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Rui Grácio
«Isso não é
argumento!»
Propor a categoria «assunto em
questão» como unidade de análise das
argumentações significa romper com a
tradição que pensa a partir de uma teoria
prévia do argumento, ou seja, que toma como
questão inicial da teorização da
argumentação a questão «O que
é um argumento?». Concordamos com Hamblin quando
este observa que «pouco há a ganhar em fazer um
assalto frontal à questão sobre o que um
argumento é»1; com o modo de colocar a questão
sugerida por Brockriede quando, em vez de perguntar pelo
«é», pergunta pelo «onde»2; ou,
ainda com a abordagem de Willard quando refere que «os
argumentos são emergentes (…). Fazemo-los surgir
à medida que vamos indo»3.
Para qualquer dos autores referidos,
pensar os argumentos a partir de uma estrutura inferencial
formal é uma via redutora que não se presta a
captar descritiva e analiticamente a realidade prática
do uso dos argumentos. E porquê? Porque no uso
prático os raciocínios e as inferências
não podem ser dissociados da perspectiva em
função da qual são avançados: as
questões de argumentação não podem
ser reduzidas a questões de raciocínio, elas
são essencialmente uma questão de
perspectivação. É assim que Hamblin
escreve que «a aceitabilidade de um processo inferencial
não é uma garantia fechada dos resultados que
serão obtidos através do seu uso, e os argumentos
podem ter contra-argumentos»4, que Brockeriede refere que «um argumento
não é uma ‘coisa’ para se ficar a
olhar mas um conceito que as pessoas usam, uma perspectiva em
que se colocam»5 e, finalmente, que Willard afirma que
«uma vez que as escolhas são geralmente
possíveis, não podemos saber o que um orador quer
dizer a menos que captemos a sua perspectiva. A
perspectivação é, por conseguinte, o lugar
inicial para percebermos as afirmações
situadas»6.
A categoria de «assunto em
questão» enquanto unidade de análise das
argumentações remete justamente para a ideia de
que partimos sempre de uma organização mental
difusamente referenciada, ou de pré-construídos
culturais e que, quando somos chamados a pronunciarmo-nos sobre
um assunto, a tematização discursiva que dele
fazemos é solidária de uma
perspectivação que se vai especificando
através das várias intervenções.
Por outro lado, quando dizemos que nas
argumentações o assunto é abordado sob o
modo do «em questão», remetemos as
intervenções para um contexto de
interacção em que não se trata apenas de
perspectivar o assunto, mas de tomar em
consideração que estamos perante perspectivas
alternativas e, portanto, modos diferentes de o tematizar.
É assim que do nosso ponto de
vista, os argumentos emergem de interacções em
que a tematização dos assuntos é
suficientemente importante para que sobre eles valha a pena
argumentar, levando a que as partes desenhem os discursos de
modo a conferir força às suas perspectivas e a
valorizarem as incidências focais através das
quais procuram circunscrever o que consideram relevante ou
conveniente para evidenciar o dissentimento do seu modo de ver
relativamente a outros modos de ver com que são
confrontados.
Quando assim pensamos, não deixam
de merecer alguma reflexão as propostas teóricas
que têm vindo a ser feitas sobre a
argumentação. De um modo geral elas centram-se
ora em descrições de mecanismos, esquemas,
tipologias e funções dos argumentos, ora em
análises em que tais mecanismos, esquemas, tipologias e
funções se apresentam nos discursos e nas
interacções, ora em função da
avaliação a partir de uma diversidade de
critérios que vão de regras lógicas a
normas de conduta. As perspectivas com uma
ambição mais sistemática, como a
pragma-dialéctica, tentam aliás combinar estas
três dimensões de descrição,
análise e avaliação.
Sem contestar a utilidade de todas estas
abordagens, a pergunta que surge é a de saber se elas
conseguem captar teoricamente o dinamismo das argumentações. Uma
primeira dificuldade reside, como anteriormente referimos, no
facto de na teorização da
argumentação se partir da ideia de que uma
eventual definição de argumento pode ser o ponto
de ancoragem da teorização da
argumentação. A visão corrente
tenderá a definir «argumento» como algo que
cumpre uma função justificativa, pressupondo que
faz parte de um argumento uma
«posição» e
«razões» que sustentam essa
posição.
