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Apresentação de livros
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Rui Grácio
(Apresentação na
Fundação Eugénio de Andrade, em 11 de
Outrubro de 2007)
Para além da minha
condição de editor, estou hoje aqui também
na qualidade de apresentador. Por culpa e risco do autor,
evidentemente, que me honrou com o respectivo convite de
apresentação.
Devo dizer que não é para mim
uma tarefa muito fácil pois trata-se de uma das obras
que mais me tocaram de todas aquelas que recentemente li.
E o facto é que, por vezes é
mais fácil fazer apresentações de livros
relativamente aos quais temos alguma distância do que
dequeles que nos são muito afins.
Mas, ainda assim, lá tentei fazer o
meu melhor e aqui está o que escrevi para a
apresentação desta obra.
O livro «A condição do
desejo» abre com algumas epígrafes e é por
elas que gostaria de começar a
apresentação desta obra de Manuel Ralha.
Creio que elas devem ser lidas como
escolhas rigorosas que servem de enquadramento sintético
e preciso da obra. (A paixão pelo rigor, devo dizer,
é uma das características deste autor).
São elas em número de três.
A primeira é a mais geral e diz o
seguinte:
«Aos rumos da indagação
intelectual que transformam a perplexidade ante a
inexorável ilusão numa fantástica
aventura».
Desta passagem, retenhamos três
expressões: indagação intelectual,
inexorável ilusão e fantástica aventura:
eles apontam para as traves mestras da presente obra de
ficção.
As outras duas citam, respectivamente,
Espinosa e Kant:
“Os homens julgam-se livres visto que
estão conscientes das suas vontades e desejos, e, na sua
ignorância, nem sonham sequer quais as causas que os
levam a querer e a desejar.”
Benedictus de Spinoza (1632 -1677)
Ética Parte I, Apêndice
“O tempo é, pois,
simplesmente, uma condição subjectiva da nossa
(humana) intuição (porque é sempre
sensível, isto é, na medida em que somos
afectados pelos objectos) e não é nada em si,
fora do sujeito.”
Immanuel Kant (1724-1804) Crítica da
Razão Pura Estética Transcendental do Tempo
Primeira parte, 2.ª Secção, § 6
Poder-se-ia pensar que, face a tais
epígrafes, estaríamos perante um livro de
filosofia. Mas isso não é verdade. Estamos, de
facto, perante uma obra de literatura.
As epígrafes apenas significam que
as questões filosóficas podem cruzar a literatura
e vice-versa.
Sartre dá-nos aliás um bom
exemplo desse cruzamento em várias das suas obras e a
sua ideia de que tudo pode servir de motivo para filosofar,
cruzando a dimensão reflexiva com a vida na sua
dimensão quotidiana é uma das mais-valias da sua
escrita.
Também neste livro a proximidade da
dimensão reflexiva e crítica, que se traduz
afinal na aliança entre condição
existencial e indagação intelectual, é o
pano de fundo da escrita desta segunda obra de Manuel Ralha (a
primeira do autor foi um livro de textos poéticos
intitulado Meander, publicado em Junho de 2005 pela Minerva).
Mas a referida aliança entre
condição existencial e indagação
intelectual tem neste livro um epicentro que é o desejo,
sendo este pensado, a um nível básico, como
instinto de sobrevivência ligado à
evolução das espécie, ou talvez melhor,
«à co-evolução», a um
nível vivencial como necessidade da
reconstrução narrativa da história
existencial (o seu enquadramento em nexos de sentido) e a um
nível intelectual como insatisfação e
tensão que mantêm as certezas como
provisórias e revisíveis e como desafio de uma
indagação que é um enfrentamento e uma
resistência.
É aliás no contexto desta
tripla vertente que o tema do desejo não pode ser
dissociado do tema da ilusão ou do par
liberdade-alienação.
