Apresentação de livros
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Rui Grácio

(Apresentação na Fundação Eugénio de Andrade, em 11 de Outrubro de 2007)

Para além da minha condição de editor, estou hoje aqui também na qualidade de apresentador. Por culpa e risco do autor, evidentemente, que me honrou com o respectivo convite de apresentação.
Devo dizer que não é para mim uma tarefa muito fácil pois trata-se de uma das obras que mais me tocaram de todas aquelas que recentemente li.
E o facto é que, por vezes é mais fácil fazer apresentações de livros relativamente aos quais temos alguma distância do que dequeles que nos são muito afins.
Mas, ainda assim, lá tentei fazer o meu melhor e aqui está o que escrevi para a apresentação desta obra.
O livro «A condição do desejo» abre com algumas epígrafes e é por elas que gostaria de começar a apresentação desta obra de Manuel Ralha.
Creio que elas devem ser lidas como escolhas rigorosas que servem de enquadramento sintético e preciso da obra. (A paixão pelo rigor, devo dizer, é uma das características deste autor). São elas em número de três.
A primeira é a mais geral e diz o seguinte:
«Aos rumos da indagação intelectual que transformam a perplexidade ante a inexorável ilusão numa fantástica aventura».
Desta passagem, retenhamos três expressões: indagação intelectual, inexorável ilusão e fantástica aventura: eles apontam para as traves mestras da presente obra de ficção.
As outras duas citam, respectivamente, Espinosa e Kant:

“Os homens julgam-se livres visto que estão conscientes das suas vontades e desejos, e, na sua ignorância, nem sonham sequer quais as causas que os levam a querer e a desejar.”
Benedictus de Spinoza (1632 -1677) Ética Parte I, Apêndice

“O tempo é, pois, simplesmente, uma condição subjectiva da nossa (humana) intuição (porque é sempre sensível, isto é, na medida em que somos afectados pelos objectos) e não é nada em si, fora do sujeito.”
Immanuel Kant (1724-1804) Crítica da Razão Pura Estética Transcendental do Tempo Primeira parte, 2.ª Secção, § 6

