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Artigo
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Rui Grácio
Que fenómenos estuda a teoria da
argumentação? Quais as suas tarefas descritivas?
in Revista
Filosófica de Coimbra, vol
17, n.º 33, 2008, pp. 125-146.
Em homenagem a Christian Plantin
Resumo:
Partindo do «modelo dialogal»
proposto por Christian Plantin e da sua definição
de argumentação, procura-se neste artigo sugerir
alguns conceitos essenciais para a análise das
argumentações e contribuir para uma perspectiva
de resposta às seguintes perguntas: a) Que tarefas
descritivas poderão ser levadas a cabo por um analista
da argumentação e como é que elas se ligam
com a questão crítica da avaliação
dos argumentos? b) Que procedimentos metodológicos
poderão servir de base a uma didáctica da
argumentação?
Palavras-chave: interacção
argumentativa, assunto em questão,
tematização, perspectivas, raciocínios,
crítica.
Résumé:
En partant du «modèle
dialogal» proposé par Christian Plantin et de sa
définition de l’argumentation, nous essayons de
présenter quelques concepts essentiels pour
l’analyse des argumentations et d’apporter une
perspective de réponse aux questions suivantes: a)
Quelles sont les démarches descriptives d’un
analyste de l’argumentation et comment se relient-t-elles
à la question critique de l’évaluation des
arguments? b) Quelles procédures méthodologiques
pourront fonder une didactique de l’argumentation?
Mots-clé: interaction argumentative, sujet en question,
thématisation, perspectives, raisonnements, critique.
Abstract
On the basis of the «modèle
dialogal» proposed by Christian Plantin and from his
definition of argumentation, we try to present some essential
concepts for the analysis of argumentations and bring a
prospect for answer to the following questions: a) What
descriptive tasks could be taken for an analyst of
argumentation and how are those tasks connected with the
critical question of argument evaluation? b) What
methodological procedures are suitable to build a didactics of
argumentation?
Keywords: argumentative
interaction, subject in question, thematizing, perspectives,
reasoning, critic.
«De uma forma geral, como construir
os instrumentos de uma crítica do discurso
argumentativo, instrumentos sem os quais o
‘espírito crítico’ se arrisca
fortemente a ficar vazio?»1
No artigo intitulado Análise crítica do discurso
argumentativo, e após
deslocalizar o seu estudo do «na língua»2,
Christian Plantin escreve que a argumentação
é:
«uma forma de
interacção problematizante formada por
intervenções orientadas por uma
questão»3.
Trata-se, a meu ver, de uma das mais
conseguidas aproximações a uma
definição do objecto de uma teoria geral da
argumentação, na medida em que, inserindo-se numa
perspectiva que pretende proceder a «uma revisão
sobre o que é fundamentalmente um dado em
argumentação»4, permite delimitar autonomamente os
fenómenos a descrever por esta teoria.
Sendo assim — e porque talvez o maior
tributo que se possa prestar a um teórico seja o de nos
interessarmos pelas suas investigações — um
conjunto de reflexões sobre, e a partir, da
definição apresentada poderá ajudar a
aprofundá-la, a clarificá-la e a explicitar: a)
Que tarefas descritivas poderão ser levadas a cabo por
um analista da argumentação e como é que
elas se ligam com a questão crítica da
avaliação dos argumentos? b) Que procedimentos
metodológicos poderão servir de base a uma
didáctica da argumentação?5.
É esse o objectivo deste artigo, no
qual procuro ir ao encontro da importância que Plantin
atribui à necessidade de «destacar um conjunto
sistemático de conceitos que permitam o estudo da
argumentação no diálogo e no
discurso»6.
De acordo com a definição
citada, que fenómenos devem ser estudados pela teoria da
argumentação?
Em primeiro lugar a
argumentação não é
monológica, mas interactiva. Mais concretamente, ela
apresenta uma estrutura tripolar, no sentido em que remete para
uma dinâmica que articula três instâncias: o
pólo Questão (ou Terceiro), o pólo
Proponente e o pólo Opositor. Estas três
instâncias, mais do que desempenhos levados a cabo por
pessoas concretas, devem ser consideradas em termos funcionais.
Assinalam papéis de
actuação necessários
para a identificação de uma
interacção como argumentação e
qualquer deles pode ser ocupado, no decurso de uma
argumentação, por qualquer dos intervenientes.
Assim, nota Plantin:
«numa interacção
concreta, o mesmo papel de actuação pode ser
tomado por vários actores (falar-se-á,
então, de aliança argumentativa). Os actuantes
podem ocupar sucessivamente cada uma das posições
argumentativas (ou papéis de actuação)
segundo todos os trajectos possíveis»7.
Em segundo lugar — e é esse um
dos aspectos que o torna fecundo — este modelo tripolar,
ao mesmo tempo que se apresenta como estrutura de uma
interacção argumentativa, é pensado de
modo a evidenciar as características que o especificam
como tal, a saber, a de se tratar, por um lado, de uma
interacção problematizante e, por outro, de uma interacção
polarizada num foco comum àqueles que interagem, ou seja, numa questão8. Escreve Plantin:
«Uma dada situação
linguageira começa a
tornar-se argumentativa quando se
manifesta uma oposição de discursos. Dois
monólogos justapostos, contraditórios, sem
alusão um ao outro, constituem um díptico
argumentativo. É sem dúvida a forma argumentativa
de base: cada um repete a sua posição. A
comunicação é plenamente argumentativa
quando esta diferença é problematizada numa
Questão e se destacam nitidamente os três
papéis de actuação do Proponente, do
Opositor e do Terceiro»9.
A partir do modelo tripolar e das
características para que remete, duas
considerações se podem destacar. Por um lado,
trata-se de uma interacção
disciplinada, disciplina esta que
remete para a capacidade das intervenções se
manterem na órbita de algo que deve permanecer comum
para que a própria argumentação seja
possível e se possa desenvolver. Por outro, esta
dimensão comum, mais do que um consenso, representa uma esfera de relevância partilhada, algo que se constitui como um assunto em
questão10, de tal modo que quem interage se possa entender
mesmo não estando de acordo. Como escreve Francis
Jacques
«o diálogo não é
forçosamente consensual, ele é também o
lugar onde se vêem crescer os verdadeiros desacordos, mas
não sem que nos consigamos entender sobre o
próprio desacordo. (…) O ideal é que cada
um possa formar a ideia de um acordo pelo menos possível
sobre o qual se ergue o desacordo. É também a
única forma de chegar a um verdadeiro dissentimento, que
não repouse num malentendido. Aliás, o prazer do
diálogo, que aos meus olhos é sem igual, é
menos o do consenso do que o das fecundações
incessantes e o da probidade no controlo mútuo do
pensamento»11.