Porque a dinâmica do desejo é
incompatível com a soberania da consciência: tanto
somos movidos pela tensão desejante como somos
constantemente apanhados nas suas malhas e nas suas
projecções.
Donde a condição do desejo
não ser o estado de lucidez mas o estado de
resistência na sua articulação com o tempo
contingente de vida que a existência nos reserva.
E eis que, assim postas as coisas, as
três epígrafes ganham o sentido de moldura desta
obra que articula cinco linhas narrativas centradas em outras
tantas personagens: Rogério, Edgar, Teresa, Nuno e
Sérguei.
Do ponto de vista vivencial, todas estas
personagens estão ligadas a um percurso, a uma
história de vida e a situações
existenciais peculiares, ainda que todas se insiram nas
características que marcam a nossa época actual a
qual, aliás, é retratada com sublime mestria pelo
autor através do enfoque que dá a um certo
número de aspectos, no qual se pode realçar a
sociedade acelerada e massificada da comunicação
mediática. Aliás, deixem-me insistir,
tematicamente, o livro revela-se de uma enorme actualidade.
Cada uma das personagens tem um perfil bem
definido. Rogério é arquitecto que vai apresentar
um projecto na Holanda e revela-se como uma pessoa inserida na
sua circunstância, ainda que não deixe de ter
gosto pelo debate intelectual. Mas não é uma
pessoa radical, antes procura as harmonias possíveis,
nomeadamente com a sua esposa Teresa a quem trai sem valorizar
todavia a traição e sem deixar que o
deslumbramento de uma noite de prazer se superiorize a uma
cumplicidade geminada por anos de um percurso companheiro.
Teresa é uma médica com o
sentido de missão. Vamos encontrá-la em Angola
onde cumpre um trabalho de voluntariado. É também
através dela que o autor melhor caracteriza o feminino,
ou pelo menos certas das suas qualidade, realçando,
nomeadamente, o poder do sexto sentido, os fortes dotes de
intuição que lhe assistem.
Nuno é filho de Rogério e de
Teresa e está a estudar em Inglaterra. Partilha o seu
apartamento com estudantes provenientes de muitas
nacionalidades e vive o seu primeiro estado de paixão
com a turca Harika.
Sérguei é um ucraniano com
formação superior e traz consigo a dureza de um
destino que o obrigou a emigrar e a reconstruir a vida a partir
do zero. Deixou para trás o vazio familiar pautado pela
morte da filha e pelo fuga da sua mulher. Em Portugal passa
pelas obras como servente mas a sua determinação
permite-lhe ir assentando a vida. Estuda de novo, consegue
arranjar um trabalho melhor num restaurante e ambiciona montar
o seu próprio negócio. Ainda que preso
recorrentemente à recordação da sua
esposa, que não sabe onde está, procura todavia
refazer afectivamente a sua vida.
Finalmente Edgar — que é,
segundo creio, a personagem central — é o retrato
da pessoa radical, do não acomodado e do resistente e
reticentemente inserido. É designer por profissão
e dedica-se à pintura. Tem uma relação de
paixão com Carolina, mas a forma como vivem essa
paixão é heterodoxa na medida em que é
vivencialmente descontínua. Uma característica
que não é estranha à própria
postura de resistência desta personagem que cultiva a
solidão como forma de nunca perder a escuta e a
autonomia do seu próprio pensamento perante a constante
invasividade do ruído circundante que, qual aspirador,
tende a diluir-nos na superficialidade de uma existência
mimética e em que o corpo a corpo da luta pelo
discernimento é triturado por uma velocidade
relativamente à qual estamos sempre em atraso e sem
tempo para reflectir.
Com as personagens os dados estão,
pois, lançados. Mas o melhor do jogo ainda está
para vir. E porquê?
Em primeiro lugar porque a escrita de
Manuel Ralha nos suga para a mente de cada uma destas
personagens e nos faz percorrer a fascinante mobilidade e
complexidade do cruzamento pensamento-existência.
