Livro
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Rui Grácio

Não se ama o mar sem amar as marés
Não se ama o mar sem amar as marés, Pé de Página Editores, 2007, 128 pp.


Sonhei com o mar. Dizem que dá sorte.



1. palavras de maré cheia


as palavras

és nome do amor
que viciou o verbo
as palavras são a voz
com que me prendes ao leme
escrevo-as com a avidez
com que ontem te sorvi a boca
dando corpo aos afectos
ondas em vagas de paixão
que se dirigem à praia onde me recebes

não se ama o mar
sem amar as marés

***


abraços

sabes?

adoro a maneira
como me abraças
com as palavras

***


colo

dá-me um colo de palavras
para nele deitar a cabeça
e repousar o silêncio da natureza

um colo de palavras que liberte grandeza
invente hipóteses de vida
para além da prisão das certezas
e sonhe e alente
a improvável incondicionalidade

***


casa das palavras

leio, releio, leio de novo e releio
e suspiro e sorrio e releio
e trago para te poder respirar
(naquele sussurro já familiar)
as letras da casa das palavras merecidas
talvez injustas como o tacto cego que perscruta
e onde as regras não sabem a descoberta

leio, releio, leio de novo e releio
e é arrepio de dia ganho
o perder-me nos cabelos oferecidos
da casa das palavras ondulantes
onde o corpo se faz arco

leio, releio, leio de novo e releio
e sinto texturas de poros
a jogar a linguagem da pele
e quando fico tonto e sem fome
corro para a casa das palavras
onde os inseparáveis cabelos
abraçam o parto do poema

***


brotar palavras

só tu poderias colher
como gritos serenos
as palavras que brotam
do desejo de mimar-te

recebe-as de lábios abertos
para que entrem
e pousem no teu espírito

***


mas a voz

o corpo tem feitiços que atordoam
e fazem amar como um contorcionista
que todo quer ficar dentro de ti

mas a voz
hipnótica e etérea
é do fundo da alma que se anuncia
e em bailados de alquimia
faz do seu sopro matéria
um invisível regaço

braços amantes de promessas
tacteiam na incerta probabilidade
a inteireza do aconchego

e na surdina do eco relembram:
acerca o teu espírito do meu peito
como ontem aproximaste os lábios

***


futuro

cada vez que te toco sei que te amo mais
cada vez que me tocas sinto-me mais tua
somos agora um só rosto
virado para o futuro

***


além do dizível

o abraço do amor que em mim floresce
encontra-nos para além das palavras
que habitam o dizível do mundo

o ar que respiro lembra-me os teus lábios

***


como sangue que corre

deslizando entre letras e espaços
as tuas palavras têm amor incorporado
como sangue que corre
e dirige o sopro da vida

***


voar

na ressonância erótica da tua voz
chega exigente o envolvimento
que com requinte abre a porta
para que as asas batam e voem

***


cumplicidade

aconchegadas pelo teu ouvido
as minhas vergonhas são simples
laços de cumplicidade

é a ti que confesso o inconfessável
é a ti que confio
a voz alta dos pensamentos

***



2. espelhos e maresias

a praia já calma

nesse oceano de sensibilidade
resguardado por braços destemidos
que trazem ao seu regaço
a turbulência das vagas
fazes-me chegar
em doce marulhar
ao cheiro da maresia que inunda a praia
já calma

***


desejo

escorrega em mim
a humidade do desejo
tenho sede da boca
que faz nascer os meus beijos

***


sem sombra de pecado

sempre desnudados
sem sombra de pecado
deliciámo-nos com carícias
de palavras e silêncios

porto de coincidência
solo de renascimentos

***


fala comigo

fala comigo

com ninguém mais posso partilhar
o cheiro que só reconheci como meu
depois de sentir o teu

***


elixir

bebendo-te como um elixir de vida
todas as manhãs renasço
de um limbo tortuoso

compreendo agora a letra de todas as canções
compreendo agora todos os poemas de amor

***


espelhos

como nos fazemos espelho
dos pedidos íntimos das almas?
que perfeição lubrifica os lábios
que seiva de corpos
é sonho inesquecido?

