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Rui Grácio

O que são «argumentos»? Para além da perspectiva lógica, linguística e retórica.


É uma convicção muito generalizada, até pela sua aparente linearidade, a ideia de que onde há argumentos, há uma argumentação. Mas, na realidade, se em termos práticos e didácticos esta noção se revela funcional, já em termos teóricos e, nomeadamente, no campo da teoria da argumentação, ela revela-se como muito problemática.
Dois dos pontos dessa problematicidade são os seguintes: por um lado, uma tal ideia parte do pressuposto de que a boa maneira de detectar uma argumentação é a presença de argumentos, o que remete desde logo para a questão da definição de «argumento», ou seja, leva a perspectivar a argumentação a partir de uma teoria prévia de argumento. Por outro lado, e neste movimento de focalização que tende a assinalar a existência de uma argumentação a partir da existência de argumentos, é a própria argumentação que fica desprovida de uma teorização geral e unitária.
Com efeito, aquilo que se passa é que este tipo de abordagem ou estratégia teórica procura apresentar a noção de «argumento» de acordo com as incidências específicas que o exemplificam num determinado campo de estudo e de análise, escapando-lhe, todavia, a dimensão geral do fenómeno. Vejam-se, a este respeito três exemplos — o da lógica, o da linguística e o da retórica — em que o sentido de «argumento», sendo embora muito diferente, tem em comum o acabar por impossibilitar uma teoria geral e unificada da argumentação.

1. «Argumento» na perspectiva lógica
De um ponto de vista lógico chama-se «argumento» a «uma tese e a um ou mais conjunto de razões oferecidas por alguém para suportar a tese»1. Ou, segundo outros autores, «um argumento, no sentido lógico, é um grupo de proposições das quais uma é afirmada como decorrendo das outras, que são vistas como fornecendo suporte ou bases para a sua verdade»2.
Nestas duas definições a questão fundamental é a questão do «suporte», ou seja, a da relação entre premissas e conclusão. E é este micro-esquema inferencial que põe numa relação de suporte o nexo entre premissas e conclusão que caracteriza a abordagem lógica da argumentação, seja esta apelidada de lógica formal ou de lógica informal. No primeiro caso a relação de suporte será analisada do ponto de vista da validade inferencial, independentemente do conteúdo das proposições (e válida significa, aqui, conclusão verdadeira). No segundo caso, para além do plano formal, considera-se também o plano informal, significando isso que da argumentação faz não apenas parte a questão da validade, mas também a questão da aceitabilidade, da relevância e da suficiência das premissas.
Na verdade, a grande diferença entre estas duas vias lógicas é que a primeira toma como «dadas» as premissas e a sua preocupação é a de saber se, de acordo com o carácter necessário do sistema lógico, a passagem das premissas à conclusão é logicamente autorizada, sendo que é esta autoridade lógica aquilo que determina a validade ou não da conclusão; a segunda abre as premissas ao questionamento e por isso não limita a lógica à questão da validade da inferência proposicional, mas contempla outros critérios relativos à aceitabilidade das premissas, o que faz com que passemos do plano da consideração formal para o campo da consideração substancial. Neste caso, o mecanismo lógico já não pode funcionar por si para avaliar a conclusão, dado que esta pode ser rejeitada por partir de premissas tidas como inaceitáveis. Ao funcionamento mecânico e necessário das relações lógicas formais alia-se agora o chamado «pensamento crítico», ou seja, questões de ordem sociológica, na medida em que a aceitabilidade de dadas premissas remetem, em última análise, para critérios de alguma forma institucionalizados, seja por intermédio do senso comum, seja por intermédio de comunidades de conhecimento, seja através de instituições com poderes arbitrais ou outros. O problema, aqui, é o de se manter o nome de «lógica» (ainda que informal) para designar a fonte de autoridade que subjaz aos processos de avaliação3.