É com notável a sabedoria e
finura que Manuel Ralha transpõe para a sua escrita os
movimentos íntimos — hesitações,
observações, deambulações,
interrogações, cogitações,
percepções, tensões, expectativas, etc.
— das mentes das suas personagens. E fá-lo de tal
maneira que será difícil ao leitor não se
identificar com o que vê descrito.
Deixem-me dar-vos um exemplo, lendo-vos um
excerto da obra (p. 185-202):
«Um casal, com dois filhos pela
mão, vem caminhando pelo recinto comercial mais
concorrido. Pela atitude, pela indumentária e pela forma
como se arranjam não será difícil de
estabelecer que são holandeses de Amesterdão, de
partida para férias para qualquer ponto do mundo. Ele,
muito loiro, de cabelo comprido, não demasiado, vestido
completamente de ganga e com umas botas vermelhas de sonoros
tacões, que o vão anunciando pelo ruído
que provocam no pavimento. Traz uma menina, dos seus seis, sete
anos, pela mão, que parece uma boneca, de tão
bonita e garridamente vestida. A mulher, talvez um pouco mais
velha que ele, vem mais à frente, de mão dada com
o filho que deve ter à volta de dez, doze anos. Em
muitos países seria considerada muito extravagante a sua
maneira de vestir, mas não aqui na Holanda, onde a
liberdade de costumes é doutrinária. A sua saia
é extremamente curta, mas as pernas estão bem
protegidas por umas meias de algodão grosso de cor
amarelo-torrado. O cabelo, na rebeldia do seu intencional corte
desigual, tem madeixas de várias cores. A sua camisa,
revelando claramente a inexistência de soutien, vai
aberta generosamente. Mesmo que os vários colares que
lhe caiem sobre o decote constituam um adorno de resguardo
parcial, o efeito é estrondosamente sensual, incitando a
curiosidade do mais tímido. O casaco, também de
ganga, mas forrado a pelo branco, permanece aberto de par em
par, dando-lhe contudo um toque agradável de aconchego.
Curiosamente, o rapaz, que tem uma aparência bastante
sisuda, é a figura mais formal do pequeno grupo, embora
a sua formalidade não deixe também de constituir
uma singularidade, pois está vestido de fatinho
completo, parecendo um executivo em ponto pequeno.
Os quatro dirigem-se para o convidativo
restaurante, repleto de anúncios coloridos, onde
está Rogério que os seguiu e observou desde que
os focou na sua amplitude visual. Acomodam-se numa mesa
precisamente ao lado da mesa onde ele está. Quando se
sentam sorriem-lhe ao de leve. Ele retribui e aproveita para
limpar as lentes dos óculos vagarosamente,
concentrando-se de forma a ser mais fácil deixar de ser
o curioso observador que vem sendo até ali. (…)
A certa altura sentiu-se observado pelo
casal ao lado, ou, mais exactamente, por ela, pela senhora de
cabelo ás madeixas coloridas e meias-calça
amarelo-torrado. Pensou que com certeza, para ela, o
extravagante era ele e por isso o espreitava, ainda que
discretamente, pelo menos a princípio. Porque passado
algum tempo, já Rogério saboreava o seu jantar,
ela insistiu de forma mais insidiosa, parecendo querer que ele
também reparasse nela. Rogério achou um pouco
desusada a sua atitude, dado que ela estava sobejamente
acompanhada. O marido acabou por notar o enlace
oftálmico, mas a sua completa indiferença pareceu
absolutamente sincera. Então, já um pouco
perturbado, Rogério deu consigo a pensar que o charme
que Elena lhe atribuíra permanecia ainda na sua atitude,
a sua aura de macho confiante era por certo esplêndida. E
a sua imaginação começou a fabricar outra
história acerca do grupo que não distava mais que
três ou quatro passos da sua cadeira. Achou então
que eles não eram marido e mulher, mas eram
irmãos. Sim, tanto a primeira como a segunda
hipótese eram plausíveis. Afinal em que se
baseara ele para admitir que era um casal e dois filhos?
