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Tradução
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Rui Grácio
(Tradução do texto de
Chaïm Perelman publicado originariamente na Revue Internationale de Philosophie, nº 93-94, 1970, fasc. 3-4, pp. 623-628.)
Méthodologie scientifique et
philosophie ouvert
in Caderno de
Filosofias, nº 3/4 (dedicado
ao tema Filosofia/Ciências:
Intersecções),
Coimbra, 1991, pp. 7-15.
O primeiro quartel do século vinte
foi, para todos aqueles cuja reflexão filosófica
se inspira nas ciências formais e naturais, o da perda
das evidências e dos absolutos. Os paradoxos da
lógica, a teoria da relatividade e a dos quanta, a
radioactividade e os seus prolongamentos, as
relações de indeterminação de
Heisenberg, abalaram profundamente a confiança dos
cientistas na imagem do universo e da razão que parecia
impor-se nos finais do século XIX.
Foi preciso algum tempo para que a
revolução científica tivesse encontrado
uma ressonância adequada na teoria do conhecimento. O
convencionalismo de Henri Poincaré, o formalismo de
Hilbert e o intuicionismo platonizante dum Frege ou de um
Husserl, não podiam fornecer uma teoria adequada ao
processo científico, pois que nenhum deles dava conta da
maneira como as ciências evoluem e progridem, integrando
numa nova formulação aquilo que merece ser
conservado dos antigos resultados. Só depois da segunda
metade deste século é que uma visão mais
rica, mais completa da actividade científica tende a
impor-se na nossa cultura, visão essa que coloca no
centro das suas preocupações, não os
resultados dos processos científicos,
formulados sob a forma de proposições, mas este
próprio processo no concreto da sua
evolução, tendo em conta, bem mais do que
anteriormente, as suas dimensões sociais e
históricas. Os trabalhos de M. Polanyi, de N. R. Hanson,
de Th. S. Kuhn e de J. Ziman, põem todos eles o acento
na actividade do cientista como membro da comunidade
científica, nas relações desta com o clima
de opinião cultural e filosófica na qual ela
banha e exerce a sua acção.
Toda esta renovação da
metodologia científica é em grande medida o
resultado da influência contínua e profunda
exercida pela revista Dialectica e, mais particularmente, pelo
seu promotor Ferdinand Gonseth.
Este, permanece para mim, como para muitos
dos meus contemporâneos, o homem dos Encontros de
Zurique, o animador que, durante perto de vinte anos, aquando
de reuniões periódicas, suscitou e alimentou um
diálogo permanente sobre a metodologia científica
e as suas repercussões filosóficas. Participaram
neste diálogo cientistas vindos de todas as disciplinas,
lógicos e filósofos de todas as tendências
mas cujo traço comum era o de não terem por
negligenciável o contributo das ciências para a
filosofia.
Ferdinand Gonseth foi também, desde
que o encontrei nos Encontros de Lund em 1947, o interlocutor
sonhado, para o qual toda a ocasião — uma
refeição em conjunto, um passeio ao longo do
lago, uma travessia de barco — era uma ocasião
propícia para debater os mais variados problemas que se
põem a um conhecimento que se quer eficaz, e
portanto idóneo, adaptado ao seu fim, ao seu horizonte
de realidade.
As suas perspectivas que podiam parecer
ainda muito contestáveis — e foram ainda rudemente
contestadas por altura do colóquio organizado em 1953,
em Bruxelas, sobre a teoria da prova — parecem ter-se
tornado hoje um lugar comum da opinião tanto
científica como filosófica. As ciências
não podem ser compreendidas se não se vir nelas
uma actividade, um emprendimento da cidade científica
dirigido para uma acção eficaz. Elas não
podem, pois, reduzir-se a um conjunto de
proposições sistematicamente ligadas, o que
só forneceria um momento estático da sua
evolução, fundado numa intuição ou
num formalismo. Uma análise puramente formal ou
estrutural só pode dar conta de um aspecto da actividade
científica, pois negligenciaria aquilo que há de
criador, de inventivo, no contributo dos cientistas mais
eminentes. Gonseth insistiu fortemente no compromisso pessoal
dos cientistas mais originais, no facto de que as perspectivas
que eles apresentam, as suas hipóteses e os seus
métodos, constituem opções que se trata de
fazer valer para uma acção eficaz.
