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Rui Grácio
Os argumentos como valores de troca sob
vigilância na interacção comunicacional
A conceptualização
teórica da argumentação coloca o singular
desafio da circularidade: é que, por mais que não
se queira, é através de recursos argumentativos
que se terá de mostrar a pertinência do contructo
teórico com que se visa enquadrar conceptualmente o
estudo da argumentação.
A maior parte dos teóricos da
argumentação incorre numa falácia
definicional, a qual consiste em teorizar como se própria
teorização não recorresse aos meios e aos
processos que pretendem descrever e definir. E este «como
se» implica uma manobra de dispersão
teórica típica e muito ao sabor dos tempos
actuais: o de teorizar pela atribuição de
finalidades e de objectivos práticos, sejam estes o de
persuadir, o de descrever operatividades discursivas, os de
proceder a avaliações críticas ou os de
resolver conflitos. Digamos que é uma boa
estratégia do ponto de vista da conquista do mercado
que, nos nossos dias, parece ter-se tornado um critério
imperativo na justificação da existência de
um «campo de estudos» e da sua dignidade social.
Mas, do ponto de vista teórico, uma tal
sujeição às leis do mercado significa mais
o ocaso do pensamento enquanto criação, toda uma
politica anti-pensamento ao serviço da heteronomia, do
que, propriamente, uma teorização séria
que retira a sua razão de ser das próprias
dificuldades e incertezas.
No caso específico da
teorização da argumentação, duas
das estratégias mais praticadas para ultrapassar esta
aporia da circularidade consistem precisamente ou em postular
teoricamente uma finalidade às argumentações, ou, no
que é uma variante, em investi-la de
funções pedagógicas — colocando a sua mais valia na
questão da formação do chamado
«espírito crítico». Ambas as
posições comungam da ideia de que o estudo da
argumentação possui uma mais valia
prática, seja em termos descritivos — descreve
operatividades cuja consciência reverte no incremento de
competências discursivo-argumentativas —, seja em
termos normativos — permite proceder a
avaliações críticas.
Assim, por exemplo, se se atribuir
à argumentação a finalidade da
persuasão (paradigma retórico), o campo de
estudos da argumentação reflectirá sobre
os meios através dos quais o discurso é
«obreiro de persuasão»1
(Platão) ou, como escreve Perelman, consistirá no
«estudo das técnicas discursivas que permitem
provocar ou aumentar a adesão dos espíritos
às teses propostas ao seu assentimento»2.
Se, indo por outro caminho, considerarmos
que mais do que os processos operatórios e as
competências discursivo-argumentativas, o que importa
é a capacidade de avaliar, a tendência é
partir de um do estudo misto do raciocínio (paradigma
lógico) que tanto atenta nas questões da validade
num plano formal (condições de verdade) como nas
questões críticas da aceitabilidade das premissas
(condições de razoabilidade). Neste caso, mais do
que descrever os processos que são postos em marcha para
atingir efeitos persuasivos, trata-se de estabelecer
critérios de avaliação que possam munir os
argumentadores de competências críticas.
Mas, em ambos casos, o desafio da
circularidade não nos parece vencido mas, antes,
evitado. E o que resulta deste modo de teorizar não
é uma teoria da argumentação mas a
produção de discursos sobre o modo de ler e
analisar discursos, ou seja, que indicam quais são os
meios persuasivos que nos discursos operam (o que significa que
pensamos a argumentação em função da
persuasão e não a partir dela mesma) ou que
apresentam formas que permitem avaliar os argumentos (o que
significa que se pensa a argumentação a partir de
um misto de critérios lógicos e
sociológicos — uma vez que questão da
aceitabilidade das premissas remete, para além das
questões de forma, para questões
«comunitárias»).
