Artigo
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Rui Grácio

Proposições — em torno de noções como experiência e trabalho filosóficos.
Publicado in Caderno de Filosofias, nº1, (dedicado ao tema O trabalho filosófico), Coimbra, l989, pp. 73-82.

“Ser unido e fundido no amado! Serem apenas um!
/.../ E o amor é o desejo e a ânsia dessa completação, dessa unidade”.
PLATÃO, Banquete, 192e - 193a

“Il me semble important qu’on se débarasse du Tout, de l’Unité, de je ne sais qu’elle force, de je ne sais qu’elle absolut; on ne pourrait manquer de le prendre pour instance suprême et de la baptiser’Dieu’.Il faut émittier l’univers, perdre le respect du Tout”.
NIETZSCHE, V. P., t. II, I. III, §489, p. 153

Portanto, a pessoa, e quem quer que deseje alguma coisa, deseja forçosamente o que não está à sua disposição, o que não possui, o que não tem, o que lhe falta; ora, não são esses justamente os objectos do desejo e do amor?”
PLATÃO, Banquete, 2OO e

“O amor quer evitar aos outros a quem se.dirige todo o sentimento de estranheza, sendo fortemente levado à dissimulação e à identificação, engana constantemente e representa a comédia de uma igualdade que não existe realmente”.
NIETZSCHE, Aurora, 530

“Tu não podes, caríssimo Ágaton, contradizer a verdade”
PLATÃO, Banquete, 201 c-d

A suspeita face à caduca e pretensa identidade deste singular — a Filosofia —, mas também face à pretensa segurança da partilha estabelecida pelo dizer deste adjectivo — o filosófico — levam a que a Filosofia e o discurso que a si mesmo se chamou filosófico tenham de ser, hoje, interrogados.
Tratar-se-á, ainda, de uma interrogação filosófica? Quer dizer, recoberta pela estratégia da douta ignorância? De uma interrogação que se acabaria, afinal, por envolver no jogo da filosofia? Que trabalho?
Talvez hoje, sob a inquietude da suspeita e do ambiente de irrespeito que ela fomenta, a interrogação, como patamar da compreensão e do querer entender, dê lugar a um novo modo de interrogar, menos interessado em com-preender do que em des-prender a efectividade filosófica dos lugares que tradicionalmente lhe foram reservados. Por exemplo, das figuras de o Saber ou de a Verdade. Mas também do primado da unidade e da ambição totalizadora de um certo pensamento, instauradores de um discurso magistral e geradores de uma filosofia doutrinal pronta a ser veiculada (a-politicamente, é claro!) pelos aparelhos ideológicos do poder.
Uma análise minuciosa do fascínio do Um, da sede de plenitude, da preemência do Encontro e ainda das estratégias que, do objecto total (mítico), dariam a posse, conduzir-nos-ia à questão da relação com a alteridade. O que se deseja é o outro, o desejo é, efectivamente, desejo do Outro. Ora a filosofia pensou sempre o Outro como Outro de si, como o seu Outro; quer dizer, pensou a alteridade a partir do Mesmo e pela manobra de redução ao Um: a partir da antecipação de uma com-unidade que configurou como origem a re-conhecer.
Percorramos a manobra textual do Banquete platónico após a apresentação da genealogia e da natureza de Eros. A natureza dupla de Eros, a ferida constitutiva da qual brota a sua força demoníaca, é, a dado passo, suturada pela inscrição de um telos para o qual (e a partir do qual) doravante tudo se encontrará ordenado. A sua natureza internamente divisa, a distância de si a si, esse constante estado de incoincidência que faz de Eros um ser errante, quer dizer, impossibilitado de um reconhecimento pleno de si próprio, ou de possuir um saber absoluto, e o deixa entregue à dif-errância ( o outro do desejo é, afinal, outro desejo — infinitude), tudo isto é deslocado pela introdução do espírito de missão que passará a investir Eros de uma intencionalidade . O seu dinamismo tornou-se teleológico, a sua força ordenada ao Sentido. A mediação amorosa tornou-se meio para ; método e não condição Eros não vive já do/no jogo das seduções; o seu jogo é agora o da conquista/posse, a sua polarização o amado. Depois virá a dialéctica, estranho processo totalizador de recondução ao Um. As contradições do desejo, antitéticas e irredutíveis, resolvem-se afinal numa dialéctica que ensina a pedagogia de um amor feliz. O bom caminho, o que conduzirá Eros à casa da/na transcendência, está encontrado.