A estratégia pode ser útil e
é valiosa, sobretudo, de um ponto de vista
pedagógico. Mas não deixa de ser
tributária de uma concepção essencialista
que tende a ver um argumento como algo «em si»,
passível de consideração
monológica, ou seja, dissociando não apenas o
argumento do argumentador como, ainda, isolando os argumentos
da perspectiva que eles pretendem evidenciar. Nesta
visão podem até considerar-se os contextos em que
os argumentos são apresentados, mas estes contextos
não são constitutivos dos argumentos, os quais
podem ser identificados isoladamente. Por outro lado, segundo
esta visão tende a pensar-se que o fulcro das
argumentações não são as
perspectivas e a dissensão resultante de diferentes
modos de ver, mas os movimentos através dos quais tais
modos de ver são justificados através da oferta
de razões. Esta visão justificacionalista, que
perspectiva a argumentação em termos de
racionalidade7, leva a que as análises e as
avaliações das argumentações se
desvie do assunto sobre o qual são desenvolvidas
perspectivas diferentes e alternativas, através de
lances tematizadores que conduzem a determinados modos de
focalizar o assunto a partir de questões tidas por
relevantes por cada um dos argumentadores, e se centre no
problema da adequação entre a tese
avançada e as razões oferecidas para a suportar,
fazendo depender a qualidade da tese quer da análise dos
argumentos ou premissas que a suportam, quer da análise
do modo como ligação entre tese e argumentos
oferece garantias de modo a que o raciocínio surja com
confiável porque racional ou razoável.
Numa série de páginas
brilhantes, Willard advoga com vigor a insustentabilidade das
visões justificacionalistas que ligam a racionalidade
à apresentação de razões.
«’Justificação’ —
escreve — é algo que as pessoas fazem e que vale a
pena estudar, não para decidir que princípios de
justificação são os melhores, mas para
entender o processo nos seus próprios termos»8.
Ora, o que está radicalmente em
causa nos procedimentos justificativos não é a
pressuposição de critérios — pois
para tudo podemos apelar a critérios e para tudo podemos
apresentar razões —, mas uma escolha, uma
opção de perspectivar através de
presunções que consideramos apropriadas para
focalizar as coisas: «Não é o lugar de um
actor num contexto que o torna racional, mas a sua tentativa
para decidir o que é apropriado. Quando uma pessoa
escolhe entender os acontecimentos como, por exemplo, um
economista e não como um psicólogo, ele
está a fazer algo que deveria ser do máximo
interesse para nós. Ele está a comprometer-se no
sentido mais preciso do raciocínio
‘se-então’, ou seja, a escolha dos
padrões de juízo e de veracidade deste ou daquele
campo implica que um actor implícita ou explicitamente
pensa através das possibilidades de ‘dadas as
regras de fundo da linguagem X, o meu raciocínio seguirá o este
caminho; dadas as regras da linguagem Y, o meu
raciocínio seguirá aquele caminho»9. Ou
seja, o cerne da racionalidade não está nas
razões que se apresentam, mas na
perspectivação em função da qual as
razões podem ser apresentadas como
justificação. Pode assim Willard concluir que a
perspectivação, o tomar de uma perspectiva
é o movimento que melhor se presta a definir a
racionalidade10.
Com efeito, o modelo conhecido como
«complexo de tese e razões» é ele
mesmo um modo de tematizar a argumentação que tem
as seguintes características: vê na
argumentação um empreendimento racional; a
avaliação da racionalidade de uma
argumentação liga-se àquilo que é
apresentado como suporte para a tese avançada, sendo
preciso avaliar a partir de critérios como a
aceitabilidade, a relevância e a suficiência das
premissas; neste sentido, encara a argumentação
como um fenómeno essencialmente justificativo; na medida
em as justificações podem ser consideradas,
senão como racionais, pelo menos como razoáveis,
o justificacionalismo é uma forma de persuasão
racional. Mas o paradoxo é que a ideia de
persuasão racional remete essencialmente para o plano do
ethos (imagem de si) e do pathos (emoções). A
questão de apresentar razões ou de dar
razão a alguém não é
discernível da imagem que de nós mesmo passamos
no modo de interagirmos com os outros, uma vez que os pedidos
de justificação poderiam ser virtualmente
infinitos. Desse ponto de vista, a receptividade para escutar
razões, para ser capaz de dar razão quando
é o caso disso ou de não conferir essa
razão aos outros é indissociável da
apresentação do nosso eu e da gestão da
imagem relativamente aos outros. Não negamos que os
procedimentos justificativos desempenhem uma
função essencialmente persuasiva, no sentido em
que se associam à noção de prova e
permitem seguir os passos do raciocínio através
dos quais chegámos a uma conclusão. Mas, como
mais à frente procuraremos explicar, não pensamos
que a conclusão de um raciocínio seja uma tese,
nem identificamos uma tese com as respostas que são
dadas a perguntas. Antes pensamos que uma tese é uma
perspectiva essencialmente ligada ao modo de colocar as questões e,
a partir delas, orientar o sentido dos raciocínios e das
respostas. São as perspectivas que dão sentido
aos enunciados que sobre a sua focagem são
avançados e não um enunciado e as razões
de suporte que, por si só, se podem constituir como uma
tese. Com efeito, nas interacções verbais que
designamos por argumentação, aquilo que acontece
é o desenho de perspectivas em dissensão
através dos diferentes intervenções dos
participantes. Deste ponto de vista, não é o
acordo, mas o desacordo e a sua explicitação
aquilo que está base da emergência de uma
argumentação.