***


habitação

inundas-me com uma beleza
que de mim já desertara
habito agora a plenitude
no pulsar das tuas células

***


incondicional

nunca a exigência existirá
no sopro da minha voz
não penses que me apodero de ti

busco apenas que o infinito viva no finito
a dedicação se eternize no contingente
o humano receba a gota do divino

***


repouso

na paz da frenética tarefa
cumpriremos os desígnios dos deuses
e sobre a seiva dos orgasmos
tingidos no virginal elo
repousaremos o aconchego da partilha

***


porvir

das minhas palavras
mergulhadas na penumbra do amor
fez a tua doçura guerreira
o porvir mais desejado

serenaste a irreversibilidade
da nossa pertença fecunda

***


vício de te amar

admiro a tua inteligência
com o fascínio dos investigadores
amo o teu corpo
com a veneração dos artistas
sorvo a tua inteireza
como quem se funde na transcendência

***


genuína

os sons íntimos
que nos guiaram
são a mais genuína das linguagens

cozinha-me e come-me
pois assim voltarei ao prazer
de nos ouvir dentro de ti

***


mote

cada frase minha para o mundo
traz escondido um repetido amo-te
mote de cada batida do coração
pele que cobre o meu peito

vives
***



conversão

converto
o que de ti
em mim

palavras que levam afagos
no sussurro
do beijo nocturno

***


pétala

serás parteira
da semente fecundada
para te levar
a macieza
da pétala?

***


cada segundo

nascemos da explosão da mesma estrela
e a ela voltaremos quando nos reencontrarmos
cada segundo é uma investida tua no meu ventre

***


única

a bênção do teu amor
elegeu-te em mim
como aquela que será única
disso faço a causa que me move
esse o sal

***


adorno

a nossa pele tem a lisura do amor sereno
nua nos teus braços
visto-me como rainha
o único adorno
é o desejo

***


descansa

o corpo arfante chamou por ti
a mão percorreu-o com a intensidade certa
descansa agora a boca sedenta no meu seio nu

***


au revoir

fica coberto de beijos
com a mão no interior quente
das minhas pernas

fica envolta de afagos
recordando o movimento ondulante
dos meus quadris

cada estrela do céu
será um pensamento para ti

***


que nome?

que nome darias à proximidade mais próxima
mas que ainda assim exige
que nos aproximemos mais mais e sempre mais?

***


in separação

cuidas de mim ao pormenor
quando fazemos amor no descanso
do cheiro siamês da nossa pele
estendida num leito de penas brancas
separo-me apenas
no acto de te acolher

***


cada dia

és aquela que se aproxima sempre longe
da pequena tentação da censura
delicada nunca deixas
que o meu coração ganhe uma cicatriz
por falta de mimo
talvez não tivesse sobrevivido ao dia de hoje
se não fossem os afagos matinais
mas fizeste com que me quisesse aperfeiçoar
e descreveste-me como precisava de ser dito

preenches cada dia em que me reinvento

***


ninho de luz

a luz ténue fez o nosso ninho
e as tuas mãos passearam pelo meu corpo
com o conhecimento profundo de amante eterno
o meu coração gritou que te amava
enquanto a minha voz se apagava no fino som do prazer
o meu sorriso procurava o teu
em doce confirmação de amor
depois embalaste-me como a uma criatura frágil e etérea
e os teus sons de amor eram música dos anjos

no tacto em que te descubro real
o prazer confunde-se com a perfeição

***


golpes de amor

sempre a golpes intensos
de inexcedível dedicação
levas-me pela mão
para o porto seguro

amas-me como eu não sabia ser possível
dás de uma forma que eu desconhecia
inventas-me como eu desejara ser

elo mais precioso
és bálsamo de todas as coisas

***


guião

bebemos a seiva do bem-querer
e celebramos o esplendor
com a curiosidade dos aprendizes
e a ferocidade dos progenitores

mas o que eu adoro mesmo
é o requinte com que cuidamos do nosso guião

trago no corpo a camisa de noite
que na segunda-feira recebeu o teu cheiro
agora sobrepôs-se ao meu

