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Rui Grácio
O que são «argumentos»?
Para além da perspectiva lógica,
linguística e retórica.
É uma convicção
muito generalizada, até pela sua aparente linearidade, a
ideia de que onde há argumentos, há uma
argumentação. Mas, na realidade, se em termos
práticos e didácticos esta noção se
revela funcional, já em termos teóricos e,
nomeadamente, no campo da teoria da argumentação,
ela revela-se como muito problemática.
Dois dos pontos dessa problematicidade
são os seguintes: por um lado, uma tal ideia parte do
pressuposto de que a boa maneira de detectar uma
argumentação é a presença de
argumentos, o que remete desde logo para a questão da
definição de «argumento», ou seja,
leva a perspectivar a argumentação a partir de
uma teoria prévia de argumento. Por outro lado, e neste
movimento de focalização que tende a assinalar a
existência de uma argumentação a partir da
existência de argumentos, é a própria
argumentação que fica desprovida de uma
teorização geral e unitária.
Com efeito, aquilo que se passa é
que este tipo de abordagem ou estratégia teórica
procura apresentar a noção de
«argumento» de acordo com as incidências
específicas que o exemplificam num determinado campo de
estudo e de análise, escapando-lhe, todavia, a
dimensão geral do fenómeno. Vejam-se, a este
respeito três exemplos — o da lógica, o da
linguística e o da retórica — em que o
sentido de «argumento», sendo embora muito
diferente, tem em comum o acabar por impossibilitar uma teoria
geral e unificada da argumentação.
1. «Argumento» na perspectiva
lógica
De um ponto de vista lógico
chama-se «argumento» a «uma tese e a um ou
mais conjunto de razões oferecidas por alguém
para suportar a tese»1. Ou, segundo outros autores, «um
argumento, no sentido lógico, é um grupo de
proposições das quais uma é afirmada como
decorrendo das outras, que são vistas como fornecendo
suporte ou bases para a sua verdade»2.
Nestas duas definições a
questão fundamental é a questão do
«suporte», ou seja, a da relação
entre premissas e conclusão. E é este
micro-esquema inferencial que põe numa
relação de suporte o nexo entre premissas e
conclusão que caracteriza a abordagem lógica da
argumentação, seja esta apelidada de
lógica formal ou de lógica informal. No primeiro
caso a relação de suporte será analisada
do ponto de vista da validade inferencial, independentemente do
conteúdo das proposições (e válida
significa, aqui, conclusão verdadeira). No segundo caso,
para além do plano formal, considera-se também o
plano informal, significando isso que da
argumentação faz não apenas parte a
questão da validade, mas também a questão
da aceitabilidade, da relevância e da suficiência
das premissas.
Na verdade, a grande diferença
entre estas duas vias lógicas é que a primeira
toma como «dadas» as premissas e a sua
preocupação é a de saber se, de acordo com
o carácter necessário do sistema lógico, a
passagem das premissas à conclusão é
logicamente autorizada, sendo que é esta autoridade
lógica aquilo que determina a validade ou não da
conclusão; a segunda abre as premissas ao questionamento
e por isso não limita a lógica à
questão da validade da inferência proposicional,
mas contempla outros critérios relativos à
aceitabilidade das premissas, o que faz com que passemos do
plano da consideração formal para o campo da
consideração substancial. Neste caso, o mecanismo
lógico já não pode funcionar por si para
avaliar a conclusão, dado que esta pode ser rejeitada
por partir de premissas tidas como inaceitáveis. Ao
funcionamento mecânico e necessário das
relações lógicas formais alia-se agora o
chamado «pensamento crítico», ou seja,
questões de ordem sociológica, na medida em que a
aceitabilidade de dadas premissas remetem, em última
análise, para critérios de alguma forma
institucionalizados, seja por intermédio do senso comum,
seja por intermédio de comunidades de conhecimento, seja
através de instituições com poderes
arbitrais ou outros. O problema, aqui, é o de se manter
o nome de «lógica» (ainda que informal) para
designar a fonte de autoridade que subjaz aos processos de
avaliação3.