E como devemos então entender a
ideia de «tese»? Tradicionalmente as teses
são consideradas do ponto de vista do tipo de
juízo que está em causa. Assim pode aspirar-se a
considerar algo como facto e, nesse sentido, um juízo
pode ser factual (incida ele sobre a existência de algo
— «Há pessoas felizes» —, sobre
uma relação causal — «O dinheiro
contribui para a felicidade», uma
classificação — «O dinheiro é
uma invenção infeliz» — ou a uma
ocorrência futura — «Daqui a uns anos o
dinheiro permitirá comprar a imortalidade»). Pode
também apresentar um juízo de valor e nesse caso
estamos perante uma avaliação — «As
burlas devem ser punidas» e pode, finalmente, ser um
juízo deliberativo, referindo-se, nesse caso, a atitudes
ou acções a ter ou a realizar — «O
governo deverá aumentar os salários de
funcionários públicos».
A questão que se levanta nesta
abordagem é que a redução da ideia de tese
a um tipo de juízo expresso através de uma
proposição procede a um estreitamente
significativo que não parece conseguir captar o alcance
e o dinamismo das argumentações. Quando, numa
interacção, alguém a firma que
«há pessoas felizes», esta
afirmação não pode ser desligada nem do
desenho do assunto que as intervenções dos
participantes vão tematizando e em que se polarizam, nem
das considerações que cada um avança
acerca do assunto em questão. Podemos imaginar que esta
frase representou um contradiscurso relativamente à
afirmação de um participante segundo a qual todos
seríamos mais ou menos infelizes. De qualquer forma uma
argumentação não reside numa sessão
colectiva de análise proposicional. Nas
interacções discursivas, os vários tipos
de juízos que são postos em marcha na
construção do discurso, tal como a
articulação entre eles, são formas de
tematizar, em co-construção, o assunto que se
está a tratar de modo a que sobre ele se evidenciem
perspectivam diferentes e alternativas. Se tomarmos esta via
como boa, diremos então que «tese», num
sentido de juízo proposicionalmente expresso, leva a ver
as argumentações de uma forma acanhada,
tendencialmente estática e de uma forma muito estreita
quanto àquilo que nela está em jogo e que
é sempre mais do que algo susceptível das
binarizações verdade/mentira, tens
razão/não tens razão, certo/errado. Pelo
contrário, se quisermos conceder uma certa
indeterminação àquilo que chamamos
«tese» e se, nesse sentido, percebermos as
afirmações que se vão sucedendo como
remetendo para a explanação de uma perspectiva
sobre o assunto, para o fazer valer de um ponto de vista,
então o centramento da análise das
argumentações pode passar a incidir no modo como,
através dos lances tematizadores trazidos à
conversa pela sucessão dos turnos de palavra, se vai
esboçando a diferença de perspectivas entre os
argumentadores e como cada um vai desenhando e valorizando a
sua perspectiva pela introdução de novos
considerandos. Deste ponto de vista, e se quisermos manter a
palavra, a «justificação» da nossa
discordância relativamente ao outro remete, em termos
argumentativos, para a afirmação de um modo
diferente de ver, para o reiterar da diferença que nos
faz estar em dissensão, e, antes de mais, porque
não consideramos que o desacordo seja uma questão
a resolver mas, antes, uma diferença a vincar.