Mas, independentemente desta última questão, e voltando ao conceito de argumento na perspectiva da lógica, a relação entre proposições que funcionam como premissas e proposições que funcionam como conclusão é o esquema prévio de que se partirá para a análise das argumentações. É ele que condicionará, à partida, o seu modo de proceder e de avaliar. Primeiro é preciso identificar os argumentos através da aplicação do esquema «premissas-conclusão» (ou seja, basicamente, decompor um discurso em proposições que funcionam como premissas e proposições que funcionam como conclusão e proceder à sua avaliação — ver se são falaciosas ou não — quer do ponto de vista formal, quer do ponto de vista informal, significando, neste caso, que se submetem as premissas a uma bateria de «questões críticas»4). O que acontece neste modo de proceder é que a argumentação em que estão inseridos os raciocínios não é analisada enquanto tal, mas apenas os seus argumentos e a partir de uma perspectiva muito específica. Ou seja, de um ponto de vista lógico a argumentação resume-se à argumentatividade, isto é, à funcionalidade argumentativa desempenhada pelos raciocínios pelo facto destes encaminharem para uma conclusão5.
2. «Argumento» na perspectiva da linguística
Quem desenvolveu também uma teoria da argumentação, mas desta feita centrada na língua, foram os linguísticas franceses Anscombre e Ducrot. A bem dizer, deveríamos chamar à perspectiva proposta por estes autores uma «teoria da argumentatividade da língua», pois o tema da argumentação não é aqui focalizado em termos substantivos, mas em termos adjectivos.
De facto, nesta teoria, trata-se de analisar o funcionamento argumentativo dos enunciados no sistema da língua, de mostrar em que sentido se pode dizer que os enunciados são argumentativos e não de dizer em consiste uma argumentação. Mais rigorosamente falando — e o gesto é idêntico ao que anteriormente referimos quando abordámos a perspectiva lógica de «argumento» — trata-se de assumir que, podendo-se assinalar uma funcionalidade argumentativa aos enunciados, ou seja, sendo possível mostrar que um enunciado pode funcionar como argumento para um outro, isso nos coloca na presença de uma argumentação.
Diferentemente da perspectiva lógica, em que a relação de suporte é pensada em termos de raciocínio inferencial, na abordagem linguística não se trata de ver uma relação de suporte (no sentido de razões que apoiam uma tese), mas encadeamentos de enunciados e de palavras submetidos a nexos semânticos e pragmáticos inerentes à própria língua. É neste sentido que os autores da teoria da argumentação na língua afirmam que «o sentido de um enunciado comporta, como parte integrante, constitutiva, esta forma de influência que designamos por força argumentativa. Significar, para um enunciado, é orientar. De forma que a língua, na medida em que contribui em primeiro lugar para determinar o sentido dos enunciados, é um dos locais privilegiados onde se elabora a argumentação»6.
E como é que é detectada a argumentação?
Vimos que, de um ponto de vista lógico, a relação de suporte entre premissas e conclusão era o esquema básico para identificar os argumentos. Na perspectiva da argumentação na língua (e nomeadamente na sua fase teórica inicial), detectamos argumentos e, co-extensivamente, uma argumentação, quando estamos perante o seguinte esquema: «um enunciado E1 (ou conjunto de enunciados) [funciona] como argumento que autoriza um outro enunciado E2 explícito ou implícito»7. Esta «autorização» não é contudo de natureza lógica, mas linguística. Assim, dizer «A imagem desta televisão já está muito fraca» pode servir de argumento para o enunciado «Temos de pensar em arranjar outra televisão», mas dificilmente, e em termos linguísticos, se encadearia com o enunciado «Estamos servidos de televisão até ao fim da vida». Ou seja, pela sua formulação linguística um enunciado tanto orienta como descarta o seu encadeamento com outros. A esta orientação, que faz com que o sentido de certos enunciados resida na forma como os enunciados autorizam ou desautorizam semântica e pragmaticamente o seu encadeamento com outros enunciados, chamaram os teorizadores da argumentação da língua «argumentatividade», sendo a sua concretização uma argumentação. Assim, escrevem os autores: «é constituinte do sentido de um enunciado pretender orientar o seguimento do diálogo. Dizer que o enunciado Quem é que chegou? é uma questão é dizer que ele pretende obrigar o destinatário a responder. E dizer que se pressupõe que alguém chegou quer dizer que se pretende excluir das respostas possíveis uma réplica como Mas não chegou ninguém!»8.
Numa segunda fase (menos centrada nos «operadores argumentativos» através dos quais os enunciados são articulados entre si do que nos topoi), os autores radicalizam ainda mais a sua análise e, em vez de se centrarem na articulação entre enunciados, verão na própria constituição de um enunciado um «acto de argumentar». Assim, no exemplo «Está bom tempo, vamos passear», mais do que ver dois enunciados, será preciso ver uma unidade, uma vez que eles só fazem sentido, por um lado, se funcionarem em conjunto e, por outro, porque ambos estão ligados a um mesmo topoi, a saber, o que associa o bom tempo e passear.