Mas, independentemente desta
última questão, e voltando ao conceito de
argumento na perspectiva da lógica, a
relação entre proposições que
funcionam como premissas e proposições que
funcionam como conclusão é o esquema prévio de
que se partirá para a análise das
argumentações. É ele que
condicionará, à partida, o seu modo de proceder e
de avaliar. Primeiro é preciso identificar os argumentos
através da aplicação do esquema
«premissas-conclusão» (ou seja, basicamente,
decompor um discurso em proposições que funcionam
como premissas e proposições que funcionam como
conclusão e proceder à sua
avaliação — ver se são falaciosas ou
não — quer do ponto de vista formal, quer do ponto
de vista informal, significando, neste caso, que se submetem as
premissas a uma bateria de «questões
críticas»4). O que acontece neste modo de proceder
é que a argumentação em que estão inseridos os raciocínios não é analisada enquanto tal,
mas apenas os seus argumentos e a partir de uma perspectiva
muito específica. Ou seja, de um ponto de vista
lógico a argumentação resume-se à
argumentatividade, isto é, à funcionalidade
argumentativa desempenhada pelos raciocínios pelo facto
destes encaminharem para uma conclusão5.
2. «Argumento» na perspectiva
da linguística
Quem desenvolveu também uma teoria
da argumentação, mas desta feita centrada na
língua, foram os linguísticas franceses Anscombre
e Ducrot. A bem dizer, deveríamos chamar à
perspectiva proposta por estes autores uma «teoria da
argumentatividade da língua», pois o tema da
argumentação não é aqui focalizado
em termos substantivos, mas em termos adjectivos.
De facto, nesta teoria, trata-se de
analisar o funcionamento argumentativo dos enunciados no
sistema da língua, de mostrar em que sentido se pode
dizer que os enunciados são argumentativos e não
de dizer em consiste uma argumentação. Mais
rigorosamente falando — e o gesto é idêntico
ao que anteriormente referimos quando abordámos a
perspectiva lógica de «argumento» —
trata-se de assumir que, podendo-se assinalar uma
funcionalidade argumentativa aos enunciados, ou seja, sendo
possível mostrar que um enunciado pode funcionar como
argumento para um outro, isso nos coloca na presença de
uma argumentação.
Diferentemente da perspectiva
lógica, em que a relação de suporte
é pensada em termos de raciocínio inferencial, na
abordagem linguística não se trata de ver uma
relação de suporte (no sentido de razões
que apoiam uma tese), mas encadeamentos de enunciados e de
palavras submetidos a nexos semânticos e
pragmáticos inerentes à própria
língua. É neste sentido que os autores da teoria
da argumentação na língua afirmam que
«o sentido de um enunciado comporta, como parte
integrante, constitutiva, esta forma de influência que
designamos por força argumentativa. Significar, para um
enunciado, é orientar. De forma que a língua, na
medida em que contribui em primeiro lugar para determinar o
sentido dos enunciados, é um dos locais privilegiados
onde se elabora a argumentação»6.
E como é que é detectada a
argumentação?
Vimos que, de um ponto de vista
lógico, a relação de suporte entre
premissas e conclusão era o esquema básico para
identificar os argumentos. Na perspectiva da
argumentação na língua (e nomeadamente na
sua fase teórica inicial), detectamos argumentos e,
co-extensivamente, uma argumentação, quando
estamos perante o seguinte esquema: «um enunciado E1 (ou
conjunto de enunciados) [funciona] como argumento que autoriza
um outro enunciado E2 explícito ou
implícito»7. Esta «autorização»
não é contudo de natureza lógica, mas
linguística. Assim, dizer «A imagem desta
televisão já está muito fraca» pode
servir de argumento para o enunciado «Temos de pensar em
arranjar outra televisão», mas dificilmente, e em
termos linguísticos, se encadearia com o enunciado
«Estamos servidos de televisão até ao fim
da vida». Ou seja, pela sua formulação
linguística um enunciado tanto orienta como descarta o
seu encadeamento com outros. A esta orientação,
que faz com que o sentido de certos enunciados resida na forma
como os enunciados autorizam ou desautorizam semântica e
pragmaticamente o seu encadeamento com outros enunciados,
chamaram os teorizadores da argumentação da
língua «argumentatividade», sendo a sua
concretização uma argumentação.
