Livro
(parte)
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Rui Grácio

quando escrevo, escrevo assim
in Guardador de percursos, Pé de Página Editores,  Outubro de 2003, 120 pp.

A escrita é como que um compromisso a passar de uma ideia ou intuição que pela sua novidade se afigura prometedora ao desenrolar e ao estruturar de um pensamento. Passar de um «e se?» luminoso, que assinala a irrupção de um não pensado, de um nunca visto dessa maneira, a um «como se», em que se desenrola o processo de reformulação das inteligibilidades habituais que, pela mudança de pressuposto suscitado pela novidade da ideia, se tornaram, entretanto, problemáticas, insuficientes ou desinteressantes.
Mas se a escrita é, no seu primeiro e mais espontâneo ímpeto, compromisso a que algo de diferente seja pensado, aprofundado nas suas consequências ou explorado na sua fecundidade, nada garante que a adopção desse novo ponto de partida, entretanto acolhido como hipótese de trabalho, seja uma boa pista. É esta falta de garantia que confere à escrita a sua dimensão ensaística, no que isso tem de experimentalismo, de se ser capaz de operar o trânsito entre a esfera da interrogação ou suspensão do que se pressupunha, para a esfera das consequências problematicamente sustentáveis que o discurso procurará arquitectar.
Escrever «como se», fazer da escrita topos guerreiro de uma consistência suposicional. Até porque a fecundidade dessa ideia, que parece prometedora, tem de ser averiguada, trabalhada, amadurecida, reflectida na pertinência das suas implicações. Essa ideia que nos desafia e conduz ao ímpeto inicial da escrita, e que com o corpo da escrita procuramos agarrar, impedindo-a de se volatilizar, tem pois de ser retomada. Ela é escrita para que se possa tornar palpável e para que a visibilidade do seu desafio perdure, assumindo de certa forma uma dimensão transpessoal, uma autonomia própria — ela já não é uma ideia que eu tive mas uma possibilidade que se me coloca e, mais precisamente, que «se coloca». Constitui-se, por isso mesmo, como algo que insistentemente polariza o pensamento, que faz pensar, que suscita correspondência. Ela não está aí para ser tratada como objecto estético, mas como provocação à capacidade e à necessidade humana de criar conceitos, de fazer conceptualmente mundos, de construir novas inteligibilidades. Ela sugere caminhos que não podem, contudo. ser abertos senão à custa da própria caminhada. Insinua direcções que não podem ser referenciadas senão pela via da rede conceptual que mapeia os percursos. É preciso que as pistas se concretizem na fecundidade do percurso. Do ímpeto que nos levou à escrita, segue-se o trabalho da construção textual.

Na luta por encontrar o justo uso da linguagem, a expressão certa, a formulação precisa, a articulação satisfatória, a transparência máxima, o estilo pretendido, leio, releio, risco, repenso, reescrevo, regresso ao anterior, altero, reformulo e, de todo este exercício, vão brotando novas ideias, novos fragmentos de texto, novas pistas, adensando-se os níveis de problematicidade, tornando-se o pensamento mais cirúrgico e mais incisivos os conceitos, encaminhando-se a acuidade cada vez mais para um plano de crescente meticulosidade.
Páro, fecho a loja e retomo no dia seguinte, de preferência logo pela manhã ou então à noite. Ou então daí a alguns dias, procurando recuperar, através deste distanciamento temporal, a ingenuidade do primeiro leitor que, como pela primeira vez, contacta com a sonância do texto e se expõe aos seus efeitos de ressonância, acentuando ainda mais a autonomia e a alteridade do já escrito.