Mas as objecções que colocámos à perspectiva lógica voltam a levantar-se aqui: ao vermos na argumentatividade da língua o fenómeno da argumentação, não acabamos por o deixar escapar? Será que a argumentatividade da língua implica que toda a linguagem seja argumentação? Pensamos que esta extrapolação é indevida. O máximo que se pode dizer é que o uso da língua, se tivermos em consideração a perspectiva linguística, tem uma componente argumentativa, mas uma argumentação não se esgota nesta componente, nem se tem que identificar com ela.
Tal como a perspectiva lógica contribui para o estudo da argumentação mostrando como o nível dos raciocínios é um aspecto a considerar numa argumentação (tendo esta perspectiva, além disso, a vantagem de colocar a questão crítica da avaliação dos argumentos), também a perspectiva linguística de Anscombre e Ducrot nos mostra que na filigrana da língua está presente a argumentatividade (ainda que não haja espaço para questões críticas). Esta abordagem explica, com efeito, «porque é que o discurso impõe à actividade da argumentação constrangimentos específicos, que não encontram explicação nas condições lógicas ou psicológicas da demonstração»9. Mas, reduzindo o estudo da argumentação a uma perspectiva linguística e ao funcionamento da língua, ela deixa por explicar aspectos como a confrontação de posições diferenciadas sobre um assunto em questão ou a forma como os discursos interagem entre si. Esta focalização, não na língua, mas no discurso é, aliás, uma das características da perspectiva retórica de «argumento» que em seguida abordaremos. Antes, todavia, importa dizer que, tal como acontece na perspectiva lógica, a perspectiva linguística da argumentação não apresenta uma teoria geral unificada mas, apenas um conceito linguístico de «argumento» a partir da qual falará de argumentação.

3. «Argumento» na perspectiva retórica
O caso que mais parece afastar-se da elaboração de uma teoria prévia de «argumento» na abordagem da argumentação é a perspectiva retórica. E esta aparência reside no facto desta eleger o «discurso» como o «local» por excelência da argumentação. Aparentemente a questão não será tanto a de definir argumento para, a partir desta definição, detectar a presença de argumentos no discurso mas, ao contrário, de partir da ideia de que o discurso é argumentativo e que, por o ser, comporta argumentos. Mas esta inversão do modo de colocar as coisas — ou seja, partir do discurso para os argumentos e não dos argumentos para o discurso — coloca um novo problema que é o da especificidade do discurso argumentativo. E, perante este problema, a opção da perspectiva retórica da argumentação consiste em caracterizar o discurso argumentativo pela dimensão da persuasão. Um discurso é argumentativo porque visa persuadir10. Poderá ser mais explicitamente ou mais vagamente argumentativo (o que leva, por exemplo, Amossy a distinguir entre «dimensão argumentativa» e «visada argumentativa») consoante seja mais ou menos vincada, mais ou menos explícita, a sua intencionalidade persuasiva. Desta assunção decorre então a possibilidade de pensar como «argumento» tudo aquilo que funciona no discurso como forma de influir persuasivamente aqueles a quem o discurso se dirige. Neste sentido, apelos à razão, às emoções e à autoridade são todos eles vistos como argumentos.
Se o paradigma lógico nos conduz a uma proposicionalização dos usos da linguagem de modo a neles podermos identificar argumentos e, portanto, argumentações, se a o paradigma linguístico nos conduz a uma semantização dos enunciados como forma de detectarmos os tipos de constrangimentos a que os enunciados se encontram linguisticamente sujeitos em termos de orientação e de sentido, o paradigma retórico, por seu lado, convida-nos a ver nos discursos empreendimentos persuasivos com mecanismos e estratégias próprias e a atribuir o valor de argumento àquilo que no discurso se revela como persuasivo, ou seja, em que se pode reconhecer uma força de influência, seja esta da ordem do logos, do pathos ou do ethos.
