|
Livro
(parte)
|
![]() |
||||||||
|
|
|||||||||
|
|
|||||||||
![]() |
|
|
|||||||
|
Rui Grácio
Carta aos professores de filosofia
in Guardador
de percursos, Pé de
Página Editores, Outubro de 2003, 120 pp.
O aluno que chega ao 10º ano de
escolaridade encontra, no seu currículo, uma disciplina
chamada «Filosofia». Trata-se de uma nova
disciplina. Mais uma, pensará provavelmente o aluno. E,
legitimamente, criar-se-ão na sua mente um conjunto de
expectativas.
Imaginará que nessa disciplina
terá de aprender determinadas
«matérias», a começar pela
definição do objecto de estudo da disciplina em
questão, suporá que, como nas outras disciplinas,
os seus conhecimentos sobre a «matéria»
serão avaliados, sabe que conta com um manual por onde
poderá estudar o que é preciso saber e com um
professor que o ensinará e o ajudará na
aprendizagem. Alimentará, enfim, o anseio de sucesso e
de obtenção da melhor classificação
possível.
E, de facto, nada de mais natural, para
quem, após um percurso escolar de anos, se habituou
à ideia de que saber e conhecer é
reproduzir e aplicar conteúdos de modo a resolver
acertadamente testes, a apresentar soluções
correctas para as perguntas ou problemas que os professores lhe
colocam. Insensivelmente, o aluno importou para a sua
concepção de conhecimento a dicotomia
certo/errado. Quando se sabe, acerta-se, quando não se
sabe, erra-se. Quando se sabe, é-se capaz de solucionar,
quando não se sabe, pode tentar-se inventar, mas o
fracasso é, neste caso, o mais certo.
Como já dissémos, a
linearidade destes pensamentos é legítima e
até justificável. Mas, na entrada para o 10º
ano de escolaridade e na proximidade do contacto com a
filosofia, este é um ponto que provavelmente
deverá merecer algum espaço de debate entre
professores e alunos.
De facto, se não forem corrigidas,
as expectativas mencionadas contribuem muitas vezes para uma
destas duas indesejáveis situações:
a) uma má entrada na
relação com a filosofia, negatividade que tende
em muitos casos a converter-se em matriz e a perpetuar um
distanciamento de tudo o que «cheire» a
filosófico;
b) a instalação de um tipo
de relação equívoca, em que o aluno,
apesar de lidar com a disciplina — digamos, em regime de
ruminância debitativa de conteúdos —, passa
ao lado daquilo que de mais importante esta lhe poderia trazer.
Como ambas situações a
ninguém beneficiam, e muito menos ao cultivo do
espírito filosófico, convirá previamente
tentar elucidar o problema equacionado.
De facto, estamos perante uma
questão que não é fácil nem do
ponto de vista do aluno nem do ponto de vista do professor.
Digamo-lo claramente: o aluno, presa da
ideia de que os conteúdos definidos são o que
interessa, não entende que o saber e o conhecimento
possam ser um espaço de problematização e
de argumentação. O professor, constrangido por um
elenco disciplinar e um sistema de avaliação que
nivela a filosofia pelas exigências das outras
disciplinas, fica também naturalmente dividido,
procurando muitas vezes compromissos que, sendo embora o menos
insatisfatórios possível, não escapam
contudo à irrupção de ambiguidades
perniciosas.
Donde o que aqui se propõe:
começar por explorar a ideia de que em filosofia não há
soluções, mas apenas respostas. Fazer perceber que o tecido da filosofia são
pontos de vista, perspectivas e opiniões devidamente
sistematizadas e argumentadas. Que, por estarmos precisamente
no terreno da pluralidade de pontos de vista e da actividade
intelectual criadora e clarificadora, a questão do
fundamento e da fundamentação é algo que
se torna muito importante.
No que diz respeito a esta última,
interessa, todavia, não a dramatizar e radicalizar, como
aliás foi prática comum na tradição
filosófica, que sempre procurou alcançar
fundamentos absolutos. Há, com efeito, que descartar a
ideia ilusória de que o fundamento é algo que
vale por si mesmo, que se sustenta a si mesmo, e assumir antes
que o fundamento é algo que remete para uma perspectiva
e para a estruturação racionalmente consistente
da mesma. O fundamento é algo que nos permite
classificar como boa uma determinada ideia, ou, com mais rigor,
uma determinada proposta de conceptualização.
Mas, ao mesmo tempo, há que perceber que na tarefa de
conceptualização nunca está em causa
traduzir a realidade tal como ela realmente é, mas a
criação de inteligibilidades, a abertura de novos
horizontes de visibilidade que, sem essas ferramentas
conceptuais, seriam racionalmente incomunicáveis.