Ora, como vimos, esta ideia de entender-se
sem estar de acordo, para além de remeter para um
espaço comum — a que Plantin chama
«questão» — remete também para
a forma que caracteriza a interacção. Aqui, a
palavra utilizada é «problematizante».
No entanto, sublinha ainda o autor, esta
problematização não significa
necessariamente conflitualidade e polémica.
Poder-se-á dizer que ela é antes uma
co-construção12 (desenvolvida de acordo com a estrutura tripolar
anteriormente referida), no sentido em que vai fazendo surgir
configurações e em que corresponde a uma conduta
de ensaio aberta a concretizações
possíveis13. A questão da conflitualidade e da
polémica surge quando o confronto de perspectivas
dá lugar a um confronto entre os participantes
considerados como actores. Plantin distingue, como vimos, entre
os participantes como actuantes (e, neste caso, as
considerações que configuram as suas perspectivas
são aquilo que conta, podendo certas iniciativas
corresponder ao papel de Proponente, outras ao papel de
Opositor e outras, ainda, ao papel de Questionador que coloca
em dúvida) e os participantes como actores, ou seja,
como pessoas concretas cujo ethos ou imagem de si é posto em causa
pelo próprio desenrolar da interacção
(sendo este um ponto em que a argumentação cruza
a retórica). Assim, escreve:
«Importa, com efeito, não
confundir a oposição entre discursos —
entre actuantes — e as eventuais
colaborações ou conflitos entre pessoas —
entre actores. A situação argumentativa, tal como
a definimos, só é conflitual quando os
argumentadores se identificam com os papéis
argumentativos. (...) Por razões teóricas e
empíricas, a polemicidade não é, por
conseguinte, inerente à argumentação. Ao
que parece, ela chega fatalmente quando, tendo-se os actores
estabilizado nas posições dos actuantes, os
discursos desempenham um papel essencial na
estruturação das pessoas dos
argumentadores»14.
Esta afirmação reforça
a ideia que acima expressámos segundo a qual a
argumentação é uma conduta de ensaio que
tem por função a concretização do
possível. Confrontar ideias não é
necessariamente confrontar posições pessoais.
Pode ser, pura e simplesmente, habitar esse espaço
suspenso15 ou ainda não estabilizado em que
procuramos assentar ideias que procuramos para assuntos em
questão num contexto pragmático que emerge das
próprias estratégias discursivas que vão
moldando a interacção16.
Neste sentido, mais do que remeter as
interacções para posições pessoais,
há que partir das instruções que as
configuram como uma perspectiva impessoalmente considerada17.
Porque, independentemente da autoria da iniciativa discursiva,
podemos configurar a perspectiva para que ela remete. (Assim,
sem ter de referir os nomes dos seus subscritores, podemos
dizer que sobre um determinado assunto em questão
há duas perspectivas, uma que propõe X e outra
que se opõe a X ou que se contrapõe a X propondo
Y. Para dar um exemplo, no mais recente referendo sobre a
legalização da interrupção
voluntária da gravidez ocorrido em Portugal, as duas
perspectivas em jogo eram a do SIM e a do NÃO).
Aliás, construir uma perspectiva não significa,
sequer, subscrevê-la, mas tão apenas perceber a
sua configuração18. É aliás por isso que podemos
fazer o esforço de suspender a nossa própria
perspectiva e colocarmo-nos numa perspectiva que não
é a nossa ou, como coloquialmente se costuma dizer, ver
a questão de vários prismas, ouvir o outro lado.
Mas voltemos à
definição de Plantin. De acordo com ela o estudo
da argumentação poderá ter como base
descritiva a resposta às seguintes perguntas:
A1. Que questão orienta as
intervenções dos participantes? Em que esfera de
relevância problemática se polarizam os discursos?
Relativamente a quê podemos classificar as
intervenções como «pró» ou
como «contra»?
B1. Que características
específicas diferenciam as tematizações
dos intervenientes? Como, e em que pontos, é que as
intervenções configuram perspectivas diferentes?
(Revelando-se aqui a diferença como a dimensão de
problematização).
C1. Para que respostas orientam essas
tematizações (sentido) e que tipo de
inferências as sustentam (raciocínio)?
No entanto, talvez seja possível
melhorar estas perguntas. Um dos pontos em que tal
poderá ser feito é o que coloca uma
questão como pólo de uma
argumentação. Sabemos que, na sua abordagem
problematológica da argumentação, Michel
Meyer propõe nunca perder de vista que uma resposta
é sempre resposta a uma questão. Foi aliás
partindo desta ideia que Grize chegou a descrever o processo de
uma argumentação (que não procede do
verdadeiro para o verdadeiro, mas que anda de questão em
questão) da seguinte forma:
«a) Ponto de partida: uma
descrição daquilo de que se trata.
b) Por desnivelamentos sucessivos,
respostas a questões abertas, logo
delimitação do campo de que se trata.
c) Respostas a questões fechadas.
d) Conclusão que decorre: a resposta
que permanece»19.
Mais tarde, todavia, reconheceu
dificuldades nesta ideia de remeter a
argumentação para uma questão. Assim,
escreveu:
«A ideia [de Michel Meyer] é a
de que todo o enunciado é resposta a uma questão.
Sendo assim, dar-lhe sentido ‘consiste em questionar uma
resposta enquanto tal´ (Meyer, 1986, p. 242). (…)
Mas é claro que aquilo que mais frequentemente acontece,
e assim que nos encontramos perante uma
esquematização completa, é que o
número de questões para as quais é
possível encontrar uma resposta é
ilimitado»20.
Ou seja, a unidade de leitura
«questão» pode funcionar para enunciados e
para a sua argumentatividade, mas uma
argumentação — que Grize entende ser
indissociável de uma
«esquematização» — envolve uma
complexidade que não se deixa abordar pelo par
questão-resposta21.
O problema com que somos então
confrontados é o de saber que unidade de leitura pode
ser adequada para que, mais do que a argumentatividade dos
enunciados ou os pequenos procedimentos argumentativos por eles
veiculados, possamos descrever uma argumentação.
E é face a este problema que me parece adequado
introduzir a ideia de «assunto em questão»
como unidade de leitura e análise das
argumentações.
