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Apresentação de livros
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Rui Grácio
Cronicando as crónicas de Alcione
araújo
(Apresentação na Casa da
Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, em 4 de
Março de 2005)
O livro chegou-me pelas mãos da
Cristina. E, precedido pelo pedido, trazia a incumbência
de o apresentar numa sessão de lançamento em
Coimbra. Do autor, eu nunca tinha ouvido falar. Mas como a
ignorância só se revela vergonhosa quando deixamos
de ser curiosos ou de nos desinteressarmos por aprender e
conhecer, confessada a minha escassa bagagem e duvidosa
competência, lá parti para a empreitada.
Na segunda badana do livro lá estava
uma fotografia do autor, sentado numa mesa de café,
mão esquerda apoiando a cabeça e a direita
segurando uma colher mergulhada numa chávena. Presume-se
que estaria mexendo o café.
O semblante indicava-me um homem de meia
idade, com alguns escassos cabelos brancos e sorriso
simpático, em postura descontraída. O olhar, por
detrás das lentes dos óculos, deixou-me algumas
dúvidas: pareceu-me conter aquela componente de
resguardo de quem sente algum desconforto perante a
invasividade da câmara em momento fotográfico.
Globalmente, a fotografia estava bem e mediava o meu primeiro
contacto visual com Alcione Araújo.
Por cima da fotografia, um texto
anunciava-o como ex-professor universitário,
pós-graduado em Filosofia e actualmente escritor a tempo
inteiro. A minha inveja manifestou-se e fez-me dirigir o olhar
de novo para a fotografia. Também de filosofia, ham? E
só te dedicas à escrita! Ainda há gente
com sorte… — cogitou a minha curiosidade, agora
mais estimulada perante a nova informação. Foi
já de uma forma acelerada que concluí a leitura
do texto da badana, ávido por começar a leitura
do livro. Sem deixar de reter a admirável versatilidade
da produção do autor, li, sem lhes dar grande
importância, os restantes textos da primeira badana e da
contracapa, ciente de que os editores precisam de vender e que
não valia a pena prender-me aos elogios de primeira
vista que nesse local estratégico são colocados
segundo a inevitável lógica de mercado.
Não! Seria pela leitura que me
competia avaliar e, como a mente fica por vezes armadilhada com
leituras de leituras, resolvi galgar a
apresentação da Professora Vera Lúcia de
Sousa Lima, relegando-a para o final e, de espírito
imaculado, vestido apenas com minha ignorância e com os
meus preconceitos não descartáveis, vinquei na
página dezassete e dei início à leitura da
primeira crónica.
A leitura do livro prolongou-se por
vários dias, até porque a forma de crónica
— texto curto e independente — proporciona uma
leitura avulsa que não deixa de ter as suas vantagens.
No gota a gota da leitura as ideias e
sensações de cada crónica sedimentam
melhor no interprete e a lentidão favorece a acuidade
intelectual. E se agora as crónicas se agrupavam sob a
unidade de um livro — o que naturalmente me agendava a
ansiedade hermenêutica da articulação das
partes e do todo —, provável é que a sua
produção tivesse sido feita de uma forma
individualizada e, seguro era que tinham sido publicadas como
peças que valiam por si.
Sim, desculpem. Sei que o auditório
e o autor devem estar impacientes. É justo. É no
que dá esta ideia meio estranha de
«cronicar» crónicas. Há que
desenvolver. Afinal, estou aqui para falar do livro Urgente
é a vida de Alcione Araújo. Vou poupar mais
descrições do percurso de leitura individual das
crónicas e passar a uma abordagem mais estrutural da
obra, que é como quem diz abeirar o que a caracteriza na
sua especificidade, o que singulariza o seu universo.
Parto para esta tarefa com uma suspeita ou
conjectura: a de que o autor se serve das crónicas para
filosofar sem os estigmas da filosofia; para pensar e fazer
pensar sem as exigências do estatuto de especialista;
para um gesto de interventiva partilha sem outras fronteiras
que o prazer da conversação na simplicidade de
uma linguagem que se mima com o gosto da elevação
literária. Parti também ciente de que as
crónicas apresentadas neste livro não são
crónicas datadas nem presas a acontecimentos, mas sim
abordagens temáticas que transcendem a particularidade
de enredos e nos conduzem a um plano literário-reflexivo
que se frui e dá que pensar.