Assim, escrevem os autores: «é constituinte do sentido de um enunciado pretender orientar o seguimento do
diálogo. Dizer que o enunciado Quem é que chegou? é uma questão é dizer que ele
pretende obrigar o destinatário a responder. E dizer que
se pressupõe que alguém chegou quer dizer que se
pretende excluir das respostas possíveis uma
réplica como Mas não
chegou ninguém!»8.
Numa segunda fase (menos centrada nos
«operadores argumentativos» através dos
quais os enunciados são articulados entre si do que nos topoi), os autores
radicalizam ainda mais a sua análise e, em vez de se
centrarem na articulação entre enunciados,
verão na própria constituição de um
enunciado um «acto de argumentar». Assim, no
exemplo «Está bom tempo, vamos passear»,
mais do que ver dois enunciados, será preciso ver uma
unidade, uma vez que eles só fazem sentido, por um lado,
se funcionarem em conjunto e, por outro, porque ambos
estão ligados a um mesmo topoi, a saber, o que associa o bom tempo e passear.
Mas as objecções que
colocámos à perspectiva lógica voltam a
levantar-se aqui: ao vermos na argumentatividade da
língua o fenómeno da argumentação,
não acabamos por o deixar escapar? Será que a
argumentatividade da língua implica que toda a linguagem
seja argumentação? Pensamos que esta
extrapolação é indevida. O máximo
que se pode dizer é que o uso da língua, se
tivermos em consideração a perspectiva
linguística, tem uma componente argumentativa, mas uma
argumentação não se esgota nesta
componente, nem se tem que identificar com ela.
Tal como a perspectiva lógica
contribui para o estudo da argumentação mostrando
como o nível dos raciocínios é um aspecto
a considerar numa argumentação (tendo esta
perspectiva, além disso, a vantagem de colocar a
questão crítica da avaliação dos
argumentos), também a perspectiva linguística de
Anscombre e Ducrot nos mostra que na filigrana da língua
está presente a argumentatividade (ainda que não
haja espaço para questões críticas). Esta
abordagem explica, com efeito, «porque é que o
discurso impõe à actividade da
argumentação constrangimentos específicos,
que não encontram explicação nas
condições lógicas ou psicológicas
da demonstração»9. Mas,
reduzindo o estudo da argumentação a uma
perspectiva linguística e ao funcionamento da
língua, ela deixa por explicar aspectos como a
confrontação de posições
diferenciadas sobre um assunto em questão ou a forma
como os discursos interagem entre si. Esta
focalização, não na língua, mas no
discurso é, aliás, uma das características
da perspectiva retórica de «argumento» que
em seguida abordaremos. Antes, todavia, importa dizer que, tal
como acontece na perspectiva lógica, a perspectiva
linguística da argumentação não
apresenta uma teoria geral unificada mas, apenas um conceito
linguístico de «argumento» a partir da qual
falará de argumentação.
3. «Argumento» na perspectiva
retórica
O caso que mais parece afastar-se da
elaboração de uma teoria prévia de
«argumento» na abordagem da
argumentação é a perspectiva
retórica. E esta aparência reside no facto desta
eleger o «discurso» como o «local» por
excelência da argumentação. Aparentemente a
questão não será tanto a de definir
argumento para, a partir desta definição,
detectar a presença de argumentos no discurso mas, ao
contrário, de partir da ideia de que o discurso é
argumentativo e que, por o ser, comporta argumentos. Mas esta
inversão do modo de colocar as coisas — ou seja,
partir do discurso para os argumentos e não dos
argumentos para o discurso — coloca um novo problema
que é o da especificidade do discurso argumentativo. E,
perante este problema, a opção da perspectiva
retórica da argumentação consiste em
caracterizar o discurso argumentativo pela dimensão da
persuasão. Um discurso é argumentativo porque visa
persuadir10. Poderá ser mais explicitamente ou mais
vagamente argumentativo (o que leva, por exemplo, Amossy a
distinguir entre «dimensão argumentativa» e
«visada argumentativa») consoante seja mais ou
menos vincada, mais ou menos explícita, a sua
intencionalidade persuasiva. Desta assunção
decorre então a possibilidade de pensar como
«argumento» tudo aquilo que funciona no discurso
como forma de influir persuasivamente aqueles a quem o discurso
se dirige. Neste sentido, apelos à razão,
às emoções e à autoridade
são todos eles vistos como argumentos.