Não podia objectivamente tirar tais conclusões
baseadas simplesmente em intuições e
deduções superficiais. Nem sequer podia
estabelecer rigorosamente de quem seriam as crianças.
Poderiam nem ser deles. Eles podiam nem ser da mesma
família… O frio raciocínio lógico,
depois que colocou em funcionamento a racionalidade em pleno,
demonstrava que não podia concluir nada que fosse
garantidamente verdadeiro.
Rogério foi comendo e divertindo-se
a pensar naquele episódio, na curiosidade que podia
suscitar numa mulher sensual daquelas, do seu puro desinteresse
por isso e de como a mente constrói constantemente
enredos a partir de quase nada. Contudo, todos dependiam desses
enredos, sobretudo da capacidade de discernir os verdadeiros e
de não tomar os falsos por certezas, pois disso
dependeria em grande medida a melhor ou pior progressão
de cada um…
No fim do jantar pediu um chá: teve
receio que o café não prestasse. Voltou a captar
os sons da mesa ao lado que continuavam a vir na língua
local, que ele de todo não entendia. Todavia a forma
como se comportavam as crianças com a senhora era apenas
compatível com a intimidade que existe entre mãe
e filhos…
Quando chegou o seu chá os quatro
levantaram-se, não sem alguma algazarra (eram realmente
um grupo bem colorido…) e ela atirou-lhe um olhar
provocador antes de começar a caminhar. Depois, ajeitou
as engelhas das meias afagando as pernas com alguma
provocação à mistura, atrasando-se um
pouco em relação aos outros. Alcançou-os
com uma corridinha de passinhos curtos. Os miúdos foram
andando à frente de mãos dadas. O homem abrandou
o passo para que ela logo o apanhasse. Ela acelerou um pouco
mais nos últimos passos e agarrou o homem por
trás e desatou a fazer-lhe cócegas, ao mesmo
tempo que se ria alegremente. Ele virou-se e num gesto
rápido prendeu-lhe os pulsos, a seguir puxou-a para si,
abraçou-a e colou-lhe os lábios à boca com
ímpeto. Ficaram a beijar-se apaixonadamente por alguns
segundos que para Rogério foram uma eternidade. Quando
se afastaram, ele apressou-se no encalço dos filhos e
ela, compondo os cabelos, virou-se para trás atraindo de
imediato os olhos de Rogério que obedeceu sem
hesitação. Trocaram um intenso olhar carregado de
cumplicidade. Os olhos dela eram tão verdes!…
Rogério, ainda fecharia os olhos para os ver, de quando
em quando, nos dias que haviam de vir…
Que tipo de capricho poderia existir na
vontade daquela mulher, Rogério estava muito longe de
conseguir imaginar. Era para a sua inteligência um
completo mistério. Seguramente não teria muito
cabimento tentar desmontar o episódio para lhe encontrar
uma qualquer coerência dentro dos seus parâmetros
de comportamento social. No entanto, a sedução
que ela conseguia exercer era qualquer coisa de
extraordinário. Apesar do seu estado de
indiferença, de “macho saciado”, ele
avaliara bem o apelo daquele corpo, o fascínio daquele
olhar, a força magnética que ela empregara para
se insinuar com a sua eminente condição de
fêmea.» (p. 185-202)
Em segundo lugar, porque os percursos de
cada personagem são também orquestrados segundo
temáticas subliminares para que convergem. Os
títulos de alguns dos capítulos do livro
são a este respeito muito elucidativos: Necessidade,
Circunstância, Simultaneidade, Causalidade, Acaso,
Linguagem, Tempo, Desejo, Hipnos.
Temos assim um desdobramento de planos: por
um lado, o da nossa condição micro de marionetas
coladas ao imediatismo circunstancial da nossa
relação com o real, com o tecido da
situação em que estamos inseridos e para as quais
chegamos sempre tarde para decidir e escolher, no sentido em
que Ortega e Gasset dizia que «eu sou eu e a minha
situação».