Desde Platão, a reflexão
filosófica inspirou-se largamente na metodologia das
ciências. A tradição que remonta a
Descartes procurou mesmo transformar todos os problemas
filosóficos em problemas científicos,
preconizando um método que seria o da ciência
unitária, tomando por modelo as ciências mais
avançadas, tais como as matemáticas ou a
física. Ferdinand Gonseth, adoptando perspectivas menos
reducionistas, queria, no fim de contas, continuar esta
tradição, mas a partir da metodologia aberta, que
seria a da investigação científica
concreta, correctamente analisada. Com efeito, é assim
que compreendo a tomada de posição formulada por
Gonseth no seu itinerário filosófico:
"Na escolha de um modelo recto de
investigação, a pluralidade dos sistemas
filosóficos pesa fortemente na balança. Se todos
aspiram à verdade sem reserva, não poderá
haver mais do que um que não esteja errado. Talvez
não haja até nenhum, mas se existe um, nada, no
método que lhes é comum (isto é, no
desenvolvimento de um discurso rigoroso), tem, por
princípio, a capacidade de o designar" .
O texto acima citado recorda estranhamente
esta passagem que encontramos na segunda das "Regras para
a direcção do Espírito" de Descartes:
"... sempre que, sobre um mesmo
assunto, dois deles [cientistas] são de
opinião diferente, é certo que pelo menos um dos
dois se engana; e parece até que nenhum deles possui a
ciência: porque, se as razões de um fossem certas
e evidentes, ele poderia expô-las ao outro de tal maneira
que acabaria por convencê-lo também" .
A afirmação de Descartes
justifica-se perfeitamente quando se trata da ciência
fundada sobre a evidência. Mas que pensar da
reacção de Gonseth perante a pluralidade dos
sistemas filosóficos tal como ela se exprime algumas
páginas à frente na mesma exposição:
"Para mim o escândalo era a
pluralidade discordante de sistemas visando à plena
certeza; a via da justiça (e da
conciliação dos sistemas contraditórios)
só poderia ser a da investigação,
constituindo um saber em devir, atravessando e desatando, pouco
a pouco, as situações de crise que ela não
podia deixar de suscitar" .
A esperança de Gonseth era,
graças a uma metodologia aberta, conduzir à
unidade a pluralidade dos sistemas filosóficos. Para
alcançar isso bastaria, parece, inspirar-se no modelo
fornecido pela investigação científica.
Mas esta esperança só seria ilusória se a
filosofia, tendo um objecto diferente do das ciências,
não pudesse encontrar nestas um modelo adequado ao seu
propósito. A filosofia visa unicamente a conhecer o real
ou esforça-se por elaborar uma ontologia capaz de guiar
a acção? Se esta última
concepção devesse ser adoptada não haveria
lugar para proclamar o escândalo, mas antes para tomar em
conta o facto inegável, o da pluralidade de
filosofias irredutíveis. Se a metodologia aberta
é abertura à experiência — e nisso
há que felicitá-la — ela não pode
negligenciar a experiência de um pluralismo
filosófico irredutível, pelo menos enquanto este
pluralismo escandaloso não tiver sido reabsorvido de
acordo com os intentos dos filósofos que têm,
também eles, o direito de invocar a tecnicidade da sua
própria disciplina.
Porquê proclamar o escândalo
perante a pluralidade dos sistemas filosóficos se
achamos normal a pluralidade dos sistemas jurídicos?
É que se assimila, a meu ver de forma abusiva, a
actividade filosófica a uma actividade científica
que tem por objecto a procura da verdade fundada na
experiência. Mas a actividade filosófica
não é exclusivamente de ordem teórica, ela
é tanto busca de uma sabedoria como busca de um saber e
a ontologia que o filósofo elabora fornece-nos um
real filosófico que hierarquiza os aspectos do real de
tal modo que a visão do filósofo nos fornece
não só um conhecimento teórico como,
também, razões para agir.
Ora, na perspectiva do raciocínio
prático, os factos e as verdades não constituem,
por si só, razões para agir: é preciso
referirem-se, para justificar a acção, a
categorias tais como o útil, o justo, o oportuno, o
razoável, o obrigatório. A seu respeito nada
garante, como no caso das verdades controladas pela
experiência, a unicidade da solução
idónea. Pode-se perguntar — e apenas uma
experiência técnica informada, tal como a do
moralista, do jurista ou do politólogo, poderia
ajudar-nos a encontrar a resposta — se o
raciocínio prático é capaz de nos fornecer
a solução válida para os problemas
da acção humana, ou se ele se limita a descartar
as soluções que não seriam
razoáveis ou adaptadas ao problema, sem garantir a
unicidade da resposta idónea. O recurso ao
princípio da tecnicidade, que se impõe em todos
os domínios e não apenas no da
investigação científica, permitirá,
em última análise, julgar da idoneidade do modelo
científico para uma filosofia que não se reduz a
uma investigação de natureza puramente
teórica.
