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Rui Grácio
Uma leitura argumentativa do texto
«Carta de Birmingham» de Martin Luther King
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
No presente texto, procuramos aplicar os
pressuposto teóricos da nossa teoria geral da
argumentação à leitura de um texto
específico. O texto é o seguinte:
Carta de Birmingham
«Estamos tristemente enganados se
pensarmos que a eleição de Albert Boutweel como
Presidente trará uma nova época a Birmingham.
Apesar do Sr. Boutweel ser uma pessoa bastante mais gentil do
que o Sr. Connor, ambos são segregacionistas, dedicados
à manutenção do status quo. Espero que o
Sr. Boutweel seja razoável o suficiente para perceber a
futilidade da resistência massiva à luta contra a
segregação. Mas ele não a verá sem
a pressão dos devotados aos direitos civis.
Meus amigos, devo-lhes dizer que
não houve qualquer ganho em termos de direitos civis sem
pressão legal e não violenta. Lamentavelmente
é um facto histórico os grupos privilegiados
raramente desistirem dos seus privilégios
voluntariamente. As pessoas individuais podem ver a luz moral e
desistirem voluntariamente da sua postura injusta; mas, como
Reinhold Nieburh nos lembrou, os grupos tendem a ser mais
imorais do que os indivíduos.
Sabemos através de
experiências dolorosas que a liberdade nunca é
voluntariamente dada pelo opressor; tem que ser exigida pelos
oprimidos. Francamente, ainda estou para alinhar numa campanha
de acção directa que seja «oportuna»
na perspectiva daqueles que não sofreram indevidamente a
dor da segregação. Há alguns anos que
ouço a palavra: ‘Espera’. Ela soa no ouvido
de cada Negro com uma familiaridade constante. Este
‘Espera’ quis quase sempre dizer
‘Nunca’. Devemos considerar, como um dos nossos
distintos juristas, que ‘a justiça que leva
demasiado tempo é justiça negada’.
Esperámos mais de 340 anos pelos nossos direitos
constitucionais e por aqueles que nos são destinados por
Deus. As nações da Ásia e da África
encaminham-se em velocidade supersónica para a sua
independência política, mas ainda temos de
rastejar a cada passo para podermos beber uma chávena de
café no balcão da pastelaria. Talvez seja
fácil para aqueles que nunca sentiram o ferrão da
discriminação dizerem: ‘Esperem’. Mas
quando se viram multidões enfurecidas a lincharem por
vontade as suas mães e os seus pais e a afogarem por
capricho as suas irmãs e irmãos; quando se viram
polícias enfileirados a pontapearem e até a
matarem os seus irmãos negros; quando se vê a
grande maioria dos nossos vinte milhões de irmãos
Negros sufocarem na pequena cela da pobreza no meio de uma
sociedade florescente; quando de repente nos deparamos com a
língua torcida e o discurso entaramelado ao tentarmos
explicar à nossa filha de 16 anos que não pode ir
ao parque público de diversão que foi anunciado
na televisão e vemos as suas lágrimas escorrerem
quando lhe dizemos que esse parque é proibido para
pessoas de cor, sabendo que as nuvens da inferioridade se
começam a formar no seu pequeno céu mental e que
a sua personalidade se vai distorcendo com a amargura
inconsciente para com as pessoas brancas; quando se tem de
inventar uma desculpa para a pergunta do filho de cinco anos:
‘Papá, porque é que os brancos tratam
tão mal os negros?’; quando se atravessa o
país de carro e se tem de dormir noite atrás de
noite num canto desconfortável do automóvel
porque nenhum motel nos aceita; quando se é humilhado
todos os dias com sinais que indicam «brancos» e
«de cor»; quando o nosso primeiro nome se torna
«negro», o do meio «rapaz» (tenha-se a
idade que se tiver) e o último se torna «ó
pá» e à esposa e à mãe nunca
é dado o título respeitoso de
«Senhora»; quando se é insultado de dia e
perseguido de noite pelo facto de se ser negro, vivendo sempre
em sobressalto, nunca sabendo o que o espera a seguir e sendo
minado por medos interiores e ressentimentos exteriores; quando
se luta constantemente contra a sensação
degenerativa de não se ser ninguém —
compreender-se-á então por que achamos
difícil esperar. Chega uma altura em que o copo verte e
os homens não mais suportam ser lançados no
abismo do desespero. Espero, senhores, que compreendam a nossa
legítima e incontornável
impaciência».
Martin Luther King
Esta tarefa implica averiguar, em primeiro
lugar, se o texto em análise poderá ser lido como
argumentação, o que significa perceber se
explicitamente aborda um assunto
em questão. Se tal for o
caso, então é porque o assunto é tematizado
através de recursos que poderão ser classificados
de duas formas: ou como argumentos (caso em que a sua enunciação se
revela como tematicamente relevante para a
configuração do assunto e para a
definição da especificidade da
problemática da questão) e como reforços retóricos (caso em que tendem a promover a
aceitação de uma tese sem que contudo tragam algo
de novo ao assunto). Por seu turno, se há
tematização de um assunto em questão,
articulado através de argumentos e reforços
retóricos, é porque estes funcionam no interior
de uma perspectiva, a qual terá expressão
explícita na enunciação de uma tese.