Por outro, o plano macro, mais
enigmático, das categorias invisíveis que
organizam o plano dos acontecimentos: nexos de necessidade e de
causalidade, planos circunstanciais de temporalidade
simultânea ou diferida, intervenção da
contingência do acaso ou do poder magnético do
desejo, a dependência das formas de pensar relativamente
à linguagem que nos constitui, enfim, o jogo do tempo
que nos joga na sua modelação humana.
Chegado a este ponto, queria fazer uma
observação. Não julguem que o livro
é uma maçuda reflexão sobre todos estes
temas. Não é.
Ele apresenta-se como uma obra de
ficção recheada de referências mundanas. A
sua acção é concreta e os percursos dos
personagens é bem delimitado e circunstanciado. É
aliás uma das virtudes deste livro a forma primorosa
como tais circunstâncias são desenhadas nos seus
detalhes essenciais.
Mas é também com mestria que
o autor acciona o olhar reflexivo pondo na boca dos
personagens, nos seus diálogos e nos seus pensamentos
uma sensação de estranheza relativamente as
coisas supostamente «normais» da vida. O resultado
traduz-se numa obra que cruza a discursividade com a
interrogatividade, originado diálogos e pensamentos de
natureza argumentativa, em que se ponderam assuntos de
várias perspectivas sem contudo deixar de se remeter
essas argumentações para os modos de vida de cada
uma das personagens. Uma vez mais, a ligação
entre situação e pensamento é aqui a
regra.
Deixem-me ilustrar o que acabei de referir
com alguns exemplos tirados do livro. Escolhi um deles para a
contracapa do livro. Trata-se de uma fala de Edgar, num dialogo
que mantém com Rogério.
«— Eu não quero ser um
homem “do” meu tempo! Quando muito pretenderei ser
um homem “no” meu tempo.
O que os meus contemporâneos pensam
ou fazem tem uma sensatez muito relativa para mim.
Aliás, mais!… Se quiser ser um homem do meu tempo
arrisco-me a ser um homem sem liberdade para pensar.
Para, por exemplo, pensar na
História. Pensar que nem sempre tudo foi assim e que as
coisas não vão permanecer assim. Que o Homem em
cada época se ilude com a sua verdade
transitória, efémera, e afirma que o caminho
é este ou aquele, que o progresso se manifesta desta ou
daquela maneira, quando, se pararmos para pensar um pouco,
vemos que a História nos ensina precisamente o
contrário, que houve grandes certezas que ruíram
e factos totalmente inesperados que ocorreram.
Eu tenho necessidade, e daí a minha
estratégia de combate, que é um gracejo, mas que
exprime uma certa forma de estar na vida, de sair desse enorme
ruído da competição do nosso tempo, para
poder pensar.
Tão-somente pensar. Nem se trata de
animosidade contra isto ou aquilo, sequer simpatia por isto em
detrimento daquilo, apenas silêncio, ou antes,
interrupção desse ruído, para me poder
ouvir, para saber o que penso afinal.
E além disso, não me parece
que essa tal civilização avançada tenha
enveredado pela estrada da bem-aventurança. Bem pelo
contrário! Há qualquer coisa de retardamento
nesse sistema, qualquer coisa de inferior em termos de
evolução. Parece-me ser o condicionamento em
massa. As multidões são condicionadas, quais
“hominídeos instintivos”, a participarem
nesse jogo. O desejo, sob todas as formas, nem sempre
legítimas, é incutido, alimentado, disseminado e
explorado.
E não me falem em liberdade de
opção, porque a consciência e os sentidos
possuem limiares restringentes, susceptíveis de serem
habilmente considerados pelas tecnologias de persuasão
que estão muito para além dos conhecimentos
básicos das populações, sejam elas de onde
forem. No limite, parece-me que estamos todos embarcados num
gigantesco embuste» (pp. 266-267).