Poder-se-ia pensar que, face a tais epígrafes, estaríamos perante um livro de filosofia. Mas isso não é verdade. Estamos, de facto, perante uma obra de literatura.
As epígrafes apenas significam que as questões filosóficas podem cruzar a literatura e vice-versa.
Sartre dá-nos aliás um bom exemplo desse cruzamento em várias das suas obras e a sua ideia de que tudo pode servir de motivo para filosofar, cruzando a dimensão reflexiva com a vida na sua dimensão quotidiana é uma das mais-valias da sua escrita.
Também neste livro a proximidade da dimensão reflexiva e crítica, que se traduz afinal na aliança entre condição existencial e indagação intelectual, é o pano de fundo da escrita desta segunda obra de Manuel Ralha (a primeira do autor foi um livro de textos poéticos intitulado Meander, publicado em Junho de 2005 pela Minerva).
Mas a referida aliança entre condição existencial e indagação intelectual tem neste livro um epicentro que é o desejo, sendo este pensado, a um nível básico, como instinto de sobrevivência ligado à evolução das espécie, ou talvez melhor, «à co-evolução», a um nível vivencial como necessidade da reconstrução narrativa da história existencial (o seu enquadramento em nexos de sentido) e a um nível intelectual como insatisfação e tensão que mantêm as certezas como provisórias e revisíveis e como desafio de uma indagação que é um enfrentamento e uma resistência.
É aliás no contexto desta tripla vertente que o tema do desejo não pode ser dissociado do tema da ilusão ou do par liberdade-alienação.
Porque a dinâmica do desejo é incompatível com a soberania da consciência: tanto somos movidos pela tensão desejante como somos constantemente apanhados nas suas malhas e nas suas projecções.
Donde a condição do desejo não ser o estado de lucidez mas o estado de resistência na sua articulação com o tempo contingente de vida que a existência nos reserva.
E eis que, assim postas as coisas, as três epígrafes ganham o sentido de moldura desta obra que articula cinco linhas narrativas centradas em outras tantas personagens: Rogério, Edgar, Teresa, Nuno e Sérguei.
Do ponto de vista vivencial, todas estas personagens estão ligadas a um percurso, a uma história de vida e a situações existenciais peculiares, ainda que todas se insiram nas características que marcam a nossa época actual a qual, aliás, é retratada com sublime mestria pelo autor através do enfoque que dá a um certo número de aspectos, no qual se pode realçar a sociedade acelerada e massificada da comunicação mediática. Aliás, deixem-me insistir, tematicamente, o livro revela-se de uma enorme actualidade.
Cada uma das personagens tem um perfil bem definido. Rogério é arquitecto que vai apresentar um projecto na Holanda e revela-se como uma pessoa inserida na sua circunstância, ainda que não deixe de ter gosto pelo debate intelectual. Mas não é uma pessoa radical, antes procura as harmonias possíveis, nomeadamente com a sua esposa Teresa a quem trai sem valorizar todavia a traição e sem deixar que o deslumbramento de uma noite de prazer se superiorize a uma cumplicidade geminada por anos de um percurso companheiro.
Teresa é uma médica com o sentido de missão. Vamos encontrá-la em Angola onde cumpre um trabalho de voluntariado. É também através dela que o autor melhor caracteriza o feminino, ou pelo menos certas das suas qualidade, realçando, nomeadamente, o poder do sexto sentido, os fortes dotes de intuição que lhe assistem.
Nuno é filho de Rogério e de Teresa e está a estudar em Inglaterra. Partilha o seu apartamento com estudantes provenientes de muitas nacionalidades e vive o seu primeiro estado de paixão com a turca Harika.
Sérguei é um ucraniano com formação superior e traz consigo a dureza de um destino que o obrigou a emigrar e a reconstruir a vida a partir do zero. Deixou para trás o vazio familiar pautado pela morte da filha e pelo fuga da sua mulher. Em Portugal passa pelas obras como servente mas a sua determinação permite-lhe ir assentando a vida. Estuda de novo, consegue arranjar um trabalho melhor num restaurante e ambiciona montar o seu próprio negócio. Ainda que preso recorrentemente à recordação da sua esposa, que não sabe onde está, procura todavia refazer afectivamente a sua vida.
Finalmente Edgar — que é, segundo creio, a personagem central — é o retrato da pessoa radical, do não acomodado e do resistente e reticentemente inserido. É designer por profissão e dedica-se à pintura. Tem uma relação de paixão com Carolina, mas a forma como vivem essa paixão é heterodoxa na medida em que é vivencialmente descontínua. Uma característica que não é estranha à própria postura de resistência desta personagem que cultiva a solidão como forma de nunca perder a escuta e a autonomia do seu próprio pensamento perante a constante invasividade do ruído circundante que, qual aspirador, tende a diluir-nos na superficialidade de uma existência mimética e em que o corpo a corpo da luta pelo discernimento é triturado por uma velocidade relativamente à qual estamos sempre em atraso e sem tempo para reflectir.
Com as personagens os dados estão, pois, lançados. Mas o melhor do jogo ainda está para vir. E porquê?
Em primeiro lugar porque a escrita de Manuel Ralha nos suga para a mente de cada uma destas personagens e nos faz percorrer a fascinante mobilidade e complexidade do cruzamento pensamento-existência.
É com notável a sabedoria e finura que Manuel Ralha transpõe para a sua escrita os movimentos íntimos — hesitações, observações, deambulações, interrogações, cogitações, percepções, tensões, expectativas, etc. — das mentes das suas personagens. E fá-lo de tal maneira que será difícil ao leitor não se identificar com o que vê descrito.
Deixem-me dar-vos um exemplo, lendo-vos um excerto da obra (p. 185-202):

