Artigos não publicados
Rui Grácio

Raciocínios e perspectivas: o que é uma tese? e o que são argumentos?
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de argumentação.

Pensamos que tese, num discurso, é a hipótese de trabalho, ou a perspectiva a partir da qual é possível concluir, muito embora saibamos que a ideia mais banalizada seja a de que uma tese é não apenas a posição de alguém, como representa o corolário do discurso, a conclusão que estabelece.
Quando concebemos que uma tese é uma conclusão tendemos a procurar as razões e os raciocínios que foram articulados de modo a produzir essa conclusão, ou seja, procuramos os seus pontos de partida — as suas premissas ou argumentos — e atentamos no processo inferencial que permitiu que a sua articulação culminasse numa conclusão. Perante isto, podemos assumir duas atitudes. Ou considerar que a conclusão é boa porque a inferência é formalmente válida (podendo assim dizer que, dados os pontos de partida há razão para concluir dessa forma), ou questionamos os pontos de partida, as razões invocadas, se elas são apropriadas. Neste segundo caso não nos limitamos a considerar a conclusão em termos de raciocínio, que até podemos considerar formalmente válido, mas interrogamo-la a partir dos conteúdos que inicialmente foram seleccionados como pontos de partida. Mas, porque havemos nós de querer questionar esses pontos de partida? Porque eles abrem uma perspectiva que para nós pode ser duvidosa, ou desapropriada, relativamente a um assunto em questão.
Assim, para dar um exemplo, se se concluir que «o filme X é o melhor filme de todos os tempos» e se se aduzir para esta aparente tese a razão de que «foi o filme que vendeu mais em todos os tempos», podemos reconduzir este raciocínio a uma forma silogística e reconhecer a sua validade:

«Os melhores filmes são os que mais vendem
O filme X foi o filme que vendeu mais em todos os tempos
Logo o filme X é o melhor filme de todos os tempos»

A questão é que, a despeito da correcção da inferência, podemos não estar de acordo com a premissa maior. Não, obviamente, enquanto premissa susceptível de ser formalmente considerada e redutível a uma relação entre um sujeito e um predicado, mas enquanto veicula um determinado conteúdo. Ora, avaliarmos uma proposição do ponto de vista do conteúdo implica referenciá-la a um assunto. No exemplo acima referido, o assunto é «o critério segundo o qual avaliar a qualidade de um filme» e o que nele é afirmado sobre a questão de qual possa ser esse critério é «as vendas são o critério». Ora, é justamente esta perspectiva que podemos ter reticências em aceitar. Concordaremos, seguramente, que se aceitarmos esse critério a conclusão é correcta, mas isso não impede que resistamos a aceitar esse critério, caso em que, aceitando a conclusão do ponto de vista do raciocínio, não a aceitaremos enquanto perspectiva sobre um assunto em questão.
E aí, aquilo que inicialmente parecia ser uma tese — «O filme X é o melhor filme de todos os tempos» —, sustentada aliás por argumentos ou razões, revela-se, afinal, como uma mera conclusão. Com efeito, se quisermos encontrar uma tese neste raciocínio, devemos procurá-la na hipótese de trabalho a partir da qual foi possível concluir, e não na própria conclusão. A tese é, na realidade, a de que «os melhores filmes são os que vendem mais».
Uma tal visão traz consequências, em vários aspectos, para a abordagem da argumentação.
Em primeiro lugar porque mostra que a argumentação não se pode cingir a uma questão de validade lógica dos raciocínios formalmente considerados, ainda que possamos contestar uma conclusão com base num procedimento inferencial logicamente indevido. Mas, como vimos, não é a conclusão do raciocínio que faz a perspectiva sobre um assunto, antes é a perspectiva que autoriza que se raciocine a partir de certos pontos de partida e assim se conclua. Contestar uma conclusão a partir da validade inferencial de um raciocínio formalmente considerado é uma questão de lógica, e mesmo que consideremos que o raciocínio é apresentado num discurso em linguagem natural, a questão da validade inferencial do raciocínio será ainda, e sempre, uma questão de lógica. Mesmo que não estejamos muitas vezes a par de determinados assuntos, somos capazes de detectar raciocínios cuja validade rejeitamos («se disseste isto e aquilo, como é que podes concluir assim?»). Mas o campo de incidência da argumentação não é o do raciocínio formalmente considerado (o que seria um modo muito acanhado de considerar a argumentação), mas o dos conteúdos com que se tematizam os assuntos de tal forma (tese) que os raciocínios e as suas conclusões possam ser perspectivados como passíveis de trazerem respostas a questões. Tese e conclusão são assim coisas distintas: a primeira é a que estabelece uma perspectiva sobre um assunto em questão, a segunda é o resultado de um processo inferencial em que os conteúdos das premissas são determinados (em termos de relevância e não em termos formais) em função dessa perspectiva. Retomando o nosso exemplo, na perspectiva de que «os melhores filmes são os que mais vendem» torna-se relevante, do ponto de vista do assunto em questão e da sua conclusão em termos de raciocínio, seleccionar uma premissa cujo conteúdo se refira ao nível de vendas de um determinado filme.
Nesta visão da argumentação, Toulmin foi pioneiro ao afirmar que um raciocínio remete para um «modo de argumentar» que o autoriza (garantia) e que essa garantia é susceptível de ser desafiada do ponto de vista substancial, ou seja, quanto ao seu conteúdo. O reforço, no sentido toulmineano, é aquilo que visa mostrar que o critério, ou «modo de argumentar», é apropriado para o assunto em questão. Neste sentido, podemos dizer que o seu padrão de argumentação assinala também a necessidade de perspectivar o raciocínio em função de um assunto em questão e em que o que faz questão não é, precisamente, a conclusão formalmente considerada, mas o «modo de argumentar».
Em segundo lugar, obriga-nos a pensar a argumentação como tematização de um assunto em questão, sendo que é nesse quadro que podemos determinar o que possa ser uma tese. E uma tese não é simplesmente o que um enunciador possa querer fazer passar por tal, mas sim aquilo que estabelecendo uma perspectiva sobre um assunto em questão constitui o enquadramento de que poderão decorrer os nexos inferenciais e a resposta específica para essa questão. Mas se uma tese, mais do que uma conclusão, é o que abre uma perspectiva, então os argumentos, mais do que suportes de uma conclusão, são tematizadores do assunto em questão. Assim, no exemplo atrás referido, mencionar que « o filme X foi o filme que vendeu mais em todos os tempos» é já uma forma de tematizar o assunto em questão a partir da perspectiva das vendas. Dito de outro modo, aponta para uma perspectiva à luz da qual ganha relevância e em função da qual se torna lícito concluir. Donde, se os argumentos permitem concluir e servem de suporte a conclusões, é porque antes de mais já configuraram o assunto em questão como susceptível de uma resposta. Remontar das respostas ou conclusões à perspectiva sobre um assunto em questão, compreender em função de que tese ou perspectiva concluem os raciocínios, é a tarefa crítica que caracteriza a argumentação, permitindo interagir com os discursos que, mais do que raciocínios ou posições pessoais, veiculam perspectivas sobre assuntos em questão.