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Artigo
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Rui Grácio
A noção de fenómeno
em Husserl e em Heidegger
in Caderno de Filosofias nº 9, Coimbra 1995, pp. 17-84.
Índice
Sumário
§1. As exigências do pensar
filosófico
§2. As ciências positivas e o
an-hipotético
§3. Uma equação
fundamental. O dom do ver
§4. Uma inibição
libertadora. O que são os fenómenos da
fenomenologia?
§5. “Às coisas
mesmas”: o(s) caminho(s) do regresso
Apêndice Bibliográfico
SUMÁRIO:
O presente estudo tem como objectivo
proceder a uma explicitação da
noção de fenómeno tal como ela nos aparece
conceptualizada quer no quadro da fenomenologia de E. Husserl
quer no horizonte da questão do ser que M. Heidegger
elegeu como a “questão mesma” e da qual se
nutrirá todo o seu pensamento.
Quer em Husserl quer em Heidegger, a
noção de fenómeno surge num contexto
próprio; no primeiro, é determinante a ideia
directriz da constituição de uma ciência
absoluta; no segundo é a colocação da
questão do sentido do ser que emoldura a
teorização da noção de
fenómeno.
Em grande medida, esta diferença de
contextos a partir dos quais se elabora a noção
de fenómeno, traduz-se também em
diferenças quanto à concepção de
fenomenologia. Assim, depois da explicitação da
noção de fenómeno, importava também
estabelecer alguns pontos de confronto que assinalassem as
diferenças na concepção de fenomenologia
de cada um dos referidos filósofos. Este constitui o
segundo objectivo do estudo que a seguir se apresenta.
***
§1. As exigências do pensar
filosófico
O imenso trabalho que Husserl empreendeu ao
longo de dezenas de anos esteve sempre norteado por um
determinado ideal de filosofia e, a bem dizer, toda a sua obra
é a tentativa de levar a cabo um tal ideal.
Acercarmo-nos da ideia de fenomenologia
— ciência dos fenómenos — e do seu
sentido implica, por isso mesmo e antes de mais, a tentativa de
determinar e caracterizar o páthos
filosófico que anima o
pensamento husserliano, as paixões e os tormentos que o
colocam em movimento, as exigências que o desafiam e
configuram o horizonte no qual ele se deverá realizar.
Uma primeira exigência a que o pensar
filosófico deve responder é a exigência de
radicalidade. E se é certo que um tal requisito deve ser
reconhecido como inerente à própria natureza do
filosofar, em Husserl, (que neste aspecto se aproxima de
Descartes ainda que a intenção de radicalidade
assuma nestes autores sentidos diferentes1) a radicalidade
filosófica recebe a sua autenticidade do facto de se
encontrar ligada ao empreendimento de uma
fundação absoluta do saber. Como nota P.
Thévenaz num estudo onde é confrontada a
questão do ponto de partida radical na filosofia de
Descartes e na filosofia de Husserl, não se trata, para
este último, de recomeçar a
construção do saber a partir do zero, mas sim de
dar uma fundamentação aos saberes já
existentes. Neste sentido, Husserl está mais
próximo de Kant do que de Descartes. “A
intenção de radicalidade, para Husserl,
não consiste em se reportar, pela dúvida,
aquém do conhecimento e em partir de novo do nada, mas
em retomar mais originalmente, sobre um plano novo
(transcendental) aquilo que está desde já
aí”2. É neste sentido que se afirma que a
filosofia inclui “um radicalismo do acto fundador”3
, o qual se exprime, por sua vez, na exigência de aceder
a um estado teórico isento de qualquer pressuposto. Dito
de outro modo, a intenção radical do filosofar
é solidária da ideia de um regresso ao terreno
virgem e esquecido das origens. Para o realizar, torna-se,
portanto, necessária “uma redução a
um estado absolutamente desprovido de todo o preconceito”4.
A obediência ao princípio da ausência de
pressupostos constitui, como Husserl sublinha logo nas suas Investigações Lógicas5 , o escopo da verdadeira filosofia.
Ora, esta verdadeira filosofia, não
obstante o ideal que sempre a emoldurou, a
tradição não a soube nunca
alcançar. Dito de outro modo e de acordo com uma
época para a qual o valor do saber só era
reconhecido sob o nome de ciência, a filosofia, “a
representante da aspiração imperecível
para o conhecimento puro e absoluto”6 , ainda que
nutrindo sempre o ideal de se constituir como uma ciência
de rigor, na verdade, nunca o realizou. Pior do que isso, um
tal ideal foi-se esmorecendo, foi sendo enfraquecido e
adulterado, quer pelas filosofias ideológicas sob a
influência do Historicismo, quer pela supremacia
crescente do Naturalismo7. É por isso que no artigo da Logos, Naturalismo e
Historicismo são alvos de crítica e
refutação filosófica, sendo reivindicado
para a filosofia a possibilidade de se poder constituir como
ciência de rigor; esta possibilidade é, aos olhos
de Husserl, algo que assume a dimensão de um imperativo8.
Urge salvaguardar a filosofia e resgatá-la do estado de
indigência a que o imperialismo científico a
conduziu, tarefa que exige, por um lado, que sejam assinalados
os limites das ciências positivas e, por outro, que da
filosofia seja afastado o espectro ensombrador do relativismo e
do cepticismo e restituído o valor absoluto da Verdade.
É assim que os alvores do
século XX marcam uma fase decisiva no que diz respeito
à filosofia9. É a época da
“viragem” que o próprio Husserl
tomará missionariamente como tarefa a realizar e que
permitirá a superação da fragilidade e
mesmo da arbitrariedade reinantes na filosofia. É que,
explica, a filosofia “não somente não
dispõe de um sistema doutrinal completo e apenas
imperfeito nos respectivos pormenores — não
dispõe de sistema algum. Tudo aqui é
discutível, todos os juízos dependem da
convicção individual, da escola, da
‘posição’”10.
A filosofia carece de um método e de
um sistema que lhe assegurem a solidez das suas bases e permita
pautar o seu saber pelas notas da necessidade e da
universalidade. O problema da filosofia é, antes de
mais, um problema da ordem da fundação do saber;
e, porque uma fundação absoluta, edificada a
partir de pontos de partida radicais e seguros, não foi
nunca conseguida, Husserl demarca-se da tradição
caracterizando a filosofia que procurará realizar como
algo que se situa numa “dimensão totalmente
nova”11. Note—se, contudo, que esta dimensão
de novidade não diz respeito às pretensões
da filosofia, mas ao modo de efectivamente as realizar.
Trata-se, como teremos ocasião de pôr em relevo,
de uma questão de método.
Da tradição
filosófica, Husserl subscreve não só a
pretensão da filosofia ser um saber abarcante de todos
os saberes como também o de ser , na sua especificidade,
uma ciência fundamental e universal. O modelo
aristotélico segundo o qual se distinguem ciências
que partem de princípios e ciências dos
princípios, está inegavelmente em sintonia com a
concepção husserliana. Também para Husserl
a filosofia não é um saber síntese de
todos os saberes regionais, mas um saber fundamental no qual as
ciências particulares podem encontrar a sua
fundamentação radical. Pensamos, pois, que
Husserl se reconheceria nas palavras de Aristóteles:
“o conhecimento primeiro são os primeiros
princípios e as primeiras causas, pois é
graças aos princípios e a partir dos
princípios que tudo o mais é conhecido e
não, inversamente, os princípios das outras
coisas que deles dependem”12. Esta é também
a ideia que preside à metáfora cartesiana da
árvore do saber, que Husserl retoma quando afirma que
“não há senão uma filosofia
única, uma ciência verdadeira e autenticamente
única e nela as ciências particulares são
justamente ramos dependentes”13.
Sabemos que, segundo Husserl, a filosofia
só se pode realizar plenamente como fenomenologia. Esta,
diz nas Meditações
cartesianas, “é a
única forma sob a qual se realiza ou pode realizar uma
ciência filosófica, a ‘filosofia
primeira’”14. Igualmente, nas linhas
introdutórias às Ideias
I, Husserl chama a
atenção para o carácter excepcional da
fenomenologia pura relativamente às outras
ciências, não hesitando em denominá-la
“ciência fundamental da filosofia”15.
Não é, contudo, nosso propósito, neste
parágrafo, esclarecer em que consiste a fenomenologia;
é antes o de nos acercarmos do páthos que anima e
configura a ideia husserliana de filosofia.
Sublinhámos já duas notas que
caracterizam esse páthos : a exigência de radicalidade e,
concomitantemente, a obediência ao princípio da
ausência de pressupostos. A solidariedade entre estas
duas notas conduz, porém, a novas
considerações relativas ao saber que a filosofia
deve realizar. Radical e sem pressupostos, o saber
filosófico tem que se apresentar como um saber
originário e primeiro. Mas, o que é um saber
originário? Como nota E. Fink, “é
manifestamente ‘originário’ este saber que não é mais, em si mesmo,
retroferente, que nos reenvios
já não toma o seu sentido como
modificação de..., mas que é o termo de
todo o reenvio e dá a todas as
modificações o seu sentido modificado”16.
Apenas um saber desta índole pode corresponder às
exigências da verdadeira atitude filosófica.
À radicalidade da atitude terá, pois, que
corresponder, ao nível do saber, “uma
ciência dos inícios verdadeiros, das origens, dos rizómata panton”17.
Quer isto dizer que pertence à essência da
filosofia a tarefa de se confrontar com o problema do
“começo dos começos”, do
estabelecimento de um começo absoluto. Esta tarefa
assumirá para Husserl a forma de um retorno às
origens esquecidas ou, dito de outro modo, da descoberta de um
campo de experiência originária que para uma
atitude natural permanece inevitavelmente ocultado.
Animado por esta fé na origem, pela
crença de que é possível começar
pela origem e retornar ao originário para desta forma
proceder à avaliação do saber existente
sob a perspectiva radical da fundamentação
absoluta, Husserl não podia deixar de compreender a
filosofia como um saber primeiro. Com efeito, o estabelecimento
do fundamento remete para a questão da arquia: o
fundamento é o solo último e coincide, nesse
sentido, com a origem. O mais profundo — o fundamento
— é sinónimo de originário e tal
sinonímia estabelece a prioridade do discurso
filosófico na ordem do saber. Donde a ideia de filosofia
como filosofia primeira. Donde, também, que a filosofia
se tenha que realizar antes de mais por um movimento de
auto-fundação, sendo o filósofo aquele que
principia, aquele que, começando pelo originário,
faz com que o saber que persegue responda por si mesmo.
“O filósofo, no sentido husserliano —
comenta Fink — é essencialmente um
‘começador’, porque ele começa em
primeiro lugar e antes de mais pela
auto—fundação da filosofia”18. Este
é, por conseguinte, um importante ponto a reter: quando
Husserl pensa em filosofia, pensa seguramente em termos de
filosofia fundamental; para ele a problemática da
filosofia tem necessariamente que se enraízar no
problema da auto-fundação ou da
fundamentação absoluta do saber. Neste sentido, a
filosofia deve ser encarada como uma ciência
absolutamente autónoma e independente, não
podendo “começar de uma forma ingénua, como
fazem as ciências positivas que se instalam no terreno da
experiência do mundo, previamente dado e pressuposto como
existindo de maneira evidente. (...) É precisamente por
esta razão que as ciências positivas são
não-filosóficas: elas não são
ciências últimas e absolutas justificadas a partir
dos fundamentos últimos do conhecimento. É apenas
nas reflexões radicais sobre o sentido e a possibilidade
do seu projecto que uma filosofia se pode
enraízar”19. Encontramos nesta passagem uma
importante distinção que retomaremos no
parágrafo seguinte: a distinção entre
filosofia e ciência, ou, se se preferir, entre
ciência filosófica e ciências positivas.
Referindo-se ao procedimento formal que
conduz à edificação da verdadeira
filosofia, Husserl sublinha que ela deve partir “da base
filosófica específica e conquistada originalmente
por uma actividade autónoma e, por conseguinte, desta
solidez ou autenticidade do fundamento que torna
possível, apenas ela, uma filosofia verdadeira”20.
Esta base filosófica é, como referiremos adiante,
a evidência apodíctica, que permite aceder a um
saber a priori, isento de pressupostos.
Ao ideal de filosofia norteado pela ideia
de uma auto-fundamentação encontra-se ligada a
ideia de sistema. Como nota Fink, “a
suposição da ideia de fundação que
determina uma filosofia é sempre a antecipação
implícita (talvez obscuramente consciente) do sistema”21. Esta
solidariedade entre a ideia de fundação e a ideia
de sistema insere a concepção husserliana no
horizonte da Unidade. O seu ideal de filosofia é o da
filosofia Una que Husserl não hesita em afirmar
“estar na base de tudo a que se chama filosofia”22.
Uma passagem da Crise permite-nos precisar esta ideia; aí se
idealiza a filosofia como um “único domínio
de verdades definitivas e teoricamente unidas entre si,
crescendo de geração em
geração”23. A sistematicidade da filosofia
repousa portanto na unidade do campo de experiência de
onde colhe o seu saber — e que é assegurada, em
última instância, pelo eu transcendental — e
pelo método que nos permite aceder a um tal campo de
experiência. Explorá-lo significa
lançarmo-nos numa tarefa infinita de
investigação e não a clausura num sistema
arquitectonicamente fechado. Após a
determinação do espaço problemático
propriamente filosófico, a filosofia permanece trabalho,
ou, na expressão de Fink, “uma filosofia de
trabalho”24. A metáfora rural a que Husserl
recorre é a este respeito elucidativa: acredita, diz,
ter chegado ao “começo dos começos”25
, à almejada terra filosófica, à
“terra prometida”26 ; mas sabe que o seu tempo de
vida não lhe permitirá vê-la cultivada27.
Ficou entretanto a descoberto o campo de onde poderão
germinar verdades com validade absoluta e a partir das quais a
filosofia, encontrado o princípio da sua autonomia e o
seu significado vital para a solidez do saber, poderá
recuperar de novo o seu trono na hierarquia dos saberes e
escrever o seu nome com um singular digno de maiúscula.
Todas estas características —
radicalidade, ausência de pressupostos, saber
originário ou primeiro, auto-fundação,
automomia, unidade, universalidade e validade absoluta —
que configuram o ideal de Husserl, consubstanciam-se na
definição mais frequente e abreviada da filosofia
como “ciência de rigor”. Esta
expressão que dá título a um importante
artigo é emblemática de todo um projecto de
trabalho que visa constituir uma nova ciência.
Encontramo-la em vários textos de Husserl. Citemos, a
título de exemplo, uma passagem do Posfácio: “
‘a filosofia’, segundo esta ideia, significa para
mim ‘ciência universal’ e, no sentido radical
do termo, ‘ciência rigorosa’. Enquanto tal
ela é a ciência nos seus fundamentos
últimos ou, o que é equivalente, ela é
para ela mesma a sua justificação última;
nenhuma evidência ingénua, que ela seja
predicativa ou antepredicativa, poderá figurar como base
de conhecimento admitido sem exame”28.
O que quer então dizer
“filosofia como ciência de rigor”? O que
entende Husserl sob a designação de
“filosofia científica”? E que
relações se estabelecem entre esta filosofia
científica e as ciências
não-filosóficas, ditas positivas? Por outro lado,
como entender o termo “rigor”? Será que para
Husserl as ciências positivas não são
rigorosas?
Estas questões conduzem-nos à
problemática que abordaremos no parágrafo
seguinte.
