|
Livro
(parte)
|
![]() |
||||||||
|
|
|||||||||
|
|
|||||||||
![]() |
|
|
|||||||
|
Rui Grácio
quando escrevo, escrevo assim
in Guardador
de percursos, Pé de
Página Editores, Outubro de 2003, 120 pp.
A escrita é como que um compromisso
a passar de uma ideia ou intuição que pela sua
novidade se afigura prometedora ao desenrolar e ao estruturar
de um pensamento. Passar de um «e se?» luminoso,
que assinala a irrupção de um não pensado,
de um nunca visto dessa maneira, a um «como se», em
que se desenrola o processo de reformulação das
inteligibilidades habituais que, pela mudança de
pressuposto suscitado pela novidade da ideia, se tornaram,
entretanto, problemáticas, insuficientes ou
desinteressantes.
Mas se a escrita é, no seu primeiro
e mais espontâneo ímpeto, compromisso a que algo
de diferente seja pensado, aprofundado nas suas
consequências ou explorado na sua fecundidade, nada
garante que a adopção desse novo ponto de
partida, entretanto acolhido como hipótese de trabalho,
seja uma boa pista. É esta falta de garantia que confere
à escrita a sua dimensão ensaística, no
que isso tem de experimentalismo, de se ser capaz de operar o
trânsito entre a esfera da interrogação ou
suspensão do que se pressupunha, para a esfera das
consequências problematicamente sustentáveis que o
discurso procurará arquitectar.
Escrever «como se», fazer da
escrita topos guerreiro de uma consistência suposicional.
Até porque a fecundidade dessa ideia, que parece
prometedora, tem de ser averiguada, trabalhada, amadurecida,
reflectida na pertinência das suas
implicações. Essa ideia que nos desafia e conduz
ao ímpeto inicial da escrita, e que com o corpo da
escrita procuramos agarrar, impedindo-a de se volatilizar, tem
pois de ser retomada. Ela é escrita para que se possa
tornar palpável e para que a visibilidade do seu desafio
perdure, assumindo de certa forma uma dimensão
transpessoal, uma autonomia própria — ela
já não é uma ideia que eu tive mas uma
possibilidade que se me coloca e, mais precisamente, que
«se coloca». Constitui-se, por isso mesmo, como
algo que insistentemente polariza o pensamento, que faz pensar,
que suscita correspondência. Ela não está
aí para ser tratada como objecto estético, mas
como provocação à capacidade e à
necessidade humana de criar conceitos, de fazer conceptualmente
mundos, de construir novas inteligibilidades. Ela sugere
caminhos que não podem, contudo. ser abertos
senão à custa da própria caminhada.
Insinua direcções que não podem ser
referenciadas senão pela via da rede conceptual que
mapeia os percursos. É preciso que as pistas se
concretizem na fecundidade do percurso. Do ímpeto que
nos levou à escrita, segue-se o trabalho da
construção textual.
Na luta por encontrar o justo uso da
linguagem, a expressão certa, a formulação
precisa, a articulação satisfatória, a
transparência máxima, o estilo pretendido, leio,
releio, risco, repenso, reescrevo, regresso ao anterior,
altero, reformulo e, de todo este exercício, vão
brotando novas ideias, novos fragmentos de texto, novas pistas,
adensando-se os níveis de problematicidade, tornando-se
o pensamento mais cirúrgico e mais incisivos os
conceitos, encaminhando-se a acuidade cada vez mais para um
plano de crescente meticulosidade.
Páro, fecho a loja e retomo no dia
seguinte, de preferência logo pela manhã ou
então à noite. Ou então daí a
alguns dias, procurando recuperar, através deste
distanciamento temporal, a ingenuidade do primeiro leitor que,
como pela primeira vez, contacta com a sonância do texto
e se expõe aos seus efeitos de ressonância,
acentuando ainda mais a autonomia e a alteridade do já
escrito.
Mas aonde diabo queria eu chegar com isto?
Por vezes fico decepcionado e apetece-me desistir. Outras vezes
fico excitado, como que de novo assaltado pela
inspiração, e aponto a adrenalina à
continuação da escrita.
Os humores não estão
ausentes deste processo. Às vezes encaro o acto de
escrever como algo de extremamente sério e da maior
importância, sendo levado a um estado de
hiperconcentração em que qualquer
interrupção é desesperante. Outras vezes
humorizo e escrevo com um sorriso jocoso nos lábios.