Também aqui a importância de apresentar uma
perspectiva sobre um assunto em questão pode ser ligada
ao ethos e ao pathos: a forma como o outro se disponibiliza a
ouvir e se mostra receptivo ao confronto de perspectivas
é essencial no desenrolar das interacções
argumentativas.
Esta forma de encarar os argumentos na e para o caso a caso
da interacção, tem a vantagem de conferir uma
acuidade mais fina na leitura da forma como os discursos
interagem uns com os outros. Tem a desvantagem de, sobre eles,
não podermos fazer uma ponderação profunda
(por exemplo em termos de aceitabilidade, de relevância
ou de suficiência) a não ser em termos ideais e
suspensivos, mas não em termos actuais e ao ritmo da
própria interacção. Aí, a
dinâmica da comunicação implica tanto
expressões transmitidas como expressões emitidas11 e
se a redução da interacção a
conteúdos proposicionais pode permitir, é certo,
esquematizar os raciocínios desenvolvidos, nem por isso
possibilita articulá-los com uma perspectiva sobre um
assunto em questão e com a forma como, desse prisma, se
vão processando raciocínios de modo a
reforçá-la relativamente a outras perspectivas em
confronto.
Ora, pelo contrário, se
abandonarmos a ideia de que captar as
argumentações implica essencialmente a
recondução do discurso à sua
esquematização proposicional (precisão,
externalização, explicitação) e se
pensarmos que, do ponto de vista das interacções
argumentativas o que está em jogo é o confronto
de perspectivas que nunca se dão de uma forma acabada e
necessariamente conclusiva no discurso, podemos pensar que o
que acontece em tais interacções é o
progressivo desenho da diferença de modos de ver ou
abordar os assuntos em questão. Podemos pensar que nas
interacções argumentativas estamos perante vias
de acesso ao assunto através de assunções
e de interesses cuja divergência motiva a que sobre isso
valha a pena argumentar, de organizações
conceptuais que levam proceder a valorizações
não coincidentes e a lidar com linhas divergentes de
pensamento e, mais importante ainda, que a própria
produção do discurso na interacção
desempenha uma função heurística no
sentido dos próprios interlocutores se esclarecerem a si
próprios ao procurarem argumentar com os outros. Uma tal
ideia implica, todavia, que ao contrário de ideias
claras e distintas, partimos de noções vagas e
confusas, de uma latência pré-discursiva para um
esforço situado de precisão, de uma
compreensão difusa para a elaboração de
uma explanação com contornos mais nítidos
e explícitos em função da
situação interactiva em que nos envolvemos.
Esta ideia contrasta, sem dúvida,
com uma imagem erística da argumentação
— «a argumentação é
guerra» —, que vê a linguagem como um
instrumento de persuasão. Não duvidamos que os
usos da linguagem possam ser encarados em termos de finalidade
e que a nossa interacção com os outros possa ser
vista em termos de meio para atingir objectivos. Não
duvidamos que existem formas mais éticas e formas menos
éticas, mais paritárias e mais manipuladoras, na
maneira de interagirmos com os outros. Mas duvidamos que nessas
formas de interacção, assim vistas, encontremos o
desenho de uma dissonância de perspectivas sobre um
assunto em questão sobre a qual vale a pena argumentar.
A nossa concepção afasta-se
também da ideia que associa a argumentação
à resolução racional de conflitos. Afirmar
que a finalidade da argumentação é
resolver racionalmente um conflito de opinião é
uma generalização tão arbitrária
como dizer que a finalidade da argumentação
é a persuasão e a eficácia persuasiva.