Dizíamos, pois, que a via de acesso
a uma iniciação filosófica deveria
começar pela exploração da ideia de que os
problemas filosóficos não conhecem, em rigor,
solução.
A ideia não é nova e
António Sérgio escreveu algumas palavras
paradigmáticas acerca do tema.
«Porque, não consiste a
educação filosófica na
adopção de umas tantas das opiniões de um
filósofo, senão que no treino da atitude
crítica, no exercício pessoal de um pensar
autêntico, no uso metódico de um cepticismo
activo, na prática da
elucidação dos problemas básicos. (...). Ao aprendiz de filósofo (ao jovem
aprendiz, pretendo eu dizer, e na minha qualidade de aprendiz
mais velho) rogo que não se
apresse a adoptar soluções, que não leia obras de uma só escola ou
tendência, que procure conhecer as
argumentações de todos, e que queira tomar como
primário escopo a singela façanha de compreender os problemas: de compreendê-los bem, de os compreender a fundo,
habituando-se a ver as dificuldades reais que se deparam nas
coisa que se afiguram fáceis ao simplismo e à
superficialidade do que se chama senso-comum (a filosofia
é, em não pequena parte, a luta do bom senso
contra o ‘senso comum’); (...).
Ora se o fundamental em filosofia é
de facto a crítica, e se pois a filosofia deve ser
estudada, não pelo mérito das respostas precisas
sobre um certo número de questões
primárias, senão que pelo valor que em si mesmo assume, para a cultura do
espírito, a mera discussão de tais problemas, segue-se que é inteiramente
absurda a ideia de se dar a alguém uma
iniciação filosófica pela pura
transmissão das respostas precisas com que pretendeu
resolver esses tais problemas um determinado autor ou uma certa
escola. Deverá pois a iniciação
filosófica assumir um carácter essencialmente
crítico, e consistir num debate dos problemas
básicos que não seja dominado pelo intuito
dogmático de cerrar as portas às
discussões ulteriores; e um bom professor do lidar
filosófico é como um indivíduo que nos
lecciona a ginástica procedendo ele próprio como
um bom ginasta, e obrigando-nos a nós a fazer
ginástica; é quem nos ministra um trabalho
crítico, um modelo de elucidação da faina
de problemas (...). Repito: seja a
filosofia para o aprendiz do filósofo, não uma
pilha de conclusões adoptadas, e sim uma actividade de
elucidação dos problemas. É esta actividade que realmente importa e
não o aceitar e propagandear conclusões. (...)
Pois que, (não nos cansemos de repetir) não
é a filosofia uma colecção de dogmas que
nos cumpre decorar e repetir aos outros (...)»1.
Mas que quer dizer, afinal, que os
problemas filosóficos não conhecem, em rigor,
solução? Significa, em primeiro lugar, que
há diferentes tipos de problemas: uns que são
considerados passíveis de solução e outros
que apenas podem ser equacionados, ponderados, discutidos,
postos à consideração. Por exemplo, uma
vacina pode ser a solução para o problema de uma
epidemia. Nesse sentido, ninguém contesta que a vacina
é uma solução útil, pois
permite-nos resolver, ou seja, controlar, uma
situação indesejável. No entanto, o homem
convive também com problemas para os quais apenas se
podem equacionar respostas, isto é, propostas de
abordagem, modos de ver e de pensar. É o caso de quando
se pergunta pelo sentido da vida ou pelo significado da
liberdade. Para estes problemas, ou melhor,
problemáticas, não há, em rigor,
solução, isto é, uma receita que nos
permita arrumar de vez com as questões.
Perguntar-se-á: porquê? Antes de mais, porque
embora tais perguntas sejam genéricas, cada um de
nós está em jogo nelas. Perguntar pelo sentido da
vida ou pelo significado da liberdade é sempre uma forma
de pensar na minha vida e na minha liberdade. Em segundo lugar, porque a
própria maneira de se conceber a vida e a liberdade
é sempre temporalmente situada e historicamente
contextualizada. Ela nada tem de fixo ou de definitivo, como
atestam as diferentes respostas que historicamente se foram
dando a estas questões. Por fim, este tipo de
questões não origina apenas uma resposta, mas
múltiplas opiniões, pontos de vista,
perspectivas, argumentações. E, no entanto,
apesar destes limites, o confronto com a problematicidade
continua a impor-se inexoravelmente sempre que somos conduzidos
a um frente a frente com esse mistério que é a
nossa condição humana e quando sentimos a
necessidade de estabelecer e fundamentar as nossas
convicções e decisões.
Chegados aqui, importa sublinhar
então a seguinte ideia: mais
do que com problemas, a filosofia lida com problemáticas
e com a problematicidade. Ela
não procura a sua supressão mas sim a sua
conceptualização, a sua
explicitação e o seu aclaramento, que é
também sempre uma forma de lidar, de conviver, com essa
problematicidade.