Outro excerto, desta vez um diálogo
entre Edgar e Carolina:
«— O Homem nasceu para viver
só, fatalmente entregue à sua solidão
essencial.
— Mas… — argumentava
Carolina, sorrindo — tu raramente estás
só… um homem tão solicitado!
— O que tu queres dizer, Carolina,
é que eu não estou sozinho, o que é outra
coisa. Não estou sozinho, mas estou sempre, sempre
só. Contudo, poder-te-ei dizer que nunca sofri de
solidão, que é já outro conceito, e que as
melhores fases, desta minha já considerável
jornada, foram quando estava mais só!…
— Pois… hum…
acabarás por morrer só!
— E não acabaremos todos?
Será que algum dia alguém teve a certeza que
outro alguém teve dele um conhecimento íntimo
satisfatoriamente razoável, ao ponto de se sentir
verdadeiramente acompanhado? Não será toda a
forma de companhia uma ilusão e uma dispersão,
uma distracção do conhecimento e encontro consigo
mesmo? Sim, morreremos todos sós. Ninguém pode
estar absolutamente connosco!
— Não sei… assim
já estamos outra vez nos absolutos! — Carolina
apontando o dedo.
Edgar olhou-a — ela era tão
bonita, os olhos azul-turquesa muito brilhantes, os cabelos cor
de areia muito bem cortados tocando levemente nos ombros, as
feições tão harmoniosamente perfeitas
— e declarou, ironicamente mas com ternura, em tom de
conclusão:
— Mas tu é que falaste em
morrer: o mais fatídico dos absolutos!» (pp.
21-22).
Um terceiro excerto, um diálogo
entre Oleg e Sérguei:
«De súbito lembra-se de Oleg.
Não o viu durante todo o dia. Mas poderia apostar onde
ele está àquela hora: no café a ver
televisão. Oleg passa todo o tempo disponível a
ver televisão. Pelo que Serguéi se apercebeu nos
hábitos dos portugueses, Oleg está, nesse
aspecto, bem integrado, pois a televisão é um
passatempo sobejamente apreciado.
O que é mais curioso é que a
preferência dele vai para a publicidade. Adora ver
publicidade. Ao ponto de achar grande parte da
programação ligeiramente enfadonha,
comparativamente com a publicidade! No entanto, a
argumentação de Oleg acerca da sua
predilecção é rebuscada. Para além
do gozo puro pelo dinamismo inebriante das imagens apelativas,
Oleg defende que a publicidade lhe dá o conhecimento
rápido da sociedade onde está envolvido, sendo
portanto a satisfação de uma curiosidade
sociológica com a correspondente
assimilação dos valores que caracterizam a
população, com efeitos claramente vantajosos na
sua adaptação. Oleg tem formação em
engenharia mecânica, não tendo portanto
conhecimentos especiais em áreas sociológicas ou
mesmo de marketing, mas, quando Serguéi o provocou, ele
atacara:
— É tudo uma questão de
intuição!… A publicidade coloca as
ferramentas, que o melhor das mais avançadas tecnologias
pode oferecer, ao serviço da penetração no
imaginário dos potenciais adquiridores. Sendo que a
mensagem terá que ser eficaz. O seu alto custo nos meios
de difusão não se compadece com diletantismos.
Trata-se de inculcar desejos de aquisição nos
mais vastos auditórios… Há que conhecer as
mentalidades dos padrões sociais muito bem para que a
aceitação seja bem sucedida.
— Vejo que as técnicas de
marketing te são deveras familiares. Mas que
ligação é que isso tem com a tua
inserção social!? Não seria mais natural
conviveres com as pessoas? — Instigou-o Serguéi.