Às vezes rio-me sozinho. Nesta alternância, vou
passando por vários estados, do orgulho e
satisfação pelo que já se me afigura ser
obra, ao escárnio e desdém pelo que no
mínimo me parece ser patético. Qualquer dos casos
— o excessivo convencimento ou a sensação
de ridículo — leva-me frequentemente à
necessidade de procurar a opinião alheia e, de
impressão em punho, lá vou massacrar os ouvidos
da minha paciente mulher ou de um amigo ou amiga mais
próximos. O exercício revela-se geralmente eficaz
e faz-me recuperar uma certa serenidade: percebo que uns
compreenderão mais e outros menos, que o que escrevi
é o que é, tem a importância que tem, que a
alguns passará completamente ao lado e a outros se
afigurará interessante. Que, a outros ainda, mais ou
menos antes pelo contrário. Sou assim, ainda que por
vezes com reforços psicológicos
consideráveis (que quem sabe poderão originar uma
dedicatória), remetido à solidão que o
acto da escrita parece intrinsecamente comportar, para a
evidência de que escrever é assumir uma tarefa em
que as decisões são sempre, em última
análise, solitárias, anteriores a qualquer
partilha. Volto à escrita consciente de que o que nela
está em jogo é também a
assumpção da minha incontornável
contingência e da minha misteriosa singularidade. E de
que escrever, compreendo-o agora de uma forma mais
lúcida, é uma maneira de me embrenhar nesse
mistério de uma forma tacteante, um acto que desafia a
segurança do anonimato, um risco de me descobrir
algures, em algo que nunca ousei ou me aconteceu pensar e que
não sei se alguma vez foi pensado. A
percepção de que escrevo sem rede causa por vezes
a sensação de vertigem, mas provoca também
a ímpar sensação de uma fusão
auroral do pensamento e da linguagem no que isso tem de mais
pujante e avassalador. A calma regressa com o estado de
exaustão que se vai instalando. E o corpo lembra que
precisa de dormir.
Acordo sobressaltado, como que de novo
parametrizado pela bitola da normalidade, e a censura quase me
impele compulsivamente a livrar-me do fruto espúrio do
meu devaneio insensato da noite anterior. Resisto,
reivindicando um valor testemunhal e estético ao que
escrevi. Mesmo que não faça nenhum sentido,
é pelo menos o testemunho de uma experiência e
algo que pode ser contemplado e apreciado do ponto de vista
estético. Pode não ser filosofia, mas quem sabe
não é um agradável pedaço de
literatura ou uma interessante prosa poética. Os
argumentos vingam e evitam a destruição do
ficheiro. É mantido no computador que, desde que os
dedos ganharam a agilidade do teclado, se tornou o local
privilegiado de escrita. É asséptico — o
que no papel surgia como emendas, rasuras, riscos e gatafunhos,
no computador, dada a versatilidade do teclado, do rato e do
monitor é, pura e simplesmente, corrigido. Torna-se
então fácil aceder a um texto sem outros
ruídos que não as imensas gralhas que nele
ficaram disseminadas, resultantes de uma
digitação apressada, mais preocupada e
concentrada em acompanhar o pensamento e os seus insights do
que com a correcção gramatical ou de estilo do
que ficou escrito. Esses aspectos farão parte de uma
outra cerimónia a que me referirei adiante e que designo
frequentemente como o «mascarar do morto» —
todo o caminho de preparação das várias
impressões do documento até à
assumpção da sua impressão final e
definitiva na lisura do papel branco.
Por outro lado, o computador é
perfeitamente compatível com o meu modo soluçante
e algo caótico de escrever. Permite-me tornar a escrita
mais próxima da velocidade do pensamento, anotar ideias
ou expressões que repentinamente assomam ao
espírito de uma maneira intempestiva e fragmentada e
retomá- -las posteriormente de uma forma
ordenada, inserindo-as devidamente na cadeia textual. Para
além de que é preciosa a possibilidade, na
releitura que constantemente vou fazendo — seja
através do monitor ou do papel impresso onde logo
começo a garatujar —, de poder enxertar novos
fragmentos que aqui e ali são oportunos, completar ou
desenvolver partes que ficaram menos explícitas ou foram
menos aprofundadas, ou estabelecer soluções de
continuidade onde existiam hiatos indesejáveis. Ah!