Se a filosofia é
tematização de problemáticas, isto
é, se ela tem como atitude inicial que lhe é
específica a tradução conceptual daquilo
que nos assuntos é passível de suscitar
interrogações que em rigor não conhecem
solução mas que todavia convocam a
reflexão e dão que pensar, o que caracteriza
afinal a problematicidade?
Caracteriza-se, em primeiro lugar, pelo
facto de nos confrontar não com um problema, mas com um
feixe de problemas ou, melhor, com uma problemática. Em
segundo lugar, pela sua ligação ao agir humano: a
conceptualização de problemáticas, seja
embora um exercício reflexivo, está sempre ligada
às exigências que a acção exerce
sobre o pensamento.
Uma problemática não
é uma coisa que se resolva ou se solucione: é
algo que cada um tem de perspectivar conceptualmente e perante
a qual tem de assumir a sua estratégia posicional. No
contexto de uma problemática, pode-se seguir por este ou
aquele caminho, apostar nesta ou naquela
direcção, mas, como estamos num terreno em que
nada se encontra assegurado, a forma de se perspectivar uma
problemática é intrinsecamente estratégica
(a começar pela delimitação do que se
considera relevante e do que se entende ser acessório).
Na maior parte das vezes, é com
alguma perplexidade que as pessoas reajem às ideias que
temos vindo a referir. «Para que serve então a
filosofia? Apenas para nos fazer perder tempo e não
chegar a lado nenhum?» — eis a questão desde
logo disparada. Mas, antes de se condenar sumariamente a
actividade filosófica, será sensato tentar-se
compreender o sentido de todas estas questões.
Que a filosofia não pareça
hoje coisa interessante aos olhos de muitos, e particularmente
dos jovens que a ela são iniciados, tal não
é nada de incompreensível.
É que ela traz, pelo menos à
primeira vista, duas marcas deceptivas nada consonantes com os
preconceitos que hoje a maioria dos jovens tem sobre o futuro e
sobre os estudos: a primeira é a de que, por mais que
estudemos e saibamos, nunca deixaremos de ser ignorantes.
Com efeito, a filosofia nunca pára
de nos lembrar dessa ingnorância congénita e tende
sempre teimosamente a alertar-nos que a massa daquilo que
sabemos tanto é feita de conhecimento como de
desconhecimento. É certo que a nossa existência
nos coloca sempre in media res e nos obriga a agir
ininterruptamente. É também verdade que a
impossibilidade de suspender a acção implica que
aceitemos, pelo menos momentaneamente, determinadas
convicções (quer dizer, que tomemos como
inquestionados certos pressupostos sem os quais não
saberíamos conferir significado ao nosso agir). Mas
é também uma realidade que a filosofia,
pela sua vertente questionadora/explicitadora, aviva a
lembrança de que nem o inquestionado é
inquestionável, nem os pressupostos que adoptamos
são mais do que momentos necessários de ancoragem
impostos pela emergência da acção e pela
necessidade de integrar as acções num conjunto
significativo em que possamos surgir como agentes seus
responsáveis.
Em suma, o que a filosofia vinca, em
primeiro lugar, é que a tranquilidade das nossas
convicções —desde que nos disponhamos ao
exercício da interrogatividade e do questionamento
— é, na sua contingência, algo de
extremamente frágil; lança, em segundo lugar, a
suspeita sobre a certeza, perguntando até que ponto esta
não será, (com a maior das probabilidades mas sem
que isso lhe retire de modo algum a eficácia), uma
ingenuidade transitoriamente inquestionada.
A este propósito são
esclarecedoras as palavras de Edgar Morin:
«O indiscutível tende sempre
a reformar-se em detrimento do discutível, o que se
compreende, pois não se poderia por em causa tudo e mais
alguma coisa sob qualquer pretexto. Mas também é
verdade que todo o progresso se joga na fronteira do
indiscutível com o discutível e efectua-se pondo
em discussão o indiscutível.»2
É claro que aqui surge a
difícil questão do equilíbrio. De facto,
perante a ideia algo difundida de que filosofar é um
questionar sem fim, há que perceber, como é
referido no texto antes mencionado, que não se pode
colocar tudo em causa sob um qualquer pretexto.
Da mesma maneira que se pode considerar
que uma pessoa que não questiona é uma pessoa sem
espírito crítico, passiva e exposta a
manipulações, também se pode dizer que uma
pessoa que só questiona perdeu o sentido da realidade e
vagueia na vertigem de um abismo sem fim. No entanto, estes
dois casos são extremos e mais imaginários do que
reais. Com efeito, uma das tarefas do professor que inicia a
filosofia é a de tentar fazer compreender que a
seriedade da filosofia passa pelo estabelecimento de um ponto
de equilíbrio entre a subquestionação e a
sobrequestionação. A colocação em
questão é sempre ben-vinda desde que seja
pertinente. Mas essa pertinência tem, digamos assim, um
preço: o da exposição às
exigências do debate argumentativo da disponibilidade
para aprender.