Direi que o «assunto em
questão» é o pólo semiótico
da argumentação, o que se revela como a esfera de
relevância de que tira sentido a argumentatividade dos
enunciados no plano macro ou superstrutural, de que nos fala
van Dijk. Escreve este autor:
«É contudo estranho que mesmo
hoje em dia haja gramáticas do discurso que operem
apenas no nível ‘linear’ das frases ou
proposições subsequentes e ignorem as estruturas
globais cruciais (macroestruturas, superstruturas) que definem
o sentido e a forma dos textos no seu conjunto»22.
E explica, numa outra obra:
«Uma característica essencial
do discurso consiste no facto de ser, não só
local, mas globalmente coerente. Para além das
relações de significado entre as frases
subsequentes, o texto tem também uma unidade
semântica global. Esta coerência
global é descrita por aquilo
que nós todos intuitivamente conhecemos como temas ou
tópicos. Os tópicos sumariam conceptualmente o
texto e especificam a sua informação mais
importante. Em termos teóricos, esses tópicos
podem ser descritos como macroproposições
semânticas, isto é, como proposições
derivadas de sequências de proposições no
texto: por exemplo, através de macro-regras como a
selecção, a abstracção e outras
operações que reduzem a informação
complexa. O conjunto hierárquico de tópicos ou
macroproposições forma a estrutura
temática ou de tópicos do texto. Os utentes da
linguagem empregam essas macroestruturas para perceber globalmente e sumariar o
texto»23.
Voltando agora ao nosso problema, diremos
que uma argumentação se caracteriza por
apresentar uma «estrutura temática» que
possibilita proceder a sínteses. Faz parte da estrutura
temática de uma argumentação apontar para
uma esfera de relevância que podemos identificar
sinteticamente como o «assunto em questão».
Aliás, caso isso não seja possível,
dificilmente se poderá considerar que um conjunto de
interacções verbais seja uma
argumentação. Poderemos assinalar a
argumentatividade intrínseca de enunciados, mas
não saberíamos dizer qual é o seu fio
condutor e, sem isso, pouco mais além poderíamos
ir do que constatarmos que estamos em presença de um
amontoado avulso de interacções comunicativas,
eventualmente esquematizáveis e analisáveis, mas
incapazes de se inserirem na coesão global de que tiram
o seu sentido argumentativo24.
É também van Dijk quem refere
que o discurso possuiu dois níveis de coerência:
a) o
nível local, que tem a ver
com a maneira como se relacionam as proposições
subsequentes de um discurso, quer de um ponto de vista referencial
(ou seja, a selecção de factos e a sua
articulação através de vários tipos
de relação: consequência, causa, tempo,
condição, etc.), quer do ponto de vista funcional (ou
seja, a forma como se organiza a progressão discursiva,
fazendo funcionar certas proposições como
condição de outras, criando assim uma estrutura
hierárquica que, segundo o modelo tradicional, articula
proposições com a função de
premissa e proposições com a função
de conclusão).
b) o
nível global que
já não tem a ver com as
microproposições mas sim com as
macroproposições, ou seja, com a unidade
semântica do discurso como um todo.
Neste sentido, uma das exigências de
tomar um discurso como argumentação é a da
coerência global poder ser percebida e enunciada
através de uma interrogação que aceda ao
que tematicamente está em questão e,
simultaneamente, permita compreender a coerência local
das operações que funcionam no interior da
estrutura global.
Sendo assim poderíamos reformular a
pergunta A1 e dizer que faz parte da descrição de
uma argumentação a tarefa A2, ou seja:
A2. A identificação do
assunto em questão sob a forma de uma
macroproposição genérica interrogativa
(coerência global, pólo problemático
aglutinador).
Mas não será que uma tal
síntese é arbitrária? Segundo Grize um
discurso contém instruções na medida em
que
«uma esquematização
aparece assim não tanto como a expressão
discursiva de um sentido que como uma solicitação
a construir um sentido. (…) uma
esquematização dada não autoriza uma
qualquer interpretação. Os seus sentidos
possíveis são limitados pela
significação de cada um dos termos, ao mesmo
tempo que eles são conduzidos por cotextos, ou seja, por
aquilo que precede cada enunciado e por aquilo que se lhe
segue»25.
Numa argumentação, as
formações discursivas surgem assim como meios de
instruir o assunto em questão. Aliás, na
definição que Plantin propõe, esta ideia
de que uma argumentação é algo que se vai formando pelas
diversas intervenções está bem patente.
É aliás esta transitividade que torna muitas
vezes complicado o «congelamento» do discurso em
proposições dele retiradas para fins
analíticos, a que nos referiremos adiante.
Chamo tematização à
instrução de um assunto em questão26.
Tematizar, mais do que encadear proposições,
é configurar um assunto pela atribuição
selectiva da relevância concedida aos recursos que o desenham como perspectiva.
A ideia de assunto em questão
parece, com efeito, como susceptível de ser abordada
analiticamente através da metáfora do desenho27,
constituindo-se esta como um modo apropriado de descrever os
procedimentos de tematização. Assim, os
considerandos que cada parte apresenta e evoca — as
questões que selecciona, os dados a que recorre, as
relações que entre eles estabelece (quer por
associações, quer por
dissociações), o peso ou importância
relativa que lhes confere, o modo como os liga a uma eventual
resposta ou conclusão, etc. — são os
elementos temáticos que configuram uma perspectiva
específica.
De notar, ainda, que a própria
noção de perspectiva — e mais precisamente
a ideia de que qualquer tematização é
solidária de uma determinada forma de abordar um assunto em
questão28 — tem uma correspondência
directa com o que Plantin refere como a dimensão
«problematizante» da interacção
argumentativa. A dimensão problematizante de uma
perspectiva reside no facto de ela não ser única.
É uma possibilidade de considerar um assunto em
questão a partir de certas considerações e
define-se pela sua diferença relativamente a outros
modos possíveis de o considerar. A uma perspectiva
corresponde um modo de configurar um assunto em questão
que se demarca de outros modos de o fazer.
Poderíamos dizer que todo o trabalho
de configurar uma perspectiva sobre um assunto em
questão remete para uma das partes fundamentais da
retórica, a saber, a inventio, ou seja, a descoberta ou selecção
das considerações e dos recursos que
funcionarão como base do discurso29. Repare-se
que, aqui, a base é, antes de mais, uma base
temática e não uma questão de
raciocínio (o entimema aristotélico). Trata-se do
sensus
e não da ratio. Mesmo que esses considerandos possam servir de
ponto de partida para raciocínios — e é
nesse sentido que também em argumentação
se fala vulgarmente de premissas — é neles que se
joga a questão do sentido (do desenho do assunto, da
orientação que o configura como perspectiva)
— e é sempre do sentido prévio que preside
às selecções com que se tematiza o assunto
que os raciocínios, mais do que uma força
lógica, retiram a sua força de impacto, seja esta
persuasiva, dissuasiva ou, simplesmente, mobilizadora da
atenção do interlocutor, que é
também uma forma não negligenciável
— como, aliás, devidamente assinalam aqueles que
partem de uma perspectiva retórica da
argumentação — de lhe conferir
relevância30.