A vantagem do modelo retórico no estudo da argumentação é a de que ele parte de uma característica do discurso (a persuasão, a comunicação persuasiva) para circunscrever o domínio da argumentação sem aparentemente o fazer derivar de uma teoria prévia do argumento. Mas uma análise mais cuidada mostra que, de um ponto de vista retórico, um argumento é um operador discursivo de persuasividade e é isso que projecta o estudo da argumentação para o interior de um âmbito mais amplo que é o da análise do discurso11. Ora, tal como acontecia com as abordagens lógica e linguística, a perspectiva retórica não permite uma abordagem geral e unificada da argumentação, situando o estudo desta no contexto da análise do discurso e reconhecendo que a omnipresença da persuasividade é um facto da discursividade.
O problema aqui é que se pensa a argumentação a partir do discurso e não o discurso a partir da argumentação. Ora, sem essa inversão será difícil autonomizar a teoria da argumentação como um campo autónomo de investigação. Se é certo que as argumentações remetem para uma necessária análise do discurso (ainda que não apenas na perspectiva da persuasividade) — e que a leitura dos discurso é aqui uma questão de ouvido fundamental12 — o facto é que a perspectiva retórica de «argumento» fica agarrada a uma visão do discurso proveniente da oratória, presa a uma imagem do discurso como comunicação monogerida. Nesse sentido, ela não coloca a tónica na interacção — entendendo-se aqui por interacção a dinâmica através da qual os discursos interagem entre si a propósito de uma questão — antes limita as questões de argumentação ao tema da eficácia persuasiva.

Para uma teoria geral da argumentação
Na nossa perspectiva, o ponto de partida de uma teoria geral e unificada da argumentação deve partir da ideia de uma interacção efectiva entre discursos, sendo que é nessa interacção que podemos encontrar uma base empírica — que não tem de ficar agarrada à noção de «texto» — para o estudo da argumentação. No entanto, a argumentação não é uma forma de interacção discursiva qualquer, possuindo características que a especificam. E que características são essas?
Em primeiro lugar, o facto de se polarizar num assunto, das intervenções dos argumentadores se desenvolverem presumivelmente em torno de um mesmo referente, no sentido em que Plantin fala de uma «unidade intencional que organiza o campo das intervenções e define o espaço argumentativo. Globalmente, todos os acontecimentos semióticos que ocorrem nesta situação têm um valor argumentativo. (…) O facto argumentativo á algo de muito complexo, que tem a sua unidade da intenção global (o problema) que organiza o campo do intercâmbio»13.
Em segundo lugar, o que caracteriza a interacção argumentativa — uma argumentação — é o facto de nela os assuntos serem abordados sob o modo do «em questão», ou seja, num estado de abertura que possibilita problematizar aquilo que é apresentado como evidente, o que significa «escutar os outros, integrar o que se disse no seu próprio discurso, e assim combater o ensimesmamento; e também duvidar, fazer a experiência da incerteza, a qual ocorre quando nos parece que os discursos antagonistas se equilibram»14.
Significam estas duas características que deslocamos as questões da argumentação de qualquer outro objectivo que não seja interagir comunicativamente de modo a pôr em questão modos de ver apresentados como evidentes, num processo que não tem um fecho, no sentido em que a autoridade a que se poderá recorrer para o fechar resolutivamente esse processo não vem da força dos argumentos mas, como diz Bourdieu, «chega à linguagem a partir de fora»15. Uma explicação sociológica da comunicação — a par de outros níveis de análise — será, neste caso, mais adequada para explicar o que é que faz com que certos modos de ver tenham mais eficácia persuasiva do que outros e em que base de autoridade certos argumentos podem impor uma resolutividade16, imposição que é, aliás, incontornável quer na gestão dos processos sociais, quer pelos próprios imperativos que a acção repercute no pensamento, nas atitudes e nos comportamentos17. Mas a questão da qualificação das justificações como discurso legítimo é uma coisa e o modo como se desenham interactivamente as perspectivas dos intervenientes a propósito de um assunto em questão é outra.
Uma argumentação que não seja eficaz em termos resolutivos ou que possa não passar como legítima, não é menos argumentação por isso18. Não deixa de se focalizar num assunto em questão, não deixa de confrontar perspectivas que são modos possíveis de ver, não deixa originar a co-construção de «esquematizações»19 e não deixa, finalmente, convocar argumentos ou recursos temáticos que configuram o assunto em questão (seja para abrir e reforçar perspectivas, seja para as questionar).
