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Rui Grácio
O que é uma teoria geral da
argumentação?
Em homenagem a Chaïm Perelman
A ideia de uma teoria geral da
argumentação representa uma tentativa de proceder
a balanceamento entre uma abordagem generalizada da
argumentatividade e uma abordagem restritiva da
argumentação.
As abordagens generalizadas da
argumentação partem da ideia de que, de uma ou de
outra forma, todos argumentamos. O que é surpreendente
neste pressuposto é a própria necessidade de o
afirmar, como se esta evidência não fosse assim
tão evidente e como se fosse imperativo reiterar esta
ideia de que a perspectividade é inerente a todo
pensamento e a qualquer a prática discursiva. No
entanto, há razões filosóficas que
permitem perceber a insistência: trata-se de,
através da afirmação de uma tal
evidência, projectar uma nova imagem que suceda à
ainda activa imagem metafísica do pensamento que nos
habituou a ver a verdade sobre o signo da unicidade e a
racionalidade à luz de uma razão eterna.
Quando se fala em Pereleman como um dos
refundadores da teoria da argumentação,
esquece-se, com demasiada frequência e leveza, o pano de
fundo filosófico — e neste, em particular, a
questão da racionalidade — a partir da qual a nova
retórica encontra o seu sentido mais profundo: a
construção de uma filosofia do razoável
baseada numa imagem social da argumentação. Nesta
imagem social da argumentação, ressaltam
três valores fundamentais: a liberdade, a não
violência e a justiça. Não é por
acaso que é com a articulação entre
argumentação e liberdade que o parágrafo
final do Traité conclui: «Apenas a existência de
uma argumentação, que não seja nem
constrangedora nem arbitrária, confere um sentido
à liberdade humana, condição de
exercício da escolha razoável». Não
é por acaso que reiteradamente Perelman refere a
relação de exclusão entre
argumentação e violência: «O recurso
à argumentação supõe o
estabelecimento de uma comunidade de espíritos que,
enquanto dura, exclui o uso da violência»1.
Não é por acaso que sua tematização
da argumentação como discurso persuasivo
não se refere à persuasão enquanto forma
geral de influência, mas a uma das suas modalidades
específicas: a da persuasão por assentimento:
«Querer persuadir um auditor significa, antes de mais,
reconhecer-lhe as capacidades e as qualidades de um ser com o
qual a comunicação é possível e, em
seguida, renunciar a dar-lhe ordens que exprimam uma simples
relação de força e procurar ganhar a sua
adesão intelectual»2. Muitos terão lido nesta adesão
intelectual uma desvalorização do papel das
emoções na argumentação. No entanto
Perelman não as exclui do campo da persuasão
argumentativa: ««Identificando esta [nova
retórica] com o discurso persuasivo, que visa ganhar
adesão, tanto intelectual como emotiva, de um
auditório, seja ele qual for, afirmamos que todo o
discurso que não aspira a uma validade impessoal depende
da retórica. Desde que uma comunicação
tenda a influenciar uma ou mais pessoas, a orientar os seus
pensamentos, a excitar ou a apaziguar as emoções,
a dirigir uma acção, ela é do
domínio da retórica»3. A
questão não é a distinção
entre o intelectual e o emotivo. O ponto é a
síntese prática que estas dimensões
repercutem do assentimento e na dimensão de
razoabilidade e de não violência física
que, por ele, é trazida às relações
interpessoais.
A nova retórica traz-nos, assim,
antes de mais, uma imagem social da argumentação
em que a razão deve ser posta ao serviço da
coexistência pacífica entre indivíduos numa
sociedade democrática. A sua teoria da
argumentação exemplifica as práticas da
racionalidade argumentativa numa sociedade onde as
questões da razão se resolvem, em termos
práticos, em função da força
retórica dos discursos. Perder de vista esta moldura
filosófica no qual é desenvolvida a teoria
perelmaniana da argumentação e procurar encontrar
na sua obra uma ideia disciplinar de argumentação
significa descontextualizar o seu pensamento, leva a procurar
na sua obra respostas para questões que ele não
coloca e permite um criticismo tão fácil —
frequentemente baseado naquilo que o filósofo ignorou,
mais do que naquilo em que inovou — quanto confuso e
duvidoso.