***


crescente

e cada novo dia nasce risonho
porque carrega a esperança de te poder dizer
com urgência renovada
a intensidade crescente do amor

mesmo tendo-te em cada batida
não consigo evitar a saudade

***


inscrever

que nome dar
a esta urgência de sempre repetir
como se fosse a vez primeira?

que marcações inscrevem na matéria corporal
a vertigem da irreversível pertença?

***


oração

tens todo o meu desejo
rezo para que o eternizes

***


memória

desejo que o teu peso marque de novo
a memória das minhas células
recebo-te separando aquilo que é par no meu corpo
altero a respiração para que entres na minha boca
e o pescoço pede que regresses ao ninho

***


memória

desejo que o teu peso marque de novo
a memória das minhas células
recebo-te separando aquilo que é par no meu corpo
altero a respiração para que entres na minha boca
e o pescoço pede que regresses ao ninho

***


âmago

no âmago do teu sexo
o nexo de cada pensamento meu

a obscenidade do amor tudo engloba e ameniza

***


eros

sobre o colchão daquela cama
dois corpos abraçados
devolveram-se à pertença natural

voluptuosos prolongaram
em entrega urgente
cada curva um no outro

o tacto fez-se pele
o olfacto disse-os um
o prazer inconsequente foi festa de sabores

um êxtase de proximidade
percorreu o tempo parado do encontro
e o mundo ficou esquecido

vagueámos ao sabor do desejo
fluente indesmentível obsceno
e os teus seios eram trave
do firmamento que habito
cada curva do teu corpo
desenhava a força certa das mãos
cada uma se dizia esculpida
nas linhas do destino

e no vulcão penetrado
a lava sabia a vida e céu

***


pássaro de fogo

na minha mão esquerda
inalo sem parar
o impulso da tua direcção

ainda sinto a respiração ofegante
junto do meu pescoço

***


toque
naquele beijo de café
as nossas bocas perderam
o rasto da identidade
e os corpos sem vestígio
eram antecipação do toque

***


prova

é na geografia dos corpos
que provamos
a eloquência das mãos

***


relógio

antes do meio dia atingi
o poro imediatamente abaixo
do teu seio esquerdo

tinha sabor a nuvem e era céu

ao meio dia imitámos
os ponteiros

serás horas ou minutos?

***


o rosto do mar

as nossas marés têm
a eternidade da lua
e o rumo do seu cintilar

reparaste na investida das ondas?
no som do seu respirar?

nunca o mar se apresentará
com outro rosto que não o teu


3. esculturas de areia

declaração de amor

quero dar-nos
o tempo todo
que me for dado

***


pedido

promete-me que continuas a roubar
o meu tesouro:
a gruta ardente
e o espírito que dança dentro dela
o mastro tenso
que te fez vela

***


avesso da pele

carrego a tua suavidade
no avesso da minha pele

***


sonho meu

é um sonho
esse recôndito conforto de prazer feliz
diz-me, é um sonho?