Não esquecer de gravar.
Faço uma impressão do que
até ali escrevi. Procedo a uma última leitura,
já um pouco sonâmbula, antes de me ir deitar.
Acompanho-a com a solenidade do último cigarro.
Às vezes não resisto e a leitura faz-me retomar
por mais algum tempo a escrita, com ânimo inesperadamente
reforçado. Mas o relógio começa a avolumar
o stress. Amanhã tenho muito que fazer… De
qualquer forma, vou dormir sobre o assunto. Pode ser que o
trabalho nocturno seja produtivo.
Verifico, no dia seguinte, que parece que
não foi. Pelo contrário. Sinto-me vazio e sem
tónus intelectual. Quero pensar e não vem nada de
jeito. Fico num estado de ligeira irritação e
volta e meia encontro-me perdido com o olhar prostrado no
infinito. Como se estivesse a pensar sem estar a pensar em
nada. Sou obrigado a regressar ao finito pela
solicitação de um dos filhos que me pede ajuda
para uma tarefa, ou pelo toque da campaínha do telefone,
ou por um outro chamamento qualquer. Mas, ciclicamente, caio de
novo nesse olhar distante e aparentemente letárgico que
faz com que os presentes me acenem com a mão à
frente dos meus olhos. Sorrio e atendo ao pedido. Mas vou
suspeitando, gradualmente, que devo estar em fase de
incubação.
Todavia, para tudo há um tempo
útil, seja ele imposto como regra do jogo, como limite
da paciência ou do interesse, ou como a própria
finitude da existência humana. E em função
do tempo útil é habitual estabelecerem-se
objectivos. A inspiração, ou a
disposição para a acolher, irmana-se então
com a necessidade de trabalhar para, independentemente de por
ela sermos mais ou menos bafejados, conseguirmos
alcançar objectivos. É tempo de se mostrar o que
se vale. É tempo de concretizar. De sermos
pragmáticos. Com mais ou com menos genialidade, com
maior ou menor mestria, há que apresentar trabalho.
Até porque, para além do
ímpeto pessoal que leva a escrever, a escrita de um
texto filosófico deve-se muitas vezes a exigências
relacionadas com a progressão de uma carreira
académica ou deriva da vontade de responder a uma
solicitação que nos foi endereçada. Por
exemplo, de um convite para participar num colóquio,
para fazer uma conferência, para organizar um
seminário, para colaborar num livro, para dar um parecer
sobre algo, para escrever um artigo de jornal, para prefaciar
um livro, para elaborar uma dissertação, etc. Em
todos esses casos vemo-nos confrontados com a necessidade de
lidar com prazos bem precisos, com temáticas
pré-definidas e com limites que impõem que o
texto não ultrapasse x número de páginas
ou que a sua apresentação não demore mais
do que x minutos. E a questão que então se coloca
é a de saber o que é que poderemos e seremos
capazes de fazer.
A espontaneidade do acto de
criação filosófica não se pode
refugiar agora naquela paciência intemporal que —
geralmente associada à crença na perenidade de
grandes questões que sempre se colocaram e
colocarão ao Homem — acaba por fazer com que os
filósofos, falando de tudo, sobre nada se pronunciem,
como tão bem observava Paul Nizan ao acusar a filosofia
de estar demissionária e os filósofos de
não se quererem decidir.
As situações em que a
especificidade dos contextos, na sua concretude e
contingência, obriga a que nos decidamos, a que
equacionemos as problemáticas e a que propunhamos
respostas, acabam por conferir uma dimensão
prática à escrita filosófica, suscitam-lhe
eficácia e despertam-lhe a consciência da sua
incontornável responsabilidade política. Para
além da dimensão privada de
criação, assoma agora um aspecto público,
de intervenção, de eficácia, uma vertente
estratégica que de modo algum pode ser indiferente
à pessoa que escreve. Mas será isso ainda escrita
filosófica? Estaremos ainda no domínio do ensaio
filosófico? — levarão velhos e anquilosados
preconceitos a perguntar. Seguramente que sim. Até
porque a própria criação de conceitos que
marca a originalidade das filosofias não é
desenraizada, alheia ao tempo em que se vive e às sua
referências. Ela está frequentemente associada a
diagnósticos e é em função deles
que propõe os seus caminhos. O pensamento que vale
é sempre estratégico e o seu valor não
pode ser dissociado das aplicações a que conduz
— seja uma tomada de posição sobre este ou
aquele assunto concreto, seja uma orientação da
acção para que remete e que prepara.
