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Rui Grácio
Interpretação,
análise do discurso e argumentação
O pressuposto de que parto na
teorização da argumentação é
o da interacção, atribuindo a esta um sentido bem preciso: por
um lado, considero que uma interacção, do ponto
de vista de uma argumentação, implica não
apenas a existência de um discurso, mas a
existência de, pelo menos, um discurso e de um
contra-discurso polarizados numa questão comum. Se
quisermos objectivar empiricamente uma
argumentação, diremos que ela implica, no
mínimo, três turnos de palavra: o primeiro fazendo
surgir uma perspectiva, o segundo fazendo surgir outra
perspectiva tendo em conta a perspectiva apresentada e o
terceiro remetendo para a constatação de que
existe uma não coincidência no modo de ver o
assunto abordado e transformando-o num assunto que vale a pena
abordar como questão — sobre o qual vale a pena
argumentar.
Deste modo, afasto-me da ideia comum
segundo a qual a mera existência de um discurso
monogerido é desde logo uma argumentação.
Existe justamente o termo «discurso» para o
designar e ele é mais adequado do que o termo
«argumentação». E é mais
adequado porque não nos lança na ambiguidade que
constantemente se regista entre argumentatividade e uma
argumentação, entre argumentar e
argumentação. Com efeito, podemos dizer que todo
o discurso argumenta, que todo o discurso é mais ou
menos argumentativo. Mas, assim pensando, tendemos a reduzir
uma argumentação à argumentatividade do
discurso, susceptível, é certo, de uma
análise em termos de estratégia persuasiva, mas
incapaz de se focalizar na interacção1. A
análise do discurso é importante como meio de interpretar o
discurso e pode-nos dar um discernimento que é
importante do ponto de vista da forma como com ele podemos
interagir. Mas nenhuma análise do discurso, enquanto
análise e interpretação, pode decidir pelo
argumentador o modo deste interagir com um discurso. E,
todavia, é esse modo de interagir com o discurso
através da produção de um contra-discurso
que é verdadeiramente o epicentro da arte da
argumentação, a competência que
verdadeiramente interessa a quem encara o estudo da
argumentação de um ponto de vista prático
e aplicado. E essa é, a meu ver, uma razão
adicional para que o estudo da argumentação
— que é sempre algo de diferente da ideia e da
prática comuns sobre o que seja «argumentar»
— se foque na interacção, tal como acima a
referi, e não nas questões da interpretação do discurso e da análise das estratégias persuasivas.
Porque, repito, o cerne do estudo teórico da
argumentação é o da
interacção entre discursos que de algum modo
colidem numa questão cujo interesse partilhado faz com
que valha a pena abordá-la como assunto em
questão.
Deste modo, dois requisitos são
necessários para que uma interacção verbal
se torne numa argumentação: por um lado é
preciso que ela se polarize num assunto — sendo os
assuntos, na minha perspectiva, a unidade mínima do
estudo da argumentação (e esta é uma
condição necessária, mas não
suficiente) — e, por outro lado, é preciso fazer
que aquilo que se revela como problemático não
só se converta num assunto como, ainda, num assunto
susceptível de ser abordado no modo do «em
questão», ou seja, aberto à
problematização.
Penso que muitos teorizadores da
argumentação foram sensíveis a este ponto
quando se preocupam em descrever os movimentos ou as
assunções que geram uma
argumentação. Assim, para Charles Arthur Willard
qualquer argumentação assenta nas seguintes
assunções metadiscursivas:
«Um argumento é um encontro
social construído sobre as seguintes mínimas: eu
assumo que nós discordamos; eu assumo que tu assumes que
nós discordamos; eu assumo que estou a argumentar e que
tu concordas que eu estou a argumentar; tu assumes que
estás a argumentar e que eu concordo que estás a
argumentar. Estas são assumpções
metadiscursivas que são independentes do assunto em
causa»2.