«Um casal, com dois filhos pela mão, vem caminhando pelo recinto comercial mais concorrido. Pela atitude, pela indumentária e pela forma como se arranjam não será difícil de estabelecer que são holandeses de Amesterdão, de partida para férias para qualquer ponto do mundo. Ele, muito loiro, de cabelo comprido, não demasiado, vestido completamente de ganga e com umas botas vermelhas de sonoros tacões, que o vão anunciando pelo ruído que provocam no pavimento. Traz uma menina, dos seus seis, sete anos, pela mão, que parece uma boneca, de tão bonita e garridamente vestida. A mulher, talvez um pouco mais velha que ele, vem mais à frente, de mão dada com o filho que deve ter à volta de dez, doze anos. Em muitos países seria considerada muito extravagante a sua maneira de vestir, mas não aqui na Holanda, onde a liberdade de costumes é doutrinária. A sua saia é extremamente curta, mas as pernas estão bem protegidas por umas meias de algodão grosso de cor amarelo-torrado. O cabelo, na rebeldia do seu intencional corte desigual, tem madeixas de várias cores. A sua camisa, revelando claramente a inexistência de soutien, vai aberta generosamente. Mesmo que os vários colares que lhe caiem sobre o decote constituam um adorno de resguardo parcial, o efeito é estrondosamente sensual, incitando a curiosidade do mais tímido. O casaco, também de ganga, mas forrado a pelo branco, permanece aberto de par em par, dando-lhe contudo um toque agradável de aconchego. Curiosamente, o rapaz, que tem uma aparência bastante sisuda, é a figura mais formal do pequeno grupo, embora a sua formalidade não deixe também de constituir uma singularidade, pois está vestido de fatinho completo, parecendo um executivo em ponto pequeno.
Os quatro dirigem-se para o convidativo restaurante, repleto de anúncios coloridos, onde está Rogério que os seguiu e observou desde que os focou na sua amplitude visual. Acomodam-se numa mesa precisamente ao lado da mesa onde ele está. Quando se sentam sorriem-lhe ao de leve. Ele retribui e aproveita para limpar as lentes dos óculos vagarosamente, concentrando-se de forma a ser mais fácil deixar de ser o curioso observador que vem sendo até ali. (…)
A certa altura sentiu-se observado pelo casal ao lado, ou, mais exactamente, por ela, pela senhora de cabelo ás madeixas coloridas e meias-calça amarelo-torrado. Pensou que com certeza, para ela, o extravagante era ele e por isso o espreitava, ainda que discretamente, pelo menos a princípio. Porque passado algum tempo, já Rogério saboreava o seu jantar, ela insistiu de forma mais insidiosa, parecendo querer que ele também reparasse nela. Rogério achou um pouco desusada a sua atitude, dado que ela estava sobejamente acompanhada. O marido acabou por notar o enlace oftálmico, mas a sua completa indiferença pareceu absolutamente sincera. Então, já um pouco perturbado, Rogério deu consigo a pensar que o charme que Elena lhe atribuíra permanecia ainda na sua atitude, a sua aura de macho confiante era por certo esplêndida. E a sua imaginação começou a fabricar outra história acerca do grupo que não distava mais que três ou quatro passos da sua cadeira. Achou então que eles não eram marido e mulher, mas eram irmãos. Sim, tanto a primeira como a segunda hipótese eram plausíveis. Afinal em que se baseara ele para admitir que era um casal e dois filhos? Não podia objectivamente tirar tais conclusões baseadas simplesmente em intuições e deduções superficiais. Nem sequer podia estabelecer rigorosamente de quem seriam as crianças. Poderiam nem ser deles. Eles podiam nem ser da mesma família… O frio raciocínio lógico, depois que colocou em funcionamento a racionalidade em pleno, demonstrava que não podia concluir nada que fosse garantidamente verdadeiro.
Rogério foi comendo e divertindo-se a pensar naquele episódio, na curiosidade que podia suscitar numa mulher sensual daquelas, do seu puro desinteresse por isso e de como a mente constrói constantemente enredos a partir de quase nada. Contudo, todos dependiam desses enredos, sobretudo da capacidade de discernir os verdadeiros e de não tomar os falsos por certezas, pois disso dependeria em grande medida a melhor ou pior progressão de cada um…
No fim do jantar pediu um chá: teve receio que o café não prestasse. Voltou a captar os sons da mesa ao lado que continuavam a vir na língua local, que ele de todo não entendia. Todavia a forma como se comportavam as crianças com a senhora era apenas compatível com a intimidade que existe entre mãe e filhos…
Quando chegou o seu chá os quatro levantaram-se, não sem alguma algazarra (eram realmente um grupo bem colorido…) e ela atirou-lhe um olhar provocador antes de começar a caminhar. Depois, ajeitou as engelhas das meias afagando as pernas com alguma provocação à mistura, atrasando-se um pouco em relação aos outros. Alcançou-os com uma corridinha de passinhos curtos. Os miúdos foram andando à frente de mãos dadas. O homem abrandou o passo para que ela logo o apanhasse. Ela acelerou um pouco mais nos últimos passos e agarrou o homem por trás e desatou a fazer-lhe cócegas, ao mesmo tempo que se ria alegremente. Ele virou-se e num gesto rápido prendeu-lhe os pulsos, a seguir puxou-a para si, abraçou-a e colou-lhe os lábios à boca com ímpeto. Ficaram a beijar-se apaixonadamente por alguns segundos que para Rogério foram uma eternidade. Quando se afastaram, ele apressou-se no encalço dos filhos e ela, compondo os cabelos, virou-se para trás atraindo de imediato os olhos de Rogério que obedeceu sem hesitação. Trocaram um intenso olhar carregado de cumplicidade. Os olhos dela eram tão verdes!… Rogério, ainda fecharia os olhos para os ver, de quando em quando, nos dias que haviam de vir…
Que tipo de capricho poderia existir na vontade daquela mulher, Rogério estava muito longe de conseguir imaginar. Era para a sua inteligência um completo mistério. Seguramente não teria muito cabimento tentar desmontar o episódio para lhe encontrar uma qualquer coerência dentro dos seus parâmetros de comportamento social. No entanto, a sedução que ela conseguia exercer era qualquer coisa de extraordinário. Apesar do seu estado de indiferença, de “macho saciado”, ele avaliara bem o apelo daquele corpo, o fascínio daquele olhar, a força magnética que ela empregara para se insinuar com a sua eminente condição de fêmea.» (p. 185-202)