É certo que com a
projecção que procurou dar à sua imagem
social da argumentação, Perelman delimitou um
novo domínio de estudos ou, para parafrasear o
título de uma das suas obras, «o campo da
argumentação». Uma
delimitação filosófica — insista-se
— mas ainda não disciplinar. Com efeito, o campo
da argumentação é o espelho de uma
determinada imagem social do pensamento em
oposição a uma imagem matemática e
mecânica do mesmo. O seu esforço de
delimitação é aliás patente na sua
necessidade de afirmar o campo da argumentação
por uma oposição específica, a saber, a
demonstração e o seu ideal de inferencialidade
necessária. De mostrar, por diferenciação,
que as práticas discursivas correntes estão
ligadas a contingências e variabilidades
sociológicas incontornáveis (de que o
imaginário colectivo — aquele que permite
idealizar um auditório universal — é um
exemplo), por níveis de problematicidade e de
conflitualidade diversos que põem em marcha a
argumentação e cuja resolução
prática, ou seja, segundo os constrangimentos temporais
e a premência do tempo útil, se acaba por resolver
como persuasão.
Tenho defendido que mais do que uma teoria
da argumentação, aquilo que encontramos na obra
de Perelman é uma teoria da persuasão
argumentativa directamente associada à imagem social do
pensamento como razoabilidade. Neste sentido, o fôlego
filosófico deste pensador adapta-se mais a dizer que com
a sua obra estamos perante uma delimitação
da argumentação como campo, mas não da
organização do estudo da
argumentação enquanto domínio disciplinar.
Os seus trabalhos visam sobretudo a afirmar a
incontornabilidade da argumentação em todo o
pensamento que não releva do impessoal (ou seja, do
raciocínio formal e abstractamente considerado e, mesmo
quanto a este, é ainda preciso ver como é
construído) e colocar a razão sob o signo do
império retórico.
Percebe-se que, no contexto das suas
heranças filosóficas — de
contestação da visão redutora e acanhada
da ideia de racionalidade proveniente de Descartes e da
emergência das democracias no contexto do
pós-guerras—, Perelman se empenhasse em afirmar
que as questões da racionalidade devem ser pensadas a
partir de uma base prática que mostra a
argumentatividade e a retoricidade como a forma de
movimentação incontornável de todo o
pensamento.
Em Perelman encontramos pois, uma
abordagem generalizada da argumentação, toda ela
norteada pela afirmação de uma renovada imagem
social da mesma.
Outros autores, como Ancombre e Ducrot e
Jean-Blaise Grize, desenvolvem abordagens similares, mas com
incidências diferentes. Os primeiros procuram mostrar que
o funcionamento da língua é argumentativo e, no
desenvolvimento da teoria da argumentação da
língua em termos de «blocos
semânticos», Ducrot e Marion Carel radicalizam esta
posição mostrando que a
argumentação linguística é algo de
radicalmente diferente da argumentação
retórica e que aquilo que é separado por esta
última em termos de enunciados que funcionam como
premissas e enunciados que funcionam como conclusões
é uma ilusão do ponto de vista do logos. A este
desmembramento opõem os autores um funcionamento
linguístico em bloco na própria
construção dos enunciados: é na sua
própria construção linguística e na
articulação das palavras que formam as
proposições que é dada, à partida e
em bloco, aquilo que depois poderá ser apresentado como
um movimento de raciocínio que vai de premissas para
conclusões. Mas esta divisão dos enunciados entre
pontos de partida e pontos de chegada, em que se estriba a
própria ideia de inferencialidade lógica,
não é senão uma aparência, um modo
parasita que em última análise releva do
linguístico e da sua inerente argumentatividade.
A imagem da argumentação que
Ducrot e Marion Carel nos oferecem não é, por
conseguinte, uma imagem social da argumentação,
mas uma imagem linguística da mesma. O que nela é
ponto de destaque é a ideia de que, porquanto somos
sujeitos aos constrangimentos argumentativos da língua
que orientam para determinadas continuações e
desviam de outras, não há discursos
argumentativamente neutros. Falar, e independentemente da
vontade do enunciador, é sempre, de um ou de outro modo,
argumentar. A argumentatividade surge assim como uma
espécie de plâncton linguístico sem o qual
nenhum discurso se pode formar.