De qualquer forma, e no que diz respeito
à escrita, estamos aqui perante uma nova faceta: a da
dimensão argumentativa do texto filosófico. Deste
ponto de vista, à tarefa de escrever passam a acrescer
necessidades especificamente críticas, como a de
proceder a uma formulação rigorosa das
problemáticas e dos problemas — ou seja, mostrar
da forma mais cristalina e explícita possível o
que é que está em questão —, a de
analisar as perspectivas que sobre essa problemática
são já do domínio público, a de
sintetizar e avaliar as argumentações em que
essas perspectivas se estribam, a de as discutir apontando-lhes
aspectos não satisfatórios ou questionando-
-lhe a fecundidade, a de argumentar a favor de
uma perspectiva própria.
Todas estas tarefas evidenciam a
interacção da escrita do ensaio filosófico
com um necessário trabalho de investigação
e de pesquisa que se tem de levar a cabo, obrigam a uma intensa
actividade hermenêutica relativamente aos textos ou obras
recolhidas, suscitam, por vezes, o recurso a bibliografias
adicionais que ajudem a aprofundar e a consolidar a nossa
leitura e interpretação, exigem períodos
de digestão, por vezes excessivamente prolongados do
ponto de vista dos prazos em que temos de apresentar trabalho.
No entanto, solitário, o trabalho
de escrita nada tem de solipsista. A começar na
presença fundamental da biblioteca que o coadjuva e
lança todo o escrito na complexa rede da
intertextualidade. Quando escrevo, dialogo constantemente com
essa biblioteca onde se acumulam referências, onde se
organizam temáticas, onde elejo livros de
selecção, onde retomo pistas. Espécie de
fundo de maneio filosófico, ela fornece-me de imediato
pontos de partida para o meu trabalho. Não raramente
suscita uma volta pelas livrarias ou por bibliotecas
institucionais, fruto da necessidade de
actualização ou de ampliação dos
recursos de que disponho.
Os livros começam então a
empilhar-se na minha secretária, como que aguardando, em
lista de espera, a sua leitura ou releitura. Retomo marcas e
sublinhados já feitos e assinalo com vigor novos pontos
de interesse. Por vezes limito-me a assimilar ideias que neles
encontro. Outras vezes, importo-as para a cadeia do meu texto
sob a forma de citação.
O texto vai ganhando forma. Surgem-me
ideias mais precisas sobre a sua estruturação.
Este título aqui, aquela subdivisão ali. Ou
então a primeira ideia de um índice. Será
concerteza reformulado vezes sem conta, mas o momento da sua
primeira elaboração assinala nitidamente uma
vitória, diz-me que já estou lançado em
pleno trabalho e que a angústia, a ansiedade e a
insegurança iniciais se tornaram muito menos
ameaçadoras. Já consigo agora alternar
razoavelmente os momentos em que a escrita é padecimento
de parturiente com momentos em que a focalização
da abordagem incide essencialmente sobre aspectos formais.
Depois de várias leituras trato de
fazer ou de reformular a introdução e a
conclusão, caso as haja. Nesta tarefa assume
relevância explícita a questão do
auditório a que o texto se dirige, questão que
aliás percorre sempre toda a escrita, nem que seja
apenas de uma forma latente, a começar pelos jogos de
linguagem e pelo uso da língua em que se escreve.
É diferente escrever um texto para
ser apresentado no âmbito de um colóquio, por
exemplo, de um texto destinado à
publicação. No primeiro caso, temos desde logo um
contexto que permite antecipar expectativas, que insere a
comunicação dentro de determinadas finalidades,
que baliza, com maior ou menor clareza, o sentido da abordagem
das temáticas em questão. Não é
também de somenos importância a possibilidade de
presumirmos que quem vai a esse colóquio se coloca desde
logo numa posição de interesse. O que faz que,
quando se escreve, haja também por parte do autor uma
preocupação em corresponder a esse interesse e em
não defraudar expectativas, intenção que
pode, além do mais, encontrar na oralidade uma preciosa
aliada. É que, e independentemente do texto escrito
poder ser tornado acessível aos elementos do
auditório, a sua apresentação é
feita oralmente, o que possibilita uma interacção
constante com esse auditório. Já no caso da
publicação as coisas se complicam.