Voltando à ideia de que a filosofia
pode não parecer hoje coisa interessante aos olhos de
muitos, e particularmente dos jovens que a ela são
iniciados, há que apontar um segundo motivo.
A filosofia traz a ideia de que nunca
deixaremos de ser aprendizes, o que é uma coisa
naturalmente aborrecida para quem quer resolver a sua vida,
fazer os seus estudos, ter o seu emprego e alcançar o
digno estatuto de consumidor que lhe garanta uma plena e cabal
integração social.
De facto, com essa coisa de estar sempre
em situação de aprendiz, a filosofia parece
remeter-nos para um condição operária
(coisa que está hoje fora de moda e a que ninguém
aspira), para uma vida de esforço e de trabalho sem fim
e para um cíclico despojamento sapiental que parece,
então, ser inerente à dinâmica do
crescimento do ser humano. Pelo menos, se é de facto de
homens e de mulheres, e não de avestruzes, aquilo de que
estamos a falar.
As razões que tornam o enamoramento
pela filosofia um acontecimento altamente improvável
para os jovens em idade de serem iniciados escolarmente na
filosofia podem multiplicar-se. Mencionareemos mais algumas que
nos parecem significativas.
Vivermos num mundo em que já nada
nos espanta e tudo parece possível.
Que significa, com efeito, vivermos numa
época em que o «tudo é
possível» parece ter- -se instalado como
lugar comum latente nas mentalidades e nas formas de pensar?
Noutros tempos viveu-se com horizontes bem
mais limitados e precisos a que estava associada toda uma
axiologia estável que possibilitava a
definição de critérios duradouros,
sólidos e aparentemente inquestionáveis.
O tempo era então mais lento, os
comportamentos sociais pautavam-se por padrões que
demonstravam a sua consistência na prova à
resistência do tempo, ancorados em
convicções como a da existência de uma ordem mais ou menos
estável do mundo, a crença em finalidades naturais da
vida e uma postura pouco problematizadora da criatura humana.
Tratava-se de um mundo em que os impensáveis, os fora de
questão, as indubitabilidades e as partilhas entre o
normal e o anormal, a saúde e a doença e por
aí em diante, estavam impregnados na massa do senso
comum.
Mas, com o passar do tempo e de era
— da era do tempo lento à era da imparável
aceleração — o senso comum torna-se alvo de
um enfraquecimento e progressivo evanescimento e nele irrompem
e se instalam as retóricas que pensam sob o signo do
provavelmente sem limites. Como se tudo fosse possível
ou em tudo se pudesse eventualmente acreditar.
Nessa mesma direcção, os
ideais que outrora faziam mover gerações
vão sendo progressivamente substituidos pelo gosto de um
consumo efémero e massificado em cuja superfície
se inscreve, não a dureza de uma luta ou a
constância de um projecto, mas a leveza de uma vida
vertiginosa que condena o pensamento ao curto prazo e faz da
ânsia de fazer e ter o seu próprio modo de ser.
Deixa- se então de meditar sobre temas para se passar a
trocar informações e impressões sobre
acontecimentos. E a ser mais importante falar daquilo de que se
ouve falar do que pensar sobre o que realmente é
inquietante.
Escreve Heidegger em Sein und Zeit:
«A conversa é a possibilidade
de compreender tudo sem nenhuma preliminar
apropriação da coisa. A conversa garante
já à partida do perigo de falhar num semelhante
apropriamento. A conversa, que está ao alcance de todos,
não só desvincula da tarefa de uma
autêntica compreensão mas forja uma
compreensibilidade indiferente para a qual nada mais existe de
incerto… A conversa, pois, em virtude da sua
indiferença a respeito da necessidade de se reportar ao
fundamento daquilo que é dito, é sempre, desde as
raízes, um fechamento».
Assim, vivermos num mundo em que já
nada nos espanta e tudo parece possível leva a modos
impacientes de vida que apenas se parecem satisfazer no consumo
do efémero ou de coisas que se esgotam em si mesmas. Em
vez de se dar tempo ao tempo ou sofrer a espera do tempo
próprio, driblamos constantemente a nossa
pertença ao tempo, nunca parando de pulular nem nunca
quebrando a corrente que ao tempo não deixa respirar e
que ao pensamento impede a chegada de oxigénio.
E esta é, para quem tem como tarefa
orientar uma iniciação à filosofia, uma
dificuldade de peso. Porque a primeira tendência, por
parte dos alunos, será a de ver o professor de filosofia
como alguém que está desfasado, como
«alguém completamente fora».