Aliás, qualquer destas definições peca, a
nosso ver, por não ser um critério definicional
apropriado e seguro. É óbvio que podemos
considerar que há nos discursos apelos à
racionalidade, tal como é óbvio que esses apelos
podem ter uma função persuasiva. Mas isso mais
não mostra que quem apela à racionalidade confere
valor a determinados critérios, tal como a
intencionalidade persuasiva mais não mostra que o uso do
seu discurso visa uma determinada finalidade. Daí a
dizermos que a finalidade do discurso é a
resolução racional de um conflito ou afirmar que
a finalidade da argumentação é a
persuasão é dar um passo que extrapola
duvidosamente ao definir e conceptualizar a partir de uma
característica particular, de uma propriedade
específica ou de uma das muitas funções do
discurso em interacção. E o que seria —
perguntar-se-á — não extrapolar de uma
forma indevida? Seria pensar a argumentação a
partir de uma base empírica de comunicação
entre pessoas, considerar essa comunicação de uma
forma interactiva (significando isso que ela é
constituída por turnos de palavra que entre si se
alternam dialecticamente), que essa alternância se
polariza em torno de um assunto (ou seja, uma zona de
circunscrição temática em torno da qual
emerge e é viável a sucessão e a
alternância dos turnos de palavra) e, finalmente, que
esse assunto é abordado sob o modo do «em
questão», ou seja, sob o signo da problematicidade
(o que significa que a constatação da
diferença de modos de ver fez com que valesse a pena
argumentar de modo a evidenciar os pontos que organizam a
perspectiva de cada um na sua diferença relativamente
à do outro). Vão neste sentido as ideias de
Willard quando afirma que uma argumentação
é «um encontro social construído sobre as
seguintes mínimas: eu assumo que nós discordamos;
eu assumo que tu assumes que nós discordamos; eu assumo
que estou a argumentar e que tu concordas que eu estou a
argumentar; tu assumes que estás a argumentar e que eu
concordo que estás a argumentar. Estas são
assumpções metadiscursivas que são
independentes do assunto em causa»12. No mesmo
sentido, mas num outro livro, Willard refere-se às
condições mínimas do caso
paradigmático da argumentação como sendo:
«1. a condição que a torna possível
é o dissensus, a convicção dos argumentadores
de que as suas posições são
incompatíveis; 2. é uma
co-orientação baseada em
atribuições mútuas da
intenção argumentativa, ‘estamos a
argumentar’; 3. é um processo de
comparação social independentemente dos motivos
dos argumentadores, ou seja, uma argumentação,
para desempenhar funções epistémicas,
não precisa de ser um diálogo desinteressado; 4.
os seus propósitos e significados não podem ser
abstraídos, para fins descritivos, das perspectivas dos
argumentadores; 5. as definições das
situações informam os procedimentos e os
resultados da interacção e dotam as
asserções de sentido»13.
Quando alguém tem uma perspectiva
diferente sobre um assunto em questão e, para
além do mais, associa à
apresentação da sua perspectiva a uma finalidade
(mostrar que tem razão, por exemplo) então o
argumentativo mistura-se com o persuasivo e o desenho da
interacção apontará para a presença
de raciocínios justificativos como modo de influenciar o
outro no sentido de concluir por um dos modos de ver em
confronto. Mas uma coisa são perspectivas sobre o
assunto em questão, outra são as
estratégias discursivas através das quais se
procura conquistar a adesão do outro e persuadi-lo.
Será possível distinguir, na prática,
estas dois planos? Será que a argumentação
não está indissociavelmente ligada à
retórica? Na prática interactiva essa
ligação é uma realidade, por um lado
porque nenhuma perspectiva se dá, como tal e
explicitamente, no discurso, ainda que nela se vá
progressivamente desenhando e adquirindo contornos mais
nítidos e, por outro, porque os assuntos não
são dissociáveis nem dos condicionalismos da
relação entretecida entre os argumentadores, nem
da imagem de si que se joga em cada turno com que a
interacção se vai tecendo. Mas, na teoria,
podemos distinguir o que é da ordem das perspectivas
sobre um assunto em questão e as estratégias que,
servindo-se do assunto tratado, tem por objectivo a finalidade
provocar efeitos específicos de influência no
outro. Neste sentido, a conversa de um vendedor é
persuasiva, mas não é uma
argumentação: não há nenhum assunto
em questão, apenas a visada de levar o outro a
decidir-se pelo objectivo que antecipadamente se quer
alcançar. Um vendedor de carros não argumenta com
alguém que manifesta interesse em comprar um carro. Pelo
contrário, vê nisso uma boa oportunidade e procura
ser ele a vender-lho, nisso apostando os seus poderes
persuasivos. E o que caracteriza a persuasão
relativamente à argumentação? É que
naquela o problema que dirige a interacção
discursiva é a forma como nos impomos ao outro de forma
a obter a resposta (finalidade) que pretendemos, enquanto nesta se
trata de gravitar em volta das questões que dividem os participantes da
interacção de forma a evidenciar a
diferença de perspectivas sobre o assunto.