Mas aonde diabo queria eu chegar com isto? Por vezes fico decepcionado e apetece-me desistir. Outras vezes fico excitado, como que de novo assaltado pela inspiração, e aponto a adrenalina à continuação da escrita.
Os humores não estão ausentes deste processo. Às vezes encaro o acto de escrever como algo de extremamente sério e da maior importância, sendo levado a um estado de hiperconcentração em que qualquer interrupção é desesperante. Outras vezes humorizo e escrevo com um sorriso jocoso nos lábios. Às vezes rio-me sozinho. Nesta alternância, vou passando por vários estados, do orgulho e satisfação pelo que já se me afigura ser obra, ao escárnio e desdém pelo que no mínimo me parece ser patético. Qualquer dos casos — o excessivo convencimento ou a sensação de ridículo — leva-me frequentemente à necessidade de procurar a opinião alheia e, de impressão em punho, lá vou massacrar os ouvidos da minha paciente mulher ou de um amigo ou amiga mais próximos. O exercício revela-se geralmente eficaz e faz-me recuperar uma certa serenidade: percebo que uns compreenderão mais e outros menos, que o que escrevi é o que é, tem a importância que tem, que a alguns passará completamente ao lado e a outros se afigurará interessante. Que, a outros ainda, mais ou menos antes pelo contrário. Sou assim, ainda que por vezes com reforços psicológicos consideráveis (que quem sabe poderão originar uma dedicatória), remetido à solidão que o acto da escrita parece intrinsecamente comportar, para a evidência de que escrever é assumir uma tarefa em que as decisões são sempre, em última análise, solitárias, anteriores a qualquer partilha. Volto à escrita consciente de que o que nela está em jogo é também a assumpção da minha incontornável contingência e da minha misteriosa singularidade. E de que escrever, compreendo-o agora de uma forma mais lúcida, é uma maneira de me embrenhar nesse mistério de uma forma tacteante, um acto que desafia a segurança do anonimato, um risco de me descobrir algures, em algo que nunca ousei ou me aconteceu pensar e que não sei se alguma vez foi pensado. A percepção de que escrevo sem rede causa por vezes a sensação de vertigem, mas provoca também a ímpar sensação de uma fusão auroral do pensamento e da linguagem no que isso tem de mais pujante e avassalador. A calma regressa com o estado de exaustão que se vai instalando. E o corpo lembra que precisa de dormir.
Acordo sobressaltado, como que de novo parametrizado pela bitola da normalidade, e a censura quase me impele compulsivamente a livrar-me do fruto espúrio do meu devaneio insensato da noite anterior. Resisto, reivindicando um valor testemunhal e estético ao que escrevi. Mesmo que não faça nenhum sentido, é pelo menos o testemunho de uma experiência e algo que pode ser contemplado e apreciado do ponto de vista estético. Pode não ser filosofia, mas quem sabe não é um agradável pedaço de literatura ou uma interessante prosa poética. Os argumentos vingam e evitam a destruição do ficheiro. É mantido no computador que, desde que os dedos ganharam a agilidade do teclado, se tornou o local privilegiado de escrita. É asséptico — o que no papel surgia como emendas, rasuras, riscos e gatafunhos, no computador, dada a versatilidade do teclado, do rato e do monitor é, pura e simplesmente, corrigido. Torna-se então fácil aceder a um texto sem outros ruídos que não as imensas gralhas que nele ficaram disseminadas, resultantes de uma digitação apressada, mais preocupada e concentrada em acompanhar o pensamento e os seus insights do que com a correcção gramatical ou de estilo do que ficou escrito. Esses aspectos farão parte de uma outra cerimónia a que me referirei adiante e que designo frequentemente como o «mascarar do morto» — todo o caminho de preparação das várias impressões do documento até à assumpção da sua impressão final e definitiva na lisura do papel branco.
Por outro lado, o computador é perfeitamente compatível com o meu modo soluçante e algo caótico de escrever. Permite-me tornar a escrita mais próxima da velocidade do pensamento, anotar ideias ou expressões que repentinamente assomam ao espírito de uma maneira intempestiva e fragmentada e retomá-    -las posteriormente de uma forma ordenada, inserindo-as devidamente na cadeia textual. Para além de que é preciosa a possibilidade, na releitura que constantemente vou fazendo — seja através do monitor ou do papel impresso onde logo começo a garatujar —, de poder enxertar novos fragmentos que aqui e ali são oportunos, completar ou desenvolver partes que ficaram menos explícitas ou foram menos aprofundadas, ou estabelecer soluções de continuidade onde existiam hiatos indesejáveis. Ah! Não esquecer de gravar.
Faço uma impressão do que até ali escrevi. Procedo a uma última leitura, já um pouco sonâmbula, antes de me ir deitar. Acompanho-a com a solenidade do último cigarro. Às vezes não resisto e a leitura faz-me retomar por mais algum tempo a escrita, com ânimo inesperadamente reforçado. Mas o relógio começa a avolumar o stress. Amanhã tenho muito que fazer… De qualquer forma, vou dormir sobre o assunto. Pode ser que o trabalho nocturno seja produtivo.