§2. Os limites das ciências
positivas e o an-hipotético
Transposto para a questão do saber,
o princípio da autonomia pode ser enunciado da seguinte
forma: é autónomo o saber que, sabendo-se, se
justifica a si próprio. É à luz deste
princípio que a distinção husserliana
entre ciência filosófica e ciências
positivas pode ser aclarada. É ainda na obediência
a este princípio e como sua plena
realização que a fenomenologia transcendental
deve ser compreendida. Justamente como “a única
ciência absolutamente autónoma”29. Contudo,
antes de penetrar no cerne desta questão, é
necessário retomar as questões deixadas em
suspenso no parágrafo anterior.
A filosofia quer ser ciência, reclama
o estatuto de cientificidade. Quer isto dizer que a filosofia
se demarca do pensamento especulativo para se situar numa
dimensão analítica. Enquanto tal, “a
evidenciação rigorosa dos fenómenos, a
investigação do seu fundamento, a
verificação inter-subjectivamente
controlável”30 devem presidir à sua
elaboração. O procedimento exacto que, nos
respectivos domínios, as ciências positivas
realizam, deve estar também presente no domínio
próprio e autónomo da investigação
filosófica. A filosofia reclama cientificidade porquanto
também ela dispõe de um domínio a que se
acede através de procedimento metódico. Contudo,
tal não quer dizer que o modelo de cientificidade das
ciências positivas sirva às exigências da
filosofia. Como sublinhámos já, estas
exigências são radicais e implicam uma
ausência de pressupostos. Ora, todas as ciências
positivas repousam num certo dogmatismo
teórico-gnoseológico, operam com base em pontos
de partida que não interrogam, “são
incapazes de investigar a essência do domínio
próprio de investigação”31. Para
esta insuficiência Husserl chama logo a
atenção nas Investigações
Lógicas e mais precisamente
no §4 dos Prolegómenos
à lógica pura que tem
justamente por título “A imperfeição
das ciências particulares”. Se é certo que
pelo corpo teórico, conceptual e metodológico que
a sustenta, a ciência está apta a produzir
conhecimentos sempre enriquecedores para o homem, não
é menos certo que, orientado para a
mediação conceptual que da realidade lhe daria o
conhecimento, o cientista se alheia do problema das
condições de possibilidade da própria
conceptualidade, esquece-se de indagar pelos fundamentos do
saber que preocupadamente procura estabelecer. Dito
resumidamente: a ciência não reflecte sobre os
problemas da legitimação última do
conhecimento, não alcança a consciência do
que radicalmente a possibilita e lhe confere validade,
não é, portanto, um saber de responsabilidade
última; as ciências positivas não podem,
conclui Husserl, satisfazer-nos teoricamente32. É neste
sentido que se pode dizer que elas não são
rigorosas: as ciências particulares não têm
acesso aos problemas da fundamentação, são
impotentes para, pelos seus próprios meios, apresentar
uma justificação última dos seus
fundamentos de validade. Por isso pôde Husserl afirmar
que, do ponto de vista de uma atitude radical, “estas
ciências tornam-se ciências
hipotéticas”33. O sentido possível das
ciências enquanto ciências autênticas
só pode ser dado, dirá Husserl numa obra cuja
publicação data de 1929, pelo conjunto de
princípios transcendentais que constituem a
lógica transcendental, pois “apenas esta pode ser
uma doutrina última da ciência, uma doutrina dos
princípios e das normas de todas as ciências,
doutrina última, a mais profunda e a mais
universal”34. Apenas uma doutrina desta índole
poderá fazer frente à crise em que as
ciências europeias caíram ao perderem a fé
em si mesmas e na sua significação absoluta35. O
problema do desenraízamento das ciências e as
consequências que reveste tal crise no âmbito da
humanidade europeia é abordado explicitamente por
Husserl na sua última grande obra, A Crise das ciências europeias e a fenomenologia
transcendental. O que importa de
momento sublinhar é que na base desta crise se encontra
o esquecimento dos fundamentos subjectivos que todo o saber,
por mais ávido de objectividade que se apresente,
necessariamente comporta36. Esquecê-lo — e essa foi
a tendência preponderante no âmbito das
ciências positivas — é correr o risco de,
ignorando a responsabilidade que a actividade científica
carrega, sermos conduzidos a um mundo onde, apesar de todo o
saber e de toda a eficácia técnica a ele
associado, o homem não encontra mais lugar37. A
insuficiência das ciências no que concerne aos
problemas da fundamentação radical e a
necessidade de uma ciência da ciência (uma
lógica pura ou transcendental) que lhes devolva o seu
verdadeiro sentido, expressa-as Husserl da seguinte forma:
“Em que medida uma tal lógica é
necessária às ciências ou ainda em que
medida as ciências são incapazes de aparecer com a
sua positividade ingénua como bastando-se a si
próprias e são incapazes de persistir numa tal
pretensão de se bastarem a si próprias, isso
é o que mostra a ausência, em toda a ciência
por mais exacta que seja, de um debate sobre o verdadeiro
sentido dos seus conceitos fundamentais. Esta ausência
é um sintoma de que as ciências se encontram, na
verdade, numa total falta de clareza no que diz respeito ao seu
próprio sentido”38. Feitas estas
aclarações, retomemos a questão de saber o
que é que Husserl entende por “rigor” e a
que ciência este termo verdadeiramente convém.
No sentido que Husserl lhes dá, o
adjectivo “rigorosa” e a expressão
“ciência de rigor” devem ser entendidos como
algo que remete para a ideia do absolutamente
originário. Como nota Desanti, chama-se rigorosa,
“ no sentido primeiro e fundamental, uma ciência
tal que na sua constituição poderíamos,
sem recorrer a outra coisa que aos próprios passos desta
ciência, assistir à fundação de
critérios de verdade que ela poria em marcha; de tal
forma que, libertos de toda a pressuposição
inicial, pudéssemos procurar para as ciências
já constituídas o seu fundamento e assinalar os
seus limites. Além do mais, poderíamos
então recuperar e compreender até às suas
raízes últimas, para além destas
ciências, as condutas e as significações em
marcha na experiência humana”39.
A filosofia partilha com as ciências
a exactidão com que pretendem proceder. Distancia-se
delas por se pretender radical e por se querer constituir como
um saber rigoroso de fundamentação40. Ao
filósofo não basta a exactidão dos seus
procedimentos; a bem dizer, tal exactidão de nada serve
se não for acompanhada de uma lucidez absoluta41.
É por isso que o carácter científico da
filosofia impõe a exigência de uma perfeita
clareza e implica, para o filósofo, que o “seu
procedimento se torne translúcido até ao
mínimo detalhe”42. A ciência
filosófica distingue-se assim das outras ciências
pelo carácter do seu saber: ela visa um saber
absolutamente originário pelo que não deve ser
considerada “uma ciência entre ciências ou prima scientia inter pares”43, mas, em sentido bem determinado, uma
ciência fundamental. Não é portanto, nota
Fink, “senão a partir deste ‘saber
originário’ que se determina o conceito de
ciência filosófica”44.
Se quisermos agora recorrer à
linguagem platónica45 , poderíamos dizer que a
cientificidade da filosofia se caracteriza pelo facto de se
situar num nível exclusivo de toda a dimensão
hipotética, ou, enunciando-o afirmativamente, de se
situar num plano an-hipotético. E se Platão
falava em “ir até àquilo que não
admite hipóteses, que é o princípio de
tudo”46 , a correspondente husserliana será dada
pela expressão chave de “campo de
experiência originária”47.
A cientificidade da filosofia destaca-se,
portanto, do conceito mundano de ciência e opera mesmo
uma transformação no conceito de ciência48.
Não se trata de uma ciência de factos ou de
fenómenos naturais, mas de uma ciência
eidética do sentido último de todo o saber sobre
o ente49 , única que corresponderá à
necessidade de uma “ciência do ser no sentido
absoluto”50. Neste sentido, a filosofia é
entendida por Husserl como uma verdadeira Metafísica,
uma ciência do ser, a ciência das
“questões últimas e mais elevadas”51.
Que o ser seja concebido como fenómeno e que o
ser—fenómeno encontre o seu sentido radical na
consciência pura, essa é a opção que
conduzirá Husserl à versão idealista da
fenomenologia, não partilhada por alguns dos seus
colaboradores mais próximos e entre os quais avulta o
nome de Martin Heidegger. A “dissidência”, se
assim se pode dizer, deste último relativamente à
“ortodoxia husserliana” será objecto de
estudo no § 5 deste trabalho. Por agora, importa tematizar
o modo como, animado obsessivamente pela ideia de uma
fundamentação absoluta ou
justificação última do saber e de um
recomeço radical da filosofia52 , Husserl encontra
numa operação de conversão do olhar, toda
a possibilidade de edificar a nova ciência. Estaremos
então em condições para explicitar em que
consistem os fenómenos de que se ocupa a fenomenologia.
§3. Uma equação
fundamental. O dom do ver.
Haverá algo que, sendo absolutamente
indubitável, constitua a fonte última de direito
para toda a afirmação racional?
Se colocássemos esta questão
a Husserl, seríamos seguramente conduzidos ao motivo da
visão53. Com efeito, este motivo assume um lugar central
na filosofia fenomenológica de Husserl, a qual repousa
justamente na equação seguinte: visão ou o
ver = evidência originária absoluta = fonte
última doadora de sentido = fundar. Tentemos explicitar
esta equação a partir das seguintes
questões: em que condições é a
visão sinónimo de evidência
originária absoluta? De que visão se trata e o
que a caracteriza? Em que medida se pode afirmar que a
visão é fundante?
O primeiro texto husserliano no qual, com
maior insistência, aparece o tema da visão
são as cinco lições dadas por Husserl na
Universidade de Göttingen, em 1907, e publicadas em 1950
com o título Die Idee der
Phänomenologie. É
também neste texto que pela primeira vez é
tematizado explicitamente o motivo da redução
fenomenológica. Coincidência? Certamente que
não. A afinidade entre estes dois temas é
absolutamente nuclear e nela podemos encontrar a chave para a
compreensão de toda a fenomenologia.
Escreve Husserl: “todo o segredo
consiste em deixar a palavra puramente ao olhar da visão
e em pôr fora de jogo a visada transcendente que
está entrelaçada com a visão, em pôr
fora de jogo aquilo que, intervindo ao mesmo tempo, não
é senão uma pretensa possessão de um dado,
não é senão pensamento, e eventualmente
não é senão uma
interpretação introduzida por uma reflexão
sobreposta”54.
Esta passagem merece uma análise
detalhada. Trata-se, em primeiro lugar de “deixar a
palavra puramente ao olhar da visão”, ou, dito de
outro modo, de nos situarmos ao nível da pura
visão. Mas, aceder a esta pura visão implica um
exercício epocaico, isto é, implica que algo seja
posto fora de jogo. Aquilo que tem que ser posto fora de jogo
é a transcendência; a visão pura não
comporta qualquer transcendência e a sua pureza consiste
justamente no facto desta visão se restringir à
estrita esfera da imanência. Que quer dizer
imanência e o que quer dizer transcendência? E
porque é que toda a transcendência deve ser
excluída?
Husserl distingue dois sentidos segundo os
quais se pode pensar a imanência e a
transcendência. Diz-se imanente, num primeiro sentido,
todo o objecto que está efectivamente contido no acto de
conhecer; transcendente, todo o objecto que não
está efectivamente contido no acto de conhecer. Num
segundo sentido, imanência quer dizer presença
absoluta e clara, presença em pessoa no sentido
absoluto, presença absolutamente evidente (e portanto
esta presença é o próprio conceito de
evidência); transcendente é aquilo que não
é visto de uma forma evidente, que não é
compreendido de uma forma imediata55.
Nos dois sentidos, a transcendência
é problemática: “como é que a
vivência pode, por assim dizer, sair dela mesma?”56
— eis a dificuldade colocada por Husserl relativamente ao
primeiro sentido de transcendência; “como é
que o conhecimento pode pôr como existente algo que
não é directa e verdadeiramente dado nele?”57
— eis a questão que se coloca relativamente ao
segundo sentido de transcendência58. Relativamente a
ambos os sentidos deve portanto dizer-se que a
aceitação da transcendência se revela como
uma ingenuidade característica da atitude natural. Para
esta atitude, na verdade, o problema da possibilidade do
conhecimento não se chega a colocar; a atitude natural
parte de pressupostos, a começar pelo da tese ou
posição do mundo. Ora, quando devida e
radicalmente formulada a questão da possibilidade do
conhecimento, imediatamente nos damos conta de que a
relação com a transcendência é um
enigma59 e que a característica do conhecimento
gnoseológico é a imanência60. A
colocação do problema da possibilidade do
conhecimento em termos de imanência obriga a que se
ultrapasse, em primeiro lugar, a ingenuidade da atitude natural
sobre a qual repousam as ciências. Ora, se esta se
caracteriza e consiste em “afectar do índice de
‘presença’, de ‘estar-aí’
tudo o que me afecta através da experiência vinda
do exterior”61 , a superação desta atitude,
que a bem dizer é pensada por Husserl como uma
neutralização, consistirá em suspender,
“pôr fora de jogo”, “pôr fora de
circuito”, “pôr entre parênteses”
toda a validade dos juízos de existência porquanto
neles se pressupõe sem questionamento a possibilidade da
relação com a transcendência. Esta atitude
é ingénua porque pressupõe e porque toma o
seu pressuposição como algo de natural.
Não é ,portanto, uma atitude que se compagine com
as exigências radicais da atitude filosófica pois
que a esse nível a exclusão da
transcendência se torna uma imposição para
todo aquele que persegue um plano verdadeiramente
originário, no qual, sem a intervenção de
qualquer pressuposição, as coisas se dêem
na sua pureza e de uma forma absoluta; como dados absolutos e
como absolutamente dados. Ora, escreve Husserl, nenhuma
transcendência pode ser utilizada como algo que
imediatamente se dá62. Retomemos a análise da
citação.
A pura visão, porquanto se realiza
na esfera da estrita imanência, é algo
absolutamente directo e imediato, algo da ordem da
intuição e não da ordem da reflexão
ou interpretação. Toda a reflexão e
interpretação, enquanto mediação,
comportam necessariamente uma distância que na
visão pura é suprimida pelo próprio acto
de ver. A visão pura é sinónimo de
“proximidade absoluta”63 , de lucidez
máxima, no sentido em que aí as coisas se
dão “em carne e osso”, “em
pessoa”, “na clareza absoluta da
presença”64. Ora, acrescente-se ainda, “a
presença absoluta é o que há de
último”65. Na visão pura o que se dá
são as “coisas mesmas” a que Husserl faz
apelo de regresso: “olhemos portanto os fenómenos
mesmos em vez de discorrer de alto e de construir”66. E
de novo se sublinha o privilégio da visão:
“o ver não se deixa demonstrar nem deduzir”67
; e mais à frente acrescenta”a visão (...)
é o que há de último”68.
Se o ver e a visão são, como
referimos atrás, da ordem da intuição,
esta ideia de intuição não deve contudo
ser compreendida a partir dos conceitos filosóficos de
intuição, mas a partir do imperativo que nos
ordena o regresso às “coisas mesmas”69. A
ideia de regresso às “coisas mesmas”
será objecto de análise do §5 deste estudo.
Retomemos, por isso, o fio condutor das nossas
considerações.
Perguntávamos: em que
condições é a visão sinónimo
de evidência imediata absoluta? A esta questão
responde Husserl dizendo que para que a visão seja uma
evidência imediata absoluta, aquilo que nela é
visto tem de se dar de uma forma directa e absoluta. Escreve
Husserl: “Pois bem, nós vemos directamente e
compreendemos directamente aquilo que nesta visão e
compreensão nós visamos. Ter perante os olhos um
fenómeno que visa algo que não é ele mesmo
dado nele, e duvidar se isso existe e como é preciso
compreender que isso existe, isso tem sentido. Mas ver e
não visar absolutamente nada senão o que é
compreendido pela visão, e colocar mesmo assim
questões e duvidar, isso não tem qualquer
sentido. No fundo, isso não quer, por
consequência, dizer nada mais do que isto: a
visão, a compreensão do que é
dado-em-pessoa, na medida em que se trata precisamente duma
verdadeira visão, duma verdadeira
presença-em-pessoa, no sentido mais rigoroso do termo, e
não de uma outra espécie de presença ou
dado, que visa algo que não é dado, eis o que
há de último. É a absoluta
evidência”70. E mais adiante precisa: “O
ponto capital é que não deixemos de observar que
a evidência é então esta consciência
que não faz verdadeiramente nada senão ver,
senão compreender directamente e adequadamente ‘em
pessoa’, que não se trata de nada mais do que da
adequada presença -em - -pessoa”71. Mas, de que
visão se trata e o que a caracteriza?