Do ponto de vista de uma teoria geral da argumentação, e se se quiser persistir na pergunta: «o que é um argumento?», parece-nos que a melhor resposta a esta questão é aquela que Willard dá quando afirma: «prefiro evitar requisitos a priori para que o enunciado [argumento] seja encontrado nas argumentações, excepto que os argumentadores, tal como todos os comunicadores, empregam toda a gama de modalidades comunicativas disponíveis, verbais e não-verbais, explícitas e implícitas. Por conseguinte, a teoria aqui defendida define argumento em termos de encontros baseados na dissensão e encara qualquer comunicação que dentro deles ocorre como objecto de interesse epistémico e crítico. Localiza os efeitos epistémicos do argumento no pacote total e não simplesmente em implicaturas entre frases»20.
Aquilo a que Willard chama «pacote total», ou que Plantin designa como «unidade da intenção global», corresponde à ideia de «assunto em questão» que proponho como objecto de estudo de uma teoria geral e autónoma da argumentação (no sentido em que é sempre a partir deste conceito que importa pensar e detectar o que funciona como argumento), ou seja, dotada de uma especificidade própria e sem estar dependente de uma conceptualidade importada de outros campos de conhecimento já constituídos, sejam eles os da lógica, os da linguística, os da sociologia, os do direito ou os da retórica. O que não significa, evidentemente, que a forma como em todos esses campos são consideradas as incidências argumentativas (ainda que não a argumentação enquanto tal) não sejam de mais valia para o desenvolvimento de um campo de estudo autónomo da argumentação (isto é, com uma conceptualidade e com metodologias descritivas e de análise crítica próprias)  mas, naturalmente, aberto às fecundações inter e transdisciplinares que o podem enriquecer.



Referências bibliográficas:
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Willard, C. A., 1989, A Theory of Argumentation, Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press.


Notas
1 Johnson, R.H. & Blair, J.A., 2005, Logical Self-Defense, NY, Idebate Press, p. 10.
2 COPI, Irving M., COHEN, C., 1994, Introduction to Logic, Macmillan Publising Company, p. 5.
3 Vão neste sentido as palavras de Willard: «Advogarei que os estudiosos da Argumentação usam falácia como um termo estrito da arte cuja fonte de autoridade é a lógica e não um termo abarcante para qualquer condenação que os críticos possam querer fazer. Esta tese não deriva da preferência de uma visão restrita sobre uma visão alargada (argumentarei adiante que os recentes modelos das falácias são apenas aparentemente alargadas), mas da convicção de que falácia é uma classificação inapropriada para defeitos morais, processuais e relacionais. Estes defeitos podem ser condenáveis, mas a classificação falácia não identifica a autoridade que está por detrás dessas condenações»  (Willard, C. A., 1989, A Theory of Argumentation, Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 220).
4 Imagine-se, por exemplo, que uma das premissas de um raciocínio se baseia é uma estatística. Exercer o «pensamento crítico» significa submeter a estatística a um conjunto de perguntas criticas como as seguintes:
1. Foram os conceitos devidamente medidos?
• É de facto possível medir e quantificar a tese?
• É a medição válida? Será que os instrumentos de medida medem de facto o conceito em questão de uma forma rigorosa?
• É a medição fiável? Há consistência na medição?
2. Foi a investigação devidamente planeada?
• Qual foi o plano e a metodologia de estudo?
• Qual é a dimensão da amostra?
• A amostra é representativa?
• As unidades de comparação são comparáveis?
3. Foram os resultados interpretados adequadamente?
• Há uma clara relação entre a tese e os dados recolhidos?
• Será que os resultados são estatisticamente significantes?
Se a premissa tiver como base o testemunho de um especialista, então as perguntas que podem ser colocadas são as seguintes:
1. É a autoridade qualificada para apresentar testemunho?
•  Tem a autoridade formação formal no respectivo campo?
•  É a autoridade considerada especialista no referido campo?
• É a autoridade respeitada pelos seus pares no seu campo?
2. É a autoridade capaz de apresentar testemunho?
• Será que a autoridade se debruçou e investigou cuidadosamente o assunto?
• Será que a autoridade tem expectativas preconceituosas sobre o assunto?
• É a autoridade uma pessoa de bem e com bom carácter moral?
3. É o testemunho apresentado consistente?
• É a autoridade internamente consistente? Haverá posições defendidas anteriormente que contradigam a actual?