Note-se que, nesta passagem, encontramos a
ideia de que a presença da dissensão é
essencial para vermos uma comunicação como
argumentação, não sendo contudo posta de
lado a ideia de que esta dissensão se polariza num
assunto em questão.
Por seu lado, van Eemeren e Rob
Grootendorst, propõem um modelo descritivo em que
são distinguidas quatro fases como constitutivas de uma
argumentação. São elas a fase da
confrontação, a fase da abertura, a fase da
argumentação e a fase do fecho. Para os nossos
propósitos importa realçar as duas primeiras: uma
argumentação pressupõe a existência
de um confronto, ou seja, a existência de dois discursos
que entre si conflituam (e o que acima designámos como
discurso e contra-discurso procurando, justamente, espelhar
esta dimensão de confronto, designa, sobretudo,
papéis de actuação dos intervenientes numa
argumentação que, como tal, podem ser
permutáveis e ocupados por cada um dos participantes.
É assim que, segundo Plantin, se pode dizer que quem tem
a iniciativa do discurso é o «Proponente» e
que quem a este responde em termos de desacordo é o
«Opositor», havendo ainda que considerar, como
terceiro pólo de actuação, a
«Questão»). Em segundo lugar é a
constatação deste conflito que instaura o
espaço da argumentação, ou seja, é
ele que o abre, no sentido da focalização do
assunto em questão relativamente ao qual, reconhecido
que vale a pena argumentar, os argumentadores
apresentarão os seus argumentos um ao outro e cada um para o outro.
É isso que preenche a fase da argumentação
propriamente dita e que, segundo a perspectiva normativa da
pragma-dialéctica, com a qual, neste ponto
específico, não concordo, deve culminar num
fecho, ou seja, deve conduzir a uma resolução do
conflito.
Um pequeno parêntesis para dizer
porque é que não concordo: a fase do fecho alia
argumentação e decisão, levando a pensar
que se podem derivar as decisões da força dos
argumentos e da sua razoabilidade. Mas uma coisa é falar
da argumentação que coloca perspectivas em
confronto, outra é falar de decisões pensando que
a sua fonte de legitimidade são os argumentos. Decide
quem pode e não são todos que estão nessa
posição de poder. No entanto, nas sociedades em
que é reconhecido o direito à livre
expressão de opiniões, argumenta quem quer e quem
acha que vale a pena fazê-lo, mesmo que do ponto de vista
dos efeitos práticos e em termos de objectivos concretos
tal atitude se possa revelar perfeitamente inócua. Por
outro lado, nas questões de argumentação,
há uma dose de criatividade que pode ser posta em
acção: pode sempre propor-se modos de ver que
suscitem interesse, enquanto o fecho de uma
argumentação remete sempre para o reconhecimento
do poder. Que chamemos a este poder «razão»,
«verdade», razoabilidade», que evoquemos
«campos de conhecimento» como as ciências da
natureza, o direito ou outros saberes institucionalizados ou,
finalmente, que evoquemos estatutos e quadros institucionais, a
resolutividade de uma argumentação não
é uma questão de argumentação mas
remete, de uma forma mais ampla, para as dinâmicas
sociológicas através das quais os discursos se
tornam palavra de ordem e discursos legítimos
(Bourdieu). Porque, as questões de
argumentação incidem, como já referi, na
abordagem de assuntos em questão, abertos à
problematização, e não na
colocação dos assuntos «fora da
questão», que é o que de uma ou de outra
maneira acontece quando sobre ele se decide. Que se queira
pensar que, quando queremos influenciar uma decisão a
tomar nos encontramos a argumentar, tal significa, a meu ver,
que a argumentação se dilui na persuasão,
ou seja, que fazemos da persuasão, considerada como
capacidade de influenciar o outro e de lhe modificar os modos
ver, o equivalente de uma argumentação. Mas uma
tal perspectiva é, a nosso ver, muito redutora, pois
leva a pensar a argumentação como uma forma de
comunicação persuasiva e a cair na
tentação da pan-argumentatividade. Um exemplo
desta tentação é a de «ver»
argumentações em tudo o que connosco interage,
desde os discursos monogeridos, às imagens e aos
produtos multimédia como os anúncios. Obviamente
que não nego que os anúncios, por exemplo,
são persuasivos, tal como não digo que não
é possível desmontar os meios a que se recorre
para se tornar eficaz essa persuasão. Não concebo
contudo — pelas razões já referidas
anteriormente — que se possa dizer que os
anúncios, por exemplo, são uma
argumentação. É claro que se chamarmos
«argumentos» aos meios através dos quais um
anúncio exerce a sua influência em termos de
objectivos específicos (como a persuasão),
então é natural dizer que nele existe uma
operatividade argumentativa, do mesmo modo que Anscombre e
Ducrot, pressupondo que ao semantismo dos termos é
inerente à produção de uma determinada
orientação de sentido, puderam falar de
«argumentação na língua». Mas,
com efeito, e no máximo, tais são
fenómenos de argumentatividade, não
argumentações no sentido que inicialmente lhe
atribuí.