Comecemos por referir que a visão
que aqui está em causa não é nem poderia
ser a visão sensível. Com efeito, esta é
sempre uma visão na qual as coisas são dadas de
uma forma inadequada. A coisa material é para Husserl o
transcendente tipo: a coisa material, este livro por exemplo,
nunca se dá à visão sensível de uma
forma absoluta. Dá-se, com efeito, mas unilateralmente,
por “esboços”, por “perfis” ou
ainda por “perspectivas” (Abschattungen)72. É
no entanto possível aceder ao nível da
doação absoluta. Para tal a visão tem que
se exercer de uma forma reflexiva, pois que, escreve Husserl,
“as figuras de pensamento que eu realizo realmente
são-me dadas, desde que eu reflita sobre elas, que eu as acolha e as ponha puramente tal qual as vejo”73. Esta passagem da visão
sensível à visão reflexiva nomeia-a
Husserl através da expressão
“conversão do olhar”74. Ver o que se
dá, tal como se dá. A visão desloca-se do que
aparece para o próprio aparecer75. Desdobra-se sobre si
mesma, torna-se reflexiva. Esta reflexividade, tomada do lado
do objecto, significa uma cisão “no próprio
objecto, entre o seu pretenso em si e o seu puro
aparecer”76; do lado do sujeito que vê, significa
que a sua visão deixa de se encontrar entrelaçada
com a transcendência e arrebatada pelas coisas do mundo,
assumindo o sujeito o lugar de um “espectador
desinteressado”77, isto é, de um sujeito limitado
ao puro ver porque se isentou de, ou suspendeu, toda a tomada de
posição no que concerne ao ser do mundo. Por esta
conversão, aquilo que ao olhar se mostra não
será doravante nada senão para este olhar que
vê: um correlato desta
intenção que me remete
para, um correlato intencional da consciência78 um
objecto intencional que por uma análise intencional pode
ser elucidado 79. A palavra pode, então, ser deixada
“puramente ao olhar de visão”. Quer isto
dizer que o olhar e o olhado são agora considerados no
quadro da estrita imanência da consciência
intencional pelo que todos os problemas da visão de um
objecto transcendente ficam excluídos80. A
reflexão é então o método81 pelo
qual se reconduz a intencionalidade da consciência que
olha à esfera da imanência.
Já nas Investigações
Lógicas, Husserl sublinhara a
importância decisiva da reflexão enquanto
método82. Nas Ideias I escreve que a reflexão “apresenta o
carácter de uma modificação da
consciência e, bem entendido, de uma
modificação que por princípio toda a
consciência pode sofrer”83. E no §15 das Meditações Cartesianas, Husserl esclarece: “Um estado
essencialmente diferente vem substituir assim, é
verdade, o estado primitivo e podemos neste sentido dizer que a
reflexão altera o estado primitivo. Mas isto é
verdade para cada reflexão, portanto também para
a reflexão natural. A alteração é
essencial, porque o estado vivido, ingénuo antes de
mais, perde a sua ‘espontaneidade’ primitiva
precisamente devido ao facto da reflexão tomar como
objecto o que era primeiramente estado e não objecto. A reflexão tem como tarefa não o
reproduzir uma segunda vez o estado primitivo, mas o de o
observar e de lhe explicitar o conteúdo”84. Esta
modificação da consciência operada pela
reflexão e conducente à esfera da
experiência imanente, nada mais é, portanto, que
uma conversão do olhar, “na medida em que ela
pressupõe que o olhar se desvie de um qualquer objecto
de consciência e incida sobre a consciência que se
tem dele”85. Converter o olhar implica pois,
simultaneamente, que a tese do mundo seja suspensa
(transformação do mundo em correlato intencional
e sua consideração enquanto objecto intencional),
que a consciência possa, assim, tomar consciência
de si e tornar manifesta a intencionalidade que a anima86 , que
o olhar assuma portanto, uma dimensão reflexiva.
“Exercitar—se a reflectir como fenomenólogo
é, decerto, reconverter o olhar da inteligência,
regressar das coisas que a fascinam para a consciência
que olha”87.
Respondamos agora à terceira das
questões acima formuladas: em que medida se pode afirmar
que a visão é fundante? Perguntaremos ainda:
porque razão escolheu Husserl a visão como modelo
da verdadeira via de acesso às “coisas
mesmas”?
Para darmos resposta a estas
questões convirá retomar a questão do
critério de fundamentação do saber tal
como Husserl a pensa; quais, pois, os requisitos da verdadeira
e radical fundamentação?
Em primeiro lugar, deve ter-se em conta que
a fundamentação do saber não depende dos
saberes a fundamentar; se é certo que as ciências
se constituem por delimitação de um
domínio de investigação, a
fundamentação das ciências não
depende das esferas do conhecimento destas e é livre de
toda a relação com uma esfera de conhecimento
limitada88. Ora, é óbvio que assim seja, uma vez
que, como vimos atrás, um dos princípios
fundamentais que deve servir de critério a toda a
fundamentação radical é o princípio
da ausência de pressupostos.
Em segundo lugar, se a tarefa de
fundamentar se opõe a todo a construção e
dedução89 e reclama assim um regresso ao
genuinamente originário, é preciso notar que
Husserl entende este originário em termos de sentido originário (que deve ser resgatado do esquecimento) e define a a
sua originariedade a partir da ideia de doação absoluta. O ponto de partida não pode ser qualquer
posição mas a esfera de doação
prévia a toda a tomada de posição.
Atingirmos a origem é necessariamente colocarmo-nos sob
o signo da dádiva, daquilo que totalmente se dá
de uma forma apodíctica. Fundamentar será, nesta
perspectiva, explicitar o sentido daquilo que se dá, no
modo mesmo da sua doação ou
aparição.
É assim que, em terceiro lugar, a
intuição é elevada a
“princípio dos princípios”, pois que,
como afirma Husserl, “toda a
intuição doadora originária é uma
fonte de direito para o conhecimento; tudo aquilo que se nos
oferece na ‘intuição’ de maneira
originária (por assim dizer,
na sua realidade corporal) deve ser
simplesmente recebido como aquilo que se dá mas sem
nunca ultrapassar os limites nos quais então se
dá”90. A
intuição de que aqui se trata deve ser portanto
compreendida a partir da doação da “coisa
mesma”, doação a que (por se revestir de
absoluta apodicticidade) convém o nome de
evidência91. “Passaremos então a dispor
— escreve Husserl —, para designar toda a tese
racional caracterizada por uma relação de
motivação ao carácter originário do
dado, da expressão: evidência
originária”92. E depois
de observar que se deve, contudo, distinguir entre
evidência assertórica e evidência
apodíctica, precisa que, para salvaguardar e vincar o
carácter de apodicticidade desta última, lhe
devemos “reservar o termo ‘visão
intelectual’”93. A fundamentação
torna-se assim algo que pertence exclusivamente à ordem
da intuição, e sendo esta pensada a partir da
cumplicidade do ver e do dar (ver a coisa mesma tal como se
dá) e mais precisamente de um
ver que é afinal um dar94,
temos então todos os elementos que permitem compreender
a equação ver=fundar95.
Quanto ao próprio estatuto do ver,
ele não poderia ser legitimado por outra coisa que o
próprio ver: “A visão não se
legitima — nota Fink — senão na sua
operação (Leistung): legitimar o ser nele mesmo. Não
saberíamos ir aquém da visão na medida em
que ela é a proximidade (Dabeisein) arqui-modal ao ser do conhecimento humano,
dando sentido a todos os outros modos modificados de
consciência. A visão pode ser imprecisa, lacunar,
mas apenas uma nova visão mais precisa e mais completa a
pode rectificar. A visão pode ‘enganar’,
ver-se mal: a possibilidade do engano contradiz tão
pouco a visão que apenas uma melhor visão pode
refutar os enganos”96. Husserl disse-o magistralmente:
“É somente vendo que posso pôr em
evidência aquilo de que se trata verdadeiramente num ver;
a explicitação da essência própria
desse ver, devo efectuá-la vendo”97.
§4. Uma inibição
libertadora. O que são os fenómenos da
fenomenologia?
Abstivemo-nos deliberadamente de, no
parágrafo anterior, abordar de uma forma
explícita o tema das reduções. Contudo, o
caminho ficou já aberto para as
considerações que sobre ele agora faremos.
Husserl define a fenomenologia como uma
ciência, uma atitude e um método. Citemos uma
conhecida passagem: “Fenomenologia: isso designa uma
ciência, um conjunto de disciplinas científicas;
mas fenomenologia designa ao mesmo tempo e antes de mais, um
método e uma atitude de pensamento: a atitude de pensamento
especificamente filosófica e o método especificamente filosófico”98.
Enquanto atitude, a fenomenologia tem o seu
ponto de partida na epoché universal; enquanto método, a
fenomenologia assenta na redução
fenomenológica. Embora não se confundam,
há no entanto uma estreita solidariedade entre epoché e
redução. Husserl fala-nos em três tipos de
redução: a redução
psicológica, a redução eidética e a
redução transcendental. A epoché, não se
confundindo propriamente com nenhuma destas
reduções, é contudo requerida para operar
cada uma delas. Tentemos explicitar este ponto. Em que sentido epoché e
redução são distintas? E em que medida a
redução pressupõe a epoché ?99
A epoché é, antes de mais, uma possibilidade de
princípio e uma possibilidade universal100. Consiste ela
na possibilidade de suspendermos todos os juízos que de
alguma forma possam estar ligados à
afirmação da existência de realidades
mundanas. Aquilo que esta possibilidade permite é o
abandono ou a ruptura com a atitude natural e a passagem para a
atitude filosófica. Se esta se caracteriza por ser um
estado no qual todos as pressuposições
estão ausentes, então, pela epoché, o terreno
ingénuo da atitude natural deve ser abandonado e
interditos absolutamente todos os juízos respeitantes
à existência espacio-temporal101, suspensas na sua
validade todas as afirmações sobre o mundo
natural, afectados de um índice de nulidade
gnoseológica todas as proposições das
ciências que se reportam a este mundo natural102.
Será importante notar que se a epoché é
uma possibilidade e, aos olhos de Husserl, uma possibilidade
essencial, ela é-o devido ao primado atribuído
à visão e à dimensão fundante que
esta visão assume para o saber (Cf. §3 do presente
estudo). Com efeito, se a epoché é uma possibilidade, esta possibilidade
repousa justamente no carácter ante-predicativo
atribuído à visão e ao sentido a partir
dela e por ela visado, na dimensão
pré-linguística que lhes é concedido, no
facto de Husserl fazer preceder a intenção
significante do olhar da visão à
função referencial da linguagem. Porque se afirma
que não é a enunciação, mas sim a
visão, a fonte originária e última do
sentido103 : “ a evidência predicativa implica a
evidência ante-predicativa”104. Porque, enfim, a
visão na sua originariedade é uma pura intenção ante-predicativa cujo sentido e as estruturas nela
implicadas é possível descrever e explicitar.
A epoché é uma possibilidade porque, mais
originária que a afirmação de realidades,
é a intenção de visar essas realidades,
é a intenção de significação
veiculado pelo acto de visar, é a
consideração dessas realidades enquanto visadas. A
existência será assim um modo do visar e
não uma propriedade do que é visado. No olhar,
reflexivamente exercido, podemos pois prescindir da
afirmação da existência do que é
visado (Husserl dá, entre outros, o exemplo da
representação do deus Júpiter, procurando
mostrar que nem a representação depende, para ser
concebida, da realidade do objecto representado, nem a
não-realidade do objecto representado constitui
obstáculo ao representar105; assim também para
todos os objectos da imaginação) sem contudo
deixar de visar algo106. É por isso que a epoché
não é, como sublinha Husserl, nem dúvida
sobre a existência da realidade mundana nem
negação do mundo107, mas sim uma
transformação de atitude que, pela
colocação entre parênteses da tese da
existência do mundo, permite precisamente ganhar o
sentido desse mundo108 , sentido que se dá no puro acto
de visar; permite, simultaneamente, e por isso mesmo, aceder a
um novo domínio científico que constituirá
o campo específico da investigação
fenomenológica. A fenomenologia torna-se então
uma ciência descritiva da correlação
noese-noema109 ou cogito-cogitatum. Contudo, este “correlativismo”
filosoficamente neutro será abandonado, quando, pelo
conceito de “constituição”, se
transitar para o chamado idealismo transcendental110.
A inibição111 face a toda a
afirmação respeitante à existência
do mundo liberta-nos afinal112 para o sentido no qual se funda
e a partir do qual se constitui a aparição do que
é113. Ora, se é pelo sentido que o que é,
é, então podemos afirmar, com Biemel que
“encontramos em Husserl uma identificação
entre ‘sentido’ (Sinn) e ‘ser’ (Sein)” 114. É
que, com efeito, o ser não se determina a partir da
existência ou da realidade mundana, mas do sentido que
constitui e torna possível a sua aparição
ou o seu ser-fenómeno. Segundo esta ideia, a
fenomenologia torna-se uma verdadeira ciência do sentido;
ela, escreve Husserl, “procede elucidando por uma pura
visão, determinando o sentido e distinguindo o
sentido”115.
Feitas estas considerações em
torno da epoché e do que faz com que ela seja uma possibilidade
de princípio que por acto de nossa liberdade se pode
concretizar116, analisemos agora o motivo das
reduções. A epoché é a
possibilidade de suspender os juízos existenciais, de
nos colocarmos ao nível da pura visão, de tudo
considerar enquanto visado; a redução põe
em acto esta possibilidade e produz-lhe as consequências
teóricas.
Como assinalámos já, podem
considerar-se três tipos de redução. E,
como nota Biemel, “o adjectivo que acompanha de cada vez
o termo ‘redução’ indica aquilo para
o qual nos conduz a redução respectiva. Pois que
na redução temos, de um lado, a
colocação entre parênteses da realidade, e
de outro lado, a indicação daquilo para o qual
esta colocação entre parênteses nos conduz,
daquilo que ela nos torna acessível”117. Assim, na
chamada redução psicológica a epoché
neutraliza o assentimento de existência que naturalmente
damos aos objectos das nossas vivências e faz com que
todas as realidades fiquem reduzidas a fenómenos da
minha subjectividade; “eu viso precisamente isso que
está aí, não aquilo que isso visa de forma
transcendental, mas isso que é em si mesmo e tal como me
é dado”118 Com base nesta redução
poderíamos elaborar uma psicologia pura mas não
atingimos ainda o nível verdadeiramente transcendental;
é que, postas entre parênteses e reduzidas
à esfera da subjectividade todas as realidades mundanas,
persiste, ainda como existente, o sujeito. Ora, para sermos
consequentes e radicais, também esta existência
natural ou mundana do eu tem que ser suspensa. De novo se
exerce a epoché e porque com base nela se opera a passagem do
plano psicológico para o plano transcendental do eu
puro, a esta redução chama-se
redução transcendental. É através
dela que acedemos ao nível verdadeiramente
fenomenológico e que fica aberto o campo infinito da
experiência transcendental119.