Em segundo lugar, porque os percursos de cada personagem são também orquestrados segundo temáticas subliminares para que convergem. Os títulos de alguns dos capítulos do livro são a este respeito muito elucidativos: Necessidade, Circunstância, Simultaneidade, Causalidade, Acaso, Linguagem, Tempo, Desejo, Hipnos.

Temos assim um desdobramento de planos: por um lado, o da nossa condição micro de marionetas coladas ao imediatismo circunstancial da nossa relação com o real, com o tecido da situação em que estamos inseridos e para as quais chegamos sempre tarde para decidir e escolher, no sentido em que Ortega e Gasset dizia que «eu sou eu e a minha situação».

Por outro, o plano macro, mais enigmático, das categorias invisíveis que organizam o plano dos acontecimentos: nexos de necessidade e de causalidade, planos circunstanciais de temporalidade simultânea ou diferida, intervenção da contingência do acaso ou do poder magnético do desejo, a dependência das formas de pensar relativamente à linguagem que nos constitui, enfim, o jogo do tempo que nos joga na sua modelação humana.

Chegado a este ponto, queria fazer uma observação. Não julguem que o livro é uma maçuda reflexão sobre todos estes temas. Não é.

Ele apresenta-se como uma obra de ficção recheada de referências mundanas. A sua acção é concreta e os percursos dos personagens é bem delimitado e circunstanciado. É aliás uma das virtudes deste livro a forma primorosa como tais circunstâncias são desenhadas nos seus detalhes essenciais.

Mas é também com mestria que o autor acciona o olhar reflexivo pondo na boca dos personagens, nos seus diálogos e nos seus pensamentos uma sensação de estranheza relativamente as coisas supostamente «normais» da vida. O resultado traduz-se numa obra que cruza a discursividade com a interrogatividade, originado diálogos e pensamentos de natureza argumentativa, em que se ponderam assuntos de várias perspectivas sem contudo deixar de se remeter essas argumentações para os modos de vida de cada uma das personagens. Uma vez mais, a ligação entre situação e pensamento é aqui a regra.

Deixem-me ilustrar o que acabei de referir com alguns exemplos tirados do livro. Escolhi um deles para a contracapa do livro. Trata-se de uma fala de Edgar, num dialogo que mantém com Rogério.