Outra razão que torna o
enamoramento pela filosofia um acontecimento altamente
improvável para os jovens em idade de serem iniciados
escolarmente na filosofia é a que se relaciona com o
crescente desvanecimento do sentimento de vergonha, correlativa
de um decréscimo do sentido da humildade, perante a
ignorância. De facto, o que muitas vezes se constata
é a substituição do que seria motivo de
vergonha por trejeitos de arrogância e indolência
— «não sei nem tenho de saber» —
ou uma seráfica ausência de pudor, a tender para
uma espécie de ataraxia, que parece marcar, acima de
tudo, o cultivo do adequado estilo da imperturbabilidade:
«não te rales».
Esta crescente falta do sentimento de
vergonha/humildade perante a ignorância é
aliás secundada convenientemente pelo discurso da
inevitabilidade da especialização dos saberes.
É sabido que o enciclopedismo
é algo que pertence ao passado e que vivemos na era das
especializações, mas isso não significa
que qualquer restrição à nossa capacidade
de nos espantarmos, de nos interessarmos e de sermos curiosos
não seja perfeitamente ridícula ou a sua
assumpção (para além de ilusória, o
que não quer dizer ineficaz) não nos vote
fatalmente ao servilismo. Além disso, será
aconselhável não esquecer que o fenómeno
de especialização dos conhecimentos, de que somos
herdeiros, é fruto de um processo histórico
iniciado na modernidade, enquanto o espanto, a curiosidade e o
desejo de saber mantêm potencialmente uma pujança
auroral que perdura, se afirma e tende a manifestar-se em cada
percurso individual iniciado com o nascimento. É claro
que esse potencial interrogativo, acicate dialéctico da
hermenêutica existencial com que cada um se verá
confrontado, pode ser estimulado ou reprimido. Neste ponto
têm sem dúvida responsabilidades os iniciadores
à filosofia, nomeadamente em dois pontos essenciais:
a) Na relativização da
competência do especialista no que diz respeito ao mundo
da vida e à dinâmica da orientação
pessoal (a «estupidez natural» é fundamental
para os índices de confiança pessoal que, por sua
vez, são fundamentais na tarefa de
apropriação de si e no domínio de
processos deliberativos com elevado índice de
autonomia).
b) Na desinibição quanto
à autoridade e o pretenso esoterismo dos saberes
especializados (há que saber situar o saber
especializado, há que fazer com que ele não seja
uma fonte de bloqueio que impeça o risco de se pensar o
que é decisivo).
Sobre este assunto, dois textos,
respectivamente de Augusto Abelaira e de Edgar Morin,
são muito elucidadtivos:
«Para um leigo é melindroso
falar de medidas de austeridade governamentais. Tão
melindroso como discutir as grandes teorias da astronomia
moderna. O leigo apanha, se é que apanha, as
conclusões, mas falta-lhe a capacidade de vigiar
minuciosamente os raciocínios que a elas conduzem. E a
prudência, em matéria económica como
astronómica, estará em ouvir silenciosamente os
especialistas. O inconveniente da prudência: a cumprir
tal regra teremos de nos entregar ao silêncio quase
total. Na Idade Média ou no Renascimento ainda era
possível abarcar todo o saber. Mas hoje?
Conheci certa vez o mais famoso
especialista mundial de rãs, que sinceramente me
confessou nada saber de rãs, mas de uma determinada
espécie de rãs. Recusava-se, portanto, a falar da
rã. Com mais razão ainda recusava-se a falar de
gramática ou de futebol. Ao que chegámos: quando
aparentemente o Homo Sapiens conquistou, após tantos
anos de luta, a liberdade, ei-lo condenado ao silêncio.
Na melhor das hipóteses, se for estudioso e supremamente
inteligente, falará de uma determinada espécie de
rãs”3.
“A tendência para a
fragmentação, para a disjunção,
para a esoterização do saber científico
arrasta a tendência para a anonimização.
Parecemos aproximarmo-nos de uma revolução
temível na história do saber, na qual este,
deixando de ser pensado, meditado, reflectido, discutido por
seres humanos, integrado na investigação
individual de conhecimentos e de sabedoria, se destina cada vez
mais a ser acumulado nos bancos de dados, depois computado por
instâncias manipuladoras, em primeiro lugar, o Estado.
Não devemos eliminar a
hipótese de um neo-obscurantismo generalizado, produzido
pelo mesmo movimento das especializações, no qual
o próprio especialista se torna ignorante de tudo aquilo
que não concerne a sua disciplina, no qual o não
especialista renuncia previamente a toda a possibilidade de
reflectir sobre o mundo, a vida, a sociedade, deixando este
cuidado aos científicos, os quais não têm
nem tempo nem meios conceptuais para isso.