Se o paradigma lógico nos conduz a
uma proposicionalização dos usos da linguagem de
modo a neles podermos identificar argumentos e, portanto,
argumentações, se a o paradigma
linguístico nos conduz a uma semantização
dos enunciados como forma de detectarmos os tipos de
constrangimentos a que os enunciados se encontram
linguisticamente sujeitos em termos de orientação
e de sentido, o paradigma retórico, por seu lado,
convida-nos a ver nos discursos empreendimentos persuasivos com
mecanismos e estratégias próprias e a atribuir o
valor de argumento àquilo que no discurso se revela como
persuasivo, ou seja, em que se pode reconhecer uma força
de influência, seja esta da ordem do logos, do pathos ou do ethos.
A vantagem do modelo retórico no
estudo da argumentação é a de que ele
parte de uma característica do discurso (a
persuasão, a comunicação persuasiva) para
circunscrever o domínio da argumentação
sem aparentemente o fazer derivar de uma teoria prévia
do argumento. Mas uma análise mais cuidada mostra que,
de um ponto de vista retórico, um argumento é um
operador discursivo de persuasividade e é isso que
projecta o estudo da argumentação para o interior
de um âmbito mais amplo que é o da análise
do discurso11. Ora, tal como acontecia com as abordagens
lógica e linguística, a perspectiva
retórica não permite uma abordagem geral e
unificada da argumentação, situando o estudo
desta no contexto da análise do discurso e reconhecendo
que a omnipresença da persuasividade é um facto
da discursividade.
O problema aqui é que se pensa a
argumentação a partir do discurso e não o
discurso a partir da argumentação. Ora, sem essa
inversão será difícil autonomizar a teoria
da argumentação como um campo autónomo de
investigação. Se é certo que as
argumentações remetem para uma necessária
análise do discurso (ainda que não apenas na
perspectiva da persuasividade) — e que a leitura dos
discurso é aqui uma questão
de ouvido fundamental12 —
o facto é que a perspectiva retórica de
«argumento» fica agarrada a uma visão do
discurso proveniente da oratória, presa a uma imagem do
discurso como comunicação monogerida. Nesse
sentido, ela não coloca a tónica na
interacção — entendendo-se aqui por
interacção a dinâmica através da
qual os discursos interagem entre si a propósito de uma
questão — antes limita as questões de
argumentação ao tema da eficácia
persuasiva.
Para uma teoria geral da
argumentação
Na nossa perspectiva, o ponto de partida
de uma teoria geral e unificada da argumentação
deve partir da ideia de uma interacção
efectiva entre discursos,
sendo que é nessa interacção que podemos
encontrar uma base empírica — que não tem
de ficar agarrada à noção de
«texto» — para o estudo da
argumentação. No entanto, a
argumentação não é uma forma de
interacção discursiva qualquer, possuindo
características que a especificam. E que
características são essas?
Em primeiro lugar, o facto de se
polarizar num assunto, das intervenções dos
argumentadores se desenvolverem presumivelmente em torno de um
mesmo referente, no sentido em que Plantin fala de uma
«unidade intencional que organiza o campo das
intervenções e define o espaço
argumentativo. Globalmente, todos os acontecimentos
semióticos que ocorrem nesta situação
têm um valor argumentativo. (…) O facto
argumentativo á algo de muito complexo, que tem a sua
unidade da intenção global (o problema) que
organiza o campo do intercâmbio»13.