Analisante, a tarefa do
leitor-apresentador, passa pela categorização.
Por isso tentei categorizar.
Em primeiro lugar, os diferentes registos,
sintonias ou, também, porque não, chamar-lhes
humores, que encontramos neste livro de crónicas.
Detectei um tipo de crónicas mais
deliberadamente sérias (ainda que nunca pesadas).
São elas as que, de uma modo genérico,
estão associadas a temas de maior incidência
social e politica e que Alcione Araújo reconduz sempre
à sua preocupação mais funda e entranhada,
preocupação que tem no seu reverso um sonho: o da
formação para a cidadania e para a humanidade,
numa sociedade onde a cultura e a educação
não vivam em regime de apartheid, onde a
educação e o profissionalismo não se cinja
ao espaço redutor do adestramento, onde o culto da
palavra se sobreponha à truculência e, finalmente,
onde o cultivo das artes faça parte de
promoção da inteligência. (Cf.
Corações e mentes)
Encontrei também aquilo a que
resolvi chamar o registo do retracto fílmico, mordaz,
irónico, alimentado de um humor vertido em prazer de
escrita e propício a impressionar e estimular
perplexidades e deslumbramentos, funcionando como um take que
nos atinge e nos deixa em fruição pensativa (Cf.
Anjos caídos, Amor sob escombros, Beija-flor,
Folião enganador, Acolha-o com alegria, Amor não
se aposenta, Réu e juiz, O tortuoso band aid)
Destaquei ainda o registo das
reincidências temáticas obsessivas: a mulher, a
paixão e o amor, o tempo e a vida.
Assinalei finalmente um registo mais
reflexivo-interrogativo, que carrega sempre algo de protesto
deceptivo e de diagnóstico quanto aos modos de vida
actuais.
Temas como as consequências de se
viver numa sociedade massificada que conduz à
despersonalização e à
estupidificação, a tirania da velocidade impressa
nas nossas vidas sob a égide do consumismo, a moldagem
dos quadros mentais segundo a cínica supremacia do
económico e da viabilidade financeira, a desgraça
ecológica que tornou o homem em detrito dele mesmo, a
mitologia do homem de sucesso, a importância da palavra
como meio de partilha e luta contra o caos, a reflexão
sobre a vida e a morte (cf. Tempo, tempo, tempo» ou o
homem no tempo (cf. «Vida e morte») e a
enigmática natureza do homem, são temas deste
registo (cf. «E o homem, o que será?»).
Em qualquer destes registos, há
rasgos marcantes e comuns: por exemplo a mistura da facticidade
mundana — vertida em temas, retratos, episódios e
observações — com o fascínio pelo
humano e com valor do pensamento e da reflexão.
Nas suas crónicas o autor não
se furta aos enfrentamentos existenciais nem deixa de
mapear desconfortos e perplexidades, deslumbramentos e
júbilos, nostalgias e tentações. No que
escreve, ele está implicado. Não como detentor de
opiniões assertivas, mas como alguém que
experiencia os sabores vida e da condição humana
e procura interpretar e organizar o jogo dos seus eventuais
sentidos.
Por outro lado, quem nos escreve não
é uma pessoa que goze do conforto da
inserção no mundo, mas antes alguém que
— numa espécie de vício em distanciamento
fenomenológico, incontornavelmente ávido e
critico — se procura descobrir, a ele e a um humano
sempre enigmático, através de perguntas que de
uma forma subjacente ou explícita instala na tecedura do
seu discorrer literário.
Não vou mentir. Estava curioso em
descobrir traços que permitissem desenhar o perfil do
nosso autor. Do brilhantismo literário, não me
restavam dúvidas depois da leitura. Mas como seria a
pessoa que escrevia daquela forma? Que gostos teria? Como seria
o seu dia-a-dia?
Que era um homem que encontrava na cultura
o meio de excelência de elevação do homem
ao humano, isso dizia-me claramente a crónica a que
já fiz ilusão, intitulada «O meu
sonho». Todavia, quanto ao humano, esse colocava-o o
autor sob o signo do mistério e, mais precisamente, como
o mais «indecifrável enigma do universo»
(Cf. «E o homem, o que será?»). Pois, como
se escreve no refrão da cónica: «Um homem
é um homem. É capaz de tudo. Este é o seu
mistério».