Tal como a teoria da
argumentação da língua nos confronta, a
partir de uma perspectiva linguística, com a
incontornabilidade do argumentativo, também da
perspectiva de Grize e da lógica natural, se pode falar
de uma «omnipresença do argumentativo» mas,
desta feita, ao nível da própria
comunicação. A ideia base de Grize, quanto a esta
«omnipresença do argumentativo» é a
de que a selectividade é a operatividade fundamental dos
processos da «mise em scéne» discursiva.
É ela que associa as operações do
pensamento ao discurso em língua natural, de que
resultam as «esquematizações»4. A
lógica natural consiste, precisamente, no estudo dessas
operações. Depois de uma imagem social e de uma
imagem linguista, estamos agora perante uma imagem discursiva e
comunicacional da argumentação.
Às perspectivas teóricas
referidas é comum o ensejo de mostrar como a
argumentatividade é incontornável, e cada uma
tematiza esta tese do seu modo. Não encontramos,
todavia, nestes autores uma imagem interactiva e dialogal da
argumentação. No fundo, as suas teorias assumem
que argumentar é um facto e procuram explicar porque
é que isso é um facto, seja a partir da uma
imagem social, de uma imagem linguística ou de uma
imagem discursiva da mesma.
Mas, perguntamos, bastará afirmar o
operatividade argumentativa como forma de teorizar a
argumentação? Bastará isso para
circunscrever a argumentação como algo de
específico? Ou será que com isso não
acabamos por diluir na argumentatividade, num «tudo
argumentativo», a ideia de argumentação?
Este é, a meu ver, o lado mais problemático
daquilo que designei como abordagens generalizadas da
argumentação. Preferem a ideia de
argumentatividade à ideia de argumentar enquanto
fenómeno específico e com características
próprias. Basta-lhe o dialogismo da linguagem, a
afirmação de que todo o discurso é
solidário de perspectivações, que é
uma forma de influência, para estabelecer uma
sinonímia entre a argumentatividade e
argumentação.
Trata-se, a meu ver, de uma
concepção que enferma de uma dose de idealismo
considerável, na medida em que se centra no pensamento
ou no discurso mas sempre submetendo-o à idealidade do
sentido e às suas possibilidades de
interpretação e não na materialidade da
interacção concreta relativamente à qual
leitura e interacção se remetem reciprocamente:
lê-se em função da interacção
e interage-se em função da leitura ou, dito de
outra maneira, argumenta-se em função da
argumentatividade do outro e com argumentos para um outro com o
qual se estabeleceu uma relação circunstanciada
de problematicidade relativamente a um assunto em
questão.
Outros teorizadores da
argumentação seguiram uma via diferente. Em vez
de partirem da ideia de que a argumentatividade é
incontornável, procuraram teorizar a
argumentação a partir de uma teoria do argumento.
A diferença entre esta visão e as anteriormente
referidas não está na ideia de que «todos
argumentam», mas sim na procura da especificidade do que
é argumentar. E, para os teorizadores que seguiram esta
segunda via, o evidente é que argumentar é usar
argumentos. A teoria da argumentação deve, assim,
começar por uma teoria do argumento.
A ideia de Toulmin segundo a qual podemos
estabelecer um padrão de análise das
argumentações parte da ideia de que a
argumentação obedece a uma estrutura
básica quer a permite reconhecer. Neste sentido,
distingue o uso instrumental da linguagem do uso argumentativo
da mesma. O que caracteriza o uso argumentativo é que
nela há enunciados que funcionam como teses e enunciados
que funcionam como argumentos de suporte. A
ligação, ou passagem entre ambos remete para uma
regra a que Toulmin chama «garantia». A garantia
remete para o modo de argumentar e pode ser credibilizada
através de reforços. Temos assim, com Toulmin, um
conceito de argumentação essencialmente ligada
à ideia de «apresentação de
razões» e um modelo que pode ser sintetizado como
sendo o modelo das teses, razões e garantias sujeitas a
reforço.