Situação paradoxal onde o desenvolvimento do
conhecimento instaura a resignação à
ignorância e onde o desenvolvimento da ciência
é, ao mesmo tempo, o da inconsciência”4.
Temos vindo a referir, desde o
início deste texto, os enquadramentos em que ocorre a
iniciação escolar da filosofia, bem como a um
conjunto de dificuldades que esse enquadramento suscita.
Mencionaremos agora um outro aspecto que
se afigura tão paradoxal quanto decisivo. Trata-se da
velha questão da ensinabilidade da filosofia.
Se assumirmos que a filosofia não
é transmissão de conhecimentos mas, inicialmente,
o despertar para os poderes que a
conceptualização, a reflexão e o
questionamento exercem no processos de
apropriação individual da capacidade de pensar,
e, numa segunda fase, a utilização de tais
poderes conceptuais no reforço e refinamento da
expressão activa das capacidades criadoras e decisoras
de cada um, cumpre dizer que a filosofia não se ensina.
Sabe-se o que com ela se pretende, mas sabe-se também
que chegar a isso é sempre uma conquista que pode ou
não ocorrer, e que seguramente, em última
instância, nunca está nas mãos daquele que
ensina mas na autonomia daquele que apropria.
Se a comparação proposta por
António Sérgio entre o professor de
ginástica e o professor de filosofia é muito
elucidativa, uma outra, mais a nosso gosto, também nos
parece extremamente sugestiva: a da formação de
um músico que desenvolveu capacidade de improvisar. O
jazz é bom exemplo de um tipo de música em que
esta competência de improvisar faz parte das
aptidões dos músicos. É claro que a
capacidade de improviso não é algo de simples.
Pressupõe um aturado domínio de técnicas,
um imenso trabalho prévio, um conhecimento aprofundado
do tema musical a desenvolver. Contudo, se o improviso implica,
antes de mais, toda uma formação que habilite o
músico à perfeita execução
técnica dos temas, há que não
esquecer que ele convoca também uma criatividade
apropriante, em que já não está apenas em
causa a execução, mas também a
participação e o contributo que, no momento do
desempenho, o músico terá de desenvolver a partir
da sua sensibilidade, a partir de uma voz própria. E
não será despropositado dizer que improvisar
acerca de um tema musical não é algo de muito
distante de tornar os alunos capazes de uma
dissertação sobre um determinado assunto.
Transpondo esta ideia para a filosofia,
diremos que o mais elevado objectivo da formação
filosófica, como, aliás, de qualquer
formação que não tenha por objectivo a
tecnocratização da pessoa humana, é o
improviso. Tal não significa que o alcançar deste
objectivo não implique a existência de muitas
aquisições, de muito trabalho de
repetição e de uma séria
compreensão dos trabalhos e dos legados dos outros. Mas
é também importante sublinhar que tais
aquisições não devem ser
amordaçantes e inibidoras da criatividade individual nem
distanciadoras da assunção da singularidade que
cada existência humana representa.
«A cultura, que deveria permitir-nos
pensar por nós mesmos, — observa Edgar Morin
— leva-nos demasiadas vezes a pensar
‘culturalmente’ de forma convencional e
estereotipada, e assim, sem sabermos, somos submetidos
às crenças e descrenças estabelecidas,
às confianças e desconfianças que
são de regra». Na mesma linha de ideias, notou
Friedrich Nietzsche que «a primeira opinião que
temos quando nos interrogam de improviso sobre algo, não
é geralmente a nossa, mas apenas a opinião
generalizada da nossa casta, da nossa situação,
da nossa origem: as opiniões próprias emergem
raramente à superfície».
Assim advertido, o professor de filosofia
pode então nortear a sua actividade sabendo que o
objectivo mais elevado, de excelência, da
formação é que, de algum modo, se originem
processos de crescimento e que na sua vivência vá
aflorando a consciência de que eles são infinitos;
que as aprendizagens não são fins em si mesmos,
mas meios de transformação do nosso ser,
conquista de aptidões, expansão das
possibilidades de expressão e de afirmação
de si.
Posto tudo isso, fica claro que a
filosofia não é algo de ensinável,
até porque por muito que se ensine, não se pode
crescer pelos outros. Semeia-se, cuida-se, procura-se fazer
florescer e, se tudo correr bem, brindam-se os nascimentos com
a satisfação de que algo resultou. Nesse sentido,
assumir que a filosofia não é ensinável
não significa que os professores de filosofia não
tenham algo a fazer. Pelo contrário, há algo que
pode e deve ser feito. As palavras-chave acerca desse ponto
poderão ser: envolver, enlear, incubar, contaminar e
provocar. Mas, se essas palavras traduzem uma
orientação de trabalho, como
concretizá-la? Eis algumas pistas que estão
longe de serem exaustivas:
Introduzir o aluno na
retórica filosófica: à especificidade da
sua linguagem, aos seus gestos interrogativos, à sua
atitude problematizadora, à sua temporalidade
própria (com a «desaceleração»
que isso implica), levando-o ao reconhecimento do ar de
família que permite caracterizar o filosófico, os
seus actos de suspeita, de resistência, de
subversão e de insatisfação.