Assim postas as coisas, podemos agora
reformular, também, os pontos B1 e C1, apresentando-os
de acordo com as seguintes tarefas descritivas:
B2. Inventariação dos
tópicos tematizadores do assunto em questão (o
conjunto de considerandos trazidos ao discurso de forma a
configurarem o assunto, ou modo de o perspectivar a
nível da informação genérica) e
inventariação das informações
específicas (que funcionam como premissas ou argumentos
para a articulação de raciocínios no
interior da perspectiva e que visam o estabelecimento de
conclusões).
C2. Identificação da(s)
resposta(s) proposta(s) que especifica(m) uma
posição a partir da perspectiva sobre o assunto
em questão, dos considerandos evocados, da
fixação de premissas e dos raciocínios
desenvolvidos a partir delas.
Retomando agora a definição
de argumentação proposta por Plantin, (relembro:
«uma forma de interacção problematizante
formada por intervenções orientadas por uma
questão») poder-se-á, após o
conjunto de reflexões que apresentei, retirar um novo
léxico que parece apropriado para a análise do
discurso enquanto argumentação, a saber:
assuntos em questão (o
pólo semiótico de uma
argumentação);
perspectivas (vias diferenciadas que
configuram um modo de abordar o assunto em questão);
tematização (processo
selectivo de recursos através do qual a perspectiva
é desenhada e estabelece pontos que podem servir de
premissas a raciocínios);
respostas (orientações
conclusivas para que tende o sentido da
tematização ou asserção conclusiva
em que a questão do sentido assume a forma de uma
questão de raciocínio).
Na minha perspectiva este léxico de
análise tem a virtude de não separar a dimensão semiótica do pensamento (produção de sentido nas
interacções comunicativas em que está em
causa perspectivar assuntos em questão) dos termos em
que se poderá proceder, de um ponto de vista
prático, à sua avaliação.
São ferramentas conceptuais que, permitindo clarificar a
dinâmica argumentativa, apresentam, por isso mesmo, uma
mais valia crítica, tal como Ruth Amossy sublinha ao
afirmar que
«a abordagem descritiva, não
menos que a normativa, pretende ser um contributo para a
crítica das trocas verbais consideradas na sua
dimensão de interacção social. (…) a
análise argumentativa apoia-se na ideia de que a
aclaração de um funcionamento discursivo é
também uma elucidação, se não um
desvelamento, da forma como ele tenta agir sobre o parceiro.
Dito de outra forma, a análise seria ela mesma uma
ferramenta crítica»31.
No que diz respeito à questão
da avaliação das argumentações, a
posição de Plantin é lucidamente prudente.
Destaca dois tipos de perguntas críticas, a saber:
1. «Será que o analista
linguístico e argumentativo pode mostrar que um discurso
em língua natural é falacioso?»32
2. «Será que se pode, pela
análise argumentativa, mostrar que um discurso —
por exemplo, um discurso sexista, racista… —
é um mau discurso (falso, manipulador…)?»33
À primeira pergunta Plantin responde
com uma afirmatividade reticente.
Por um lado, uma falácia remete
sempre para uma abordagem lógica do discurso, para o
estudo das inferências que aí são postas a
funcionar. Ora, se entendermos que as inferências
implicam regras lógicas, a violação de
tais regras pode conduzir a invalidar uma conclusão e a
rejeitar o raciocínio com que se pretende chegar a uma
resposta para um assunto em questão. No entanto —
e essas são as reticências de Plantin — a
abordagem lógico-epistémica obriga a traduzir o
texto em relações inferenciais com base numa
teoria do argumento que vê neste uma
articulação entre premissas e conclusão (e
esta «tradução lógica» que se
concentra no plano proposicional do discurso é, desde
logo, uma redução que levanta dificuldades e
problemas, sendo fácil de recusar: «Mas não
é isso que eu estou a dizer…»). Se, contudo,
uma destas articulações mina a lógica do
texto, então ela é suficiente para o podermos
classificar como falacioso34. Acontece que a lógica de um texto
não se esgota no seu tecido lógico-inferencial e
as deficiências que neste campo possamos encontrar podem
não comprometer a perspectiva para que procuram
orientar. Ou seja, para resumir, se os erros lógicos
conduzem a conclusões falaciosas — e ao
nível das questões de raciocínio a
detecção de erros lógicos revela-se
fundamental — nem por isso a existência de
conclusões falaciosas têm necessariamente de
invalidar uma argumentação considerada no
nível das perspectivas e das configurações
temáticas35.
No que diz respeito à segunda
pergunta, Plantin é peremptoriamente negativo. E a sua
ideia é simples: nesse caso, o analista deixaria de o
ser e passaria a ser um argumentador.
Neste sentido, parece-me que Plantin
subscreveria a ideia de Willard segundo a qual a única
fonte legítima para falar de falácias é o
nível dos raciocínios logicamente considerados e
não ideologicamente avaliados, ou seja:
«Advogarei que os estudiosos da
Argumentação usam falácia como um termo estrito da arte cuja fonte de
autoridade é a lógica e não um termo
abarcante para qualquer condenação que os
críticos possam querer fazer. Esta tese não
deriva da preferência de uma visão restrita sobre
uma visão alargada (argumentarei adiante que os recentes
modelos das falácias são apenas aparentemente
alargadas), mas da convicção de que falácia
é uma classificação inapropriada para
defeitos morais, processuais e relacionais. Estes defeitos
podem ser condenáveis, mas a classificação
falácia não identifica a autoridade que está por
detrás dessas condenações»36.