Não é pois a partir de uma
ideia generalizada de argumentatividade que a
argumentação é pensada, mas a partir de
uma teoria prévia que define o que é um argumento
como uma operatividade específica, a saber, a da
apresentação de razões de suporte para as
teses. Ora esta maneira de encarar a
argumentação a partir de uma teoria prévia
de argumento é, a nosso ver, uma forma restringida de
teorizar a mesma. Alguns estudiosos observaram que este esquema
até se aplica quando nos situamos num micro-nível
de análise, mas que ela se torna muito
problemático quando se trabalha a um nível mais
complexo. O problema de fundo, neste esquema, é o da
redução dos enunciados a
proposições com o valor de tese e de enunciados
com o valor de argumentos. Ainda que o padrão de
argumentação proposto por Toulmin se revele como
uma forma de encarar o raciocínio fora dos
padrões necessitários da análise
lógica, o facto é que ele tende a centrar o
núcleo das argumentações no
raciocínio (ainda que o reforço abra para uma
dimensão retórica). Reduzir as questões de
argumentação a questões de
raciocínio, mesmo que informalmente considerado
é, segundo nós, reduzir o espectro das
perspectivas que está inerente a todo o
raciocínio. Analisar um raciocínio sem o
retroferir à perspectiva que lhe confere sentido
é amputar a argumentação de uma das suas
dimensões fundamentais. Nesse sentido, se o
mérito de se partir de uma teoria de argumento para o
estudo da argumentação é, por um lado, o
de se fornecer um instrumento de análise das
argumentações, por outro, pensamos que a unidade
«raciocínio» se torna muito redutora, na
medida em que nas argumentações, para além
dos raciocínios, está sempre em jogo muito do que
isso.
O problema que se nos colocou foi,
então, o de saber se entre a afirmação do
panargumentativismo que tudo toma por
argumentações apenas porque aí se encontra
uma operatividade selectiva que orienta de determinado modo,
mas que torna essencialmente as análises das
argumentações numa tarefa de hermenêutica
textual, e uma perspectiva que querendo proporcionar uma
ferramenta de análise, acaba por reduzir as
questões de argumentação a questões
de raciocínio, não poderia ser concebida uma
unidade de estudo que balanceasse estes dois extremos e,
simultaneamente, acolhesse a imagem interactiva e dialogal do
argumentar como seu ponto de partida. O conceito que para este
fim me ocorreu foi o conceito de «assunto em
questão».
Com ele procurei dar resposta à
articulação entre forma argumentativa e
matéria da argumentação, entre a forma e o
fundo. Se há elementos formais numa
argumentação, esses elementos são, por um
lado, o assunto e os movimentos da sua
configuração e, por outro, o «em
questão», ou seja, a sua abordagem em
função da problematicidade da
interacção que o leva a focalizar como
«assunto em questão». A emergência
de uma argumentação começa quando se
faz de um assunto algo sobre o qual vale a pena argumentar,
significando este passo que ele é abordado pelos
interlocutores sob o modo do «em questão».
Ao processo de configuração
dos assuntos dou o nome de tematização, tendo
esta a ver com os recursos e os considerandos tidos por
relevantes trazidos à interlocução e
à estruturação do assunto. Mas, pensada a
partir da interacção dialogal, esta
tematização é sempre fruto de uma
co-construção, tal como é
função dessa co-construção que
certos dados surjam com o valor de argumentos no contexto da
interacção. Também segundo esta abordagem,
podemos deixar de olhar para os argumentos em termos de
razão, coisa aliás muitas vezes insignificante do
ponto de vista do desenvolvimento dos assuntos, e
percebê-los como elementos que inflectem os modos de
abordar o que está em causa, que abrem e fecham
direcções, que permitem desenvolvimentos e
reajustamentos constantes na modulação do
assunto, que trazem informação relevante
inesperada, que sofrem reviravoltas e que são alvo de
aprofundamentos, finuras e focalizações diversas.