«— Eu não quero ser um homem “do” meu tempo! Quando muito pretenderei ser um homem “no” meu tempo.
O que os meus contemporâneos pensam ou fazem tem uma sensatez muito relativa para mim. Aliás, mais!… Se quiser ser um homem do meu tempo arrisco-me a ser um homem sem liberdade para pensar.
Para, por exemplo, pensar na História. Pensar que nem sempre tudo foi assim e que as coisas não vão permanecer assim. Que o Homem em cada época se ilude com a sua verdade transitória, efémera, e afirma que o caminho é este ou aquele, que o progresso se manifesta desta ou daquela maneira, quando, se pararmos para pensar um pouco, vemos que a História nos ensina precisamente o contrário, que houve grandes certezas que ruíram e factos totalmente inesperados que ocorreram.
Eu tenho necessidade, e daí a minha estratégia de combate, que é um gracejo, mas que exprime uma certa forma de estar na vida, de sair desse enorme ruído da competição do nosso tempo, para poder pensar.
Tão-somente pensar. Nem se trata de animosidade contra isto ou aquilo, sequer simpatia por isto em detrimento daquilo, apenas silêncio, ou antes, interrupção desse ruído, para me poder ouvir, para saber o que penso afinal.
E além disso, não me parece que essa tal civilização avançada tenha enveredado pela estrada da bem-aventurança. Bem pelo contrário! Há qualquer coisa de retardamento nesse sistema, qualquer coisa de inferior em termos de evolução. Parece-me ser o condicionamento em massa. As multidões são condicionadas, quais “hominídeos instintivos”, a participarem nesse jogo. O desejo, sob todas as formas, nem sempre legítimas, é incutido, alimentado, disseminado e explorado.
E não me falem em liberdade de opção, porque a consciência e os sentidos possuem limiares restringentes, susceptíveis de serem habilmente considerados pelas tecnologias de persuasão que estão muito para além dos conhecimentos básicos das populações, sejam elas de onde forem. No limite, parece-me que estamos todos embarcados num gigantesco embuste» (pp. 266-267).

Outro excerto, desta vez um diálogo entre Edgar e Carolina:

«— O Homem nasceu para viver só, fatalmente entregue à sua solidão essencial.
— Mas… — argumentava Carolina, sorrindo — tu raramente estás só… um homem tão solicitado!
— O que tu queres dizer, Carolina, é que eu não estou sozinho, o que é outra coisa. Não estou sozinho, mas estou sempre, sempre só. Contudo, poder-te-ei dizer que nunca sofri de solidão, que é já outro conceito, e que as melhores fases, desta minha já considerável jornada, foram quando estava mais só!…
— Pois… hum… acabarás por morrer só!
— E não acabaremos todos? Será que algum dia alguém teve a certeza que outro alguém teve dele um conhecimento íntimo satisfatoriamente razoável, ao ponto de se sentir verdadeiramente acompanhado? Não será toda a forma de companhia uma ilusão e uma dispersão, uma distracção do conhecimento e encontro consigo mesmo? Sim, morreremos todos sós. Ninguém pode estar absolutamente connosco!
— Não sei… assim já estamos outra vez nos absolutos! — Carolina apontando o dedo.
Edgar olhou-a — ela era tão bonita, os olhos azul-turquesa muito brilhantes, os cabelos cor de areia muito bem cortados tocando levemente nos ombros, as feições tão harmoniosamente perfeitas — e declarou, ironicamente mas com ternura, em tom de conclusão:
— Mas tu é que falaste em morrer: o mais fatídico dos absolutos!» (pp. 21-22).

Um terceiro excerto, um diálogo entre Oleg e Sérguei:

«De súbito lembra-se de Oleg. Não o viu durante todo o dia. Mas poderia apostar onde ele está àquela hora: no café a ver televisão. Oleg passa todo o tempo disponível a ver televisão. Pelo que Serguéi se apercebeu nos hábitos dos portugueses, Oleg está, nesse aspecto, bem integrado, pois a televisão é um passatempo sobejamente apreciado.
O que é mais curioso é que a preferência dele vai para a publicidade. Adora ver publicidade. Ao ponto de achar grande parte da programação ligeiramente enfadonha, comparativamente com a publicidade! No entanto, a argumentação de Oleg acerca da sua predilecção é rebuscada. Para além do gozo puro pelo dinamismo inebriante das imagens apelativas, Oleg defende que a publicidade lhe dá o conhecimento rápido da sociedade onde está envolvido, sendo portanto a satisfação de uma curiosidade sociológica com a correspondente assimilação dos valores que caracterizam a população, com efeitos claramente vantajosos na sua adaptação. Oleg tem formação em engenharia mecânica, não tendo portanto conhecimentos especiais em áreas sociológicas ou mesmo de marketing, mas, quando Serguéi o provocou, ele atacara:
— É tudo uma questão de intuição!… A publicidade coloca as ferramentas, que o melhor das mais avançadas tecnologias pode oferecer, ao serviço da penetração no imaginário dos potenciais adquiridores. Sendo que a mensagem terá que ser eficaz. O seu alto custo nos meios de difusão não se compadece com diletantismos. Trata-se de inculcar desejos de aquisição nos mais vastos auditórios… Há que conhecer as mentalidades dos padrões sociais muito bem para que a aceitação seja bem sucedida.
— Vejo que as técnicas de marketing te são deveras familiares. Mas que ligação é que isso tem com a tua inserção social!? Não seria mais natural conviveres com as pessoas? — Instigou-o Serguéi.
— Tem tudo a ver. Vejo que ainda não chegaste lá… Como te tentei explicar, pretendendo-se convencer determinado grupo a aderir ao que está em causa oferecer, há que conhecer o mais profundamente possível a caracterização psicológica desse grupo para se obter uma reacção favorável. Assim, ao analisar a forma e conteúdo do procedimento utilizado, eu vou ter acesso aos mais elaborados estudos e à mais apurada intuição que incidiram sobre o dito grupo para satisfação desses objectivos.
— Sim, vês o filme ao contrário — banalizou Serguéi. — Desmontas a perspectiva do anunciante, encontrando nela aspectos da índole do “adquiridor alvo”. Não precisavas de tanta retórica para demonstrares aquilo que, consciente ou inconscientemente, todo o espectador faz: interpretar o espectáculo! Para além disso, o que mais me intriga, é que não te entedies com a constante repetição dos mesmos anúncios, técnica essencial à sua sugestão e que a mim me provoca náuseas. Continuo a insistir que a convivência social é mais salutar.
— Pois aí é que começa o segundo capítulo — Oleg não desarmou. — Não menos importante que o primeiro. É na análise exaustiva dos pormenores, que só se consegue na observação continuada, que podemos atingir as verdades mais subtis e entrar nas familiaridades da população. Conviver dizes tu! Para ter um retrato do tipo daquele de que te falo quantas pessoas teria de conhecer? Quanto tempo iria demorar? Com certeza que conhecer pessoas não está fora de causa…
— Ainda se confessasses preferências na programação: filmes, programas temáticos… eu sei lá…
— Pois, a programação também é importante — afirma Oleg e explica com ar de quem revela um segredo:
— A programação encerra em si muitos indícios. Os programas são a teia. A grande teia fundamental. Mas a fantástica estratega aranha é a publicidade!
— Pois eu continuo a pensar como dantes — arremessou Serguéi prazenteiro, desanuviando. — Para mim, o que te interessa especialmente são as fabulosas garotas e os ambientes idílicos. Para sonhares. Para viveres a tua fantasia!
— Sim, pois… — Oleg riu-se, bem disposto. — Convém que haja nisto um lado lúdico… É bom ter fantasias, mas eu gosto de as despir. As fantasias claro!…» (pp. 52-53).

Poderia naturalmente apresentar mais exemplos, mas penso que estes bastam para cumprir a sua função ilustrativa e aferir o tom em que decorre o livro.
Por isso, e porque uma apresentação visa mais abrir o apetite para a leitura de uma obra do que contá-la, passo a algumas considerações finais.
Penso que estamos perante uma obra literária maior que simultaneamente convoca o prazer da leitura e nos brinda com a gratificação intelectual que dela retiramos.
O autor revela-se possuidor de uma imensa cultura e de um conhecimento aprofundado e fascinado da mobilidade da mente humana e da sua densidade psicológica.

Tem a capacidade de abordar temáticas que a todos interessam com uma elevação superior, sem contudo deixar de ser surpreendentemente acessível pela forma como objectiva essas temáticas nos diálogos que recorrentemente surgem.
Tem também o dom de fazer com que esses diálogos desafiem o leitor para pensamentos adicionais, convidando-o a participar neles.
Por outro lado, o pendor crítico é uma constante, não porque nos convide a adoptar soluções prontas a subscrever, mas antes porque acicata no leitor o estímulo de também ele lidar com a complexidade dos diagnósticos das nossas formas de viver.
Neste sentido, esta obra literária é o trabalho de um resistente que, a todos que são sensíveis à resistência, não deixará de fazer sentir acompanhada a sua essencial solidão.
Nesse sentido, ainda, esta obra cumpre a missão de elevação intelectual que toda a literatura traz ou, pelo menos, deveria trazer.
Manuel Ralha, A Condição do desejo, Pé de Página Editores, 2007.