O léxico de análise a que
atrás aludi, e que visa justamente fornecer novas
ferramentas conceptuais que permitam descrever a
interacção argumentativa, afigura-se apropriado
para compreender e clarificar a dinâmica do desenho dos
assuntos na interacção argumentativa e mostrar
que uma argumentação não se pode reduzir a
questões de raciocínio ou, se se preferir, que o
nível dos raciocínios tira o seu sentido das
perspectivas em que se inserem. Todavia, os raciocínios,
se perspectivados de um ponto de vista lógico, ou seja,
tendo em consideração a forma como inferem, podem
afectar uma argumentação se, ao revelarem-se como
falaciosos, puserem em causa a coerência global da
perspectiva. Mas, também aí, a
identificação do assunto em questão, que
propusemos neste artigo como unidade de leitura das
argumentações, é aquilo que pode
seleccionar quais os raciocínios relevantes de acordo
com o que está em causa numa determinada
argumentação. É certo que um dos
níveis de interacção com uma
argumentação é focalizarmo-nos nas
questões de raciocínio37. E, nesse
sentido, a capacidade de fazer inferências apropriadas
revela-se como uma competência importante38. Mas,
como defendemos mais atrás, uma
argumentação é, acima de tudo, uma forma
disciplinada e crítica de ler e interagir com os
discursos39, atentando nos movimentos metadiscursivos40 inerentes
ao desenho dos assuntos (tematizações),
destacando as perspectivas para que esse desenho aponta e
avaliando os raciocínios com que eventualmente se
procuram trazer respostas conclusivas para os assuntos em
questão.
Ensaiando agora a sempre difícil
transposição da estrutura das
argumentações para uma forma diagramática,
poderíamos representá-la da seguinte forma:
Esquema 1: A estrutura das
argumentações
![]()
Explicitemos os elementos que nele
encontramos:
1. A articulação não
arbitrária entre um problema e uma resposta
susceptível de desafio por outro argumentador é o
âmbito mais geral e abstracto que define o estatuto do
«argumentador». O desafio efectivo dessa resposta
é o que opera o trânsito da argumentatividade para
a focalização do discurso como
argumentação. Por considerarmos que uma
argumentação implica a permutabilidade da
iniciativa argumentativa preferimos, em vez de utilizarmos as
habituais dicotomias orador/auditório, emissor/receptor,
locutor/alocutário, etc., considerar uma
argumentação como algo que ocorre de argumentador
para argumentador.
2. A primeira especificação
argumentativa de um problema implica que o assunto seja
delimitado e uma tal circunscrição implica
organizá-lo a partir da selecção de
questões que são tidas como relevantes.
3. As questões de partida nunca
são puras questões, mas implicam desde logo
pressupostos focais de compreensão
(pré-compreensão), o que equivale a dizer que
elas propõem uma abordagem do assunto a partir de uma
determinada perspectiva. É sempre no quadro de uma
determinada perspectiva e do seu progressivo estreitamento que
a resposta ao problema surgirá.
4. Sendo a resposta apresentada
passível de ser questionada por aquele a quem é
proposta, o assunto é abordado sob o modo do «em
questão» e a tematização
procurará organizar o discurso de modo a que a resposta
possa ser aprovada.
5. A tematização
implicará assim a apresentação de
argumentos que invocam razões e permitem articular
raciocínios. Neste nível de
tematização, e se a perspectiva não for
questionada, o estreitamento do assunto em questão tende
a progredir de forma a fazer passar a resposta como uma
questão de raciocínio.
A partir deste esquema, aquilo que é
questionável numa argumentação, podendo
originar um contra-discurso, são:
1. As
questões com que se
focaliza ou perspectiva o problema como assunto.
2. A perspectiva a partir da qual se pretende trazer uma
resposta para o problema.
3. Os
argumentos evocados para
sustentar a resposta, isto é, a validação
da sua relevância como razões.
4. A validade
dos raciocínios que
procuram apresentar a resposta como uma consequência
(quase) lógica.
Mas, em qualquer dos casos, a regra
única de avaliação de uma
argumentação vem, como propõe Plantin, de
dentro dela, ou seja, deriva da existência de um
contra-discurso41.
Ter instrumentos para proceder a uma
análise da argumentação poderá ser,
nesse caso, uma ferramenta fundamental no gesto crítico
para que remete a competência de produzir um
contra-discurso e um bom ponto de partida para uma
didáctica da argumentação que terá
como seu pano de fundo o fomento da disciplina semiótica
crítica de leitura e interacção com os
discursos.
Notas
1
«D’une façon générale, comment
construire les instruments d’une critique du
discours argumentatif, instruments sans lesquels
‘l’esprit critique’ risque fort de tourner
vide?» (PLANTIN, C., «Analyse et critique du
discours argumentatif» in KOREN, Roselyne e AMOSSY, Ruth
(Org.), 2002, Après
Perelman: quelles politiques pour les nouvelles
rhétoriques?, Paris,
L’Harmattan, p. 229).
2 A
demarcação de que se trata aqui é a que
Plantin estabelece relativamente à teoria da
«argumentação na língua» tal
como a propuseram Jean-Claude Anscombre e Oswald Ducrot (cf.
ANSCOMBRE, J-C., DUCROT, O., 1997, L’argumentation dans la langue, Bruxelles, Pierre Mardaga Editeur). À
forma de abordar a argumentação por si proposta
chama Plantin «modèle dialogal». Este
renuncia «à voir dans l’argumentation
quelque chose d’élémentaire, à tout
sens du terme, et se propose de repenser
l’activité argumentative dans un cadre
élargi, où l’énonciation est
située sur fond du dialogue» e onde a
noção de «question argumentative» se
torna central (Cf. Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 52).
3
«une forme d’interaction problématisante
formée d’interventions orientées par une
question» (PLANTIN, C., «Analyse et critique du
discours argumentatif» in KOREN, Roselyne e AMOSSY, Ruth
(Org.), 2002, Après
Perelman: quelles politiques pour les nouvelles
rhétoriques?, Paris,
L’Harmattan, p. 230).
4
«une révision de ce qu’est fondamentalement
une donnée en argumentation» (Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 73).
5
Somos, desta forma, sensíveis às palavras de
Plantin quanto este afirma que «les retours sur
l’histoire d’une tradition de recherche incitent
évidemment à des projections sur le
présent e l’avenir. On peut penser que la
priorité donnée aux objets complexes
traités dans une perspective pluridisciplinaire —
qui est le trait le plus caractéristique de la situation
actuelle — offre certaines ouvertures. Quoi qu’il
en soit, le destin de cette nouvelle recherche dépendra
largement de la qualité des cursus qui y
préparent. Quelle vision organise les enseignements
théoriques de l’argumentation, en France,
actuellement? Comment procède-t-on, au-delà des
sessions ‘express’, qui tiennent parfois davantage
de l’exposé de vulgarisation que de la formation
systématique? Y a-t-il à ce niveau des
éléments de consensus suffisants pour que
puissent surgir une méthodologie et des questions de
recherche historiquement et théoriquement
informées, capables d’organiser cet
intérêt commun pour l’argumentation qui se
manifeste actuellement à travers toutes les disciplines?