No que diz respeito à sua
própria pessoa a crónica «O cronista abre o
peito… e não há nada», redigida como
resposta a e-mails de leitores curiosos, o autor confessa-se
idiossincrático: revela-nos que é avesso a sair
de casa e não gosta de multidões (ainda que por
vezes, e para sua própria surpresa até dê
por si a assistir a um show da Maria Rita e de lá volte
siderado com a epifania presenciada (cf. Epifania de Maria, a
Rita)), que detesta fazer compras em grandes superfícies
comerciais, que não bebe nem fuma, que ganha
náuseas quando as mulheres abusam do perfume, que
não suporta o mau hálito, que se perturba com
pessoas que falam alto e que fazer a barba e escovar os dentes
não são de todo tarefas do seu agrado.
Emociona-se com a arte, por exemplo, quando um concerto que
é transmitido pela televisão o apanha e o faz ser
atravessado pelo deslumbramento (cf. Abençoada arte) e,
quando metido em desfiles de carnaval, sente-se deslocado e
reconhece-se como um folião enganador (cf. Folião
enganador).
Mas outras crónicas, não
directamente direccionadas para o desvendamento do autor,
dão-nos mais pistas e informações. Por
exemplo, os óculos que usa desde a infância,
apesar dos préstimos correctivos que seguramente lhe
têm proporcionado, carregam uma carga simbólica
negativa, senão mesmo traumática. Privaram-no, ou
diminuíram-no, na prática de desportos,
nomeadamente, do futebol. Um rude golpe. Por outro lado, como
os óculos não se compatibilizam grande coisa com
o imaginário das adolescentes em deslumbramento perante
o masculino, eles representavam uma dificuldade acrescida,
pesando ainda mais à dura consciência de que
já por si não era bonito.
Por outro lado, o nosso autor não
é possuidor de apenas uma alma, porventura sossegada na
sua unidade. Tem pelo menos duas (cf. «Minhas
almas») e, talvez mesmo, uma pluralidade delas. É
pois compreensível que cite recorrentemente a frase
Pirandello «Eu sou tantos quantos são os que me
vêem» (cf. «Empresta-me os teus olhos»)
e que, diante do espelho fique confuso e dividido, como que
censurado pelo olhar outro que o espelho lhe devolve e que lhe
cobra o que poderia ter sido e não é. Finalmente
desabava através de um verso do poeta Manuel de Barros,
que converte em título de uma das suas crónicas e
cuja aplicação estende ao género humano:
«O que mais sinto em mim é o que me falta».
Somos pois constituídos por uma falha originária.
Aliás, para além da falha
originária, somos também assolados por
esquecimentos e desatenções
incompreensíveis que nos indicam, de facto, que o que
nos é mais próximo permanece frequentemente como
o mais distante e desconhecido.
Se o autor das crónicas assume a sua
fragilidade psicológica relativamente às dores e
às doenças, que dizer quando descobre que tem um
corpo que lhe permanecia estranho, longínquo e
desconhecido? (cf. Corpo ao corpo). Não, não
trocem dele. A coisa é séria mesmo e deveria
constituir-se como uma inquietação generalizada.
E mesmo alargada ao fenómeno de outros tantos
estranhamentos a que nos votamos e perante os quais, de uma
forma tão prepotente como ingénua, nos propomos
outorgar o controlo, refugiando-nos em doutos, assertivos e
especializados conhecimentos e em sofisticadas e mirabolantes
técnicas. Mas é aí que se esconde a escura
raiz do grito: nesse volte face que, à luz da
insuspeitada surpresa, rouba algo à familiaridade
corrosiva do quotidiano e o transforma em objecto espantoso e
extraordinário (cf. A escura raiz do grito). O impensado
e o desconhecido são constitutivos do que somos e do que
julgamos saber. Donde, um conselho de sabedoria prudente, ainda
que desenvolvido pelo autor em tom de humor sarcástico:
há que fazer a apologia do lento contra a
aceleração voraz dos dias (cf. A descoberta do
lento).
Mas retomemos a nossa
focalização na caracterização do
escritor destas crónicas.