Mas, sobretudo, a ideia da abordagem da
argumentação em termos de assuntos em
questão faculta uma generalidade suficiente para que,
por um lado, sem nos afastarmos da dimensão corrente das
interacções verbais, mais do que
generalizadamente, as focalizarmos com uma especificidade
própria — a co-construção de
assuntos sobre os quais vale a pena argumentar — e, por
outro, sem as diluir no uso da linguagem, não lhes impor
uma formatação que acaba por se afastar das
práticas argumentativas reais em que a seriedade alterna
com o humor, a sinceridade com a ironia, as dúvidas com
as certezas, o respeito com a insolência, as
continuidades com as descontinuidades, as questões de
fundo com os dizeres do momento, os pontos de vista inovadores
com os clichés, os ritmos mais acelerados e competitivos
com períodos mais cooperativos, as metáforas e as
analogias com paragens de clarificação
interpretativa e explicativa que se vira para a literalidade, a
contundência das provas com a sua
consideração em quadros mais alargados de
relevância, as enfatizações valorativas com
a relatividade das avaliações, o peso do
institucional com a discutibilidade da autoridade, o acentuar
de visadas persuasivas com as trocas argumentativas
supostamente desinteressadas, o clamar por razão com as
acusações de injustiça, os reforços
retóricos com a dimensão quase lógica das
cadeias de raciocínio, os rumos da
tematização com as resistências
às orientações da
colocação das questões, os acordos por
convencimento com a persistência de dissensões, os
turnos de palavra com a gestão dos momentos das
intervenções, a partilha de pressupostos com a
guerra surda dos implícitos, a disponibilidade para
ouvir com o diálogo de surdos, a
concentração no assunto com a sua
degenerescência, os movimentos conclusivos com a
persistência das interrogações, o cuidado
na construção da imagem de si com a força
do discurso, a envolvência comunicacional com a
condução para determinados desfechos, as
perspectivas com os raciocínios, a
construção do discurso com os estreitamentos
focais dos assuntos, os progressos com os retrocessos, os
apelos emotivos com as considerações pessoais, as
referências metadiscursivas com o controlo na forma de
passar as mensagens, a delimitação das
questões possíveis com as
restrições subjacentes — enfim, tudo aquilo
que, tendo em conta o assunto no contexto de uma
interacção específica, permite captar a
forma como o seu «em questão» é
desenhado no quadro da sua efectiva dinâmica interactiva.
Não se trata, segundo esta teoria
geral centrada na categoria de «assunto em
questão», de ver como é possível
interpretar e analisar os discursos das partes
independentemente uma da outra, mas, ao contrário, de
perceber como é que a co-construção
do «em questão» é levado a cabo
através das derivas temáticas que configuram o
assunto sobre o qual os argumentadores se polarizam por sobre
ele considerarem que vale a pena «fazer
questão» e argumentar. Ou seja, a leitura e a
interacção não podem, no estudo da
argumentação, ser dissociadas da forma como nesta
elas funcionam circunstanciadamente uma para a outra. Por outro
lado, há que perceber que, mais do que um suposto poder
da linguagem, a focalização e a
concentração através das quais as
configurações dos assuntos são trazidas a
primeiro plano é aquilo que se revela como
verdadeiramente impactante de um ponto de vista da
modulação das imagens do real e da sua
valorização, em termos de quadro de
referência, em função dos quais importa
conduzir o pensamento na interacção.
Na prática argumentativa a leitura
é sempre diagnóstica quanto ao rumo que a
abordagem do assunto em questão poderá estar, ou
poderá vir, a tomar, e a interacção
é sempre um retribuir estratégico que não
subscreve sem «mas» a orientação que
vai sendo desenhada, as inferências que vão sendo
desenvolvidas, as associações e as
dissociações com que se vai hierarquizando e
valorizando o que é trazido à conversa. Deste
modo, depois da delimitação e da
valorização do campo da
argumentação, talvez seja possível aceder
a uma fase disciplinar da teoria da argumentação
com um objecto de estudo próprio, com um núcleo
problemático característico e com tarefas
descritivas específicas.
Notas:
1
PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988, Traité de l’argumentation, Bruxelles, Éd.
de L’ Université de Bruxelles, p. 73.
2
PERELMAN, Ch., 1987, «Argumentação»
in Enciclopédia Enaudi, vol 11., I.N.C.M., Lisboa.
3
PERELMAN, Ch., 1977, L’empire
rhétorique - Rhétorique et Argumentation, Paris, J. Vrin, p. 192.
4
Poderíamos dizer, citando Manuel António Pina,
«com que palavras e sem quer palavras».
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