(Cf. PLANTIN, C., «Situation des études de
l’argumentation: de délégitimations en
réinventions» in DOURY, M. e MOIRAND, S. (Org.),
2004, L’argumentation
aujourd’hui. Positions théoriques en confrontation, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle, pp. 177-178).
6
«dégager un ensemble systématique de
concepts permettant l’étude de
l’argumentation dans le dialogue et dans le
discours» (Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., pp. 72-73).
7
«Dans une interaction concrète, le même
rôle actanciel peut être tenu par plusieurs acteurs
(on parlera alors d’alliance argumentative). Les acteurs
peuvent occuper successivement chacune des positions
argumentatives, selon tous les trajets possibles» (Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 65).
8
«Le Tiers assure en particulier la stabilité de la
question, et, de façon dérivée, juge ainsi
la pertinence des argumentations. Il ne suffit pas de prouver,
il faut encore que ce qui est prouvée soit en relation
avec la question» (Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 64).
9
«Une situation langagière donnée commence
ainsi à devenir
argumentative lorsqu’il
s’y manifeste une opposition de discours. Deux monologues
juxtaposés, contradictoires, sans allusions l’un
à l’autre, constituent un diptyque argumentatif.
C’est, sans doute, la forme argumentative de base :
chacun répète sa position. La communication est pleinement argumentative lorsque cette différence est
problématisée en une Question, et qui se
dégagent nettement les trois rôles de Proposant,
d’Opposant et de Tiers» (Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 63. Subl. meu). Note-se que Plantin
coloca, desta forma, a questão de saber o que é
que torna uma interacção discursiva numa
argumentação, ou seja, a questão do
devir-argumentação do discurso.
10
Como nota Jean Goodwin, se por um lado, «an issue is a
less or more determinate object of contention that is, under
circumstances, worth arguing about» por outro, «an
issue arises when we make an issue
of it» (Cf. GooDwin, Jean, 2002,
«Designing Issues» in EEMEREN, F. H. van e
HOUTLOUSSER, P. (Eds), 2002, Dialectic
and Rhetoric. The Warp and Woof Argumentation Analysis, Dordrecht, Kluwer Academic Publishers, p. 86).
É também notória, nesta
formulação, a preocupação com o
processo de formação que converte uma troca
verbal numa argumentação.
11
«le dialogue n’est pas forcément consensuel,
il est aussi le lieu où l’on voit grandir les
vrais désaccords, mais non sans que l’on parvienne
à s’entendre sur le désaccord même.
(…) L’essentiel est que chacun puisse former
l’idée d’un accord au moin possible sur
lequel s’enlève le désaccord. C’est
aussi la seule façon d’aboutir à un vrai
dissentiment, qui ne repose pas sur un malentendu.
D’ailleurs, le plaisir du dialogue, qui est sans
égal à mes yeux, est mois celui du consensus que
des fécondations incessantes et de la probité
dans le contrôle mutuel de la pensée»
(JACQUES, F., «Argumentation et stratégies
discursives» in LAMPEREUR, A. (Ed.), 1991, L’argumentation, Mardaga, Liège, p. 165).
12
«Les conclusions ne sont admises ni au vu de la
correction d’une inférence (argumentation logique)
ni sous l’effet d’une persuasion (argumentation
rhétorique), mais elles sont co-construites»
(PLANTIN, C., 1998, «L’interaction
argumentative» in Dialoganalyse
VI, Tübingen, Max Verlag, p.
153).
13
Vai no mesmo sentido a afirmação de Willard
quando fala do aparecimento dos argumentos: «arguments,
then, are ‘emergent’. We make them up as we go
along» (Willard, C. A., 1989, A
Theory of Argumentation,
Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 67).
14
«Il importe en effet de ne pas confondre
l’opposition entre discours — entre actants —
et les éventuelles collaborations ou conflits entre
personnes — entre acteurs. La situation de
l’argumentation telle qu’elle vient
d’être définie n’est conflictuelle que
lorsque les acteurs s’identifient aux rôles
argumentatifs. (…) Par des raisons théoriques et
empiriques, la polémicité n’est donc pas
inhérente à l’argumentation. Elle survient
fatalement, semble-t-il, lorsque les acteurs étant
stabilisés sur les positions d’actants, les
discours jouent un rôle essentiel dans la structuration
des personnes des argumentateurs» (PLANTIN, C.,
«Analyse et critique du discours argumentatif» in
KOREN, Roselyne e AMOSSY, Ruth (Org.), 2002, Après Perelman: quelles politiques pour les
nouvelles rhétoriques?,
Paris, L’Harmattan, p. 231).
15
É assim que Ruth Amossy, na esteira de Jean-Blaise
Grize, engloba na sua definição de
argumentação a possibilidade desta visar apenas a
reflexão. Eis a sua definição de
argumentação: «les moyens verbaux
qu’une instance de locution met en œuvre pour agir
sur ses allocutaires en tentant de les faire adhérer a
une thèse, de modifier ou de renforcer les
représentations et les opinions qu’elle leur
prête, ou simplement de susciter leur réflexion
sur un problème donné» (Amossy, Ruth, 2006, L’argumentation dans le discours, Paris, Armand Colin, p. 37). Neste sentido a
definição de argumentação afasta-se
da necessidade de a ligar a uma finalidade resolutiva que visa
poder decidir de que lado está a razão.
16
Sobre a noção de «estratégia
discursiva» escreve Jacques: «J’appelle
‘stratégie discursive’ une séquence
d’interactions communicatives en tant qu’elles
construisent peu à peu leur contexte pragmatique»
(JACQUES, F., «Argumentation et stratégies
discursives» in LAMPEREUR, A. (Ed.), 1991, L’argumentation, Mardaga, Liège, p. 156). De acordo com esta
ideia, a dimensão resolutiva de uma
argumentação pode constituir-se como um dos seus
contextos pragmáticos possíveis, mas não
tem de ser colocada, como por exemplo acontece na
pragma-dialéctica, como a finalidade da argumentação. Por
outro lado, numa argumentação, dos seus contextos
pragmáticos fazem também parte as
situações específicas em que esta pode
ocorrer. É assim que uma argumentação
desenvolvida num tribunal está condicionada quer pelo
carácter institucional das regras que a regulam, quer
pela finalidade resolutiva em que é enquadrada quer,
ainda, pelas consequências pessoais que resultam das decisões aí
tomadas. Ainda que o modelo jurisprudencial tenha servido de
inspiração àqueles que delimitaram o campo
da argumentação (Perelman e Toulmin), em nosso
entender ele revela-se demasiado restrito para uma
teorização abrangente da
argumentação. Na realidade, a
argumentação engloba problemas mais latos do que
os da decisão conforme regras institucionais que visam
determinar de que lado está a razão, sendo, na
sua generalidade máxima, uma forma interactiva de
tematizar assuntos em questão. Assim, por exemplo,
procurar mostrar a alguém o sentido de uma determinada
perspectiva, não tendo de originar uma decisão ou
uma resolução, não deixa de convocar uma
interacção argumentativa.