Apesar de confessadamente misantropo, o
nosso autor encontra um aconchego prazeiroso na arte da
conversação gratuita. Nostálgico do tempo
em que os cafés ainda eram centros culturais que
acolhiam debates e discussões (cf. «Carpintaria
literária»), é com tristeza que hoje
constata a dominância da bitola consumista: consome ou
pira-te — eis a nova regra que podemos facilmente
descortinar nos movimentos invasivos do garçon que com
os seus gestos intimidantes procura concretizar a directriz
patronal da viabilidade económica. Ou então,
tiranizados pela agenda da televisão, limitamo-nos a
deglutir de olhos postos no ecrã e a prestar
vassalagem à caixa sob a forma leve do
comentário. E não há que estar informado?
De saber o que se passa?
Mas, o prazer que o autor tem pela
conversação, tem raízes profundas.
A eleição da mesa como o
objecto caseiro da sua preferência (cf. «A
mesa») é ocasião para exprimir a saudade
pelos tempos idos da comunhão saudável, em que a
conversação em torno da mesa e o estar em
família eram partilha que ensinava a amar.
A urgência de inflectir de novo rumo
à palavra como forma de preservar e reaver um humano
à beira do precipício — palavra que como um
cometa cada vez mais se distancia e nos deixa no breu da noite
— também esta urgência nos é
apresentada como a maior hipótese de ainda poder agarrar
a esperança, de a agarrar pela cauda. São belas
as palavras que Alcione escreve a este respeito numa
crónica inspirada pelo ritos de passagem e
renovação que a entrada num novo ano sempre evoca:
«A palavra é a nossa maior
arma na luta contra o caos. É o dialogo, jardim onde
floresce a palavra, que afugenta a barbárie. E a
linguagem, maior de todas as criações humanas,
seu inexcedível património, meio de orar aos
deuses, imprecar contra o destino, lamentar a dor, glorificar o
prazer, é, sobretudo, o meio do homem entender o homem.
O resto é silêncio» (Esperança
agarrada pela cauda, p. 253).
Para além de impressionante e
bonita, a passagem é uma excelente oportunidade para
inflectirmos o discurso rumo à síntese das
principais ideias que nestas crónicas habitam, rumo ao
pensamento e à inteligência que vestem o
conteúdo dos seus sentires e convicções.
Há um busílis central: o do
fenómeno da massificação. A passagem que
encontramos na crónica intitulada «Predadores da
alma», ainda que não fosse desse assunto que o
autor queria falar, dá o tom. Vale a pena ler.
«Mas as almas estão feridas. A
grande maioria dos olhos está baça, opaca, sem
luz. Como se um ar parado acumulasse nuvens na frente do sol, e
as pessoas, perdidas dentro da neblina, não conseguissem
enxergar nada à frente. Caminham inseguras e cautelosas,
sem saber direito onde estão, nem que riscos as
ameaçam. E lá vão elas, cada qual cuidando
de si, protegendo o seu pedacinho visível do percurso,
isso enquanto ainda não se perdeu das mãos
amigas, e depende de segurar a de um estranho.
Estamos começando a perceber o que
é a extensão e a profundidade de viver numa
sociedade de massa. A quantidade altera profundamente a
qualidade. Já não somos o que fomos, nem
vislumbramos o que seremos. O sentimento é de que
já não há mais um mesmo barco, embora
possa haver um mesmo mar. Acentua-se o sentimento de estar
perdido, de não se estar entendendo tudo o que acontece.
Resta a sensação de extrema solidão num
mundo super-habitado. Se antes se perguntava de onde viemos e
para onde iríamos, hoje se pergunta o que fazemos aqui e
o que fizemos disso aqui. Num darwinismo terminal, fomos
largando, pelos imponderáveis caminhos da vida, as
nossas referências pessoais, familiares, politicas,
filosóficas, religiosas. Valores em crise, fé em
declínio, e eis-nos nos braços da
mistificação a varejo. Seguimos nus, caminhando
contra o vento gelado, coração apertado pelo
medo» (p. 78).
É pois notória a
angústia com as consequências da
massificação e, nomeadamente, com a
amputação da sensibilidade que especifica o
humano nas suas possibilidades criativas e comunitárias
mais elevadas. Sim, dessa sensibilidade que potencia os
laços de semelhança em que se baseiam a
comunhão, o reconhecimento, a solidariedade, o
entendimento e o respeito do homem pelo homem. Cortar esses
laços significa votarmo-nos ao ocaso do pensamento e da
cultura, às derivas da estranheza perante o humano,
tornarmo-nos incapazes de fazer prevalecer uma ordem baseada em
apreços e em valores sobre um caos que nos torna cada
vez mais erráticos e truculentos, prezas fáceis
do imediatismo consumista, das voragens mediáticas e dos
adestramentos para a produção.
