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(parte)
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Rui Grácio

Poesia talvez
in Guardador de percursos, Pé de Página Editores,  Outubro de 2003, 120 pp.

Pus-me estas perguntas:
O que leva as pessoas a escrever poesia?  
O que é que apela à escrita poética?
O que é a sensibilidade poética e que contornos ela assume quando se concretiza pela escrita?
E a que corresponde a irrupção da poesia?

Fui por tentativas e, tomando o auxílio da Sophia e do António, achei algumas palavras.


Poesia é Luta

Talvez luta
contra o efémero que não queremos deixar entregue à corrente do esquecimento
contra os silenciamentos e contra as teias da contenção
contra os dizeres estafados em que já não nos reconhecemos
contra os atavismos que tolhem a imaginação e censuram a utopia
contra a indiferença perante nós mesmos
contra esse espaço couraçado que não deixa penetrar as palavras que, com um não sei quê de beleza e de ambiguidade, nos apelam, se nos insinuam e desafiam, suscitando cumplicidades e perplexidades
luta para que a palavra possa ser livre e assim nos liberte também para as infinitas possibilidades de inventarmos novas geografias, de nos deixarmos surpreender por visibilidades inauditas, de nos permitirmos ser tocados por formas não identificadas de sentir, de vivermos o limite e a aventura de uma liberdade coincidente com a criação

Poesia é talvez luta. Uma luta que é risco e aventura.

Ramos Rosa:
«o poema não se oferece na imediatidade de uma presença ou de uma evidência sem mistério, mas mantém permanentemente a tensão dos contrários na obscuridade de uma matéria fugidia e abissal. (…) A palavra poética é uma criação em que a relação do sujeito ao objecto não é a expressão adequada de um pelo outro mas relação livre e, como diz Nietzsche, “transposição insinuante, balbuciante numa linguagem completamente estranha”»1.


Poesia é desaceleração

Talvez desaceleração
porque suscita um recolhimento que nos distancia da voracidade dos ritmos que já nada deixam saborear
porque nos confronta com espaços misteriosos cuja decifração requer que não estejamos apenas de passagem
porque a escrita poética não está aí para nós sem que nós nos tenhamos preparado para a sua chegada, deixando que o seu tempo nos enlace
porque no tempo da poesia o que conta não é o tempo, mas os sabores com que ela metamorfoseia e exalta a nossa sensibilidade

Poesia é talvez desaceleração. Uma desaceleração que nos traz apaziguamento.

Sophia de Mello Breyner Andresen:
«A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia»2


Poesia é terapia

Talvez terapia
porque exorciza padecimentos
porque grita e afaga
porque ri e ironiza
porque fala de si como se de um outro se tratasse, como que dizendo eu sou mais do que eu, sou eu e isso, sou força de ser
porque persiste na assumpção da singularidade, na aventura da busca de si

Poesia é talvez terapia. Uma terapia que liberta.

Ramos Rosa:
«Dir-se-ia que escrever suscita uma surdina
para nos arrancarmos a uma voz anterior           e externa
e podermos recuperar uma voz mais           longínqua
que somos nós próprios»3


Poesia é testemunho

Talvez testemunho
que mapeia a nossa escala de importâncias
que indica pontos de passagem que mereceram uma paragem
que mostra rotas e percursos com que ordenámos as contingências desta vida em que apenas nos é dado ir indo e ir sendo
que assinala a nossa implicação
que homenageia o que nos é querido e nos revela como sentir que comparece

Poesia é talvez testemunho. Um testemunho que nos diz presentes.

Sophia de Mello Breyner Andressen:
«A poesia não explica, implica. O poema não explica o rio ou a praia: diz-me que a minha vida está implicada no rio ou na praia. (…) É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra».4


Poesia é perseverança

Talvez perseverança
em não deixar que o esgotamento nos esvazie
em não permitir que os dissabores nos preencham até ao estrangulamento
em não consentir que as formas belas de sentir possam alguma vez sucumbir ao cinzentismo da vida mundana repleta de feridas

Poesia é talvez perseverança. Uma perseverança que afirma a vida.

Sophia de Mello Breyner Andressen:
«A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.»5


Poesia é um fazer habitar

Talvez um fazer habitar
que acolhe e festeja o dizer em que o ser joga a sua comparência misteriosa
que estreita a proximidade da nossa pertença ao mundo
que acautela a palavra como instauração e abertura do mundo ao homem

Ramos Rosa:
«A palavra
nunca retorna ao magma
Nunca se toca a matéria mesma
Do que se escreve

Mas a palavra
anuncia
a abertura
e nela própria circula
a sombra que nos toca
e nos faz respirar»5

Notas:
1 A. Ramos Rosa, A Parede Azul, Editorial Caminho, p. 33.
2 Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, Edições Atica, p. 94.
3 A. Ramos Rosa, O Livro da Ignorância, Signo, p. 111.
4 Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas, Edições Salamandra, p. 75.
5 Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, Edições Ática, p. 94
6 A. Ramos Rosa, Intacta Ferida, Relógio de Água, p. 69.