Livro
(parte)
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Rui Grácio

Pensar no limite
in Guardador de percursos, Pé de Página Editores,  Outubro de 2003, 120 pp.


"Nunca a pesquisa cessa e todavia
há um momento em que não cuidamos
como se nada antes houvesse sido
e é fim sem fim e princípio"

A. Ramos Rosa

A afinidade filosófica deste poema é dado logo nas suas quatro primeiras palavras. Nunca a pesquisa cessa. Quer dizer, há sempre a possibilidade de novas questões, de outras questões, de sempre perguntar. A investigação filosófica repousa, antes de mais, na perguntabilidade; toda a investigação filosófica pressupõe a experiência da perguntabilidade enquanto possibilidade incontornável de colocar questões. É por isso que esta experiência é uma experiência que se faz mesmo sem saber aonde ela nos conduz ou mesmo se nos conduz a algum lado. E contudo, dirão, o filósofo não é o eterno perguntador e para além de perguntar ele procura também responder. A observação é justa. A questão torna-se então na seguinte: como é possivel a afirmação? Como contorna o filósofo a vertigem regressiva do questionamento e opera a passagem da atitude interrogativa para a atitude afirmativa? Outra questão: Não é esta passagem algo que enferma de contradição? Ou será que, mais do que enfermar de contradição, esta passagem se opera sobre uma insuspeitada cumplicidade entre perguntar e afirmar?
Se de facto, como diz o poema, a pesquisa é incessante, é preciso ter em atenção que há um momento em que a incessantibilidade, a possibilidade permanente de questionar, é de algum modo descuidada. E é porque não cuidamos, porque deixámos de prestar atenção à possibilidade da perguntabilidade, porque dela abstraímos porque a esquecemos ou momentaneamente a ignoramos, que acedemos a uma origem, a um ponto de partida, a um princípio.
Uma das grandes preocupações filosóficas foi sempre a de saber como começar e por onde começar. Uma das grandes opções filosóficas foi a de querer começar pelo princípio, a de encontrar a origem. Mas, para quem assim pensou, esta opção não foi de facto opção. Foi imperativo. E assim se assumiu a investigação filosófica um estilo de odisseia. Tal como Ulisses, também em filosofia a tarefa do retorno, o voltar às origens. Sonhou-se mesmo a filosofia como ciência das origens, mau grado o sonhador cedo se ter confrontado com o fantasma de Sísifo. Como se afinal incessante fosse o (re)começo.
…e todavia há um momento… Viverá deles toda a filosofia que se quer como saber?
De qualquer forma, é a partir deste descuido que se pensa: esquecendo, seja de que modo for, a pergunta que se poderia colocar, neutralizando – bastará por um momento – a perguntabilidade. Teremos, então, o príncipio e da afirmação principal outras se sucederão. E poderemos até voltar a perguntar. Até mesmo, agora, com uma certa serenidade. Como se o princípio antecipasse todas as respostas, como se a ignorância se tornasse menos incomodativa e sobre a esperança do saber se reduzisse a uma questão de tempo e de trabalho.
Mas o poeta diz também: como se.
Com efeito, se o pensamento para se exercer afirmativamente tem que encontrar um começo, tem que encontrar um ponto de partida, um princípio tomado preferencialmente como origem, não é menos verdade que o encontro deste princípio ou desta origem se faz sob o modo do "como se". Para poder pensar o pensamento tem que pressupor, quer dizer, esquecer a interrogação sobre aquilo que supõe, pensar "como se". Pensa-se sempre a partir de, a partir de algo que se está sob a forma do "como se". (Mas a relutância do filósofo ao "como se" leva-o à dádiva. O pôr assume então a dimensão de um dom. E assim se transita da palavra para o sentido que é dito num dizer silencioso que dá).
Mas, isto quer dizer que há uma estreita solidariedade entre o pensamento e o impensado, que todo o pensamento é atravessado de não pensamento e que essa é uma condição do pensar que afirma mesmo sob a forma de uma pergunta.
Qual a origem de todas as coisas? Esta pergunta dá-nos que pensar e incita-nos à pesquisa. Mas, a resposta que lhe dermos só é possível se aceitarmos na questão algo que não é ele próprio posto em questão, a saber a afirmação de que há uma origem para as coisas. Responder é sempre iludir a perguntabilidade daquilo a partir do qual se pergunta. E porque esta ilusão, então o saber. E toda a desilusão será ainda saber se – qual lei de recuperação da ignorância que por acto de consciência a converte em saber – animada pela convicção iluminista de que um dia seremos crescidos, e que, neste trânsito para a maioridade, deixaremos de ser ingénuos ou dogmáticos.
Descobrimos o impensado como condição de possibilidade do exercício de um pensamento que sabe ou crê saber. Mas nomeámo-   -lo como reserva ou como excesso e desta forma re-integrámo-lo, quer dizer, fizemos a sua economia a partir do nosso narcisismo. A figura do impensado tornou-nos afinal duplamente sabedores; duplicidade dialéctica pois diz a economia de narciso que experiência é reconhecimento e que, como tal, os limites da experiência são sempre apropriáveis/superáveis por um gesto de novo (melhor) reconhecimento. O ter consciência de, reflectivamente accionado, é afinal a alavanca que da distância constitutiva nos daria a sonhada proximidade. O ter consciência seria então constituinte da nossa plenitude.
Descobrimos o impensado. Mas, porque lhe insistimos em dar o nome de saber ou de não-saber? E se a descoberta não for reconhecimento, isto é, tematização de uma verdade antecipadamente exigida mas ainda não encontrada? E se a descoberta tiver menos a ver com a realização teleológica da vocação sapiental do homem do que com uma condição que subjaz a todas as vocações? E se descobrir não for reconhecer mas criar?
No limite, o pensamento como criação é passagem de uma atenção autista, controladora e controlada, fechada sobre si, às possibilidades múltiplas e insuspeitas da afirmação inconsequente e relativamente à qual, posteriormente e como que por capricho do espanto ou como que por necessidade da acção, acabamos por nos obstinar, procurando codificá-la e, dessa forma, torná-la consequente.
Pensar é inventar códigos na expectativa de fazer sentido.
Mas, para o pensamento criativo, não há códigos puros, nem transmissão do sentido, nem envios, nem captações. É táctil a expectativa do pensamento criativo.
Não é correspondência a nenhuma doação mas fascínio de permanência activa no feixe incontrolável das possibilidades.