Verifico, no dia seguinte, que parece que não foi. Pelo contrário. Sinto-me vazio e sem tónus intelectual. Quero pensar e não vem nada de jeito. Fico num estado de ligeira irritação e volta e meia encontro-me perdido com o olhar prostrado no infinito. Como se estivesse a pensar sem estar a pensar em nada. Sou obrigado a regressar ao finito pela solicitação de um dos filhos que me pede ajuda para uma tarefa, ou pelo toque da campaínha do telefone, ou por um outro chamamento qualquer. Mas, ciclicamente, caio de novo nesse olhar distante e aparentemente letárgico que faz com que os presentes me acenem com a mão à frente dos meus olhos. Sorrio e atendo ao pedido. Mas vou suspeitando, gradualmente, que devo estar em fase de incubação.
Todavia, para tudo há um tempo útil, seja ele imposto como regra do jogo, como limite da paciência ou do interesse, ou como a própria finitude da existência humana. E em função do tempo útil é habitual estabelecerem-se objectivos. A inspiração, ou a disposição para a acolher, irmana-se então com a necessidade de trabalhar para, independentemente de por ela sermos mais ou menos bafejados, conseguirmos alcançar objectivos. É tempo de se mostrar o que se vale. É tempo de concretizar. De sermos pragmáticos. Com mais ou com menos genialidade, com maior ou menor mestria, há que apresentar trabalho.
Até porque, para além do ímpeto pessoal que leva a escrever, a escrita de um texto filosófico deve-se muitas vezes a exigências relacionadas com a progressão de uma carreira académica ou deriva da vontade de responder a uma solicitação que nos foi endereçada. Por exemplo, de um convite para participar num colóquio, para fazer uma conferência, para organizar um seminário, para colaborar num livro, para dar um parecer sobre algo, para escrever um artigo de jornal, para prefaciar um livro, para elaborar uma dissertação, etc. Em todos esses casos vemo-nos confrontados com a necessidade de lidar com prazos bem precisos, com temáticas pré-definidas e com limites que impõem que o texto não ultrapasse x número de páginas ou que a sua apresentação não demore mais do que x minutos. E a questão que então se coloca é a de saber o que é que poderemos e seremos capazes de fazer.
A espontaneidade do acto de criação filosófica não se pode refugiar agora naquela paciência intemporal que — geralmente associada à crença na perenidade de grandes questões que sempre se colocaram e colocarão ao Homem — acaba por fazer com que os filósofos, falando de tudo, sobre nada se pronunciem, como tão bem observava Paul Nizan ao acusar a filosofia de estar demissionária e os filósofos de não se quererem decidir.
As situações em que a especificidade dos contextos, na sua concretude e contingência, obriga a que nos decidamos, a que equacionemos as problemáticas e a que propunhamos respostas, acabam por conferir uma dimensão prática à escrita filosófica, suscitam-lhe eficácia e despertam-lhe a consciência da sua incontornável responsabilidade política. Para além da dimensão privada de criação, assoma agora um aspecto público, de intervenção, de eficácia, uma vertente estratégica que de modo algum pode ser indiferente à pessoa que escreve. Mas será isso ainda escrita filosófica? Estaremos ainda no domínio do ensaio filosófico? — levarão velhos e anquilosados preconceitos a perguntar. Seguramente que sim. Até porque a própria criação de conceitos que marca a originalidade das filosofias não é desenraizada, alheia ao tempo em que se vive e às sua referências. Ela está frequentemente associada a diagnósticos e é em função deles que propõe os seus caminhos. O pensamento que vale é sempre estratégico e o seu valor não pode ser dissociado das aplicações a que conduz — seja uma tomada de posição sobre este ou aquele assunto concreto, seja uma orientação da acção para que remete e que prepara.
De qualquer forma, e no que diz respeito à escrita, estamos aqui perante uma nova faceta: a da dimensão argumentativa do texto filosófico. Deste ponto de vista, à tarefa de escrever passam a acrescer necessidades especificamente críticas, como a de proceder a uma formulação rigorosa das problemáticas e dos problemas — ou seja, mostrar da forma mais cristalina e explícita possível o que é que está em questão —, a de analisar as perspectivas que sobre essa problemática são já do domínio público, a de sintetizar e avaliar as argumentações em que essas perspectivas se estribam, a de as discutir apontando-lhes aspectos não satisfatórios ou questionando-     -lhe a fecundidade, a de argumentar a favor de uma perspectiva própria.
Todas estas tarefas evidenciam a interacção da escrita do ensaio filosófico com um necessário trabalho de investigação e de pesquisa que se tem de levar a cabo, obrigam a uma intensa actividade hermenêutica relativamente aos textos ou obras recolhidas, suscitam, por vezes, o recurso a bibliografias adicionais que ajudem a aprofundar e a consolidar a nossa leitura e interpretação, exigem períodos de digestão, por vezes excessivamente prolongados do ponto de vista dos prazos em que temos de apresentar trabalho.
No entanto, solitário, o trabalho de escrita nada tem de solipsista. A começar na presença fundamental da biblioteca que o coadjuva e lança todo o escrito na complexa rede da intertextualidade. Quando escrevo, dialogo constantemente com essa biblioteca onde se acumulam referências, onde se organizam temáticas, onde elejo livros de selecção, onde retomo pistas. Espécie de fundo de maneio filosófico, ela fornece-me de imediato pontos de partida para o meu trabalho. Não raramente suscita uma volta pelas livrarias ou por bibliotecas institucionais, fruto da necessidade de actualização ou de ampliação dos recursos de que disponho.