Refiramos agora a redução
eidética. É por ela que a fenomenologia assume a
dimensão de uma verdadeira ciência — uma
“ciência eidética”120 –, que se
ascende do carácter individual dos fenómenos ao
seu eidos
ou essência universal. Com efeito, se a fenomenologia
pretende ser científica, ela tem que se exprimir
através de enunciados universais e objectivamente
válidos. Mas, a objectividade científica
não implica a transcendência e, consequentemente,
a possibilidade da dúvida? Para Husserl esta não
é realmente uma dificuldade. Sê-lo-ia, de facto,
se a esfera reduzida das cogitationes desse apenas como evidências absolutas cogitationes
singulares. Ora tal não é o caso. Nela há
um mais, nela dão-se também, de forma absoluta,
generalidades ou essências121. A objectividade dos
enunciados da ciência fenomenológica é uma
“objectividade da essência” que se expressa
por “enunciados sobre a essência”122,
essências essas dadas na pura visão. Escreve
Husserl: “Aquilo que mais fácil é de
compreender, pelo menos para todo aquele que é capaz de
se colocar na atitude da pura visão e despojar todos os
preconceitos naturais, é o conhecimento de que
não são apenas os objectos singulares, mas
também as generalidades, os
objectos gerais e os estados-de-coisas-gerais, que podem aceder
à absoluta presença—em-pessoa”123. E acrescenta, esclarecendo e
precisando a especificidade do trabalho fenomenológico:
“Porque o carácter
próprio da fenomenologia
é ser uma análise da
essência e um estudo da
essência no quadro de uma pura
visão, no quadro absoluto da
presença em pessoa”124.
Também no primeiro capítulo
da primeira secção das Ideias I, subordinado ao
título “Facto e Essência”, e
especialmente no §2, todo o esforço consiste
justamente em mostrar que, imanente a cada fenómeno
individual, há um sentido universal que pode ser
evidenciado 125. Mas a possibilidade desta
evidenciação reclama uma nova conversão do
olhar: “A
intuição empírica (erfahrende) ou intuição
do indivíduo pode ser
convertida em visão de
essência (Wesens-Schauung) (em ideação) — devendo esta possibilidade ela mesma ser
entendida não como possibilidade empírica, mas
como possibilidade sobre o plano das essências. O termo
da visão é, então, a essência pura correspondente ou
Eidos, seja ele a categoria de grau superior ou uma forma mais
particular, descendo até ao último
concreto”126. Importante é ainda sublinhar que a
essência é um objecto de novo tipo (pertence ao
domínio das essências puras), que ela é
independente (e por isso não implica) “a
posição de uma qualquer existência
individual”127 (ainda que haja uma relação
eidética entre o objecto individual e a essência)
e que, por fim, se as chamadas ciências eidéticas
não dependem de forma alguma das ciências de
facto, o contrário se passa no que concerne a estas
últimas: “não há nenhuma que — escreve
Husserl — tendo atingido o seu pleno desenvolvimento de
ciência, possa permanecer pura de todo o conhecimento
eidético e portanto
independente das ciências eidéticas formais ou
materiais”128. Dito de outra
forma — de forma a colocar em relevo a dimensão
fundamentadora das ciências eidéticas
relativamente às ciências de facto —
“toda a ciência que incide sobre factos (toda a
ciência empírica) encontra nas ontologias
eidéticas fundamentos teóricos essenciais”129.
A redução eidética
efectua-se por ideação; é ela que permite
pôr em evidência o eidos
universal imanente a cada
fenómeno. Deste processo de ideação, que
aqui nos abstemos de explicitar aprofundadamente, se
poderá dizer que é realizável pelo recurso
àquilo que Husserl denomina “técnica das
variações”, sendo esta técnica algo
que nos permite chegar a um invariante que será o eidos do objecto em
consideração130. Por agora, importará
reter que “proceder pela visão e por
ideação no quadro da mais estrita
redução fenomenológica (...) é o
método especificamente filosófico(...)”131,
e que é neste “quadro da mais estrita
redução” que poderemos aceder aos
fenómenos da fenomenologia. O que são
então os fenómenos de que trata a fenomenologia?
Sobre o conceito fenomenológico de
fenómeno, Husserl não nos esclarece de uma forma
simples e directa. E, de facto, a definição
fenomenológica de fenómeno não pode ser
dada simplesmente porquanto ela surge do entrelaçamento
de conceitos e operações teóricas que
fundam o próprio trabalho fenomenológico. O
conceito fenomenológico de fenómeno não
é um conceito qualquer; ele é um conceito
fundamental e pode mesmo ser considerado como o ponto a partir
do qual a fenomenologia husserliana se põe efectivamente
em marcha132.
Consideremos, em primeiro lugar, dois
sentidos em que a palavra “fenómeno” pode
ser utilizada: num sentido lato e corrente e num sentido
restrito e específico. No sentido lato e corrente
“fenómeno” é aquilo que as
ciências estudam e sobre o qual exercem as suas
investigações. Assim, a física estuda os
“fenómenos físicos”, a psicologia os
“fenómenos psíquicos”, a
história, os “fenómenos
históricos”, a meteorologia os
“fenómenos meteorológicos”, e assim
por diante. Poderíamos pois dizer que todas as
ciências do real estudam fenómenos e que
fenómeno é todo o acontecimento real
susceptível de ser investigado pelas diversas
ciências, ocupando-se cada ciência de um
determinado tipo de fenómenos. Contudo, Husserl
não crê que nesta acepção lata de
fenómeno se esgote o conceito de fenómeno.
É que neste sentido lato e corrente fala-se, com efeito,
de fenómenos, recorre-se a exemplos factuais
considerados reais e utiliza-se depois a palavra
“fenómeno” para os nomear; e desta forma,
fenómeno define-se em
função da realidade que
nomeia. Será também por isso que cada
ciência se define pelo adjectivo que indica o
domínio fenoménico da realidade que investiga.
Todas as ciências são ciências deste ou
daquele tipo de fenómenos reais, investigam
fenómenos reais desta ou daquela espécie, mas
nenhuma delas estuda os fenómenos enquanto
fenómenos, nenhuma delas se interessa pela pura
fenomenalidade dos fenómenos (interessa-lhes, sim, a
causalidade real que produz os fenómenos), nenhuma
procura tomar o fenómeno independentemente do facto ou
realidade a que ele se refere, postulando pelo contrário
o real como referência, como que está na base da
produção do fenómeno. Ora, esta
acepção lata, se radicalmente tomada, conduz
necessariamente não só a uma mais profunda
consideração da ideia de fenómeno (em
sentido estrito e específico) como ainda a uma mais
rigorosa ideia de ciência. Husserl chama-la-á
fenomenologia: “uma ciência dos
fenómenos”133. Vejamos a seguinte passagem do
texto husserliano:
“O sentido do termo
‘fenómeno’ pode variar nestas diversas
acepções; ele pode ter, além disso, outras
significações; é certo que a fenomenologia
se reporta também ela a todos estes
‘fenómenos’, tomando este termo em todos os
seus sentidos; mas ela fá-lo com uma atitude totalmente
diferente, que modifica de uma maneira determinada cada um dos
sentidos deste termo, tal como no-lo propõem as
ciências que nos são desde há muito
familiares. Estes diversos sentidos não penetram na
esfera da fenomenologia senão após terem sofrido
esta modificação”134.
Desta passagem importa reter alguns pontos:
em primeiro lugar os fenómenos, tal como eles são
considerados pelas ciências, não são os
fenómenos da fenomenologia; contudo, e em segundo lugar,
os fenómenos enquanto objectos das ciências
particulares, podem de alguma forma entrar no domínio da
fenomenologia; em terceiro lugar, a consideração
fenomenológica dos fenómenos é antes de
mais determinada por uma modificação total de
atitude e esta modificação de atitude transforma
a própria significação do termo
“fenómeno”, produz uma
modificação dos fenómenos; finalmente e em
quarto lugar, Husserl conclui: só os fenómenos
modificados fazem parte da fenomenologia filosófica.
À mudança de
posição ou superação da atitude
natural já nos referimos anteriormente. Ela efectua-se
através das reduções
fenomenológicas. No caso da redução
psicológica, é a transcendência do mundo
que é suspensa; na redução transcendental
é a transcendência do eu empírico ou
mundano que é também suspensa. Como resultado de
ambas os fenómenos tornaram-se transcendentais:
não têm nada a ver com factos, não
têm nada a ver com processos psicológicos reais,
foram expurgados de toda a carga mundana para passarem a ser
considerados neles mesmos, enquanto puros fenómenos e
enquanto fenómenos puros. Pois que, como nota Husserl, a
fenomenologia não é apenas ciência dos
fenómenos; ela é, com mais rigor e
precisão, “uma ciência dos fenómenos
puros”135. Com a redução eidética
elevamo-nos ao plano das essências e passamos a estar
perante fenómenos puros essenciais.
A redução
fenomenológica tem como função colocar
entre parênteses tudo o que é transcendente e
após a sua concretização não
é mais possível fazer qualquer apelo a objectos
transcendentes. Contudo, como nota Biemel, “se eu
não posso mais apoiar-me sobre o real, recorrer a ele,
posso no entanto apelar para a forma pela qual o real me
aparece e portanto à forma pela qual ele me é
dado na consciência”136. É então que
Husserl, fala de fenómeno em sentido
fenomenológico: “ Elaboramos depois um
método de ‘redução
fenomenológica’ que nos ajudará a triunfar
sobre os obstáculos do conhecimento, inerentes a todo o
modo de investigação orientado para a natureza e
a alargar o estreito campo de visão que este modo
natural comporta até finalmente descobrirmos o livre
horizonte dos fenómenos considerados na sua pureza
‘transcendental’ e sermos assim conduzidos ao
domínio da fenomenologia no sentido próprio que
nós lhe damos”137.
Husserl preocupa-se, contudo, em deixar bem
clara a distinção entre fenómeno tomado no
sentido psicológico e tomado no sentido
fenomenológico, dedicando mesmo a esta questão um
artigo intitulado Phänomenologie
und Psycologie. Sobre este assunto
são também esclarecedoras as páginas
introdutórias de Ideias I nas quais se afirma que a psicologia é
uma ciência de factos (“matters
of fact” no sentido de Hume)
criticando-se o carácter de realidade que nesta
ciência se atribui aos fenómenos: “Os
‘fenómenos’ de que ela trata, enquanto
‘fenomenologia’ psicológica, são
acontecimentos reais (reale) que a este título, e porquanto têm
uma existência (Dasein) efectiva, se inserem, tal como os
sujeitos reais aos quais pertencem, no único mundo
espacio-temporal, concebido como uma ‘omnitudo realitatis’”138.
Importa estar atento à distinção
terminológica que Husserl faz a propósito da
adjectivação dos fenómenos; assim, emprega
“real” quando se trata de qualificar os
fenómenos da realidade transcendente do mundo e “reel” quando se
trata de qualificar os fenómenos da esfera da
consciência considerada fenomenologicamente. Se os
fenómenos da psicologia são fenómenos de
facto e fenómenos reais (real), o mesmo não acontece com os
fenómenos da fenomenologia que Husserl considera como
fenómenos essenciais e irreais (irreal). Ao contrário
da psicologia, “a
fenomenologia pura ou transcendental não será
erigida em ciência que incide sobre factos, mas que
incide sobre essências (em
ciência ‘eidética’); uma tal ciência visa estabelecer unicamente
“conhecimentos de essência” e não de
“factos”. (...) Em segundo lugar os fenómenos da
fenomenologia transcendental serão caracterizados como
irreais (irreal)”139.
De novo, o tema das reduções;
a redução psicológica faz com que os
fenómenos sejam, antes de mais, considerados como
fenómenos da consciência; a redução
eidética conduz do fenómeno psicológico
à essência pura; a redução
transcendental purifica o fenómeno psicológico
expurgando-o de toda a consideração em termos de
realidade mundana e reportando-o ao eu transcendental. Por
isso, diz Husserl, “a nossa fenomenologia não deve
ser a teoria eidética dos fenómenos reais do
mundo (realer), mas de fenómenos que sofreram as
reduções transcendentais”140. E mais
adiante: “(...) todas as ‘vivências’,
após a purificação transcendental,
são irrealidade, postas à margem de toda a
inclusão no ‘mundo real’ (wirkliche). A fenomenologia
consiste precisamente em explorar este irreal, mas em
‘essência’”141.
Quando nos elevamos ao domínio dos
fenómenos considerados como dados absolutos para um
olhar reflexivo, quando toda a transcendência está
excluída, quando deixando de recorrer ao real
permanecemos apenas atentos à forma do aparecer na
consciência, então, estamos bem no domínio
dos fenómenos da fenomenologia. Contudo, uma vez que
aquilo que aparece é, para Husserl, algo que se
dá sempre como correlação de actos de
consciência, o estudo dos fenómenos deve
não só consistir na investigação
aplicada à esfera imanente dos dados absolutos da
consciência e que os visa descrever, como ainda na
investigação de como por esses actos se
constituem tais objectividades142.
É segundo esta ambiguidade entre o
fenómeno como aquilo que aparece, e o próprio
aparecer, que a fenomenologia deve ser entendida. Escreve
Husserl: “a fenomenologia do conhecimento é a
ciência dos fenómenos do conhecimento no duplo
sentido: dos conhecimentos como aparições,
figurações, actos de consciência, nos quais
tais ou tais objectividades se figuram, se tornam objectos da
consciência, <de forma passiva ou activa> e, por
outro lado, destas objectividades elas mesmas, enquanto se
figuram de tal forma. O termo fenómeno tem este duplo
sentido em virtude da correlação essencial entre
o aparecer e aquilo que aparece”143. A investigação
fenomenológica pode assim assumir uma dupla
direcção: pode estar orientada para o polo
objectivo ou para o polo subjectivo. Nesta segunda
orientação a fenomenologia torna-se uma egologia,
quer dizer, uma explicitação das estruturas do
ego transcendental considerado como fonte última doadora
de sentido.
Importa agora, para finalizar, sublinhar a
principal consequência implícita na
concepção fenomenológica de
fenómeno. Em termos filosóficos ela traduz a
elevação da consciência a via de acesso e a
horizonte a partir do qual se coloca a questão da
conexão entre o ser e o saber; mais precisamente, a
partir do qual se “coloca” a questão do
sentido do ser do ponto de vista das exigências do
conhecer. As “coisas mesmas” são, para
Husserl, os fenómenos purificados que não podem
ser compreendidos senão a partir da consciência.
É por isso justa a afirmação de Biemel:
“ele nada queria pressupor, mas há contudo a
pressuposição de que a consciência
constitui o fundamento absolutamente certo e que a
consciência sob a forma de ego transcendental é a forma primordial da
existência humana” 144. No mesmo sentido, escreve
Fink: “Husserl interroga o ente de tal maneira que a
decisão desta questão seja para ele uma
analítica da consciência” 145. Ainda segundo
o mesmo especialista da fenomenologia, a
interpretação da fenomenologia enquanto filosofia
depende “da medida na qual o problema do ser é
reconhecido como horizonte de uma temática da
consciência”146. E mais adiante precisa: “a
hipótese da fenomenologia husserliana repousa na
suposição de que a consciência
originária, entendida de maneira intencional, é o
verdadeiro acesso ao ser”147.