***


odor perpétuo

cada vez que respiro
exala a serenidade do teu odor
quando na minha campa só houver pó
alguns desses grãos
conservarão o teu cheiro
somos fusão entre origem e destino

***


neste momento

o que prefiro mesmo
é abandonar-me ao encanto
e deixar-me abraçar
com teu peito firme
nas minhas costas nuas

***


incêndio

exultei com o toque dos lábios
e petrifiquei ao sentir nas mãos
a perfeição dos teus seios
vesti-me então de guerreiro
com as chamas do teu afecto
e saí para incendiar o mundo

***


matéria incandescente

quando o corpo se abre pelo eixo vertical
e somos matéria incandescente
teus lábios abrigam-me no aconchego de um abraço
e ao teu útero levo o ritmo doce de um chamamento

serena vens no teu passo de bailarina
fluindo rios de desejos impunes
com danças ritmadas de descoberta pagã

***


pacto de amor

quando eu parar de respirar
sei que tu o farás por mim
ceder-te-ei o meu coração
quando o teu deixar de bater

***


intimidade

quando pouso a cabeça no peito
e me embalo nas vibrações da voz
acho-me deitada num berço de algodão

assim que as mãos deslizam pelo tronco
a respiração muda e o balanço do corpo chama-te intempestivamente

a gruta recebe o toque doce de cambraia
e a essência que dela escorre
é cálice de néctar dos deuses

irmanados em ritmo e cumplicidades
enfeitiçados pela coincidência dos sentires
firmamos no calor dos corpos
o selo da mágica intimidade

***


perdidamente

quando estiver contigo
considera-te em perigo
pois em ti verterei a fúria do meu amor

desalmada e perdidamente
sorverei cada átomo do teu corpo

que vontade de me estrangular em ti

***


recriação

brotámos com a naturalidade de uma nascente
e carregamos a frescura das águas cristalinas
delas saímos para lhe preparar o leito
a elas voltamos para fundirmos
o abraço molhado que nos chama

e quando conduzidos ao lago calmo
que espelha as nuvens e o céu azul
contemplamo-nos festivamente
e abandonamo-nos ao prazer do simples

com intensas sensações
para cada dia
nos recriamos

***


reza

enroscada com as minhas nas tuas pernas
no quente dos afagos dos poros
rezo até adormecer a oração que se diz
com as letras do teu nome

***


dádiva

na intensa afirmação da dádiva
verteremos de uma forma selvagem
a distensão infinita da nossa força
em cada milímetro da nossa massa

***


fantasia

jogar despudoradamente
experimentar incondicionalmente

se quiseres um dia ser possuída por um outro
poderás encontrar em mim o teu amante
se eu quiser um dia ter sexo bárbaro
procurarei em ti a inevitável submissa
se um dia te sentires predadora
resistirei como uma das tuas vítimas

depois desse deambular
em que não nos reconheceremos
chegará cúmplice a confiança na partilha
como um regresso depois da partida
como um abraço no final da viagem

na página imaculadamente branca
podemos escrever todos os jogos

***


eternidade

estende-te em mim apaziguado
meu corpo foi moldado para ti

somos eternidade
na carne libertada

***


esta noite

esta noite pedir-te-ei a mão
para entrelaçar os meus dedos
enroscarei o meu corpo no teu
sabendo que acordarei renovado

***


tens razão

a tua razão é doce
como as carícias das tuas mãos
suave
como a timbre da tua voz
deslumbrante
como o espreguiço do teu corpo
abrangente
como a tua inteireza
estimulante
como o teu cheiro

***


nascente residente

somos dom do nós
em mim te fizeste nascente
em ti me tornei residente
o tempo gesta
a certeza do porvir

***


nascente residente

somos dom do nós
em mim te fizeste nascente
em ti me tornei residente
o tempo gesta
a certeza do porvir

***


nascente residente

somos dom do nós
em mim te fizeste nascente
em ti me tornei residente
o tempo gesta
a certeza do porvir

***


aura

o nosso colo festeja
o encontro da felicidade sã
dos poros sai envolvente
a nossa aura perfumada
e no rasto inapagável que nos contém
abeiramos o dia que se segue

***


partilha

temos em nossas mãos
toda a força
toda a fragilidade
alegria
é o merecimento do nosso ser