Encarar a filosofia com seriedade,
o que implica a exigência de rigor conceptual e a
oposição ao «basta opinar», ao
«acho que», ou seja, forçando ao
exercício de desindividualização do
opinativo, mas evitando simultaneamente a queda no discurso de
coro identificado como «socialmente correcto».
Procurar estabelecer um compromisso
entre a espontaneidade desejante do aluno e o descambar desse
desejo para concretizações meramente
impressionistas (o que pode ser feito através de
exercícios de confrontação).
Promover a escrita do
comentário ao texto filosófico a partir de
escolhas muito criteriosas desses mesmo textos, fazendo com que
o aluno, ao escrever, «tropece» em dificuldades que
o obrigarão a confrontar-se com a exigência de
equacionar com rigor as problemáticas ou problemas em
questão, a inventariar e compreender a
articulação das argumentações que
sustentam as teses do texto, a delimitar os conceitos e a sua
operatividade.
Tirar partido dos modelos
hermenêutico e argumentativo, por exemplo, enquanto
orientações, enquanto formas filosóficas
de ensinar e não como fonte de receitas. A fecundidade
ao primeiro modelo assenta no facto dele obrigar, desde logo, a
colocar a questão da historicidade do pensamento, no que
isso significa de desdogmatização, de
relação com a alteridade e de enraizamento dos
processos de criação conceptual, a encarar os
textos do ponto de vista interrogativo, assumindo que o texto
responde sempre a uma questão que há que saber
formular para o poder compreender e, finalmente, a estabelecer
a «fusão de horizontes» que tão
fundamental é para que o texto possa permanecer
interpelador e ser apropriado através dos tempos e na
relação com cada uma das suas actualidades. A
fecundidade do modelo argumentativo advém dele obrigar,
desde logo, a colocar o filosófico sob o signo do
pluralismo, sob a ideia que toda a tese é perspectivada
e de que a filosofia não impõe, antes
propõe. Ambos os modelos deslocam do registo da
segurança para o registo da incerteza, de incertezas que
suscitam o trabalho analítico e de reflexão que,
necessariamente, estimulam e promovem a dimensão
crítica que caracteriza o filosófico.
Todas estas pistas são,
naturalmente, sugestões quanto a modos de encarar o
trabalho filosófico. Não incidem deliberadamente
nesse âmbito pretensamente científico dos
métodos e técnicas do ensino da filosofia e
passam ao lado de toda a parafernália burocrática
em que prolifera esse «pedagogês» que, quando
assume a primazia, é inevitavelmente desfigurador do
essencial.
Procuram apenas, numa atitude que se
pretende honesta, não esquivar a essa necessidade do
confronto reflexivo com os paradoxos que o ensino da filosofia
no secundário faz emergir e que, seguramente, não
passará ao lado de todos aqueles que vivem a
docência e mantêm ainda acesa a chama da
paixão pelo filosofar.
Concluíriamos, agora, sintetizando,
em modo afirmativo — porventura, para alguns, em modo
utópico —, o que pensamos ser a tarefa do
professor de filosofia.
Começando por tentar retirar a
consequência da conhecida afirmação de Karl
Jaspers, segundo a qual a filosofia é estar a caminho,
diremos que nos parece pertinente encarar o professor de
filosofia como um guardador de percursos.
É certo que o professor de
filosofia tem um guião das temáticas e das
problemáticas que devem ser abordadas — o dito
programa. Mas um programa, em filosofia, deve funcionar
fundamentalmente como um conjunto de pretextos a partir dos
quais é proposto o desenvolvimento do trabalho
filosófico, cuja finalidade, em termos escolares —
para além da aquisição de uma série
de referências (temas e problemas, filósofos e
filosofias) — é a de fomentar a
autonomização da capacidade de pensar e a de
potenciar a apetência pelo gesto criativo, entendido este
como apropriação personalizada, com rasgo
próprio, dos modos de conceptualizar os problemas.
Um modo de dizer ao aluno, na abordagem de
qualquer tema: «Queremos-te ouvir». Neste tipo de
actuação, que faz com que o filosofar seja
também um espaço de audição
recíproca, torna-se fundamental que o professor ignore a
força da autoridade do seu estatuto e opte pela
interlocução argumentativa, no que ela tem de
desmontagem, de apresentação de dificuldades e de
análise comum das problemáticas. Não era
esse, afinal, o sentido do ensinamento socrático?