Um outro ponto a realçar é
que a definição fenomenológica de
fenómeno se reporta à pureza dos fenómenos
— puro quer dizer, no contexto do pensamento husserliana,
originário — e que o fenómeno puro se
caracteriza por ser dado à e na consciência de uma
forma absolutamente evidente e última: o fenómeno
é a absoluta presença. A evidência implica
que aquilo que se mostra se reduza ao modo da presença
absoluta e que o aparecer seja um acto de total lucidez. Do
fenómeno, em sentido husserliano, se pode então
dizer que é um fenómeno pleno. O mostrar-se do
fenómeno, após as reduções,
não é parcial mas total; a sua
doação é absoluta e, por isso,
relativamente à consciência, o fenómeno
não se pode definir senão pela absoluta
presença: apenas esta satisfaz os requisitos de uma
compreensão directa pela pura visão; apenas ela
permite obedecer ao “princípio dos
princípios”, enunciado por Husserl no §24 das
Ideias I148,
antes mesmo de abordar a questão do regresso às
coisas (§ 31) e de tematizar a estratégia da epoché (§
32)149; apenas ela satisfaz a norma principal à qual,
como fenomenólogos, nos devemos ater: “nada tomar em consideração que
não possamos tornar eideticamente evidente em
presença da própria consciência, e sobre o plano da pura imanência”150.
É por isso que, como nota J.-L. Marion, no contexto do
pensamento husserliano, “voltar às coisas mesmas
significa: voltar à evidência dada por
intuição na consciência”151.
Estas observações
colocaram-nos já no tema do último
parágrafo deste trabalho.
§ 5 “Às coisas
mesmas”: o(s) caminho(s) do regresso
Que Heiddegger se mostra crítico
para com a fenomenologia husserliana — e aqui,
crítico, não significa senão o
esforço de um pensamento mais radical que o radicalismo
que Husserl reclamava para a sua filosofia —, isso
está bem patente nas seguintes palavras: “A
questão fundamental (primar) de Husserl não é a que interroga
sobre o modo de ser da consciência; ele é antes
guiado pela reflexão: como é que a
consciência se pode tornar objecto de uma ciência
absoluta?”152.
Husserl lançou de facto a palavra de
ordem: “às coisas mesmas”. Mas, encontrou o
caminho do regresso na trilha que Descartes havia já
aberto. Heidegger não deixou de o assinalar: “A
elaboração da consciência pura como campo
temático da fenomenologia não é adquirido
graças ao retorno à coisa mesma mas antes
apoiando-se sobre a ideia tradicional de filosofia”153.
Entendamo-nos sobre este ponto. Aquilo que há de comum e
ao qual Heidegger permanece fiel é a palavra de ordem
husserliana do retorno “às coisas mesmas”;
em Ser e Tempo (§7), esta máxima é
explicitamente invocada, bem como o é, em nota, o nome
de Husserl. Contudo, o caminho do regresso às coisas
mesmas e portanto, aos fenómenos, é tão
consideravelmente diferente em Husserl e em Heidegger que a
questão se coloca: é ainda possível falar
de fenomenologia em Heidegger? E, se é, de que
fenomenologia se trata?
O ponto decisivo para o esclarecimento
desta questão volta a ser a noção de
fenómeno. A elucidação da
noção de fenómeno em Heidegger
permitir—nos-à, portanto, não só
assinalar a cisão entre a fenomenologia husserliana e o
pensamento heideggeriano, como ainda dar feição
à nova concepção de fenomenologia sob o
signo da qual o pensamento de Heidegger (Seinsfrage) se
desenvolverá154. Um ponto deve ficar, no entanto,
assente: se Heidegger se distancia da fenomenologia
husserliana, é porque ele entendeu, como uma
necessidade, ser mais radical que o próprio Husserl o
foi e manter-se mais fiel do que o seu mestre ao
princípio ou palavra de ordem orientadora da filosofia
fenomenológica.
No presente trabalho limitar-nos-emos a uma
análise do famoso § 7 de Ser e Tempo o qual, a par de
outras referências que aqui não serão
exploradas em profundidade155, nos permitirá, por um
lado, delinear a concepção heideggeriana de
fenómeno e de fenomenologia e, por outro, passar a um
confronto no qual as divergências filosóficas dos
autores em questão poderão ser aclaradas.
No texto elaborado por ocasião da
comemoração do octogésimo
aniversário de Herman Niemeyer, Heidegger dá-nos
uma indicação curiosa acerca do início do
seu percurso filosófico: por um lado, a
dissertação de Brentano Da múltipla significação do ente
em Aristóteles condu-lo ao
estudo de Aristóteles e à colocação
da questão do ser156; por outro, o estudo da
fenomenologia e, mais especificamente, das Investigações Lógicas de Husserl — cujo modo de pensar Heidegger
julgava determinado por Brentano157 — lançavam-no
na esperança de, através do pensamento daquele,
chegar à solução da questão
colocada pelo trabalho deste. Que esta esperança cedo se
diluísse e que Heidegger cedo tenha reconhecido a
não conveniente orientação das suas
investigações, isso importa menos do que
sublinhar o seguinte: desde os inícios há a
tendência para entrecruzar o fascínio que pelo o
pensar grego lhe foi despertado via Brentano e a prática
do exercício do olhar fenomenológico
através do qual Husserl gradualmente fazia o seu ensino;
e, apesar desta prática se reclamar simultaneamente do
princípio da ausência de pressupostos e de
não fazer intervir nas investigações a
autoridade dos grandes pensadores, Heidegger não deixava
de sentir uma estreita afinidade entre fenomenologia e
pensamento grego. Como se a fenomenologia — coisa
aparentemente deslocada se pensarmos que a fenomenologia
husserliana nasce no dealbar do século XX —
falasse grego. “E contudo, — escreve Heidegger
— mais se tornava evidente o fruto que tirava, para a
interpretação de Aristóteles, da minha
familiaridade crescente com o olhar fenomenológico e
menos me podia separar de Aristóteles e dos outros
pensadores gregos”158. E mais adiante explica como o
pressentimento inicial se foi fundando: “Foi aí
— inicialmente mais guiado por um pressentimento que
dirigido por um ponto de vista bem fundado — que apreendi
isto: aquilo que para a fenomenologia dos actos de
consciência se realiza como o manifestar do
fenómeno, é ainda pensado mais originariamente
por Aristóteles e em todo o pensamento dos Gregos, na
medida em que foram os Gregos, como aletheia, como o aberto sem retracção (retrait) da
presença, o seu desvelamento, o seu mostrar-se. Aquilo
que as investigações fenomenológicas
tinham redescoberto como o porte (le maintien), o abrigo do pensamento, afigurava-se como o
traço fundamental do pensamento grego, para não
dizer mesmo da filosofia como tal”159. Donde o
consequente deslocamento do problema acerca daquilo que a
fenomenologia deve experenciar como a “questão
mesma” (das Sache Selbst): “É a consciência e a sua
objectividade, ou antes o ser do ente na sua não
ocultação e na sua
ocultação?”160.
As indicações colhidas neste
texto permitem aceder mais facilmente à abordagem do
§ 7 de Ser e Tempo. Porque, manifestamente, a ideia de
fenomenologia que neste parágrafo se começa a
esboçar, fala grego161.
É preocupação de
Heidegger limitar-se a expor o “conceito inaugural de
fenomenologia”162. Inaugural quer aqui dizer: pensado a
partir do significado original dos termos originários
que compõem a palavra fenomenologia. Quanto à
história desta palavra, Heidegger limita-se a referir
que ela “é aqui sem importância”163. O
que, pelo contrário, lhe parece importante, é
recuperar o significado da fenomenologia expresso na sua
máxima “às coisas mesmas”164 a partir
da linguagem grega e do pensamento grego. A divisão
tripartida deste parágrafo corresponde à exegese
do significado das palavras gregas phainómenon (secção A), logos (secção
B) e do sentido da sua composição na palavra
fenomenologia (secção C).
Para Heidegger, fenómeno é
aquilo que se mostra a si mesmo a partir de si mesmo165.
Fenómeno é, portanto, mostração,
sendo a iniciativa de se mostrar aquilo que propriamente
caracteriza o fenómeno. Mas, o próprio
mostrar-se, contém em si mesmo a possibilidade da
ocultação, de tal forma que o mostrar-se do
fenómeno pode ser um parecer166; o que, contudo,
é importante sublinhar, é que este parecer
pressupõe na sua origem um mostrar-se e deve portanto
ser compreendido como uma modificação privativa
da manifestação do fenómeno. Que o
fenómeno se pode mostrar de múltiplas maneiras,
tal significa que ele não se revela necessariamente de
uma forma directa e absoluta, que ele não se reduz
à aparição (Erscheinung) ou a uma pura aparição. Heidegger
afirma mesmo que os fenómenos não são
nunca aparições e que, pelo contrário,
cada aparição é que é
tributária dos fenómenos167. Apesar da
multiplicidade de todos os “fenómenos” para
a qual por vezes indiscriminada e confusamente reservamos a
palavra fenómeno, o importante é acentuar que,
segundo Heidegger, os fenómenos de que trata a
fenomenologia se caracterizam, em primeiro lugar, por uma
iniciativa que lhes é própria: é o
fenómeno que se dá a si mesmo e que por si mesmo
se manifesta; em segundo lugar, esta iniciativa é uma
iniciativa reveladora, nela o fenómeno torna-se
manifesto e é esta mostração que o revela
como fenómeno; a fenomenalidade dos fenómenos
é revelação. Em terceiro lugar, a
mostração em que o fenómeno consiste deve
ser compreendida segundo o modelo do jogo do desvelamento e da
ocultação e não, como acontece em Husserl,
como presença ou doação absoluta. A
fenomenologia — vê-lo-emos em seguida —
será justamente o método que permite aceder a
este jogo e não, como para Husserl, a via que nos conduz
à certeza da evidência apodíctica. É
que, com efeito, enquanto que Husserl “se encontra mais
preocupado com a pureza dos fenómenos face ao acto
noético que assegura a redução, Heidegger
entende voltar ao sentido grego que apresenta como
originário”168. E se, em Husserl, a
determinação do que se possa considerar
autenticamente fenómeno está dominada por um
concepção de verdade como adequação
(entre uma doação interpretada como
doação de uma presença absoluta e a
consciência intencional que visando
“preencher” as suas significações
vazias torna possível (ou “constitui”) essa
presença “originária” da coisa mesma;
trata-se aqui de uma adequação pensada em termos
de imanência e solidária de um idealismo
transcendental que coloca a consciência como constituinte
e doadora), em Heidegger, a verdade, considerada de uma forma
que este autor caracteriza como “a mais
originária”, é pensada como
mostração, desvelamento ou
revelação169. É também por isso que
o logos
(que Husserl, apesar de não deixar de notar a sua
polissemia170, considera em termos tradicionais, como
razão) é pensado por Heidegger solidariamente com
o conceito de fenómeno: se o fenómeno é o
que se mostra, logos é o que revela, o que faz ver171, aquilo
que permite ver o que se revela. Antes do acordo ou da
adequação está o desvelamento172 que
é o modo mais originário da verdade.
A partir destas ideias do fenómeno
como mostração a partir de si mesmo segundo o
enigma do jogo, e do logos como um “fazer ver” que
dá acolhimento ao que se mostra, o extraí
à ocultação e o desvela, torna-se
então compreensível o significado do conceito
inaugural de fenomenologia:
Fenomenologia — escreve Heidegger
— significa: “o que se mostra, tal como se mostra
por si mesmo, o fazer ver a partir dele mesmo. Eis o sentido
formal da investigação que tem o nome de
fenomenologia”. E de pronto acrescenta: “Mas isto
que assim se exprimiu não é senão a
máxima formulada mais acima: ‘direitos às
coisas mesmas’!”173.
Pelo que foi precedentemente dito, podemos
ver que a fenomenologia perde, em Heidegger, a pretensão
de cientificidade com que Husserl a pretendia cunhar174. Isto
deve-se, sobretudo, a duas ordens de razões. Em primeiro
lugar porque, face aos fenómenos, não se trata de
adoptar uma atitude de conhecimento nem de buscar a
apodicticidade da evidência absoluta dada numa
intuição adequada; um deslocamento essencial
é aqui operado: enquanto que Husserl enfatizava a teoria
do conhecimento como “parte primeira e fundamental da
fenomenologia”175, Heidegger não só coloca
a fenomenologia sob uma dimensão estritamente
metodológica176 como a liga indissociavelmente à
ontologia: “A ontologia
não é possível senão como
fenomenologia” ;”Tomada
no seu conteúdo a fenomenologia é ciência
do ser do ente — ontologia”177. E como poderia ser
de outro modo se, justamente, aquilo que se oferece como o
“tema necessário de uma mostração
expressa”178 é aquilo que o mais frequentemente
não se mostra e permanece ocultado, isto é, o ser
do ente?179.
Nesta linha de pensamento, a
redução fenomenológica que, como nota
Heidegger, deixa de ocupar um lugar único e central no
método fenomenológico180,não consiste em
conduzir o olhar fenomenológico à vida
transcendental da consciência mas em operar a passagem da
apreensão do ente à compreensão do ser.
É o próprio Heidegger quem sublinha, marcando a
diferença, o novo sentido em que se pode falar de
redução:
“Para
Husserl, a redução
fenomenológica, tal como ele a elaborou explicitamente
pela primeira vez nas Ideen de 1913, é o método destinado a
conduzir o olhar fenomenológico da atitude natural do
homem que vive no mundo das coisas e das pessoas à vida
transcendental da consciência e às suas
vivências noético-noemáticas, nas quais os
objectos se constituiriam como correlatos da consciência. Para nós, a
redução fenomenológica significa a
recondução do olhar fenomenológico da
apreensão do ente — seja qual for a sua
determinação — à compreensão
do ser deste ente(...)”181.
Mas, o ideal de cientificidade é
também transformado, como dissemos, numa outra ordem de
razões. É que esta ciência do ser que a
filosofia é182 , é fundamentalmente uma
hermenêutica: “A filosofia é interpretação teórico-conceptual do ser, da sua estrutura e
das suas propriedades”183. Trata-se aqui de uma ontologia
hermenêutica. É que, segundo Heidegger, o acesso
à questão do sentido do ser tem que tomar como
ponto de partida aquele ente para o qual, por se mover sempre
já numa compreensão do ser, a questão do
sentido do ser se coloca. Dito de outra forma: “A
ontologia tem portanto como disciplina fundamental a
analítica do Dasein “184, disciplina que é uma
fenomenologia hermenêutica não só por
proceder a uma tarefa de explicitação como ainda
por esta tarefa corresponder à
“elaboração das condições de
possibilidade de toda a investigação
ontológica”185. Explicitemos este ponto.
A experiência fundamental a partir da
qual Heidegger coloca, em Ser e
Tempo, a questão do sentido
do ser, é a experiência do esquecimento do ser.
Ora esta questão é, segundo Heidegger, a mais
eminente de todas as questões, pois que goza não
só de um primado ontológico186 como também
de um privilégio ôntico. É que, do ponto de
vista deste privilégio ôntico, a questão do
ser pode ser considerada como uma arqui-questão pois que
remete para a pertença originária do homem com o
ser. Ora, esta relação originária
não é uma relação de conhecimento187
mas de compreensão: “A compreensão do ser
é ela mesma uma determinação do Dasein. O que
distingue onticamente o Dasein é que ele é
ontológico”188. O ponto de partida não
é, como em Husserl, o homem pensado como aquele que
conhece ou se relaciona cognitivamente a objectos. Para
Heidegger, o homem é antes de mais pensado como um ser
compreensor. E porque esta compreensão se determina a
partir de uma relação ao ser e não aos
entes, o que caracteriza mais radicalmente o homem não
é já a intencionalidade (relação a
objectos) mas a ek-stase (relação compreensiva ao
ser, abertura ao ser). Daí a particular
significação que Heidegger tem em vista quando
utiliza a palavra Dasein para designar o ser do homem. O Dasein é o
existente, entendendo-se aqui por existente a
condição de abertura ek-stática e
compreensiva ao ser. Mas, se a questão do sentido do
ser, pelo privilégio ôntico que possui, remete
para o Dasein, a resposta a esta questão passa por uma
analítica das estruturas do Dasein que indagará sobre as suas possibilidades
compreensivas e existenciais. Quer dizer: se a
recolocação da questão do sentido do ser
deve passar por uma explicitação do ser do ente
para o qual a questão se põe, isto é, por
uma explicitação das possibilidades
ôntico—ontológicas do Dasein, então
ter-se-à que iniciar a investigação por
uma analítica existencial do Dasein. “É por isso que a ontologia fundamental,
apenas na qual as outras ontologias se podem enraízar,
deve ser procurada numa analítica
existencial do Dasein”189.