Construímos riqueza trocando o
sucesso pelo esvaziamento de nós próprios (cf.
«O vencedor»), perdendo o sentido do dom e da
gratuidade, ignorando a temporalidade que nos limita a vida,
inviabilizando — por défice de amplidão
intelectual ou de vontade, e por excesso de ganância
— o suporte ecológico terrestre que nos acolheu
(cf. Primavera), refugiamo-nos num individualismo
avestruístico com que auto-desculpamos o nosso
conformismo e através do qual nos rendemos
confortavelmente à condição de
impotência. Livres, sempre livres, mas impotentes.
Está tudo mal, mas nada há a fazer. A não
ser, é claro, que seja economicamente viável.
Ora a cultura não é
economicamente viável, a poesia não é
economicamente viável, a arte não é
economicamente viável. E também por isso se
amputa a educação da cultura. Porque o que
é preciso são profissionais, não pessoas,
nem artistas. Funcionários, não irreverentes,
criativos ou críticos. Executores de ordens, não
consciências que ousam discutir.
A massa suscita a máquina
organizadora e empola o espírito capitalista, o maquinal
homogeneíza e substitui os nomes por números, os
números, exploradores ávidos, querem sempre
números melhores e exigem medidas, as medidas já
não vêem rostos, apenas supostas melhorias
estatísticas.
E eles, os rapazes nas ruas, deixaram de
ser como nós (cf. Nós e eles). E alguns,
treinados para matar e enviados para guerras que nem sequer
entendem, matam abstractamente na razão directa da sua
função heróica (cf «Matar e
matar»).
Esperança? Sim, há que
tê-la. E muitas vezes somos acalentados por inesperados
sinais. Foi o que aconteceu ao autor das crónicas quando
recebeu um e-mail do jovem Brenner. Dava-lhe este os
parabéns e incitava-o a continuar com o bom trabalho de
alimentação das mentes realizado com sua arte
literária.
Afinal, sempre há motivos para
pensar que há quem resista à
homogeneização do massificado. Uma
esperança que o autor transporta para os votos
endereçados ao seu jovem leitor: «Tomara que ele
resista à mediocridade que está banalizando todos
os valores que nos fazem seres humanos, racionais,
sensíveis, frutos de um longo processo
civilizatório. Que se preserve da truculência que
está vencendo os argumentos. Que sobreviva à
barbárie que avança e instala o medo do
futuro» (p. 198).
Alcione está pois bem ciente da tese
que várias vezes reitera: a educação tem
de ser o braço sistematizado da cultura, a
educação deve preocupar-se, antes de mais, com a
formação do solo fértil da sensibilidade,
sem o apuramento da qual as capacidades mentais do humano ficam
incontornavelmente desalmadas (cf. «Coração
e mentes») e o sentido de cidadania despido da
consciência que lhe deve servir de base. Ou, ainda,
parafraseando o título de uma das crónicas deste
livro, para que não encontremos manchas sujas em mentes
férteis. (cf. Manchas sujas em mentes
férteis»).
Afinal, entre vida e morte, nesse passar do
tempo de que somos feitos (cf. Tempo. Tempo, tempo»), o
que urge é a felicidade («cf. Vida e
morte»), que é sempre algo de diferente do sucesso
dos vencedores (cf. «O vencedor»).
Na solidão do real, as
possibilidades do virtual tornam-se tentadoras. E não
encontramos aí a possibilidade de ter envolvimentos com
isenção de pecado carnal e garantia de sexo
seguro? A Wandinha que o diga (cf. «A
traição») mas, mesmo que não diga,
esta era a deixa que eu precisava para encarreirar na
temática do amor e da paixão, tão grata a
Alcione.