Em segundo lugar, o que caracteriza a
interacção argumentativa — uma
argumentação — é o facto de nela os
assuntos serem abordados sob o modo do «em
questão», ou seja, num estado de abertura que
possibilita problematizar aquilo que é apresentado como
evidente, o que significa «escutar os outros, integrar o
que se disse no seu próprio discurso, e assim combater o
ensimesmamento; e também duvidar, fazer a
experiência da incerteza, a qual ocorre quando nos parece
que os discursos antagonistas se equilibram»14.
Significam estas duas
características que deslocamos as questões da
argumentação de qualquer outro objectivo que
não seja interagir comunicativamente de modo a pôr
em questão modos de ver apresentados como evidentes, num
processo que não tem um fecho, no sentido em que a
autoridade a que se poderá recorrer para o fechar
resolutivamente esse processo não vem da força
dos argumentos mas, como diz Bourdieu, «chega à
linguagem a partir de fora»15. Uma explicação
sociológica da comunicação — a par
de outros níveis de análise — será,
neste caso, mais adequada para explicar o que é que faz
com que certos modos de ver tenham mais eficácia
persuasiva do que outros e em que base de autoridade certos
argumentos podem impor uma resolutividade16,
imposição que é, aliás,
incontornável quer na gestão dos processos
sociais, quer pelos próprios imperativos que a
acção repercute no pensamento, nas atitudes e nos
comportamentos17. Mas a questão da
qualificação das justificações como
discurso legítimo é uma coisa e o modo como se
desenham interactivamente as perspectivas dos intervenientes a
propósito de um assunto em questão é
outra.
Uma argumentação que
não seja eficaz em termos resolutivos ou que possa
não passar como legítima, não é
menos argumentação por isso18.
Não deixa de se focalizar num assunto em questão,
não deixa de confrontar perspectivas que são
modos possíveis de ver, não deixa originar a
co-construção de
«esquematizações»19 e
não deixa, finalmente, convocar argumentos ou recursos
temáticos que configuram o assunto em questão
(seja para abrir e reforçar perspectivas, seja para as
questionar).
Do ponto de vista de uma teoria geral da
argumentação, e se se quiser persistir na
pergunta: «o que é um argumento?»,
parece-nos que a melhor resposta a esta questão é
aquela que Willard dá quando afirma: «prefiro
evitar requisitos a priori para que o enunciado [argumento] seja
encontrado nas argumentações, excepto que os
argumentadores, tal como todos os comunicadores, empregam toda
a gama de modalidades comunicativas disponíveis, verbais
e não-verbais, explícitas e implícitas.
Por conseguinte, a teoria aqui defendida define argumento em
termos de encontros baseados na dissensão e encara
qualquer comunicação que dentro deles ocorre como
objecto de interesse epistémico e crítico.
Localiza os efeitos epistémicos do argumento no pacote
total e não simplesmente em implicaturas entre
frases»20.
Aquilo a que Willard chama «pacote
total», ou que Plantin designa como «unidade da
intenção global», corresponde à
ideia de «assunto em questão» que proponho
como objecto de estudo de uma teoria geral e autónoma da
argumentação (no sentido em que é sempre a
partir deste conceito que importa pensar e detectar o que funciona como argumento),
ou seja, dotada de uma especificidade própria e sem
estar dependente de uma conceptualidade importada de outros
campos de conhecimento já constituídos, sejam
eles os da lógica, os da linguística, os da
sociologia, os do direito ou os da retórica. O que
não significa, evidentemente, que a forma como em todos
esses campos são consideradas as incidências
argumentativas (ainda que não a
argumentação enquanto tal) não sejam de
mais valia para o desenvolvimento de um campo de estudo
autónomo da argumentação (isto é,
com uma conceptualidade e com metodologias descritivas e de
análise crítica próprias) mas,
naturalmente, aberto às fecundações inter
e transdisciplinares que o podem enriquecer.
Referências bibliográficas:
Amossy, Ruth,
2006, L’Argumentation dans
le discours, Paris, Armand Colin.
ANSCOMBRE, J-C., DUCROT, O., 1997, L’argumentation dans la langue, 3.ª Ed., Bruxelles, Pierre Mardaga Editeur.