É assim que o Dasein se torna triplamente privilegiado (ôntica,
ontológica e ôntico-ontologicamente190) e que a
analítica do Dasein se torna o momento primeiro da
preparação do horizonte a partir do qual se
poderá colocar fundadamente a questão do sentido
do ser.
Depois destas aclarações,
estamos já em condições para retomar a
abordagem do §7, e, mais precisamente, o passo onde se
estabelecem as relações entre filosofia,
ontologia e fenomenologia:
“Ontologia e fenomenologia não
são duas disciplinas diferentes, pertencentes, com
outras, à filosofia. Os dois termos caracterizam a
filosofia ela mesma quanto ao seu objecto e quanto à
forma de o tratar. A filosofia é ontologia fenomenológica
universal, que parte da hermenêutica do Dasein que, enquanto
analítica da existência, fixou como termo ao
percurso de todo o questionamento filosófico o ponto de
onde ele brota e ao qual remonta”19.
Ter-se-à atentado na
mutação aqui operada: não se fala nesta
passagem de uma fenomenologia transcendental centrada na
consciência intencional mas de uma fenomenologia
hermenêutica que toma como ponto de partida a exegese da
condição ek-stática do Dasein. É
também neste deslocamento para uma
orientação hermenêutica que a fenomenologia
acede à sua fecundidade mais própria, que
é a de ser possibilidade192 para a
aproximação à “questão
mesma” (das Sache Selbts), a questão do sentido do ser.
Como nota D. Janicaud, “o §7 de Ser e Tempo indicava,
portanto, de uma forma clara, em que direcção o possível de
fenomenologia se encontrava: rumo ao pensamento do ser”193.
É que, com efeito, a fenomenologia não tem como
tarefa a constituição de si mesma; tem antes como
característica o permitir (e ser, portanto,
possibilidade), o acesso (donde o seu carácter
metodológico), ao questionar essencial que, para
Heidegger, é o questionar acerca do sentido da
questão do ser. Concluindo: em Heidegger a fenomenologia
não perde apenas “o nível de ciência
autónoma e final para ela mesma em benefício da
ontologia, mas, sobretudo, esta regressão ao estatuto
auxiliar de método serve de restauração
à ontologia. Com efeito, as duas inversões
confundem-se: a fenomenologia ao serviço da filosofia e
não ao serviço de si mesma serve a título
de método para a ontologia. A fenomenologia serve
metodicamente para tornar a filosofia ontológica —
serve como método que abre a filosofia à
ontologia”194.
Para referir, no quadro deste confronto, o
contraste apontado por Spiegelberg195, se para Husserl a
“maravilha das maravilhas” é o ego puro e a
consciência pura, para Heidegger a “maravilha das
maravilhas” é o ser considerado do ponto de vista
da diferença ontológica que abre a questão
do ser enquanto questão do sentido do ser (o ser
é sempre ser do ente; mas o ser não é
ente; o que é o ser?). É assim que em Heidegger a
fenomenologia abre a possibilidade de se ir para além
dela mesma, rumo à questão e pensamento do ser.
Neste contexto pode ser aclarada a
diferente interpretação de Husserl e de
Heidegger, relativamente à palavra de ordem da
fenomenologia “às coisas mesmas”. Como notou
J.-L. Marion, em Husserl, “voltar às coisas mesmas
significa: voltar à evidência dada por
intuição na consciência”196. O voltar
às coisas mesmas faz-se sob o signo de “um retorno
às fontes da intuição”197, quer
dizer, à consciência transcendental. Assim,
“a fenomenologia husserliana remonta às coisas
mesmas, mas até um certo
ponto. Este ponto tem nome: o ser da
consciência como tal”198. Em Heidegger, que procura
considerar mais radicalmente a máxima
fenomenológica, “a tarefa última à
qual se deve dirigir o retorno às coisas mesmas tem nome:
a fenomenalidade do ser ele mesmo”199. É que aqui, o
fenómeno ele mesmo é o ser200. Não se
trata, é claro, de uma consideração do
fenómeno em termos de pureza, de certeza, de
evidência, sob o primado da presença, como
doação absoluta, plena e originária a uma
consciência que por intuição é
legitimadora da própria aparição dos
fenómenos. Não; o ser como fenómeno
é a própria fenomenalidade dos fenómenos,
isto é, a iniciativa do seu revelar-se ou mostrar-se.
Mas, ao contrário de Husserl, a doação
não é pensada como doação absoluta,
plena, em “carne e osso”, como absoluta
presença. Com efeito, escreve Heidegger, “o
conceito de estar ocultado é contrapartida do de
‘fenómeno’”201. É este jogo de
velamento e de desvelamento que constitui a fenomenalidade dos
fenómenos pelo que se pode afirmar que aquilo que se
mostra, o fenómeno, é antes de mais caracterizado
pela sua inaparência, e que a tarefa da fenomenologia
é justamente a de “tornar não apenas
aparente o inaparente, mas também o jogo do aparente com
o inaparente na aparição”202. Em 1973, no seminário de Zähringen, Heidegger falará precisamente de “uma
fenomenologia do inaparente”203, a qual pode ser
interpretada na linha das palavras já escritas em Ser e Tempo. Por um
lado, “é precisamente porque os fenómenos,
em primeiro lugar, não
são dados, que é
necessária uma fenomenologia”204; por outro,
“mas aquilo que permanece escondido
, num sentido excepcional, ou que
tomba sem cessar na ocultação do que não se mostra senão
‘sob uma máscara’, não é este
ou aquele ente mas, ao contrário, como mostraram as
considerações precedentes, o ser do ente”205.
É, pois, rumo a um pensamento que Heidegger
caracterizará como tautológico que o sentido
originário da fenomenologia deve ser encontrado206.
Segundo esta orientação, a “coisa
mesma” à qual se deve retornar é bem a
fenomenalidade do próprio ser207. Por isso pôde
Heidegger escrever:
“Nós não nos ocupamos
da fenomenologia, mas daquilo que a fenomenologia ela mesma se
ocupa”208.
E, repitamo-lo, se a a fenomenologia se
ocupa das “coisas mesmas”, a mais eminente de
todas, a
“coisa”, chama-se para Heidegger, ser. É
pensando-o que o pensamento assume a verdadeira radicalidade.
Mas esta radicalidade não é, à maneira de
Husserl, uma “radicalidade do acto fundador” do
saber; é, pelo contrário, uma radicalidade do
questionamento pelo qual se habita e corresponde ao enigma do
ser, em vez de contornar, pela via do esquecimento, a surpresa
do seu dom.
Notas
1 Escreve P. Thévenaz:
“Há pois, portanto, radicalismo e radicalismo: ou
bem se coloca uma primeira verdade ou então retoma-se a
verdade de uma maneira mais original”. (La question du point de départ radical
chez Descartes et Husserl, in Problèmes actuels de la
phénoménologie,
Desclée de Brouwer, Bruxelles, 1951, p. 28). Descartes
buscava, com efeito, uma verdade primeira, infalível,
indubitável, absoluta, para a partir dela edificar todo
um saber solidamente construído; como o próprio
Descartes refere de forma metafórica, tratava-se de
encontrar o ponto arquimédico que sustentasse todo o
edifício do saber. Em Husserl o que é buscado
não é uma verdade primeira mas a esfera
originária da experiência humana — que
Husserl pensa como esfera de sentido (a origem é a fonte
genuína e o lugar da plenitude de sentido) — a
partir do qual o saber se torna possível e
fundamentável na sua validade. Esta esfera
originária é para Husserl mais uma
exigência do que um problema. Na realidade, todo o
problema da démarche husserliana consiste em saber como é possível aceder a essa esfera originária fundamentadora
última do sentido do saber sobre o ente e não o
de indagar a possibilidade (que é, portanto,
pressuposta) de uma “ciência das origens”.
Ainda no contexto do confronto entre Descartes e Husserl,
é importante realçar o seguinte ponto referido
por A. Löwit: “Para Husserl, ao contrário, o
problema não é o de garantir a
correspondência entre o conhecimento do mundo e o mundo
‘nele mesmo’, mas o de compreender
o sentido deste conhecimento do
mundo” (L’Epoché
de Husserl et la Doute de Descartes,
in Revue de Métaphysique et
de Morale, 62 (1957), p.408-409).
2 P. Thèvenaz, art. cit., p.
16.
3 Husserl, Nachwort, trad. franc., p. 396.
4 idem ibidem.
5 Cf. Husserl, L.
U., trad. esp., p. 227-228.
6 Husserl, Ph. W., trad. port., p. 2.
7 idem ibidem, p. 5-7.
8 idem ibidem, p. 6-7.
9 Como nota R. Schrérer, “A
fenomenologia marca para Husserl o ponto de ruptura em que a
filosofia passa do estado pré-científico ao
estado científico” (Husserl,
a fenomenologia e os seus desenvolvimentos, in História da
Filosofia dirigida por F.
Châtelet, vol. 6 intitulado A
filosofia do mundo científico e industrial, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1983, p. 211).
10 Ph. W., trad. port., p. 3.
11 I. Ph., trad. franc., p. 45.
12 Aristóteles, Met., 982 b.
13 Husserl, Logik, trad. franc., § 103, p. 362. Sobre a
aproximação entre Aristóteles, Descartes e
Husserl, cf. A. Morujão, A
filosofia como saber rigoroso de fundamentação, in Revista
Portuguesa de Filosofia, Braga,
38-II (1982), p. 31-34.
14 Husserl, C. M., trad. franc., §34, p. 61.
15 Husserl, Ideen
I, trad, franc., p.3.
16 E. Fink, Le
problème de la phénoménologie
d’Edmund Husserl in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p. 224.
17 Ph. W., trad. port., p. 72.
18 E. Fink, Le
problème de la phénoménologie
d’Edmund Husserl in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p. 213.
19 Nachwort, trad. franc., p. 396.
20 idem ibidem, p. 397.
21 E. Fink, Que
veut la phénoménologie d’Edmund Husserl? (L’idée
phénoménologique de fondation), in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p.182.
22 Nachwort, trad. franc., p. 396.
23 Husserl, Krisis, trad. franc., p. 13.
24 E. Fink, Que
veut la phénoménologie d’Edmund Husserl? (L’idée
phénoménologique de fondation), in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p.197.
25 Nachwort, trad. franc., p. 397.
26 idem ibidem.
27 idem ibidem.
28 idem ibidem, p. 372.
29 idem ibidem, p.387.
30 E. Fink, L’analyse
intentionnelle et le problème de la pensée
spéculative, in Problèmes actuels de la
phénoménologie,
Desclée de Brouwer, Bruxelles, 1951, p. 59-61.
31 A.Morujão, art. cit., p35 e
segs.; ver também Logik, trad. franc., pp. 19-20.
32 L. U., trad esp, p. 40.
33 C. M., trad. franc., p.7.
34 LogiK, trad. franc., p. 23 .
35 cf idem ibidem, p. 8 ..
36 Cf. idem ibidem, §9, onde se fala
da dupla face, objectiva e subjectiva da ciência.
37 Cf. Krisis, trad. franc., pp. 18-19.
38 Logik, trad. franc., p. 24 .
39 Jean T. Desanti, Introduction à la phénoménologie, Gallimard, Paris, 1976, p. 33.
40 Cf. Morujão, art. cit.. Diz
Husserl: “A fenomenologia pura representa um terreno de
indagações neutras no qual têm as suas
raízes diferentes ciências” (L. U., trad. esp., p.
216).
41 Cf. Ph. W., trad. port., p. 72.
42 W. Biemel, Les
phases décisives dans le developpement de la philosophie
de Husserl, in Husserl, Cahiers du
Royaumont, Paris, 1959, p. 53.
43 E. Fink, Le
problème de la phénoménologie
d’Edmund Husserl in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p. 210.
44 idem ibidem, p. 214.
45 Cf Platão, República, 511 b-c.
De notar que é o próprio Husserl que reclama o
ideal platónico de ciência como o modelo da
verdadeira cientificidade do saber. Sobre isto cf.
“Introdução” à LogiK, trad. franc.,
nomeadamente, pp. 3-7. Ver também Nachwort, trad. franc., p.
372.
46 Platão, República, 511 b.
47 Ver, por exemplo, Nachwort, trad. franc.,
pp.382-383. Cf. também P. Ricoeur, Phénoménologie et herméneutique:
en venant de Husserl... in Du texte à l’action. Essais d’herméneutique, II,
Éditions du Seuil, 1986, p. 42.
48 Cf. E. Fink, Que
veut la phénoménologie d’Edmund Husserl? (L’idée
phénoménologique de fondation), in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974,p. 195-196.
Escreve Husserl nas Meditações
Cartesianas: “Assim se nos
oferece uma ciência de uma
singularidade inaudita. (...) Opõe-se radicalmente às
ciências tal como eram concebidas até ao momento, quer dizer às ciências objectivas”
(trad. franc., p.25).
49 Como notava Fink, aquilo que é
visado pela concepção fenomenológica da
filosofia não é senão “um
aprofundamento da conexão entre ser e saber” (Le problème de la
phénoménologie d’Edmund Husserl in De la
phénoménologie, Les
éditions de Minuit, 1974, p. 217).
50 I. Ph., trad. franc., p. 49.
51 Krisis, trad. franc., p. 13.
52 Escreve Husserl: “uma
ciência do começo, uma ‘filosofia
primeira’ que do solo no qual ela se enraíza
brotam todas as disciplinas filosóficas e mesmo os
fundamentos de toda a ciência geral, isso deveria
permanecer ocultado, pois faltava o radicalismo sem o qual a
filosofia não saberia absolutamente ser nem
começar” (Nachwort, trad. franc., p. 397).
53 A importância atribuída por
Husserl à visão pode, por exemplo, ser constatada
nas seguintes afirmações: “É a
‘visão’ (Sehen) imediata, não apenas a visão
sensível, empírica, mas a visão em geral, enquanto consciência
doadora originária sob todas as suas formas, que é a última fonte de direito
para toda a afirmação racional” (Husserl, Ideen I, trad. franc.,
p. 66). “O conhecimento pela
visão é a razão que se propõe
trazer precisamente o entendimento à razão” (I. Ph., trad. franc., p. 88). Segundo nota Ricoeur,
“ compreender Husserl, seria compreender que a mais alta
‘doação’ da consciência
transcendental é o ‘ver’” e que
“toda a originalidade da fenomenologia de Husserl
é esta identidade do ‘ver’ e do
‘dar’” (Cf. notas à
tradução de Ideen I, respectivamente, página 458, nota 1 e
página 183, nota 1). Com base nestas
indicações, a questão fundamental a partir
da qual se desenvolverá o método
fenomenológico poderia ser formulada da seguinte forma:
como é que eu posso olhar para as coisas de forma a que
neste olhar elas me sejam dadas de uma forma absoluta? O
postulado fundamental é enunciado por Husserl da
seguinte maneira: “Toda a
vivência intelectual e toda a vivência em geral, no momento em que ela se realiza, pode tornar-se objecto duma visão e de uma
compreensão puras, e nesta visão ele é um
dado absoluto” (I. Ph., trad. franc.,
p. 54). Trata-se agora de ver em que condições
esta possibilidade se pode realizar, o que nos remete para o
tema da epoché e das reduções bem como para
a ideia de “fenómeno puro”. A estes temas
dedicaremos o parágrafo seguinte.