— Tem tudo a ver. Vejo que ainda
não chegaste lá… Como te tentei explicar,
pretendendo-se convencer determinado grupo a aderir ao que
está em causa oferecer, há que conhecer o mais
profundamente possível a caracterização
psicológica desse grupo para se obter uma
reacção favorável. Assim, ao analisar a
forma e conteúdo do procedimento utilizado, eu vou ter
acesso aos mais elaborados estudos e à mais apurada
intuição que incidiram sobre o dito grupo para
satisfação desses objectivos.
— Sim, vês o filme ao
contrário — banalizou Serguéi. —
Desmontas a perspectiva do anunciante, encontrando nela
aspectos da índole do “adquiridor alvo”.
Não precisavas de tanta retórica para
demonstrares aquilo que, consciente ou inconscientemente, todo
o espectador faz: interpretar o espectáculo! Para
além disso, o que mais me intriga, é que
não te entedies com a constante repetição
dos mesmos anúncios, técnica essencial à
sua sugestão e que a mim me provoca náuseas.
Continuo a insistir que a convivência social é
mais salutar.
— Pois aí é que
começa o segundo capítulo — Oleg não
desarmou. — Não menos importante que o primeiro.
É na análise exaustiva dos pormenores, que
só se consegue na observação continuada,
que podemos atingir as verdades mais subtis e entrar nas
familiaridades da população. Conviver dizes tu!
Para ter um retrato do tipo daquele de que te falo quantas
pessoas teria de conhecer? Quanto tempo iria demorar? Com
certeza que conhecer pessoas não está fora de
causa…
— Ainda se confessasses
preferências na programação: filmes,
programas temáticos… eu sei lá…
— Pois, a programação
também é importante — afirma Oleg e explica
com ar de quem revela um segredo:
— A programação encerra
em si muitos indícios. Os programas são a teia. A
grande teia fundamental. Mas a fantástica estratega
aranha é a publicidade!
— Pois eu continuo a pensar como
dantes — arremessou Serguéi prazenteiro,
desanuviando. — Para mim, o que te interessa
especialmente são as fabulosas garotas e os ambientes
idílicos. Para sonhares. Para viveres a tua fantasia!
— Sim, pois… — Oleg
riu-se, bem disposto. — Convém que haja nisto um
lado lúdico… É bom ter fantasias, mas eu
gosto de as despir. As fantasias claro!…» (pp.
52-53).
Poderia naturalmente apresentar mais
exemplos, mas penso que estes bastam para cumprir a sua
função ilustrativa e aferir o tom em que decorre
o livro.
Por isso, e porque uma
apresentação visa mais abrir o apetite para a
leitura de uma obra do que contá-la, passo a algumas
considerações finais.
Penso que estamos perante uma obra
literária maior que simultaneamente convoca o prazer da
leitura e nos brinda com a gratificação
intelectual que dela retiramos.
O autor revela-se possuidor de uma imensa
cultura e de um conhecimento aprofundado e fascinado da
mobilidade da mente humana e da sua densidade
psicológica.
Tem a capacidade de abordar
temáticas que a todos interessam com uma
elevação superior, sem contudo deixar de ser
surpreendentemente acessível pela forma como objectiva
essas temáticas nos diálogos que recorrentemente
surgem.
Tem também o dom de fazer com que
esses diálogos desafiem o leitor para pensamentos
adicionais, convidando-o a participar neles.
Por outro lado, o pendor crítico
é uma constante, não porque nos convide a adoptar
soluções prontas a subscrever, mas antes porque
acicata no leitor o estímulo de também ele lidar
com a complexidade dos diagnósticos das nossas formas de
viver.
Neste sentido, esta obra literária
é o trabalho de um resistente que, a todos que
são sensíveis à resistência,
não deixará de fazer sentir acompanhada a sua
essencial solidão.
Nesse sentido, ainda, esta obra cumpre a
missão de elevação intelectual que toda a
literatura traz ou, pelo menos, deveria trazer.
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Manuel Ralha, A Condição do desejo, Pé de Página Editores, 2007.
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