Em ambos os casos não temos uma
teoria da argumentação elaborada em termos
autónomos, mas uma teorização da
argumentação subsidiária e auxiliar na compreensão de fenómenos mais
amplos como os da persuasividade discursiva e os da
avaliação lógica e razoável dos
argumentos. Ou seja, ao procurarem evitar o desafio da
circularidade os teóricos da argumentação
afastam-se de uma abordagem autónoma do campo e
apresentam como «teoria da
argumentação» algo que, na realidade
só heteronomamente o é, na medida em que precisa
de importar conceitos que lhe são em certa medida
exteriores para constituir o seu núcleo duro
teórico. E um desses conceitos é o de
«argumento», usualmente definido como sendo
essencial no estudo da argumentação, mas sempre
pensado como uma definição exterior à
própria prática argumentativa. definido a partir
de algo de exterior à própria prática
argumentativa.
Face isto, a pergunta que aqui coloco
é a de saber se, e como, é possível
ultrapassar o desafio da circularidade sem cair numa
teorização heterónoma da
argumentação?
Ou seja, tudo isto nos coloca na
difícil tarefa de tentar responder à
questão «o que é um argumento?» sem
incorrer numa definição que de algum modo perca
eficácia descritiva e conduza a estreitar as abordagens
das argumentações, o que é manifesto, por
exemplo, na redução proposicional com que a
lógica aborda a linguagem, mas, também, nas
explicações da argumentação pelos
efeitos persuasivos ou como fenómeno inerente ao
funcionamento da língua.
A minha resposta à questão
«o que é um argumento?» não é
uma teoria, mas uma posição. E é esta
particularidade de, a questões teóricas, se
responder com posições específicas, que
constitui, a meu ver, a base das interacções
argumentativas. Mais precisamente, é a tese segundo a
qual é na impossibilidade
de definir a priori e inequivocamente o que um argumento seja
— sem que qualquer definição apresentada
não implique desde logo tomar uma posição
— que repousa a própria possibilidade de
argumentar, no sentido da interacção entre
discursos que entre si se confrontam a propósito de um
assunto em questão. Ou seja,
só é possível responder a essa pergunta
teórica através de uma prática que nos
coloca irremediavelmente numa posição
susceptível de fazer emergir uma
argumentação, isto é, em que o primordial
se torna o uso e não a
definição.
O que nos leva a dizer que um argumento
é um valor de troca da prática interaccional que
o torna possível. Nesse sentido, e de um ponto de vista
analítico, ele constitui-se sempre a posteriori. Mais
precisamente, os argumentos emergem e constituem-se no contexto
das interacções discursivas por uma
atribuição de valor e um reconhecimento de
força. Mas não devemos extrapolar —
«o grande desvio», nas palavras de Chatelêt3 —
à maneira do Sócrates platónico e
ontologizar o que resulta de um reconhecimento, ou de um
eventual acordo, com base numa interacção.
Segundo a esta ideia, a
argumentação, como prática, é um processo de atenção
através do qual, numa interacção, os
participantes vigiam e triam aquilo que deixam funcionar e
valer, ou não, como argumentos. Enquanto teoria ela é o estudo de como se
configuram os assuntos em questão numa
interacção com interlocução
efectiva, ou seja, em que os discursos se articulam entre si e
um para o outro e em que essa interacção reflecte
a dinâmica de vigilância e de triagem do que nela
se deixa, ou não, valer como argumento.