Os livros começam então a empilhar-se na minha secretária, como que aguardando, em lista de espera, a sua leitura ou releitura. Retomo marcas e sublinhados já feitos e assinalo com vigor novos pontos de interesse. Por vezes limito-me a assimilar ideias que neles encontro. Outras vezes, importo-as para a cadeia do meu texto sob a forma de citação.
O texto vai ganhando forma. Surgem-me ideias mais precisas sobre a sua estruturação. Este título aqui, aquela subdivisão ali. Ou então a primeira ideia de um índice. Será concerteza reformulado vezes sem conta, mas o momento da sua primeira elaboração assinala nitidamente uma vitória, diz-me que já estou lançado em pleno trabalho e que a angústia, a ansiedade e a insegurança iniciais se tornaram muito menos ameaçadoras. Já consigo agora alternar razoavelmente os momentos em que a escrita é padecimento de parturiente com momentos em que a focalização da abordagem incide essencialmente sobre aspectos formais.
Depois de várias leituras trato de fazer ou de reformular a introdução e a conclusão, caso as haja. Nesta tarefa assume relevância explícita a questão do auditório a que o texto se dirige, questão que aliás percorre sempre toda a escrita, nem que seja apenas de uma forma latente, a começar pelos jogos de linguagem e pelo uso da língua em que se escreve.
É diferente escrever um texto para ser apresentado no âmbito de um colóquio, por exemplo, de um texto destinado à publicação. No primeiro caso, temos desde logo um contexto que permite antecipar expectativas, que insere a comunicação dentro de determinadas finalidades, que baliza, com maior ou menor clareza, o sentido da abordagem das temáticas em questão. Não é também de somenos importância a possibilidade de presumirmos que quem vai a esse colóquio se coloca desde logo numa posição de interesse. O que faz que, quando se escreve, haja também por parte do autor uma preocupação em corresponder a esse interesse e em não defraudar expectativas, intenção que pode, além do mais, encontrar na oralidade uma preciosa aliada. É que, e independentemente do texto escrito poder ser tornado acessível aos elementos do auditório, a sua apresentação é feita oralmente, o que possibilita uma interacção constante com esse auditório. Já no caso da publicação as coisas se complicam.
Na sua crítica da palavra escrita, Platão enfatizava as debilidades desta dizendo que a escrita é um mestre que fala mas não responde, é uma forma indirecta de comunicação, não se explica ou defende por si mesma de más interpretações e não pode escolher os destinatários. Vítima de orfandade ela vagueia por entre auditórios que não conhece e que dela se podem apropriar indevidamente. Ora, justamente, isso só evidencia que o grau de exigência de um discurso escrito é diferente do do discurso oral. Este pode ser secundado pela vivacidade da voz e dos gestos, aquele tem de valer por si e a sua fixação torna-o irreversível. Este dilui-se na efemeridade de um acontecimento, aquele destina-se a perdurar, a ser retomado e relido. Além do mais a intencionalidade do autor é subtraída à voz e passa a estar exposta à incontornável hermenêutica textual que acompanha toda a leitura. Por detrás do texto deixa de haver um eu captável na sua intencionalidade; o que há, são signos que dão que pensar. Será que foi isso que o autor quis dizer? Esse «isso», na estranheza que lhe é própria, permanecerá seguramente fugidio, retraído a uma captação plena. Ele será o que é, mas só na versão que o interpreta. Ser para a leitura, o escrito torna-se disseminante e a coisa de que fala diferirá em cada uma das interpretações que lhe dão vida.
O mutismo da escrita, essa impossibilidade de um texto se dizer a si mesmo por voz própria depois de escrito, relega o autor para uma posição de primeiro leitor, aquele cujas exigências perante o texto são máximas. Ele procurará desesperadamente fazer coincidir aquilo que vai lendo com aquilo cuja leitura consumaria a visibilidade conceptual a que procura dar corpo, e só a proximidade desta coincidência do texto e da retoricidade da criação conceptual lhe poderá dar algum descanso. Até lá, e nada garante o êxito, é toda uma luta solitária em que se pensa com a escrita, na escrita, interagindo com ela.
Os comentários de que possa ser alvo, as discussões que possa originar, os debates que eventualmente gerará, tudo isso é duma natureza diversa das exigências da criação conceptual que conduziram à escrita. Percebe-se a passagem de Deleuze/Guattari:
«Todo o filósofo foge quando ouve a frase: vamos discutir um pouco. As discussões são boas para as mesas redondas, mas é sobre uma outra mesa que a filosofia lança os seus dados cifrados. Das discussões, o mínimo que se pode dizer é que não fariam avançar o trabalho, porque os interlocutores nunca falam da mesma coisa. Que alguém tenha tal opinião e pense isto em vez daquilo, o que é que isso pode interessar à filosofia, enquanto os problemas em jogo não forem ditos? E quando são ditos, já não se trata de discutir, mas de criar indiscutíveis conceitos para o problema que se assinalou. A comunicação vem sempre demasiado cedo ou demasiado tarde, e a conversa, sempre a mais, relativamente ao criar. (...). A filosofia tem horror às discussões. Ela tem sempre mais que fazer. O debate é-lhe insuportável, não porque ela esteja demasiado segura de si: pelo contrário, são as suas incertezas que a arrastam para outros caminhos mais solitários.»1