• É a autoridade externamente consistente? Será que outros especialistas concordam com o testemunho apresentado?
(cf. LEE, R., LEE, K. K., 1989, Arguing Persuasively, New York/London, Longman, pp. 112 e ss).
5 A este propósito Plantin, apesar de reconhecer que a teoria moderna dos paralogismos — característica da abordagem lógica da argumentação — tem o mérito de encaminhar o estudo da argumentação para uma direcção crítica, foca contudo quatro aspectos delicados de que podem ser alvo os teóricos que colocam no seu centro de atenção a teoria das falácias: é uma visão reducionista (na medida em que privilegia o critério lógico em detrimento dos contextos em que a argumentação suspende a questão da verdade), conduz a uma visão atomizada do discurso (na medida em que procede à sua reconstrução em termos de proposições isoladas do ambiente da argumentação), implica colocar fora do jogo o árbitro que determina algo como falacioso e, como consequência dos pontos anteriores, acaba por eliminar o uso natural da linguagem (que deve sofrer uma depuração para poder ser abordada segundo o critério lógico) Cf. PLANTIN, Chr., 1995, «L’argument du paralogisme», in Hermès, 15-16, pp. 241-258.
6 ANSCOMBRE, J-C., DUCROT, O., 1997, L’argumentation dans la langue, 3.ª Ed., Bruxelles, Pierre Mardaga Editeur, p. 5.
7 Idem Ibidem, p. 11.
8 Idem ibidem, p. 20
9 Idem ibidem., p. 5. Ducrot advoga aliás, noutro local, que «a argumentação linguística não tem nenhuma relação directa com a argumentação retórica» (DUCROT, O., «Argumentation rhétorique et argumentation linguistique» in DOURY, M. e MOIRAND, S. (Org), 2004, L’Argumentation aujourd’hui. Positions théoriques en confrontation, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle, p. 17).
10 Esta é a ideia que alimenta toda a obra de Perelman, nomeadamente no seu Traité. (Cf. PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988, Traité de l’argumentation, Bruxelles, Éd. de L’ Université de Bruxelles).
11 É assim que Amossy escreve que a argumentação é «um ramo da análise do discurso» (Amossy, Ruth, 2006, L’Argumentation dans le discours, Paris, Armand Colin, p. 246).
12 Glosamos aqui uma expressão de Lepecki. Cf. LEPECKI, M. L., 2003, Uma questão de ouvido. Ensaios de retórica e de interpretação literária, Lisboa, D. Quixote.
13 PLANTIN, Chr., 2003, «Pensar el debate», Signos 37 55, Valparaiso, Chili, Universidad Católica de Valparaiso, 121-129.
14 Cf. Idem ibidem.
15 BOURDIEU, Pierre, 1982, O que falar quer dizer, Lisboa, Difel, p. 95.
16 Observa Bourdieu: «o juiz pode dizer ‘condeno-o’ porque existe um conjunto de agentes e de instituições que garantem que a sua sentença será executada» (BOURDIEU, Pierre, 1982, O que falar quer dizer, Lisboa, Difel, p. 66).
17 E aqui a questão é que se teoricamente podemos praticar a suspensão do juízo, já na prática toda e qualquer suspensão não deixa de ser ela mesma uma prática.
18 Willard refere mesmo que a argumentação é sinonima da presença de posições incompatíveis, ou seja, é «uma forma de interacção na qual duas ou mais pessoas mantêm que aquilo que constroem são posições incompatíveis» (Willard, C. A., 1989, A Theory of Argumentation, Tuscaloosa/London, The University of Alabama Press, p. 1.).
19 No sentido que Grize atribui a esta palavra. Cf. Grize, J.-B., 1996, Logique naturelle & communications, Paris, P.U.F. e Grize, J.-B., 1997, Logique et langage, Paris, Ed. Ophrys).
20 Idem ibidem, 8. Note-se que, segundo esta proposta, o argumentativo não se restringe ao verbal, mas é abordado num nível ainda mais elevado que é o da comunicação e o da perspectivação. É neste sentido que escreve também que «o constructo de ordem mais elevada para propósitos epistémicos [no estudo da argumentação] é ‘comunicação’ e a sua noção imediatamente subordinada é ‘perspectividade» (WILLARD, C. A., 1983, Argumentation and the Social Grounds of Knowledge