Se é ingénuo querer
encontrar a força de um argumento na sua
formulação linguística ou reduzi-lo a
questões de raciocínio — Toulmin, por
exemplo, alia a força dos argumentos não aos
próprios argumentos mas aos reforços
através dos quais os procuramos tornar credíveis
—, é igualmente ingénuo querer definir a priori o que seja
abstractamente um argumento (ou seja, fora de uma
interacção específica que o faz emergir),
e isto porque a
formação do valor «argumento» decorre
da interacção em que ele é valorizado e
reconhecido, ou não, como «argumento»
— algo que adquire, ao não, força de
relevância na comunicação interlocutiva. É por
isso que toda a teorização que parte de uma
teoria prévia do argumento (por exemplo, como complexo
de teses e de razões), que toma os efeitos
possíveis como finalidades intencionalmente
explícitas ou implícitas (por exemplo, a
influência persuasiva) ou que atribui antecipadamente
objectivos e desígnios aos processos que descreve (por
exemplo, a resolução de conflitos), parece desde
logo partir de uma opção
arbitrária que se revela
insatisfatória do ponto de vista descritivo. É
aliás por isso que qualquer tipificação
exaustiva do que sejam os «esquemas argumentativos»
e «tipos de argumentos» não só nunca
será um inventário fechado do ponto de vista das
práticas argumentativas concebidas como
interacção como, pelo contrário,
será sempre excessivamente formal porque lhe escapam os
mistérios hic et nunc das interacções
interlocutivas efectivas em que se geram as
atribuições do valor «argumento».
As questões de fundo relevantes
para uma teoria geral da argumentação não
são, assim, as de saber o que é um argumento ou o
que é que o define, quais as finalidades das
argumentações, qual a validade dos argumentos, ou
qual a sua força — pontos que, sendo importantes,
são exteriores à interacção
argumentativa — mas, antes de mais, perceber
através de que maneiras, em interacções
concretas, há elementos a que é atribuído
o valor argumento, enquanto a outros não o é,
como é que certos aspectos funcionam como argumentos e
outros não, sem que isso permita obter outra
generalização que não a de que faz parte
de uma interacção argumentativa a possibilidade
atribuir e de reconhecer (ou recusar essa
atribuição ou reconhecimento, num quadro
auto-regulado pela própria intervenção dos
participantes na interacção) o valor de
«argumento» ao conteúdo das
intervenções.
Por outro lado, esta
focalização permite compreender a própria
multiplicidade de pontos de vista que existe sobre o que seja
um argumento (argumentos lógicos, linguísticos,
retóricos, mas também científicos,
políticos, ou quotidianos): ela deriva não apenas
na inevitável perspectividade que é
incontornável na atribuição com que emerge
o valor «argumento», como nos indica que toda a
normatividade objectivante que queiramos imputar aos argumentos
deriva de uma posição assumida numa
interacção, ao que não escapa o caso em
que o assunto em questão é a própria
teoria da argumentação, e, mais especificamente,
a definição de «argumento».
Com esta ideia fechamos o círculo
do desafio da circularidade e instauramos um campo de estudo
com especificidade própria: o do jogo ou movimentos de
atribuições e reconhecimentos do valor
«argumento» em interacções que se
constituem como argumentações porque versam, ou
de polarizaram, num assunto em questão. O «em
questão» é aqui o que permite que
«argumento» não seja algo que possa ser
definido a priori porque, justamente, não pode ser
dissociado do valor que lhe é concretamente imputado no
quadro do confronto de perspectivas sobre o assunto. E, quanto
aos assuntos, do ponto de vista da argumentação,
não basta dizer que existem. É preciso, como nota
Goodwin4, que façamos um assunto dele, ou seja,
algo sobre o qual vale a pena argumentar. Uma determinação que
está mais ligada à retórica tal como
Michel Meyer a define, ou seja, enquanto
«negociação da distância entre
indivíduos a propósito de uma
questão»5 do que, propriamente, à
argumentação.
Notas
1
Cf. PLATÃO, 1992, Górgias, Lisboa, Edições 70.
2
PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988, Traité de l’argumentation, Bruxelles, Éd. de L’
Université de Bruxelles, p. 5.
3
Cf. CHÂTELET, F., Platão, Porto, Res, s/d, pp. 135-138.
4
GOODWIN, Jean, 2007, «Argument Has No Function» in Informal Logic,
vol. 27, n.º1, pp. 69-90.
5
MEYER, M., 2005, Qu’est-ce
que l’argumentation?, Paris,
VRIN,
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