Incertezas que seguramente cruzam para lá do discurso opinativo que pulula em torno da racionalidade ou da razoabilidade das opiniões, que aceita, em atitude liberal, a riqueza da multiplicidade de pontos de vista para logo em seguida procurar ver quem tem razão.
Que o diálogo, o debate e a reflexão possam ser estimulantes, ninguém o contestará, mas uma coisa é discutir ideias, outra é a instauração de novas conceptualizações, de novas tematizações de problemas, de retóricas e vocabulários irredutíveis a uma mesma linguagem ou, como escreve Rorty, a propósito da «contingência da linguagem», a um

«metavocabulário que de algum modo dê conta de todos os vocabulários possíveis, de todas as maneiras possíveis de julgar e de sentir»2

A discussão de assuntos é sempre solidária do discurso opinativo. E, ainda que em certos casos seja preferível ser capaz de discutir do que o não ser, a discussão tanto pode dar para o melhor como para o pior, não alcançando nunca, todavia, a excelência.
As tematizações criadoras são sempre incomuns, solidárias de diagnósticos descodificadores, de análises e propostas inauditas e portadoras de visibilidades invisíveis; apresentam-se, por vezes, como geniais, irmanando-se nessa sua genialidade com a arte. Eles contribuem, não para que o pensamento pense o já pensado na ilusão que que assim pensando se esclarece e toma posições fundamentadas nos melhores argumentos, mas sim para o alargamento do pensável, no que isso significa de resistência à linguagem da tribo, no que isso implica de fazer proliferar um diverso irredutível ao diferente porque outra é a sua linguagem e porque na construção da sua dizibilidade, como enfatiza Nelson Goodman a propósito da pluralidade de mundos,