“O ethos de um homem é o seu daímon
HERACLITO, Diels, frgs ll9

Filosofia é experiência de incompletude. Mas importa também dizer que experiência e saber não são a mesma coisa. Porque a experiência não se esgota no, nem é redutível ao, discurso da consciência sábia. Poder-se-á mesmo dizer que um dos postos do trabalho filosófico actual é o de libertar a noção de experiência da hipoteca do primado da consciência . E se é certo que Marx, Nietzsche e Freud, a quem alguém chamou com justeza “os três mestres da suspeita” foram os primeiros operários que com relevância e repercussão trabalharam neste domínio (trabalharam esta dominação), não é menos certo que hoje a sua irreverência e impertinência é reduzida a “peripécia” e os frutos do seu trabalho convertidos em dolorosa mas instrutiva lição para a consciência e mesmo como uma etapa necessária para o seu engrandecimento. Pôde-se mesmo escrever que os três autores referidos, “longe de serem detractores da ‘consciência’, visam a sua extensão”! Em suma, há muitas maneiras de, progredindo, permanecer no Mesmo. Mais difícil tarefa, desafio, será deslocar as questões...
O que na interrogação filosófica é buscado é, seguramente, um saber. Mas o que é significado pelo acto de perguntar no qual a pergunta se coloca é a incompletude. Incompletude e não ignorância que é ainda figura do saber. Endeia e não amnesis. Pergunto porque não sei. Mas se não sei, porque pergunto? Porque pergunto?
Tudo se joga em saber se o saber completa — quer dizer, pode re-unir o todo consigo mesmo —, ou se a possibilidade indiferível do questionamento, porquanto significa a humana condição da incompletude e traduz a precaridade ontológica de tal condição solidária, não perpetua, para o saber, uma inultrapassável parcialidade. A questão seria saber. Saber da questão?
O reconhecimento pleno — notar-se-á a importância desta figura na economia narcísica do pensamento especulativo, como forma de preservação da soberania duma razão que constantemente assegura o controlo do exterior como seu exterior, dos limites como seus limites (o reconhecimento apropria e é solidário do progresso, abre à superação dos limites, en-globa e totaliza) — seria então mais uma das figuras, porventura a mais importante das figuras estratégicas, da mitologia filosófica.
Da mesma forma que o desejo persiste pela ausência de um objecto total e pela intotalização dos objectos parciais que diferidamente percorre, ou seja, que é o movimento de busca que ao mesmo tempo faz diferir o que se busca (o Todo, a satisfação plena, a realização absoluta, o Encontro, numa palavra, o preenchimento ; e note-se que aqui, afirmação suprema e culminante seria, simultaneamente, morte) também o perguntar filosófico investido pela erótica do desejo se joga na duplicidade gestual que antecipando o saber simultaneamente inviabiliza a clausura no saber. É nesta impossibilidade de reduzir a experiência da pergunta — e mais precisamente da possibilidade do questionamento com a duplicidade interna que comporta — ao discurso do saber, que, de uma forma decisiva, se joga a questão da alteridade. Se a articulação entre experiência e discurso fosse plena, isto é, se o discurso repousasse na possibilidade de uma consciência integral da experiência por ele levada à Palavra, então, tudo se poderia resumir na economia do e do ainda não : toda a experiência se poderia converter em saber pela mediação total da consciência. Bastaria, portanto, que a mediação se operasse. E pelo saber, o que sabe ocuparia o lugar do outro, o lugar do sujeito em geral. Consideração diferente terá contudo de ser feita se se pensar a partir da cumplicidade da experiência e do desejo, quer dizer, a partir da ideia de que toda a experiência comporta uma duplicidade interna .A alteridade é requerida na experiência do questionamento não como o espaço outro a ocupar mas como o espaçamento que possibilitando o jogar do jogo difere a possibilidade do Encontro. Como o espaço desejável.
Saber e compreender será, afinal, (a)pr(e)ender o outro sobre a interdição de uma diferença irredutível, de uma alteridade irreconhecível, de um sentido inantecipável que, a existir, a admitir, minaria toda a lógica do ser próprio e da apropriação — quer dizer, toda a estrutura do poder inerente ao projecto da compreensão plena e à operatividade da mediação total? Donde, surpresa, sim: se. A “surpresa” surpreende se preensível no espaço comum. O resultado é a possibilidade do Saber, do Encontro, do Sentido; o reduzido, a experiência — a estranheza da experiência, o incomungável, porventura, o incomunicável. O Outro que não seria o meu Outro. Também aqui se excomunga o que se não deixa possuir. Como se de morte ameaçasse.
E a questão surge: será que todo o discurso do saber, segundo o modelo da unidade e porquanto se move no elemento da comunidade, porquanto reúne as diferenças na identidade do Diferente e as pensa, portanto, a partir do Mesmo, não é necessariamente um discurso que para se realizar se tem que fechar sobre si mesmo? Quer dizer, excluir a autêntica experiência da alteridade? Que abertura?
Questão importante é a seguinte: a noção de desejo implica a noção de falta (a falta estaria na origem do desejo — seria essa a definição platónica), o que permitiria falar em objecto do desejo (o todo, o um) e conduziria a considerar o desejo em termos negativos, ou o desejo é a matriz de toda a relação com uma alteridade que nos constitui e que, por isso mesmo, se não deixa apropriar? Dito de outro modo: é o desejo aspiração à completude ou a condição na qual se realiza e afirma no ser o nosso modo incompleto de ser?
O perguntar é condicional: marca a condição de uma relação que se furta à posse, o rastro de uma alteridade que no limite se não pode antecipar senão sob a forma absoluta do perigo. A radicalidade filosófica não será pois a radicalidade com que se funda o saber, mas a aventura e a surpresa que de cada sedentarização nos reconduz incessantemente ao nomadismo. Perguntar é percorrer este caminho que não nos leva a lado algum, mas que uma qualquer nostalgia do regresso ou que um qualquer esforço de preservação no ser torna imparável.
Que este humano caminhar (a casa é, afinal, os caminhos) é um caminhar em e um caminhar com, isso bastaria para se reconhecerem os contornos históricos e socio-políticos do sentido e da verdade que no seu modo de eficácia institucionalizante, quer dizer, na persuasiva naturalização do convencional, serve, porque oculta e mascara, a fundamental vertente repressiva do exercício dos poderes.
Ainda que sem nunca poder acreditar inocente e ingenuamente numa liberdade que seria a Liberdade ou em transformações que seriam a Revolução, o trabalho filosófico — provocar deslocamentos —, exercido em registos diversos e não necessariamente unificados seria precisamente uma estratégia de libertação. De que o primeiro passo seria, talvez, o de provocar o riso.