Donde propormos a seguinte grelha de
leitura, cujos pontos, como um puzzle, devem articular-se entre
si:
1. Assunto em questão.
2. Tese (perspectiva).
3. Argumentos.
4. Reforços retóricos.
A primeira tarefa é, pois, a de
identificarmos o assunto em questão. Note-se que, de um
ponto de vista da leitura de um discurso como
argumentação, identificar um assunto em
questão não é apenas identificar diversos
assuntos que podem ser focados no texto, mas seleccionar aquele
que pensamos ser o assunto dominante, entendendo-se que esta
dominância é o que permite organizar
sinteticamente a leitura de tal modo a que se possa estabelecer
uma articulação directa entre o assunto em
questão e a tese que lhe dará resposta.
O texto, por si mesmo, não nos
dá grandes indicações contextuais. Uma
pesquisa que nos desse informações acerca do
contexto seria sempre facilitadora de uma mais rápida
focalização do assunto em questão. Mas,
neste caso, vamos apenas ater-nos à letra do texto.
O primeiro parágrafo fala-nos de
uma mudança de presidência e das eventuais
expectativas que poderão ser criadas por essa
mudança quando à alteração de uma
política segregacionista. Mais, o autor não
só considera explicitamente que essas expectativas
são infundadas («estamos tristemente
enganados…») como desde logo lança a ideia
de que o modo de lidar com a questão não se pode
dissociar de formas de luta cívica («Mas ele
não a verá sem a pressão dos devotados aos
direitos civis»). Este primeiro parágrafo fornece,
desde logo, algumas pistas quanto ao assunto em questão:
trata-se de uma questão política relacionada com
a segregação. E configura o assunto anunciando a
necessidade de uma posição de resistência e
de luta do ponto de vista político.
O segundo parágrafo desenvolve esta
última ideia, introduzindo um conjunto de enunciados que
relativamente a ela funcionam como argumentos.
O terceiro parágrafo contribui para
a focalização do assunto em questão.
Aí ganha relevo a noção de
«oportunidade» e especifica-se o tipo de
segregação que está em causa, a
discriminação racial. São de novo
fornecidos argumentos a que se segue um conjunto de
reforços retóricos. A última frase surge
como corolário do texto e coloca no centro do assunto em
questão a «legítima e incontornável
impaciência».
Este tipo de leitura permite-nos agora
preencher os pontos da nossa grelha.
1. Assunto em questão
Quando é que é oportuno
lutar contra a discriminação racial?
Note-se que esta formulação
interrogativa assinala o assunto (a discriminação
racial) e a questão específica que é
colocada sobre este assunto (a da oportunidade de se lutar
contra a discriminação racial).
2. Tese
É sempre oportuno lutar contra a
discriminação racial.
Esta é a resposta à
questão que é dada pela última
afirmação do texto.
3. Argumentos
Podemos seleccionar os seguintes:
não houve qualquer ganho em
termos de direitos civis sem pressão legal e não
violenta;
é um facto histórico
os grupos privilegiados raramente desistirem dos seus
privilégios voluntariamente;
a liberdade nunca é
voluntariamente dada pelo opressor; tem que ser exigida pelos
oprimidos;
ainda estou para alinhar numa
campanha de acção directa que seja
«oportuna» na perspectiva daqueles que não
sofreram indevidamente a dor da segregação; Este
‘Espera’ quis quase sempre dizer
‘Nunca’.
‘a justiça que leva
demasiado tempo é justiça negada’.
4. Reforços retóricos
Todo o texto desde «Talvez seja
fácil para aqueles que » até
«compreender-se-á então porque achamos
difícil esperar»
Depois desta leitura ficamos em
condições de interagir com o discurso. Podemos recusar a
perspectiva se contestarmos a existência de
discriminação racial (ou seja, não
aceitando o assunto como questão («não
existe discriminação nenhuma»); podemos questionar a
perspectiva quer discordando da tese de que é sempre
oportuno lutar contra a discriminação («se
a luta contra a discriminação é
legítima, nem todos os momentos para a encetar
são oportunos e há que perceber quais os
contextos mais favoráveis para que essa luta produza
efectivamente resultados») e aduzir argumentos e
reforços retóricos que tematizem e sustentem uma
perspectiva alternativa, ou seja, acrescentando argumentos
não invocados e que levam a tematizar o assunto em
questão à luz de considerações
adicionais («a oportunidade da luta contra a
descriminação depende das seguintes
condições contextuais»); podemos refutar a
perspectiva procurando contestar os argumentos evocados na
tematização e rebatê-los desvalorizando-os
em detrimento de outros que serão considerados mais
relevantes («a afirmação de que não
houve qualquer ganho em termos de direitos civis sem
pressão legal e não violenta é um exagero
e há exemplos que a contradizem»). Podemos,
finalmente, concordar com a argumentação, caso em
que, subscrevendo a perspectiva, poderemos aduzir argumentos e
reforços retóricos adicionais na
direcção temática da tese e de forma a
reforçá-la («é escandaloso tratar as
pessoas com base na cor da pele: isso é algo que
está completamente fora da carta dos direitos
humanos»).
Qualquer destas direcções
é possível e depende das assunções
do argumentador. Mas o pôr em prática dessas
assunções não pode dispensar a leitura do
discurso enquanto argumentação.
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