«a compreensão e a criação andam juntas»3

Retomo a batalha da escrita. Até ao ponto em que a sensação do «é isso mesmo» me autorize a morte do texto, a sua fixação definitiva, o seu momento de autonomização irreversível, o fim da tensão sobre uma coisa que, apesar de nela me rever, deixou já de ser minha.
Crente, pois, de que «já há coisa», começo a compor a máscara do morto e inicio as cerimónias fúnebres. Faço impressões quase sucessivas. Verifico mais uma vez a ortografia, confiro o número de páginas, revejo o índice, atento a requisitos formais que me impuseram, como o tamanho do corpo de letra, o espaçamento da entrelinha, a listagem das referências bibliográficas, o sumário, as palavras-chave. Enfim, já ao som do acorde final, despeço-me olhando-o uma última vez, procurando sentir que levei ao limite as minhas capacidades e que, nesse esforço máximo, lhe consegui a perfeição possível. Se assim for, poderei então atenuar o vazio do pós-parto com a ténue satisfação de que valeu a pena.

Escreve Ramos Rosa:

«Coincidir
é talvez produzir o gesto
que nos apaga
para nos deixar
no limiar do mistério»4

Mas, o texto que escrevi, será filosofia? Enquanto autor, a questão é-me irrelevante. Comungará, provavelmente, desse ar de família com que geralmente se reconhece o espaço do filosófico: a falta de evidência, a ambiguidade, a inconclusividade, o desfasamento relativamente aos caminhos habituais dos discursos com que quotidianamente comunicamos, a densidade conceptual e a complexidade analítica, a frequência do gesto interrogativo e problematizador, a utilização de um vocabulário específico que torna os textos deveras intrincados e pouco acessíveis, as dificuldades de leitura que frequentemente provoca, a ausência de uma razão de ser porque, em rigor, não serve para nada nem nada prova.
Mas, como referi, isso pouca importa. Porque, quando escrevo, escrevo assim. Sem ser minimamente assaltado pela preocupação de saber se isso que faço é, ou não, filosofia.

Notas
* Texto escrito por ocasião da participação no III Encontro de Didáctica da Filosofia, subordinado ao tema O Texto e as aulas de Filosofia, organizado pela Associação de Professores de Filosofia e pela Secção de Filosofia do Departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora, realizado no Anfiteatro do Colégio do Espírito Santo, nos dias 22 e 23 de Outubro de 1998. Nessa iniciativa participei como Coordenador do Seminário «A escrita do ensaio filosófico».
1 G. Deleuze/F. Guattari, Qu’Est-Ce Que la Philosophie?, Les Editions de Minuit, Paris, pp. 32-33.
2 R. Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, Editorial Presença, p. 19.
3 N. Goodman, Modos de fazer mundos, Edições ASA, p. 60.
4 A. Ramos Rosa, A Intacta Ferida, Relógio de Água, p. 82.