54 I. Ph., trad. franc., p. 88-89.
55 cf. idem ibidem, pp.59-60.
56 idem ibidem, p. 60.
57 idem ibidem.
58 Já nas Investigações Lógicas o problema era explicitamente posto: “Como
é que se deve entender que o ‘em si’ da
objectividade chegue à
‘representação’ e ainda à
‘apreensão’ no conhecimento, isto é,
acabe por se tornar subjectivo? Que significa que o objecto
está ‘dado’ ‘em si’ no
conhecimento? Como pode a idealidade do universal, como
conceito ou como lei, desembocar no fluxo das vivências
psíquicas reais e tornar-se património
cognoscitivo do pensante? Que significa a adæquatio rei ad intellectus do conhecimento nos diferentes casos, segundo a
apreensão cognoscitiva seja individual ou universal, se
refira a um facto ou a uma lei?” (trad. esp., p. 220).
Salienta ainda a dimensão antinatural exigida pela
atitude fenomenológica: “A fonte de todas as
dificuldades encontra-se na direcção anti-natural
da intuição e do pensamento que a análise
fenomenológica exige. Em vez de nos atermos na
verificação dos actos multiplamente edificados
uns sobre os outros, estabelecendo como existentes, de modo por
assim dizer ingénuo, os objectos pensados no seu sentido
e logo determinando-os ou supondo-os hipoteticamente e tirando
consequências, etc., temos que ‘reflectir’, isto
é, converter em objectos esses próprios actos e o seu sentido
imanente. Ao intuir, pensar, ponderar teoricamente os objectos,
pondo-os como realidades numas ou noutras modalidades do ser,
não são esses os objectos que devemos
propôr ao nosso interesse teórico; não
são esses objectos os que, tal como aparecem ou
são válidos na intenção daquele
actos, devemos pôr como realidades, mas, pelo
contrário, são justamente esses actos que
até agora não eram objectivos, os que
hão-de ser agora objectos da apreensão e
posição teórica” (trad. esp.,p. 221,
sublinhado meu).
59 I. Ph., trad. franc., p. 58.
60 idem ibidem, p. 57.
61 Morujão, O ‘fenómeno puro’ ponto de partida
da fenomenologia de Husserl in Filosofia, Lisboa, 4,
(1957), p. 13. Ver também §30 das Ideen I sobre a
posição (ou tese) geral da atitude natural.
62 I. Ph., trad. franc., p. 61.
63 Ideen I, trad. franc., p. 218.
64 I. Ph., trad. franc., p. 111. Escreve Husserl:
“Mas a base de tudo consiste em compreender o sentido do
dado absoluto, da clareza absoluta da presença, que
exclui toda a dúvida pertinente, em compreender, numa
palavra, o sentido da evidência que é uma
visão absoluta, que compreende “em pessoa”.
65 idem ibidem, p. 86.
66 idem ibidem, p. 85.
67 idem ibidem, p. 64.
68 idem ibidem, p. 75. Voltaremos mais
detidamente a esta citação.
69 idem ibidem, cf. nota do tradutor,
p. 53.
70 idem ibidem, p. 75.
71 idem ibidem, p. 84.
72 Ideen I, trad. franc., p. 132.
73 I. Ph., trad. franc., p. 53.
74 Escreve Husserl a dado passo de Ideen I: “Ora
isso implica que a vivência primitiva possa sofrer certas
modificações que nós caracterizamos como
uma livre conversão do ‘olhar’ —
não pura e simplesmente do olhar físico,
‘mas do olhar mental’ — que se desligue do papel
primeiramente olhado para incidir sobre os objectos que
aparecem já anteriormente e dos quais ela tinha, por
consequência uma consciência
‘implícita’; depois da conversão do olhar, estes objectos
acedem à consciência explícita, eles
são percebidos ‘atentivamente’ ou
‘notados acessoriamente’” (trad. franc., p.
113). E ainda: “Notemos o ponto seguinte: enquanto
vivemos no cogito, nós não temos
consciência da cogitatio ela mesmo como um objecto
intencional; a sua essência comporta a possibilidade de
princípio que o olhar se vire
‘reflexivamente’ sobre
ela e tome naturalmente a forma de uma nova cogitatio que se
dirige sobre ela de forma a simplesmente a captar” (trad.
franc., p. 121).
75 A distinção entre o aparecer e aquilo que aparece
é explicitamente abordado no Resumo
das cinco lições (cf. I. Ph., trad. franc.,
p.113 e segs). Será importante salientar que esta
distinção é justamente elucidada pelo
recurso ao motivo da visão e à
distinção entre a visão ingénua que
se perde nas coisas e a visão reflexiva que possibilita
a explicitação do sentido que pela
“intencionalidade funcionante” (a expressão
é de Fink) é formado e produzido e se torna, como
se sabe, constituinte do próprio objecto visado. Dentro deste
contexto assume também particular significado a
conclusão que Husserl tira acerca do termo
“fenómeno”. “O termo fenómeno
— escreve — tem este duplo sentido em virtude da
correlação essencial entre o aparecer e aquilo que aparece”.
Mas, precisa de imediato, apesar deste duplo sentido do termo
fenómeno, ele é empregue preferencialmente
“para designar o próprio aparecer, o
fenómeno subjectivo...” (trad. franc., p. 116).
76 P. Ricoeur, A
l’ecole de la phénoménologie, Vrin, Paris, 1987, p.16.
77 C. M., trad. franc., §15, p.30.
78 Escreve Husserl no final do §15 das
Meditações Cartesianas: “Por consequência, eu
fenomenólogo transcendental só possuo como
objectos das minhas observações descritivas
universais — quer digam respeito a
particularizações ou a conjuntos gerais, — correlativos intencionais de modalidades da
consciência” (trad.
franc., p. 32).
79 Sobre o tema da “análise
intencional” cf. as excelentes páginas que a ele
dedica Fink no artigo, Le
problème de la phénoménologie
d’Edmund Husserl in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p.
237-242, de que aqui fica uma passagem: “A ideia de uma
analítica intencional determina-se assim como a de uma
investigação de imensa extensão.
Não apenas todos os modos do saber humano do ente devem
ser reconduzidos aos modos originais doadores de sentido que os
fundam e os tornam compreensíveis, como ainda estes
arqui-modos da consciência doadora devem eles mesmo ser
interpretados de maneira diferenciada afim de revelar todas as
suas dimensões escondidas de sentido intencional”
(p. 238). Sobre este assunto Cf. C.
M., § 20.
80 Cf. Biemel, L’idée
de la de la phénoménologie chez Husserl in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, 1984, p. 89.
81 Cf. Ideen I, trad. franc., p. 247. Escreve Husserl: “o
método fenomenológico move-se integralmente por
entre actos de reflexão”.
82 Cf. nota 49.
83 Ideen I, trad. franc., p.252.
84 C. M., trad. franc., p. 29.
85 Ideen I, trad. franc., p. 253 .
86 Notava Ricoeur que “a ascese
fenomenológica é uma verdadeira conversão
do sentido da intencionalidade que se encontra primeiramente esquecido da
consciência e se descobre depois como dom”
(Introdução à tradução
francesa de Ideen I, p. XX).
87 Kélkel e Shchérer, Husserl, trad. port.,
p. 38-39.
88 L. U., trad. esp. p.45.
89 Cf. Nachwort, trad. franc., p.375 e 377.
90 Ideen I, trad. franc., p.78.
91 Cf. Ideen I, trad. franc., p.464.
92 Ideen I, trad. franc., p. 464.
93 idem ibidem.
94 “A Primeira Forma Fundamental da
Consciência Racional: o ‘Ver’ Doador
Originário” — este é o sugestivo
título do § 136 de Ideen
I.
95 Cf Ricoeur, Phénoménologie
et herméneutique: en venant d’Husserl... in Du texte à
l’action. Essais
d’herméneutique, II, Éditions du Seuil,
Paris, 1986, p.42.
96 E. Fink, Le
problème de la phénoménologie
d’Edmund Husserl in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, p. 225.
97 LogiK, trad. franc., p. 216.
98 I. Ph., trad. franc., p. 41.
99 Cf. Morujão, Significado e estrutura da redução
fenomenológica in Biblos, Coimbra, 56
(1980), p. 204, nota 35. Sobre as várias
“motivações” da redução
husserliana cf. Jules Bednarski, La
Réduction husserlienne in Revue de Métaphysique et de Morale, 62 (1957), pp.416-435.
100 Assim lê-se na página 96
da tradução francesa de Ideen I: “O que por
agora importa, é persuadirmo-nos de que esta
alteração é possível por
princípio”.
101 Cf. Ideen I, trad. franc., p. 102.
102 Cf Ideen I, trad. franc., pp. 102-103. Ver também I. Ph., trad. franc.,
p. 65.
103 Nota Husserl, a propósito da epoché, que ela
permite justamente que evitemos enunciar aquilo que não
‘vemos’” (Cf. C.
M., trad. franc., p. 21).
104 C. M., trad. franc., p. 9.
105 L. U., trad. esp., V, § 11. Também em Ideen I Husserl mostra
que se o objecto visado pela consciência pode ser
fictício, a consciência dessa ficção
não pode ser fictícia (cf. trad. franc., pp.
170-172).
106 Esta é uma consequência
fundamental da concepção husserliana da
consciência como consciência intencional: a
estrutura da consciência está constituida de tal
forma que não tem sentido falar de uma consciência
sem conteúdo; a consciência é sempre a
consciência de um conteúdo do qual é,
precisamente, consciência. No § 84 das Ideen I, subordinado
ao título “A intencionalidade como tema capital da
fenomenologia”, Husserl afirma que o conceito de
intencionalidade “é um conceito de partida e de
base absolutamente indispensável ao começo da
fenomenologia” (trad. franc., p. 287). Nas Meditações Cartesianas escreve que “a palavra intencionalidade
significa apenas esta particularidade intrínseca e geral
que a consciência tem de ser consciência de qualquer coisa, de
trazer, na sua qualidade de cogito, o seu cogitatum em si próprio” (trad. franc., p.
28). Desta concepção dois pontos devem ser
sublinhados: em primeiro lugar, a intencionalidade define-se
essencialmente pelo acto de significar e Ricoeur pôde
mesmo afirmar que a intencionalidade nada mais é
senão “este acto vazio de significar” (A l’école de la
phénonénologie, Vrin,
Paris, 1987, p.10); em segundo lugar, e consequentemente,
“a relação intencional não
significa, portanto, uma intervenção da
consciência no mundo; a intenção, do ponto de vista fenomenológico, ou
acto, não é uma actividade, uma operação real implicando uma
relação causal” (A. L. Kelkel e R.
Schérer, Husserl, trad. port., p. 33).
107 Cf. Ideen I, trad. franc., p. 102 .
108 Diz Husserl: “A fenomenologia
põe fora de circuito a realidade da natureza, —mesmo a realidade do
céu e da terra, dos homens e dos animais, do
próprio eu e do eu alheio, mas
retém por assim dizer, a alma, o sentido de tudo isso”. (Manuscrito
FI 17, pp. 75-76. Citado em J.
Fragata, A filosofia de Husserl como
fundamento da filosofia, Braga,
1959, p. 113, nota 91).
109 Cf. Ideen I, Capítulos III e IV da terceira
secção.
110 Cf. Morujão, Significado e estrutura da redução
fenomenológica in Biblos, Coimbra, 56
(1980), pp.211-212 .
111 O termo é do próprio
Husserl. Cf. C. M., trad. franc., p.17.
112 Fink compara mesmo esta mudança
de atitude operada pela epoché, esta conversão exigida para se aceder ao
domínio fenomenológico, com a violência
simbolizada pela alegoria da caverna de Platão (Cf. E.
Fink, Que veut la
phénoménologie d’Edmund Husserl? (L’idée
phénoménologique de fondation), in De la phénoménologie, Les éditions de Minuit, 1974, pp.
178-180.
113 Estas palavras assinalam que estamos
já na orientação de um idealismo
transcendental, orientação que á
aliás visível na passagem que em seguida
citaremos e que atribui à pura visão da
consciência que olha não uma mera
função de receptividade, (não é um
recipiente, diz Husserl), mas uma função
“constitutiva”: “(...) a consciência que vê são — abstração feita da
atenção — actos
de pensamento de tal ou tal forma; e
as coisas, que não são estes actos de pensamento,
são contudo constituídas neles, vêm neles
à presença; e por essência, é
unicamente sendo constituídos assim que se mostram como
aquilo que são” (I. Ph., trad. franc., p. 97).
114 Biemel, L’idée
de la de la phénoménologie chez Husserl in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, p. 97.
115 I. Ph., trad. franc., p. 83.
116 Husserl chama frequentemente a
atenção para o facto da prática da epoché repousar
num acto de inteira liberdade. Cf, por exemplo, Ideen I, trad. franc.,
p. 99.
117 Biemel, L’idée
de la de la phénoménologie chez Husserl in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, p. 92.
118 I. Ph., trad. franc., p. 70.
119 Sobre as reduções
fenomenológicas Cf. capítulo IV da segunda
secção das Ideen I, §§ 56-62.
120 Ideen I, trad. franc., p. 7.
121 Sobre isto é bastante
esclarecedor o “resumo das cinco
lições”. Cf. I.
Ph., trad. franc., p. 109.
122 Cf. I. Ph., trad. franc., p. 110.
123 I. Ph., trad. franc., p. 77
124 idem ibidem, p. 77 (sublinhado
meu).
125 Escreve Husserl: “Quando
nós dizemos: cada facto, ‘em virtude da sua
própria essência’, poderia ser outro,
nós exprimimos desde logo que,
pelo seu sentido, tudo aquilo que é contingente implica
precisamente a possibilidade de uma essência, e portanto
a posse de um Eidos que importa compreender na sua pureza, e
que por seu turno se subordina a variedades de essências
de diferentes graus de generalidade”
(Ideen I,
trad. franc., p. 17).
126 Ideen I, trad. franc., pp. 19-20.
127 idem ibidem, p. 25.
128 idem ibidem, p. 34.
129 idem ibidem, p. 36.
130 Sobre a ideação e a
técnica das variações Cf. L. U.:
Introdução à lógica pura, §67;
Terceira Investigação, cap I; Sexta
Investigação, §§ 40-52. Ideen I, §§
59-71. C. M., §34. Logik, § 98. I. Ph., trad. franc., p.80-82 e 109-110. E. U., §§
86-87.
131 I. Ph., trad. franc., p. 83.
132 Cf. A. Morujão, O ‘fenómeno puro’ ponto de
partida da fenomenologia de Husserl
in Biblos,
Coimbra, 56 (1980), p.19.
133 Ideen I, trad. franc., p. 3.
134 idem ibidem.
135 I. Ph., trad. franc., p. 71.
136 Biemel, L’idée
de la de la phénoménologie chez Husserl in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, p. 88.
137 Ideen I, trad. franc., p. 6.
138 idem ibidem.
139 idem ibidem, p. 7.
140 idem ibidem.
141 idem ibidem, p. 8.
142 Escreve Husserl nas Meditações Cartesianas: “Tenho de admitir como inteiramente certo que o
sentido que qualquer ser tem para mim, tanto em
relação à sua “essência’
como à sua ‘existência’, é um
sentido respectivamente em e a
partir da minha vida
intencional, das suas sínteses constitutivas,
esclarecendo-se e desenvolvendo-se para mim nas sínteses
de verificação convergente” (trad. franc.,
p. 76. Seguimos aqui a tradução proposta por J.
Fragata, op. cit., p. 115).
143 I. Ph., trad. franc., p. 116.
144 Biemel, L’idée
de la de la phénoménologie chez Husserl in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, p. 96.
