguagem, neste entre do que não é mas pode ser e do que é mas pode não ser, abre-se toda uma zona fluida em que nada é a preto ou branco, mas possibilidade moldável pelos modos de dar a ver. É neste entre que podemos situar a natureza argumentativa da linguagem, sempre a meio caminho entre o aberto e o fechado, entre o problemático e as soluções por que se enveredou, entre o discutível e discutido e o indiscutível e indiscutido.
Importante é também assinalar que esta natureza argumentativa da linguagem anda a par da condição no mínimo dual que antropologicamente constitui o homem, como aliás está bem expresso na velha máxima do «conhece-te a ti mesmo», a qual exprime a distância em que o homem habita e que, tradicionalmente se constituiu como algo a ultrapassar de modo a alcançar o uno. Talvez esta seja uma das miragens mais produtivas da condição humana, atravessada por um desejo que persiste sempre para além do que se possa pensar ser a sua realização.