17
E, neste sentido, o discurso, linguisticamente considerado,
fornece determinadas instruções para aceder a
esse nível impessoal. Assim, por exemplo, o uso de um
«mas», ou de um «logo» (a que os
teorizadores da argumentação da língua
chamam «marcadores» ou «operadores»
argumentativos) fornece indicações do sentido do
discurso independentemente de quem o proferiu. Interpretamos a
partir desta distinção entre o plano impessoal e
o plano pessoal a diferença radical que Ducrot
propõe entre a argumentação
linguística e a argumentação
retórica (cf. DUCROT, O., «Argumentation
rhétorique et argumentation linguistique» in
DOURY, M. e MOIRAND, S. (Org), L’argumentation
aujourd’hui. Positions théoriques en confrontation, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle).
18
Grize distingue, a este respeito, entre «receber»,
«aceitar» e «aderir», remetendo cada
uma destas operações para a
satisfação de condições
específicas (cf. Grize, J.-B., 1997, Logique
et langage, Paris, Ed. Ophrys, p.
73).
19 «a)
Point de départ: une description de ce don’t il
s’agit.
b) Par dénivellations sucessives,
réponses à des questions ouvertes, donc
délimitation du champ de ce don’t il s’agit.
c) Réponses à des questions
fermées.
d) Conclusion qui se détache: la
réponse qui reste» (Grize,
J.-B., «Raisonner en
parlant» in, MEYER, M. (Ed.), 1986, De
la métaphysique à la rhétorique, Bruxelles, Éditions de
l’Université de Bruxelles, p. 54).
20
«L’idée [de Michel Meyer] en est que tout
énoncé est réponse à une question,
Dès lors lui donner un sens ‘consiste à
questionner une réponse en tant que telle’ (Meyer,
1986, p. 242). (…) Mais il est clair que le plus souvent,
et lorsqu’on est en présence d’une
schématisation tout entière, le nombre des
questions auxquelles il est possible d’y avoir une
réponse est illimité» (Grize, J.-B., 1996, Logique naturelle & communications, Paris, P.U.F., p. 118).
21
Vão também no sentido da insuficiência
deste par as palavras de Moisés de Lemos Martins quando
afirma que «talvez haja que contrapor a Meyer que a
plenitude da comunicação não se confunde
com o par questão/resposta, mas que, pelo
contrário, se trata de um fenómeno de
intricação semântica muito mais
íntima» (MARTINS, Moisés de Lemos, 2002, Semiótica em
http://hdl.handle.net/1822/996, p. 102).
22
«It is therefore strange that even today there are
discourse grammars that only operate at the
‘linear’ level of subsequent sentences or
propositions, and ignore the crucial global structures
(macrostructures, superstructures) that define the overall
meaning and form of texts» (DIJK, Teun A. van, 2004, From text grammar to critical discourse
analysis in http:
//www.discourses.org/OldArticles/From%20text%20grammar%20to%20critical%20discourse%20analysis.pdf).
23
DIJK, Teun A. van, 2005, Discurso,
Notícia e Ideologia. Estudos na Análise
Crítica do Discurso, Porto,
Campo das Letras, p. 65.
24
Segundo van Dijk um dos conceitos fundamentais da
análise semântica do discurso é o de
«coerência». Como é que o sentido das
proposições se conjugam no discurso? A esta
pergunta responde o seguinte: «We may study such coherent
relations for sentences that immediately follow each other (the
micro level of analysis) but also for the meaning of discourse as
a whole (macro level of analysis). In both cases we in fact are
explaining what makes discourse meaningful, and how a discourse is different from an
arbitrary (incoherent) set of sentences» (DIJK, Teun A.
van, «The Study of Discourse» in Dijk, Teun A. van (Ed.),
1997, Discourse Studies. A
Multidisciplinary Introduction. Vol.
1: Discourse as structure and
process, London, Sage Publications,
p. 9).
25
«Une schématisation apparaît ainsi non
tellement comme l’expression discursive d’un sens
que comme une sollicitation à construire un sens.
(…) Une schématisation donnée
n’autorise pas n’importe quelle
interprétation. Ses sens possibles sont limités
par la signification de chacun de ses termes, en même
temps qu’il son conduits par les cotextes, soit ce qui
précède et ce qui suit chaque
énoncé» (Grize, J.-B., 1996, Logique
naturelle & communications,
Paris, P.U.F., p. 118).
26
Escreve Plantin: «Les interactions fortement
argumentatives reposent sur un différend qui
présente des caractéristiques spécifiques:
(…) il est thématisé dans
l’interaction» (Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 56).
27
Essa é uma abordagem proposta por Jean Goodwin,
nomeadamente em GOODWIN, Jean, 2007, «Argument Has No
Function» in Informal Logic, vol. 27, n.º1, pp. 69-90.
28
É neste sentido que Willard observa, a propósito
da argumentação, que «the highest-order
construct for epistemic purposes is ‘communication’
and its subordinate notion is
‘perspectivity’» (WILLARD, C. A., 1983, Argumentation and the Social Grounds of
Knowledge, Alabama, The University
of Alabama Press, p. 4).
29 A
questão, aqui, é: se quero pronunciar-me sobre um
assunto em questão, com que recursos organizarei o meu
discurso? É óbvio que, neste ponto, a
formação académica e cultural, as
competências intelectuais, os níveis de
informação de que se dispõe, as
capacidades oratórias e muitos outros factores
são essenciais na concretização desta
tarefa, o que mostra bem que a competência argumentativa
nunca se pode reduzir a uma questão de competência
técnica especializada.
30
Do ponto de vista da semântica do discurso é
também interessante referir que alguns teóricos
consideram como fundamental numa interacção
verbal o controlo de quatro tipos de organização
da informação; a organização
retórica, a organização referencial, a organização
temática e a organização da
atenção. A primeira
diz respeito às finalidades do discurso e é
importante na medida em que constrange a produção
do conteúdo proposicional do discurso e a
interpretação de quem o recebe; a segunda diz
respeito aos interlocutores, àquilo que lhes é
comum na interacção, e é importante para
saberem do que estão a tratar; a terceira remete para o
que é nuclear e periférico e é essencial
para o fio condutor da interacção; a quarta diz
respeito à atenção e é importante
para situar os passos que se dão no contexto devido (cf.