Sobre elas, a crónica intitulada
«Eu sou eu, você é você. É
certo. Vai durar» apresenta-nos todos os condimentos do
ciclo passional, deixando sub-repticiamente à
ponderação dos leitores duas fórmulas: 1 +
1 = 1 (de acordo com a irresistível tendência
fusional que caracteriza o arrebatamento da paixão e do
amor romântico), (cf. «Abraço»)
ou 1 + 1 = 3 (numa perspectiva mais avisada, que passou
pela fricção quotidiana e reconhece a
dimensão de negociação com que todo
relacionamento amoroso requer ser cuidado (cf. «O fim do
amor romântico»).
Falei atrás em ciclo passional e a
expressão parece-me justa. Pois ainda que a
memória — mais afoita em reter o dramático
de uma perda do que o gratuito de um início —
tenda a enfatizar metonimicamente que amor acaba, há
contudo que não perder a noção do
cíclico na recorrência da sua efemeridade, o que
faz Alcione recordar aos seus leitores que, se o amor acaba, o
amor também começa (cf. «O amor
começa»).
Sem respeitarem prazos de validade, amor e
paixão podem irromper assim, inesperadamente, precoce ou
tardiamente, mas sempre vinculando-nos à vida e,
consequentemente, tornando-nos mais apreensivos relativamente
à morte (cf. «Paixão, ainda que
tardia»).
Contudo, por vezes, sob os escombros de uma
tragédia que carrega a morte, o amor ergue-se como obra
de arte que nos sensibiliza e nos faz pensar (cf. «Amor
sob escombros»). Mas, para quê pensar sobre o que
não se explica? Como o tempo, o amor não se
explica pelo raciocínio, ainda cumpra reconhecer ambos
como as duas criações fundamentais da cultura
humana (cf. «Tempo sem fim, amor sem limites»).
Tão fundamentais que uns sofrem
porque não conseguem viver sem as emoções
dos doces arrepios da paixão (cf. «De
paixões, emoções e arrepios»),
outros são capazes de delegar os preparativos do
encontro amoroso nas mãos de agências
profissionais (cf. «O ágape da
alcoviteira»), uns, tresloucados momentaneamente pela
ferida do ciúme, matam e condenam-se à tortura de
um arrependimento sem fim (cf. «Réu e
juiz»), outros persistem em limpar o
coração e em se arrumarem para o amor (cf.
«Predadores da alma»).
E Alcione pergunta: «Será que
não há outras dimensões igualmente
emocionantes da nossa experiência de estar no mundo? Toda
essa miríade de potencialidades que é um ser
humano pode ser paralisada apenas pela expectativa do
amor?» (cf. «O ágape da alcoviteira»,
p. 194).
Para confirmarem que de facto, ainda que a
expectativa do amor seja incontornável, ela não
tem de dominar assim tão avassaladoramente, leiam as
crónicas-filme que Alcione escreve neste seu livro.
São verdadeiros pedacinhos do céu
literários esses takes em que autor nos faz ver
operários sambando em andaimes precários, nos
retrata a declaração de amor de um filho que quer
renascer da barriga da sua mãe, ou em que descreve com
pormenor magistral quão tortuosa pode ser a
substituição de um penso rápido em
calcanhar feminino e delicioso o nosso voyeurismo.
Finalmente, Alcione Araújo
não é parco na sua admiração e
fascínio pelas mulheres. Na crónica «Hoje,
ontem, sempre, ela: a mulher», com que o livro encerra,
faz uma justa homenagem, em tons operísticos, à
mulher — esse ser de quem o autor afirma que o estar
bonito faz parte da essência (cf. «Por quem as
mulheres se enfeitam») — , reconhecendo a
impagável dívida que há para com elas.
E está na hora de terminar esta a
crónica. Esta imitação que não
é imitação mas que não resiste a
sê-lo.
É o efeito Zelig, o
homem-camaleão de Woody Allen. Ocorre quando a
identificação nos atinge de tal forma que
acabamos involuntariamente por perfilhar o estilo. Pode ser
fraqueza de personalidade, pretensiosismo ou até
cabotinismo. Mas é mais forte e impõe-se. E as
palavras saem. Tudo para dizer que gostámos
intensamente. Que é bom quando se gosta assim. E que, na
urgência que nos exige selectividade, esta
crónica-vida assinala um reconhecido momento de prazer e
de comunhão e uma profunda admiração pela
excelência deste Urgente é a vida, de Alcione
Araújo.
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Alcione Araújo, Urgente é a vida,
Record, 2004.
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