Lembro-me que, numa reunião, um
antigo professor meu contestava uma posição que
então eu apresentava, afirmando que eu ainda era muito
novo e que havia certas coisas que só com a idade eram
compreendidas.
Se vos refiro este episódio
é porque o acho um exemplo de contraproducência em
matéria de reflexão filosófica.
Não, é óbvio, porque a
afirmação do referido professor não tenha
sentido. Mas, sim, porque ela é feita sob o signo da
exclusão e não da argumentatividade, para
além de esquecer que cada vida, se assumida na
radicalidade da sua liberdade, tem de ser vivida com as
possibilidades compreensivas que, em cada momento, pessoalmente
se detêm e não em função de um
cânone de significados existenciais a adquirir.
A vida dos conceitos não é
desprovida de vitalidade existencial e esta, por sua vez,
é filha da temporalidade e das contingências.
É um processo sem termo, uma aprendizagem sem fim, um
caminhar que é um crescimento, um avolumar de
complexidades. E é, simultaneamente, uma resposta
estruturante da conceptualidade perante as constantes
exigências que a acção impõe ao
pensamento. Há que não esquecer que, apesar do
pensamento parecer materialmente invisível, ele nunca
está separado de contextos.
Mas, voltando agora ao contexto das aulas,
não podemos esquecer que nestas estão sempre
em jogo as existências individuais de cada aluno,
com as suas possibilidades e com as suas
limitações.
E devemos ter isso em
consideração quando, ao leccionarmos um programa,
queremos fazer passar a fecundidade da atitude
problematizadora.
Na realidade — e voltamos ao ponto
focado inicialmente —, o sentido da
problematização filosófica requer
envolvimento existencial e não pode reduzir-se, sob o
risco de se desvirtuar e de se esvaziar, a uma mera
transmissão de processos e conteúdos
esquemáticos destinados a serem repetidos e reproduzidos
mecanicamente.
Eles requerem uma inscrição
existencial, uma apropriação feita no singular,
mas não enclausurada numa intimidade silenciosa e
incapaz de comunicar.
Não nos podemos esquecer que a
filosofia apela à imaginação, à
criatividade e até mesmo ao rasgo intuitivo. Mas que,
simultaneamente, requer que isso que possa nascer da
imaginação, da criatividade ou da
intuição seja compreensível pelos outros
através de uma discursividade racionalmente organizada.
Ora, o que, justamente, marca o percurso
do aluno de filosofia e define a tarefa do professor de
filosofia é que esta apropriação singular
do sentido da problematização tem no seu reverso
a imperatividade de uma comunidade discursiva.
Este percurso é, pois, um caminho
singular e individual mas, simultaneamente,
inscrição numa discursividade que o relaciona com
outros percursos e discursos, inscrição numa
discursividade que carrega a expectativa e a
aspiração de ser entendido, sendo justamente a
aspiração a essa plataforma de comunidade o que
caracteriza aquilo que nós frequentemente designamos com
o termo «racionalidade».
Ao professor cumpre estar vigilante
(daí o termo «guardador», que em cima
utilizámos), atento às dificuldades que esta
colocação no registo
discursivo-racional-argumentativo suscita e coloca.
A inteligência e a
imaginação, sendo faculdades que reconhecemos
como comuns a todos os humanos são, no entanto, tal como
a memória, algo de absolutamente singularizado em cada
existência. E a inscrição da singularidade
na comunidade de uma linguagem e num processo comunicativo, sem
que justamente a diferença irredutível que marca
a singularidade se perca sob as tentações
homogeneizadoras dos lugares comuns, mas também sem que,
por outro lado, acabe por se assumir como refractária
à partilha racional, eis o equilíbrio
relativamente ao qual são chamados os cuidados do
professor de filosofia que se vê como um guardador de
percursos.
Ele não esquece que, tal como a
bússola é um instrumento de
orientação espacial, a
problematização é um meio de
orientação existencial.
Por isso, ele não esquece que,
quando se trata de despertar o gosto pela filosofia, é
não só importante fazer perceber em que consiste
a problematização, como é também
fundamental fazer passar a percepção de que a
problematização é uma componente
fundamental da felicidade, pelo menos na medida em que se pode
considerar esta como uma das aspirações naturais
da vida humana.
Notas
1
António Sérgio, Prefácio à
tradução do livro de Russell, Os problemas da filosofia,
4ª ed., Arménio Amado, Editor, Sucessor, Coimbra,
1980, pp. 6-24. Sublinhado meu.
2 Edgar
Morin, As grandes questões
do nosso tempo, Editorial
Notícias, p. 156.
3 Augusto
Abelaira, in “O Jornal” de 19/08/83.
4
Edgar Morin, Ciência com
consciência, Pub.
Europa-América, p. 26.
|
![]() |
||||||||
![]() |
|||||||||
|
|
|||||||||
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|