Tomlin,
Russell S., Forrest, Linda, Pu, Ming Ming e Kim, Myung Hee «Discours Semantics», in Dijk, Teun van
(Ed.), 1997, Discourse as
structure and process, Sage
Publications, pp. 66 e seguintes). Para estes autores há
também três níveis de coerência em
que se podem situar as interacções discursivas: o
da coerência global, o da coerência
episódica e o da coerência local.
31
«l’approche descriptive, non moins que
l’approche normative, se veut une contribution à
la critique de l’échanges verbaux pris dans leurs
dimension d’interaction sociale. (…)
l’analyse argumentative s’appuie sur
l’idée que la mise à plat d’un fonctionnement discursif
est aussi une mise au jour, sinon un dévoilement, de la
façon dont il tente d’agir sur le partenaire. En
d’autres termes, l’analyse serait en
elle-même un outil critique» (Amossy, Ruth, 2006, L’argumentation dans le discours, Paris, Armand Colin, p. 19).
32
«Peut-on, par l’analyse linguistique et
argumentative, montrer qu’un discours en langue naturelle
est un discours fallacieux?» (PLANTIN, C., «Analyse
et critique du discours argumentatif» in KOREN, Roselyne
e AMOSSY, Ruth (Org.), 2002, Après
Perelman: quelles politiques pour les nouvelles
rhétoriques?, Paris,
L’Harmattan, p. 232).
33
«Peut-on, par l’analyse argumentative montrer
qu’un discours — par exemple un discours sexiste,
raciste… — est un mauvais discours (faux,
manipulatoire…)?» (PLANTIN, C., «Analyse et
critique du discours argumentative» in KOREN, Roselyne e
AMOSSY, Ruth (Org.), 2002, Après
Perelman: quelles politiques pour les nouvelles
rhétoriques?,
L’Harmattan, p. 237).
34
É, por exemplo, o caso de um famoso texto de Hitler no
qual, partindo da ideia de que na natureza as espécies
não se misturam, procura concluir que é da ordem
da natureza as raças também não se
misturarem (cf. Hitler, Mein Kampf, vol.1, cap. 11 (Nation and race) in http:
//www.hitler.org/writings/Mein_Kampf/).
35 É
nesse sentido que na avaliação de um
exercício de matemática certos erros podem
não significar uma deficiência no modo de
raciocinar.
36
«I advocate that Argumentation scholars use fallacy as a narrow
term of art whose source of authority is logic and not as an
all-encompassing term for every condemnation critics might wish
to make. This claim does not stem from a preference for narrow
versus broad definitions (I argue bellow that recent fallacy
models are only apparently broad) but from the belief that fallacy is an
appropriate label for moral, procedural, and relational
defects. This flaws may be condemnable, but fallacy label misstates
the authority behind such condemnations» (Willard, C. A.,
1989, A Theory of Argumentation, Tuscaloosa/London, The University of Alabama
Press, p. 220).
37 É
aliás para este estreitamento que contribuem as normas
institucionalizadas em que o que está em questão
não é discutir mas aplicar regras, ou seja, ver o
que é que se aplica a cada caso específico. Mas,
ainda assim, se a própria aplicação de
regras permite aproximar os processos argumentativos a
finalidades resolutivas «racionais», nem por isso
uma tal aplicação se limita a uma mecânica
do raciocínio.
38
É para esta orientação que aponta a
perspectiva da chamada «lógica informal»,
tal como ela é desenvolvida, nomeadamente, nos trabalhos
de Johnson e Blair (cf. Johnson, R.H. & Blair, J. A., 2005, J.A., Logical Self-Defense, NY,
IDEBATE PRESS).
39
É preciso, contudo, considerar o discurso no
âmbito mais lato da comunicação, nele
incluindo quer aspectos verbais, quer aspectos paraverbais.
Esta é uma posição defendida por Willard
quando afirma que «arguers, like all communicators, use
any or all of the communication vehicles available to them:
serial predication, claiming, and reasoning-giving, as well as
proxemic, paralinguistic, gestural, and facial clues. Once we
have an argument anything used to communicate within it is germane to an
analysis of how the argument proceeds and how it affects the
arguers. (…) My answer is a package deal: any of the
symbolic activities going on in an argument may affect its
progress and outcomes» (Willard, C. A., 1989, A
Theory of Argumentation,
Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 92).
Plantin refere-se também a este aspecto inventariando um
conjunto de procedimentos paraverbais característicos da
manifestação de uma dissensão no decorrer
de uma conversação (tentativa de tomar a palavra
e recusa do outro lha ceder, aparecimento de cruzamentos entre
turnos de palavra, aceleração do débito,
etc.) (Cf. Plantin, C., 2005, L’argumentation, Paris, P.U.F., p. 56).
40
Sobre a metadiscursividade, escreveram RISSO e JUBRAN que
«a propriedade básica particularizadora da
metadiscursividade é a da auto-reflexividade do discurso:
este elabora-se focalizando-se a si mesmo, pela
conjunção do que é dito com o acto de
dizer. Por reportar o discurso ao acto de
enunciação que o cria, auto-referenciando-se, o
metadiscurso constitui-se simultaneamente como discurso e como
glosa sobre o discurso» (RISSO, Mercedes Sanfelice e
JUBRAN, Clélia Cândida A. Spinardi, 1988, Self-reflexive discourse: Metadiscoursive
processing of the text. DELTA.
[online]. 1998, vol. 14, no. spe [cited 2007-07-19]. Available
from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=
sci_arttext&pid=S0102-44501998000300015&lng=en&nrm=
iso>. ISSN 0102-4450.). Neste plano são importantes
os prefaciadores metadiscursivos (como por exemplo:
«Tomaremos agora em consideração», os
recursos tematizadores (como por exemplo: «No que diz
respeito a») e os demarcadores perspectivos (como por
exemplo: «com isto oponho-me a»), não
só no desenho dos assuntos como na
explicitação de uma posição
relativamente a um assunto em questão.
41
«La discussion précédente tend à
substituer à ces divers systèmes [o
critério do auditório e a teoria das
falácias] une approche immanente du dialogue, où
la seule norme du discours est un contre-discours»
(PLANTIN, C., «Analyse et critique du discours
argumentatif» in KOREN, Roselyne e AMOSSY, Ruth (Org.),
2002, Après Perelman:
quelles politiques pour les nouvelles rhétoriques?
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