***


dom

tens o dom de resistir às devassidões
e de irmanar o tempo com o ritmo certo da desocultação
mestra e amante em abeirar o que nos segredos consiste
padeces a espera paciente com o inesperado sorriso
e aguardas confiante
o que na surpresa se revela milagroso

parteira em contra-corrente
és guardiã dos sinais e dos simbolismos
que cromatizam o mundo no seu recato auroral
por isso brincas dizendo que o sal da vida é o inesperado
com esse podemos sempre contar
será ele que trará boas marés

adorar-te não é uma questão
é a certeza que cada dia
me abre os olhos para o mundo

***


paz e projecto

a ti pertenço e me ofereço
como uma criança adulta
que brinca na segurança do lar
casa casulo corpo
és a paz e o projecto
a sua alegria palpitante
o tu do nós que me sustenta

***


interminável

acabámos de falar um pedaço
da interminável conversa que somos
sei que não há
nem queremos
caminhos de volta

***


anúncio

com o toque quente do mel
as palavras escorreram para o coração
anunciando-te como a certeza
de todas as promessas que ainda não sei

a aurora terá feições de prazer cúmplice

***


ternura

as tuas formas estão inscritas nos meus gestos
possuis a minha ternura
em toda a dinâmica
das suas metamorfoses

***


rigor

estamos no cume do monte
naquela hora em que ao pé do mar
a natureza é mais silenciosa

a sabedoria dos corpos
tem agora a precisão dos mapas
e as mãos tacteiam
o rigor das sensações

***


vens?

vem ter comigo quando doer, vens?

vestiremos as palavras com que brincamos
as mil e uma peles
e seremos lágrima de mão dada

mergulharemos na obscenidade mestiça
dos corpos que sem esforço se conhecem
e cuidaremos da felicidade dos lábios

não desdigas o doce abandono
não repreendas o que é ciclo natural
seremos o regresso
do que nunca partiu

***


silêncio

contigo o silêncio é tranquilo e aconchega
com a mesma intensidade das palavras


4. marés suspensas

declarar o amor

uma declaração de amor não é
uma declaração de verdade
uma declaração de amor é
uma declaração de intensidade

***


mesmo no silêncio

mesmo no silêncio silenciado
continuarei a amar-nos no aquém
do sequestro das palavras

***


querer bem

querer-nos bem
só nos querer bem
assim nos quero

não, não!
não é um bem querer de fraqueza
é um querer bem
de certeza

***


o que se ama

amo inteligências
e sensibilidades
mas das pessoas
apenas posso amar
os crescimentos
com que se criam

a serenidade do teu fluir
é mais tonificante que a brisa da manhã

***


lição

aprendermos
a implacável e doce
serenidade
do tempo de areia

***


não percas a leveza

acolheremos de uma forma sã e sem tumultos
a invenção da nossa proximidade
e as metamorfoses do nosso amor

as mágoas que por vezes sentiremos
serão sempre menores que o amor
com que curaremos as feridas

não percas a leveza
não te deixes vencer pelos temores de amante
foi sem esforço que o nosso amor nasceu

***


o não-lugar do amor

não se ama o que alguém é
ama-se a contingência de uma configuração
correspondência em mar de exaltações
aquém da palavra que brinca o ser

***


virtuoso

a este mendigo de afectos alheios ensinaste
que procurar o amor é uma qualidade
não uma fraqueza
e assim me tornaste virtuoso
na vertigem de te amar

***


fé nos milagres

na travessia da punição
em gotejar lento que não acaba
exerço a fé nos milagres
que sempre me ensinaste

cumpro o ritual da chuva
em cada envio
sem promessas
nem retorno

***


plantar os dias

criá-los como rebentos
numa vida a plantar cada dia

***


ajuda?

ajuda se eu disser
que nos misturamos como mar e terra?

ajuda se eu pedir
não zangues a felicidade?