BOURDIEU, Pierre, 1982, O que falar quer dizer, Lisboa, Difel.
COPI, Irving M., COHEN, C., 1994, Introduction to Logic, Macmillan Publising Company.
DUCROT, O., «Argumentation
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DOURY, M. e MOIRAND, S. (Org), 2004, L’Argumentation aujourd’hui. Positions
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Grize, J.-B.,
1996, Logique naturelle &
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LEE, R., LEE, K. K., 1989, Arguing Persuasively, New York/London, Longman.
LEPECKI, M. L., 2003, Uma questão de ouvido. Ensaios de
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PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988,
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Éd. de L’ Université de Bruxelles.
PLANTIN, Chr., 1995,
«L’argument du paralogisme», in Hermès,
15-16.
PLANTIN, Chr., 2003, «Pensar el
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WILLARD, C. A., 1983, Argumentation and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press.
Willard, C.
A., 1989, A Theory of
Argumentation, Tuscaloosa/London,
The University of Alabama Press.
Notas
1
Johnson, R.H. & Blair, J.A., 2005, Logical
Self-Defense, NY, Idebate
Press, p. 10.
2
COPI, Irving M., COHEN, C., 1994, Introduction
to Logic, Macmillan Publising
Company, p. 5.
3
Vão neste sentido as palavras de Willard:
«Advogarei que os estudiosos da
Argumentação usam falácia como um termo estrito da arte cuja fonte de
autoridade é a lógica e não um termo
abarcante para qualquer condenação que os
críticos possam querer fazer. Esta tese não
deriva da preferência de uma visão restrita sobre
uma visão alargada (argumentarei adiante que os recentes
modelos das falácias são apenas aparentemente
alargadas), mas da convicção de que falácia
é uma classificação inapropriada para
defeitos morais, processuais e relacionais. Estes defeitos
podem ser condenáveis, mas a classificação
falácia não identifica a autoridade que está
por detrás dessas condenações»
(Willard, C. A., 1989, A Theory
of Argumentation,
Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 220).
4 Imagine-se,
por exemplo, que uma das premissas de um raciocínio se
baseia é uma estatística. Exercer o
«pensamento crítico» significa submeter a
estatística a um conjunto de perguntas criticas como as
seguintes:
1. Foram os conceitos devidamente
medidos?
É de facto possível
medir e quantificar a tese?
É a medição
válida? Será que os instrumentos de medida medem
de facto o conceito em questão de uma forma rigorosa?
É a medição
fiável? Há consistência na
medição?
2. Foi a investigação
devidamente planeada?
Qual foi o plano e a metodologia
de estudo?
Qual é a dimensão da
amostra?
A amostra é representativa?
As unidades de
comparação são comparáveis?
3. Foram os resultados interpretados
adequadamente?
Há uma clara
relação entre a tese e os dados recolhidos?
Será que os resultados
são estatisticamente significantes?
Se a premissa tiver como base o
testemunho de um especialista, então as perguntas que
podem ser colocadas são as seguintes:
1. É a autoridade qualificada para
apresentar testemunho?
Tem a autoridade
formação formal no respectivo campo?
É a autoridade
considerada especialista no referido campo?
É a autoridade respeitada
pelos seus pares no seu campo?
2. É a autoridade capaz de
apresentar testemunho?
Será que a autoridade se
debruçou e investigou cuidadosamente o assunto?
Será que a autoridade tem
expectativas preconceituosas sobre o assunto?
É a autoridade uma pessoa
de bem e com bom carácter moral?
3. É o testemunho apresentado
consistente?
É a autoridade internamente
consistente? Haverá posições defendidas
anteriormente que contradigam a actual?
É a autoridade externamente
consistente? Será que outros especialistas concordam com
o testemunho apresentado?
(cf. LEE, R., LEE, K. K., 1989, Arguing Persuasively, New York/London, Longman, pp. 112 e ss).