Na sua crítica da palavra escrita,
Platão enfatizava as debilidades desta dizendo que a
escrita é um mestre que fala mas não responde,
é uma forma indirecta de comunicação,
não se explica ou defende por si mesma de más
interpretações e não pode escolher os
destinatários. Vítima de orfandade ela vagueia
por entre auditórios que não conhece e que dela
se podem apropriar indevidamente. Ora, justamente, isso
só evidencia que o grau de exigência de um
discurso escrito é diferente do do discurso oral. Este
pode ser secundado pela vivacidade da voz e dos gestos, aquele
tem de valer por si e a sua fixação torna-o
irreversível. Este dilui-se na efemeridade de um
acontecimento, aquele destina-se a perdurar, a ser retomado e
relido. Além do mais a intencionalidade do autor
é subtraída à voz e passa a estar exposta
à incontornável hermenêutica textual que
acompanha toda a leitura. Por detrás do texto deixa de
haver um eu captável na sua intencionalidade; o que
há, são signos que dão que pensar.
Será que foi isso que o autor quis dizer? Esse
«isso», na estranheza que lhe é
própria, permanecerá seguramente fugidio,
retraído a uma captação plena. Ele
será o que é, mas só na versão que
o interpreta. Ser para a leitura, o escrito torna-se
disseminante e a coisa de que fala diferirá em cada uma
das interpretações que lhe dão vida.
O mutismo da escrita, essa impossibilidade
de um texto se dizer a si mesmo por voz própria depois
de escrito, relega o autor para uma posição de
primeiro leitor, aquele cujas exigências perante o texto
são máximas. Ele procurará
desesperadamente fazer coincidir aquilo que vai lendo com
aquilo cuja leitura consumaria a visibilidade conceptual a que
procura dar corpo, e só a proximidade desta
coincidência do texto e da retoricidade da
criação conceptual lhe poderá dar algum
descanso. Até lá, e nada garante o êxito,
é toda uma luta solitária em que se pensa com a
escrita, na escrita, interagindo com ela.
Os comentários de que possa ser
alvo, as discussões que possa originar, os debates que
eventualmente gerará, tudo isso é duma natureza
diversa das exigências da criação
conceptual que conduziram à escrita. Percebe-se a
passagem de Deleuze/Guattari:
«Todo o filósofo foge quando
ouve a frase: vamos discutir um pouco. As discussões
são boas para as mesas redondas, mas é sobre uma
outra mesa que a filosofia lança os seus dados cifrados.
Das discussões, o mínimo que se pode dizer
é que não fariam avançar o trabalho,
porque os interlocutores nunca falam da mesma coisa. Que
alguém tenha tal opinião e pense isto em vez
daquilo, o que é que isso pode interessar à
filosofia, enquanto os problemas em jogo não forem
ditos? E quando são ditos, já não se trata
de discutir, mas de criar indiscutíveis conceitos para o
problema que se assinalou. A comunicação vem
sempre demasiado cedo ou demasiado tarde, e a conversa, sempre
a mais, relativamente ao criar. (...). A filosofia tem horror
às discussões. Ela tem sempre mais que fazer. O
debate é-lhe insuportável, não porque ela
esteja demasiado segura de si: pelo contrário,
são as suas incertezas que a arrastam para outros
caminhos mais solitários.»1
Incertezas que seguramente cruzam para
lá do discurso opinativo que pulula em torno da
racionalidade ou da razoabilidade das opiniões, que
aceita, em atitude liberal, a riqueza da multiplicidade de
pontos de vista para logo em seguida procurar ver quem tem
razão.
Que o diálogo, o debate e a
reflexão possam ser estimulantes, ninguém o
contestará, mas uma coisa é discutir ideias,
outra é a instauração de novas
conceptualizações, de novas
tematizações de problemas, de retóricas e
vocabulários irredutíveis a uma mesma linguagem
ou, como escreve Rorty, a propósito da
«contingência da linguagem», a um
«metavocabulário que de algum
modo dê conta de todos os vocabulários
possíveis, de todas as maneiras possíveis de
julgar e de sentir»2
A discussão de assuntos é
sempre solidária do discurso opinativo. E, ainda que em
certos casos seja preferível ser capaz de discutir do
que o não ser, a discussão tanto pode dar para o
melhor como para o pior, não alcançando nunca,
todavia, a excelência.