145 Fink, Le
problème de la phénoménologie
d’Edmund Husserl in De la phénoménologie, Les Éditions de Minuit, Paris, 1974, p.
200.
146 idem ibidem, p. 209.
147 idem ibidem, p. 220.
148 cf. nota 90.
149 Cf. Jean-Luc Marion, L’étant et le phénomène in Phénoménologie
et metaphysique, P. U. F., Paris,
1984, pp. 180-183.
150 Ideen I, trad. franc., p. 195.
151 J.-L. Marion, art. cit., p. 173.
152 Citado por Biemel, L’idée de la de la
phénoménologie chez Husserl in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, p 97.
153 idem ibidem. Neste sentido escreve
ainda Heidegger no texto de 1963 em homenagem à casa
Niemeyer: “As duas denominações,
‘subjectividade’ e ‘transcendental’
indicam que a fenomenologia, num movimento consciente e
resoluto, voltava à tradição da filosofia
dos tempos modernos e, bem entendido, de tal maneira que a
‘subjectividade transcendental’ acedesse à
possibilidade de receber, graças à fenomenologia,
uma determinação mais original e universal”
(M. Heidegger, Mein Weg in die
Pänomenologie, trad. franc., in
Q. IV,
Gallimard, Paris, 1976, pp. 165-166. Esta
interpretação heideggeriana da fenomenologia
parece-nos, aliás, autorizada, pelas próprias
palavras de Husserl e segundo as quais a fenomenologia pode ser
considerada como “a aspiração secreta de
toda a filosofia moderna” (Ideen
I, trad. franc., p.203). Cf. ainda Krisis, trad. franc.,
final do § 14.
154 “É assim que fui posto no
caminho da questão do ser, iluminado pelo estilo
fenomenológico...”. (Heidegger, Mein Weg in die Pänomenologie, trad. franc., in Q. IV, Gallimard, Paris, 1976, p. 170).
155 No quadro da edição em
curso das Gasemtausgabe é hoje possível retomar, em termos
consideravelmente mais precisos, a questão da
redução em Husserl e em Heidegger e, mais
genericamente, as questões da
reinterpretação heideggeriana de fenomenologia e
do destino e papel da fenomenologia no pensamento
heideggeriano. Para isso contribuiram especialmente as
publicações dos cursos dados por Heidegger em
Marbourg no semestre de Verão de 1925 e no de 1927,
respectivamente intitulados Prolegomena
zur Geschichte des Zeitbegriffs e Die Grundprobleme der Phänomenologie. O primeiro apareceu em 1979 e constitui o tomo
20 das Gasemtausgabe; o segundo apareceu em 1975 e contitui o tomo
24. Apenas deste último há, ao que sabemos,
tradução francesa (Les
problèmes fondamentaux de la
phénoménologie, trad.
por J.-François Courtine, Gallimard, Paris, 1985). Para
a problemática em questão são
também importantes outros textos,dos quais destacamos: Sein und Zeit (e muito
especialmente o § 7), os textos reunidos sob o
título Zur Sache des Denkens (especialmente Mein
Weg in die Phänomenologie), Ein Vorwort. Brief an P. William Richardson, Uber das
Zeitverständnis in der Phänomenologie und im Denken
der Seinsfrage e ainda Vier Seminare: Zähringen. Sobre o tema merecem especial referência os
artigos de D. Janicaud, J.-Luc Marion, J.-F. Courtine e R.
Brague, respectivamente, Phénoménologie,
conscience naturelle et monde technique, L’étant et le
phénomène, L’idée de la
phénoménologie et la problématique de la
réduction e La phénoménologie comme voie
d’accés au monde grec,
todos na excelente colectânea organizada sob a
responsabilidade de J.-L. Marion e G. Planty-Bonjour e
subordinada ao título Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, e ainda o de J. Taminiaux, Le regard et le excédent. Remarques sur
Heidegger et les ‘Recherches Logiques’ de Husserl in Revue
Philosophique de Louvain, Tomo 75,
Fevereiro de 1977, pp.74-100.
156 “Se o ente se diz numa
significação múltipla, qual é
então a significação directriz e
fundamental? O que quet dizer ser?” ((Heidegger, Mein Weg in die Pänomenologie, trad. franc., in Q.
IV, Gallimard, Paris, 1976, p.
162).
157 Cf. Mein Weg
in die Phänomenologie, trad.
franc., in Questions IV, Gallimard, Paris, 1976, p. 162 e ainda a nota
dos tradutores sobre este assunto, p. 174. Ver ainda o texto de
Jean Beaufret sobre Heidegger e
Husserl in Dialogue avec Heidegger,
III. Approche de Heidegger, Ed. de Minuit, 1974, pp. 82-83 e o
último seminário de Heidegger, o Seminário de Zähringen cujo protocolo se encontra em Questions IV, Gallimard,
Paris, 1976, p. 323.
158 Mein Weg in
die Phänomenologie, trad.
franc., in Questions IV, Gallimard, Paris, 1976, p. 168.
159 idem ibidem, p. 169.
160 idem ibidem, p. 170.
161 cf. D. Janicaud, Phénoménologie, conscience naturelle et
monde technique, in Phénoménologie et
métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, p. 120.
162 Heidegger, SuZ, trad. franc., p. 54.
163 idem ibidem.
164 idem ibidem.
165 idem ibidem, p, 55.
166 idem ibidem, p. 56.
167 idem ibidem.
168 D. Janicaud, Phénoménologie, conscience naturelle et
monde technique, in Phénoménologie et
métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, p. 119.
169 “Chamamos à
revelação de uma coisa a sua verdade. Eis o
autêntico conceito de verdade tal como foi já
pensado na Antiguidade” (M. Heidegger, GpdPh, trad. franc.,
Gallimard, Paris, 1985, p. 36).
170 Logik, trad. franc., p. 38.
171 SuZ, tard. franc., p. 60.
172 idem ibidem.
173 idem ibidem, pp. 61-62..
174 Sobre esta questão ver o
excelente artigo de J.-F. Courtine Phénoménologie
et science de l’être in Cahiers de L’Herne, Martin Heidegger, Éditions de L’Herne, Paris, 1983,
pp. 211-221.
175 I. Ph., trad. franc., p. 45.
176 Cf. SuZ, trad. franc., p. 62 ou ainda os GpdPh, trad. franc.,
p. 39, onde se pode ler: “A fenomenologia, se ela se
compreender correctamente, é um conceito de
método”.
177 SuZ, trad. franc., respectivemente p. 63 e p. 64.
Nota-se que Husserl afirmara precisamente o contrário ao
dizer que “o fenomenólogo não estabelece
juízos de ordem ontológica” (Ideen I, trad. franc.,
p. 517) e, no § 6 das Ideen III “a ontologia não é
fenomenologia”.
178 SuZ, trad. franc., p. 62.
179 Cf. SuZ, trad. franc., pp. 62-63.
180 GpdPh, trad. franc., p. 40. Acerca da questão e
do estatuto da redução em Heidegger ver o artigo
de J.-F. Courtine, L’idée
de phénoménologie et la problèmatique de
la réduction in Phénoménologie et
métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, pp. 211-245.
181 GpdPh, trad. franc., p. 40.
182 idem ibidem p. 28.
183 idem ibidem, p. 29, sublinhado
meu.
184 idem ibidem, p. 38.
185 SuZ, trad. franc., p. 65.
186 O primado ontológico da
questão do ser reside no facto de, comparativamente com
o questionar ôntico das ciências positivas, o
questionar ontológico ser mais originário. Como
podemos ver, a questão do ser não é
colocada como forma de abordar aquilo a que Husserl chamaria de
“ontologias regionais”, mas de forma a aceder a uma
ontologia fundamental. “Toda a ontologia, tão rica
e solidamente ordenada que possa ser o sistema de categorias de
que dispõe, permanece no fundo cega e preverte a sua
intenção mais própria enquanto não
tiver primeiramente clarificado suficientemente o sentido do
ser e concebido esta clarificação como sua tarefa
fundamental” (SuZ, trad. franc., p. 35).
187 Cf. SuZ, trad. franc., p. 36.
188 SuZ, trad. franc., p. 36.
189 SuZ, trad. franc., p. 38.
190 Cf. SuZ, trad. franc., p. 24.
191 SuZ. trad. franc., p. 66.
192 Escreve Heidegger: “a
única compreensão da fenomenologia que conta,
é a de nos acercarmos dela como possibilidade” (SuZ, trad. franc., p.
66).
193 D. Janicaud, Phénoménologie, conscience naturelle et
monde technique, in Phénoménologie et
métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, p. 120.
194 J.-L. Marion, L’étant et le phénomène in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, pp. 165-166.
195 Cf. H. Spiegelberg, The Phenomenological Mouvement, 3ª edição, Martinus Nijhoff
Publishers, The Hague, 1982, p. 347.
196 J.-L. Marion, L’étant et le phénomène in Phénoménologie
et métaphysique, P.U.F.,
Paris, 1984, p. 173.
197 Ideen I, trad. franc., p. 494.
198 J.-L. Marion, L’étant et le phénomène in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F.,
Paris, 1984, p. 171.
199 J.-L. Marion,L’étant et le phénomène in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, p. 187.
200 Cf. SuZ, trad. franc., pp. 62-63.
201 SuZ, trad. franc., p. 63.
202 J.-L. Marion, L’étant et le phénomène in Phénoménologie
et métaphysique, P. U. F. ,
Paris, 1984, p. 186.
203
Seminário de Zähringen,
in Questions IV, Gallimard, Paris, 1976, p. 339.
204 SuZ, trad. franc, p. 63.
205 SuZ, trad. franc, p. 62-63.
206 Seminário
de Zähringen, in Questions IV, Gallimard,
Paris, 1976, p. 338.
207 Não queriamos deixar de referir
que é o próprio Heidegger quem sublinha ter sido
a partir da leitura de Husserl que foi encaminhado para a
questão e pensamento do ser (Seinfrage). O “ponto decisivo” ou o
“estimulante essencial” encontrou-o Heidegger nas Investigações Lógicas e, mais precisamente, na Sexta
Investigação ( Elementos
para um esclarecimento fenomenológico do conhecimento), segunda secção (Sensibilidade e entendimento), capítulo sexto (Intuições
sensíveis e categoriais). Com
bem notou J. Taminiaux num artigo consagrado a este assunto e
escrito na memória do último seminário de
Heidegger, foi a sexta Investigação de Husserl
que deu origem não a uma tese, mas ao “nascimento
de uma questão que não mais teria fim”, a
questão do sentido do ser (J. Taminiaux, Le regard et le excédent. Remarques sur
Heidegger et les ‘Recherches Logiques’ de Husserl in Revue
Philosophique de Louvain, Tomo 75,
Fevereiro de 1977, pp.74-100). Sobre este tema, que aqui
não podemos abordar em detalhe, ver, para além do
artigo supracitado, também o texto em que Heidegger se
debruça expressamente sobre esta questão, Seminário de Zähringen e ainda o artigo de Jean Beaufret, Heidegger e Husserl in
Dialogue avec Heidegger, III. Approche de Heidegger, Ed. de Minuit,
1974, pp. 106-152.
208 GpdPh, trad. franc., p. 17.
Apêndice
Bibliográfico
Obras e artigos citados:
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pp.307-339. Foi editado, conjuntamente com o Seminários de Thor
(1966, 1968 e 1969) por Klostermann, Frankfurt, 1977, 151. p.,
e faz parte da G.A., Band 15.
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— Prolegomena zur reinen Logik, Halle, Niemeyer, 1900,
XII-257 págs. II — Untersuchungen zur
Pänomenologie und Theorie der Erkenntnis, ibid., 1901,
XVI-718 p.. (Trad. esp. por G. Morente e J. Gaos: Investigaciones lógicas — 2 vols. — , 1ª ed. em Revista do
Occidente, S.A., 1929; o texto é retomado em Alianza
Editorial, Madrid, 1982; 2ª ed. ibid., 1982). Abreviatura L.U.
HUSSERL, EDMUND, Die Idee der Phänomenologie, — Fünf
Vorslesungen, obra editada por W.
Biemel em Husserliana, t. II, 1950, XII+94
págs.. Trata-se de 5 lições dadas em
Göttingen de 26-IV a 2-V de 1907. (Trad. frac. por A Lowit:
L’idée de la
phénoménologie,
P.U.F., Paris, 1970; a 3ª ed., revista, é de 1985,
e nela aparece o resumo das cinco licções bem
como uma introdução do tradutor). Abreviatura I. Ph.
HUSSERL, EDMUND, Philosophie als strenge Wissenschaft, em “Logos”, Tübingen, 1 (1911)
289-341. (Trad. port. por A Beau, A
filosofia como ciência de rigor, Coimbra, Atlântida, 1952, prefácio de J.
de Carvalho). Abreviatura Ph. W.
HUSSERL, EDMUND, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und
phänomenologischen Philosophie,
Jahrbuch für Philosophie und phänomenologischen
Forschungen, t. I (1913), VII-XIII, 1-323. Saíu
também em separata editada por Husserl (Max Niemeyer,
Halle). 2ª ed. invariável, ibid., 1922, com um
índice de matérias de Gerda Walter; neste ano foi
reeditado o primeiro vol. do “Jahrbuch”; 3ª
ed. invariável, ibid., 1928, com um índice de
matérias de L. Landgrebe. Nova edição, com
algumas modificações e aditamentos do Autor,
editada por Walter Biemel, em Husserliana III, 1950, XIV+483
págs. ( 1-380: texto, 383-419: apêndices da
autoria do mesmo Husserl e até então
inéditos, 461-483: apêndice crítico).
[(Trad. franc. do vol. I, a partir da 3ª ed. de 1928, de
Paul Ricoeur: Idées
directrices pour une phénoménologie et une
philosophie phénoménologique pures, Paris, Gallimard, 1950, com uma
introdução do tradutor (pp. XI-XXXIX)].
Abreviatura: Ideen I.
HUSSERL, EDMUND, Formale und Transzendentale Logik. Versuch einer Kritik
der logischen Vernunft, Jahrbuch
für Philosophie und phänomenologische Forschung, t.
X, 1929, III-XIII, 1-298. (Trad. franc. de S. Bachelard: Logique formelle et logique transcendantale, P.U.F., Paris, 1957; a 3ª ed. é de
1984). Abreviatura: Logik.
HUSSERL, EDMUND, Nachwort zu meinen “Ideen zu einer
phänomenologie und phänomenologischen
Philosophie”, Jahrbuch
für Philosophie und phänomenologische Forschung, 11
(1930) 549-570. Saiu também em separata. É o
prefácio da tradução inglesa de Ideen, com pequenas
modificações. Reedição em Husserliana V, pp. 138-162. (Trad. franc. do texto de Husserliana, com
notas, por L. Kelkel: Postface
à mes “Idées directrices pour une
Phénoménologie pure”, em Revue de
Métaphysique et de Morale, 62
(1957), 369-398. Abreviatura: Nachwort.
HUSSERL, EDMUND, Méditations cartésiennes, trad. de G. Peiffer e E. Levinas, Paris, Colin,
1931, VII+136 págs; 2ª ed. (invariável),
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Original alemão em Husserliana, t. I, ed. por S.
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HUSSERL, EDMUND, Erfahrung und Urteil —
obra redigida e editada por Ludwig Landgrebe, Praga,
Academia-Verl., 1939, XXIV+478 p.. (Tradução
francesa por D. Souche, Expérience
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Abreviatura: E.U.
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die phänomenologische Philosophie, em “Philosophia”, Balgrado, 1 (1936)
77-176. Trata-se das duas primeiras partes duma obra mais vasta
editada na íntegra por W. Biemel em Husserliana t. VI, 1954,
XXII+557 p. (1-275: texto). (Trad. franc. por Gérard
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