Será exigir de mais pensar a
argumentação fora da ideia de que argumentar
não se reduz à apresentação de
razões e procurar ver que nas
argumentações o jogo de leitura e de
interacção se liga essencialmente à
questão da afirmação de uma perspectiva
através da atribuição do valor
«argumento» às incidências que nela se
enquadram? Não será aproximarmo-nos da realidade
concreta considerar que a frase «Isso não é
argumento!» aponta com clareza que os argumentos
são valores configurativos numa interacção
argumentativa? Que o lugar da avaliação dos
argumentos é a interacção em que eles
são ou não valorizados como tal, e que proceder a
uma avaliação independentemente da
interacção e das tomadas de perspectiva é
pretender ocupar uma exterioridade que já nada tem a ver
com a dinâmica argumentativa, uma vez que dissocia o
valor «argumento» do argumentar em e para o acto?14
E, finalmente, será que a
objecção «isso não é
argumento» não é uma
indicação que nos encontramos, plenamente, numa
argumentação? Depende, como é
óbvio, da perspectiva.
Notas
1
HAMBLIN, C.L., 1970, Fallacies, London, Methuen, p. 231.
2
Cf. BROCKRIEDE, W., 1975, «Where is argument?» in Journal of the American Forensic Association, XIII, pp. 129-132.
3
Willard, C. A., 1989, A Theory
of Argumentation,
Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 67.
4
HAMBLIN, C.L., 1970, Fallacies, London, Methuen, p. 231.
5
BROCKRIEDE, W., 1975, «Where is argument?» in Journal of the American Forensic Association, XIII, pp. 129.
6
WILLARD, C. A., 1983, Argumentation
and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p. 141.
7
É assim que Toulmin, Rieke e Janik escrevem:
«Qualquer pessoa que participa numa
argumentação mostra a sua racionalidade, ou a
falta dela, através da forma como lida e responde
à oferta de razões a favor, ou contra, teses. Se
for «aberto aos argumentos», ela reconhecerá
a força das razões ou procurará
replicar-lhes, lidando com elas, em qualquer dos casos, de uma
forma «racional». Se for «surdo aos
argumentos», pelo contrário, poderá ignorar
razões contrárias ou responder-lhes com
asserções dogmáticas, falhando, em
qualquer dos casos, em lidar com os assuntos
«racionalmente» (Toulmin, Rieke, Janik, 1984, An
Introduction to Reasoning,
2.ª ed., NY, Macmillan Publishing Company, p. 14).
8
WILLARD, C. A., 1983, Argumentation
and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p. 136.
9
WILLARD, C. A., 1983, Argumentation
and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p. 143.
10 Cf. WILLARD, C. A., 1983, Argumentation and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p.
141 e ss.
11 Cf. GOFFMAN, ERVING, 1993, A Apresentação do Eu na Vida de Todos
os Dias, Lisboa, Relógio
d’Água, p. 15.
12 Willard, C. A., 1989, A
Theory of Argumentation,
Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 53.
13 WILLARD, C. A., 1983, Argumentation
and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p. 34.
14 Escreve Hamblin: «mas considere-se agora a
posição de um observador e, particularmente, a de
um lógico, que está interessado em analisar e,
porventura, ajuizar sobre o que transpira [da
interacção]. Se ele disser ‘As premissas do
Smith são verdadeiras’ ou ‘O argumento do
Jone é inválido’, está a tomar
posição no dialogo exactamente como se fosse um
dos participantes; mas, a não ser que ele esteja de
facto envolvido num dialogo de segunda ordem com outros
observadores, a sua observação mais não
diz do que ‘Aceito as premissas do Smith’ ou
‘Não aprovo o argumento do Jone’. Aos
lógicos é certamente permitido exprimirem os seus
sentimentos, mas há algo de repugnante na ideia da
Lógica ser o veículo da expressão dos
próprios juízos de aceitação ou de
desacordo do lógico relativamente a
afirmações ou a argumentos. O lógico
não está acima e fora da
argumentação prática ou faz,
necessariamente, juízos sobre ela. Não é
um juiz nem um tribunal de apelo, e não existe um tal
juiz nem um tal tribunal: quando muito, ele é um
advogado com experiência. Daqui decorre que não
é um trablaho específico do lógico
declarar a verdade de qualquer afirmação, ou a validade de qualquer argumento» (HAMBLIN, C.L., 1970, Fallacies
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