As tematizações criadoras
são sempre incomuns, solidárias de
diagnósticos descodificadores, de análises e
propostas inauditas e portadoras de visibilidades
invisíveis; apresentam-se, por vezes, como geniais,
irmanando-se nessa sua genialidade com a arte. Eles contribuem,
não para que o pensamento pense o já pensado na
ilusão que que assim pensando se esclarece e toma
posições fundamentadas nos melhores argumentos,
mas sim para o alargamento do pensável, no que isso
significa de resistência à linguagem da tribo, no
que isso implica de fazer proliferar um diverso
irredutível ao diferente porque outra é a sua
linguagem e porque na construção da sua
dizibilidade, como enfatiza Nelson Goodman a propósito
da pluralidade de mundos,
«a compreensão e a
criação andam juntas»3
Retomo a batalha da escrita. Até ao
ponto em que a sensação do «é isso
mesmo» me autorize a morte do texto, a sua
fixação definitiva, o seu momento de
autonomização irreversível, o fim da
tensão sobre uma coisa que, apesar de nela me rever,
deixou já de ser minha.
Crente, pois, de que «já
há coisa», começo a compor a máscara
do morto e inicio as cerimónias fúnebres.
Faço impressões quase sucessivas. Verifico mais
uma vez a ortografia, confiro o número de
páginas, revejo o índice, atento a requisitos
formais que me impuseram, como o tamanho do corpo de letra, o
espaçamento da entrelinha, a listagem das
referências bibliográficas, o sumário, as
palavras-chave. Enfim, já ao som do acorde final,
despeço-me olhando-o uma última vez, procurando
sentir que levei ao limite as minhas capacidades e que, nesse
esforço máximo, lhe consegui a
perfeição possível. Se assim for, poderei
então atenuar o vazio do pós-parto com a
ténue satisfação de que valeu a pena.
Escreve Ramos Rosa:
«Coincidir
é talvez produzir o gesto
que nos apaga
para nos deixar
no limiar do mistério»4
Mas, o texto que escrevi, será
filosofia? Enquanto autor, a questão é-me
irrelevante. Comungará, provavelmente, desse ar de
família com que geralmente se reconhece o espaço
do filosófico: a falta de evidência, a
ambiguidade, a inconclusividade, o desfasamento relativamente
aos caminhos habituais dos discursos com que quotidianamente
comunicamos, a densidade conceptual e a complexidade
analítica, a frequência do gesto interrogativo e
problematizador, a utilização de um
vocabulário específico que torna os textos
deveras intrincados e pouco acessíveis, as dificuldades
de leitura que frequentemente provoca, a ausência de uma
razão de ser porque, em rigor, não serve para
nada nem nada prova.
Mas, como referi, isso pouca importa.
Porque, quando escrevo, escrevo assim. Sem ser minimamente
assaltado pela preocupação de saber se isso que
faço é, ou não, filosofia.
Notas
*
Texto escrito por ocasião da participação
no III Encontro de Didáctica da Filosofia, subordinado
ao tema O Texto e as aulas de
Filosofia, organizado pela
Associação de Professores de Filosofia e pela
Secção de Filosofia do Departamento de Pedagogia
e Educação da Universidade de Évora,
realizado no Anfiteatro do Colégio do Espírito
Santo, nos dias 22 e 23 de Outubro de 1998. Nessa iniciativa
participei como Coordenador do Seminário «A
escrita do ensaio filosófico».
1
G. Deleuze/F. Guattari,
Qu’Est-Ce Que la Philosophie?,
Les Editions de Minuit, Paris, pp. 32-33.
2
R. Rorty, Contingência,
Ironia e Solidariedade, Editorial
Presença, p. 19.
3
N. Goodman, Modos de fazer mundos, Edições ASA, p. 60.
4 A.
Ramos Rosa, A Intacta Ferida,
Relógio de Água, p. 82.
|
![]() |
||||||||
![]() |
|||||||||
|
|
|||||||||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|