A experiência jurídica e as
soluções para os problemas práticos
propostos pelos juristas podem, tanto como as ciências,
fornecer um modelo a uma filosofia que se elabora sob o signo
da abertura à experiência .
Poucas situações contribuiram
tanto para modificar as teorias jurídicas como os
acontecimentos fora do normal que conduziram ao processo de
Nuremberga . A impossibilidade de deixar impunes os crimes
cometidos pela Alemanha hitleriana e a ausência de uma
lei positiva, para este efeito, obrigaram os juristas a
conceber duas soluções igualmente
contrárias ao positivismo jurídico, a mais
difundida doutrina na primeira metade deste século:
era preciso ou promulgar uma lei retroactiva, violando um
princípio essencial do direito penal positivista
"nullum crimen sine lege" ou considerar que os
responsáveis desses delitos violaram os
princípios gerais de direito, comuns a toda a humanidade
civilizada, mas que não estavam concretizados nos textos
de direito positivo. Foi esta segunda solução que
prevaleceu, contribuindo, por isso mesmo, para um renascimento,
senão da doutrina tradicional do direito natural, pelo
menos para o de uma concepção mais
flexível que integra, na ordem jurídica positiva,
os princípios gerais do direito.
O processo de Nuremberga e os ensinamentos
que dele a doutrina retirou fornecem um exemplo perfeito da
maneira como a experiência jurídica incita a
modificar os princípios do direito, exemplo que
poderá ser utilmente meditado pelo filósofo. Ele
ensina-nos que a aposta na eficácia apresenta-se de uma
forma bastante diferente segundo se trata de decidir de um
plano de acção ou se se trata de conhecer. No
primeiro caso, a eficácia não é
função das previsões correctas mas julgada
essencialmente segundo a apreciação das
consequências.
Os princípios e as máximas
elaboradas pela filosofia moral são ordinariamente
directivas muito gerais (p. ex.: deve-se procurar o bem e
evitar o mal, deve-se escolher a acção mais
útil para a maioria, deve-se agir por respeito a uma
máxima que possamos querer tornar uma lei de uma
legislação universal) e que por si
próprias não bastam nunca para prescrever uma
acção particular: é preciso
concretizá-las para as poder aplicar numa
situação determinada. A decisão tomada
não resultará de uma conformidade à
experiência, passada ou futura, mas de um juízo
que compara e hierarquiza valores incompatíveis.
É essa a razão pela qual uma filosofia
prática que nos deve orientar na acção
não pode decalcar a sua metodologia sobre a das
ciências. Frequentemente o direito fornecerá um
modelo mais aceitável para o moralista, ainda que muitas
vezes as razões que justificaram uma decisão em
direito — preocupações relativas à
segurança jurídica ou à
obrigação de restabelecer a paz judiciária
— possam não prevalecer quando se tratar de um
problema moral .
O princípio de tecnicidade, bem
entendido, opõe-se à escolha de um modelo
único considerado a priori como o mais adequado a
todas as disciplinas. Ele exige que se reconheça a
especificidade de cada uma, que se tome em
consideração as suas preocupações e
que todo o modelo importado de um outro domínio
só seja considerado como uma hipótese cuja
adequação ao fim pretendido o técnico
terá que apreciar.
Antes de elaborar uma metodologia adaptada
a uma disciplina determinada, um estudo empírico e
analítico detalhado dos métodos que forneceram as
soluções aceitáveis no passado
impedirá que se voltem a colocar de uma forma simplista
os problemas que se põem aos que se ocupam com uma outra
disciplina considerada como modelo.
É assim que, levando a sério
os princípios da filosofia aberta, se aceitará
que o princípio da tecnicidade vale para cada disciplina
e que não basta aplicá-lo apenas aos
matemáticos e físicos. Nesta
condição, a metodologia idoneísta
encontrará, para além da
investigação científica propriamente dita,
um fecundo campo de aplicação nas ciências
humanas, em direito e em filosofia.
As reticências que Ferdinand Gonseth
manifesta, no final do seu itinerário filosófico,
fazem-me ter esperança que ele pudesse aceitar o
alargamento metodológico sugerido em conclusão.
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