5
A este propósito Plantin, apesar de reconhecer que a
teoria moderna dos paralogismos — característica
da abordagem lógica da argumentação
— tem o mérito de encaminhar o estudo da
argumentação para uma direcção
crítica, foca contudo quatro aspectos delicados de que
podem ser alvo os teóricos que colocam no seu centro de
atenção a teoria das falácias: é
uma visão reducionista (na medida em que privilegia o
critério lógico em detrimento dos contextos em
que a argumentação suspende a questão da
verdade), conduz a uma visão atomizada do discurso (na
medida em que procede à sua reconstrução
em termos de proposições isoladas do ambiente da
argumentação), implica colocar fora do jogo o
árbitro que determina algo como falacioso e, como
consequência dos pontos anteriores, acaba por eliminar o
uso natural da linguagem (que deve sofrer uma
depuração para poder ser abordada segundo o
critério lógico) Cf. PLANTIN, Chr., 1995,
«L’argument du paralogisme», in Hermès,
15-16, pp. 241-258.
6
ANSCOMBRE, J-C., DUCROT, O., 1997, L’argumentation dans la langue, 3.ª Ed., Bruxelles, Pierre Mardaga Editeur, p. 5.
7 Idem
Ibidem, p. 11.
8 Idem
ibidem, p. 20
9
Idem ibidem., p. 5. Ducrot advoga aliás, noutro local,
que «a argumentação linguística
não tem nenhuma relação directa com a
argumentação retórica» (DUCROT, O.,
«Argumentation rhétorique et argumentation
linguistique» in DOURY, M. e MOIRAND, S. (Org), 2004, L’Argumentation aujourd’hui.
Positions théoriques en confrontation, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle, p. 17).
10 Esta é a ideia que alimenta toda a obra de
Perelman, nomeadamente no seu Traité. (Cf. PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA,
L.,1988, Traité de
l’argumentation, Bruxelles,
Éd. de L’ Université de Bruxelles).
11 É assim que Amossy escreve que a
argumentação é «um ramo da
análise do discurso» (Amossy, Ruth, 2006, L’Argumentation
dans le discours, Paris, Armand
Colin, p. 246).
12 Glosamos aqui uma expressão de Lepecki. Cf.
LEPECKI, M. L., 2003, Uma
questão de ouvido. Ensaios de retórica e de
interpretação literária, Lisboa, D. Quixote.
13 PLANTIN, Chr., 2003, «Pensar el debate»,
Signos 37 55, Valparaiso, Chili, Universidad Católica
de Valparaiso, 121-129.
14 Cf. Idem ibidem.
15 BOURDIEU, Pierre, 1982, O que falar quer dizer,
Lisboa, Difel, p. 95.
16 Observa Bourdieu: «o juiz pode dizer
‘condeno-o’ porque existe um conjunto de agentes e
de instituições que garantem que a sua
sentença será executada» (BOURDIEU, Pierre,
1982, O que falar quer dizer, Lisboa, Difel, p. 66).
17 E aqui a questão é que se
teoricamente podemos praticar a suspensão do
juízo, já na prática toda e qualquer
suspensão não deixa de ser ela mesma uma
prática.
18 Willard refere mesmo que a
argumentação é sinonima da presença
de posições incompatíveis, ou seja,
é «uma forma de interacção na qual
duas ou mais pessoas mantêm que aquilo que constroem
são posições incompatíveis» (Willard, C. A.,
1989, A Theory of Argumentation, Tuscaloosa/London, The University of Alabama
Press, p. 1.).
19 No sentido que Grize atribui a esta palavra. Cf. Grize, J.-B., 1996,
Logique naturelle &
communications, Paris, P.U.F. e Grize, J.-B., 1997,
Logique et langage, Paris, Ed. Ophrys).
20 Idem ibidem, 8. Note-se que, segundo esta proposta,
o argumentativo não se restringe ao verbal, mas é
abordado num nível ainda mais elevado que é o da
comunicação e o da perspectivação.
É neste sentido que escreve também que «o
constructo de ordem mais elevada para propósitos
epistémicos [no estudo da argumentação]
é ‘comunicação’ e a sua
noção imediatamente subordinada é
‘perspectividade» (WILLARD, C. A., 1983, Argumentation and the Social Grounds of
Knowledge
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