***


onde?

talvez te possa levar a água dos olhos
que teima em não rolar
como mar de sal contido
no conta-gotas do olhar

fixo no infinito do horizonte
sou sede em frente ao mar
mas ofereço-te as águas lágrima
na réstia urgente de te dar

não penses no sal

imagina antes o pingo curvo
e o seu percurso arredondado
até pousar nos olhos teus
onde me faço nascente

sabe-me aqui

na estranha mestiçagem
das águas salgadas por vezes
doces

***


que lugar?

conheces aquele lugar
onde não se quer pensar
por se ter já reflectido em demasia
e onde a espuma dos dias sucedidos
já só quer esquecer-se noutros a suceder?

***


do silêncio

sim

por vezes sangra-se demasiadamente
para fora em falta de contenção
tangencial ao desequilíbrio

não

não sucumbas ao primário impulso
de cortar as veias do amor próprio
nas facilidades armadilhadas do confessionário

há uma arte própria
nos encontros do silêncio

***


podemos

podemos cultivar a doçura
que amacia os corações
e rir dos engodos
de passes adoecidos

podemos vislumbrar a serenidade
e isso partilhar como segredo inexplicável
que nos acompanha nas dobras do caminho

dizer a quem?
narrar o quê?

porquê perder o tacto
na vanidade dos ouvidos que não podem escutar?

***


o amor?

não será essa exclusividade que não exclui
o amor?

***


instruções

não o aprisiones
no medo das palavras
falaremos sempre
sem o nomear
pois essa é a sua
e a nossa
condição

***


no olhar distante

no olhar distante
tudo se torna um como se
atravessado de alguma nostalgia

tudo se torna soberbo
e sumamente táctil
dolorosamente violento e doce

nesse desdobramento
que no entre instala a vertigem
tudo se conjuga e desmembra
em perfeição

tudo é
alogicamente intenso
e arrepiante

e sobre o cristalino das sensações
se desvanece e apaga
sem se despedir

***


mistério

existência é brecha que fende sem perguntar
halo invisível que acompanha o caminhar

corremos onde o instante se dilui na amplidão
e os ciclos invisíveis nos transportam
com o mistério do tempo

***


sementeira

o fruto da vida
é a morte

até lá
seja sementeira

e será esperança em pele de tarefa
planos de morrer de resistência

***


Índice
PALAVRAS DE MARÉ CHEIA
 as palavras
abraços
 colo
 casa das palavras
 brotar palavras
 mas a voz
 futuro
 além do dizível
 como sangue que corre
 voar
cumplicidade

ESPELHOS E MARESIAS
 a praia já calma
 desejo
 sem sombra de pecado
 virgindade
 respiração
 fala comigo
 elixir
 espelhos
 habitação
 incondicional
 repouso
 porvir
 vício de te amar
 genuína
 mote
 conversão
 pétala
 cada segundo
 única
 adorno
 cosmogonia
 descansa
 descoberta
 au revoir
 que nome?
 in separação
 cada dia
 ninho de luz
 golpes de amor
 guião
 crescente
 inscrever
 oração
 memória
 lentidão
 âmago
 eros
pássaro de fogo
 toque
 prova
 relógio
 o rosto do mar

ESCULTURAS NA AREIA
declaração de amor
 pedido
 avesso da pele
 sonho meu
 odor perpétuo
 neste momento
 incêndio
 matéria incandescente
 pacto de amor
 intimidade
 perdidamente
 recriação
 reza
 dádiva
 fantasia
 eternidade
 esta noite
 tens razão
 nascente residente
 resistência
humor
 aura
 partilha
 dom
 paz e projecto
 interminável
 anúncio
 ternura
 rigor
 vens?
 silêncio

MARÉS SUSPENSAS
 declarar o amor
 mesmo no silêncio
 querer bem
 o que se ama
 lição
 não percas a leveza
 o não-lugar do amor
 virtuoso
fé nos milagres
plantar os dias
ajuda?
onde?
 que lugar?
 do silêncio
 podemos
 o amor?
 sazonal
instruções
 no olhar distante
mistério
sementeira