O mesmo se poderá dizer ainda para
aqueles que, vindos da lógica, procuram reduzir a
argumentação a questões de
raciocínio: podemos reconhecer num raciocínio uma
estrutura argumentativa no sentido que nele se desenrola um
processo que conduz a uma conclusão. Mas a
conclusão de um raciocínio é justamente
isso, a conclusão de um raciocínio e não a
conclusão de uma argumentação. Um
raciocínio, tal como os nexos semânticos da
língua, são modos de inferir, no primeiro caso, e
modos de associar através de topoi, no segundo. Mas
eles não equacionam, por si, o assunto em
questão. Contribuem, quando muito, para o irem tornando
explícito, para irem configurando e expressando
perspectivas, para permitir ao interlocutor que interprete o
nosso discurso e a nossa posição. Mas não
encerram, em si mesmos, e enquanto filigrana situada num plano
micro, algo a que se possa chamar «uma
argumentação». São mecanismos da
argumentatividade que não convém confundir com o
plano em que podemos falar de argumentação, e que
não é o plano da construção dos
discursos, não é o plano dos pequenos esquemas
lógicos e semânticos que o vão tecendo,
não é o plano da interpretação e
das explicações, não é o plano dos
pressupostos ideológicos que veiculam, não
é a análise do quadro institucional que
está por detrás do discurso e do qual este tira
as suas pretensões de legitimidade. Tudo isso pode, com
efeito, ser estudado mas — essa é a minha tese
— não permite abordar a argumentação
numa perspectiva geral e unificada porque não se
focaliza na unidade certa para procedermos a uma leitura e a
uma interacção dos discursos como
argumentação. Para isso, reitero uma vez mais,
é preciso ver na argumentação uma forma
tematizar assuntos (e saber ler as
«esquematizações» (Grize) que nos
são propostas é, neste aspecto, fundamental do
ponto de vista das competências argumentativas, ainda que
não chegue), num contexto interlocutivo efectivo em que
o assunto se tornou um assunto em questão discutido (e,
note-se que, quotidianamente, lidamos com muitos assuntos para
os resolver e não para os questionar enquanto tais), ou seja, sobre o qual vale a
pena debruçarmo-nos de uma forma partilhada, com a
consciência de que não estamos de acordo apesar de
nos entendermos, e que este não estar de acordo
não é necessariamente uma questão de desafio de poder, da
sua conquista ou da imagem de si (sendo todos este aspectos
relevantes de um ponto de vista do sociologia da
comunicação) mas porque a relatividade e a
comparação de modos de ver e a abertura a
possibilidades de diferentes ponderações, sendo
muitas vezes inevitável, é uma forma de alargar
os horizontes de inteligibilidade e de confiança, de nos
situarmos com mais discernimento perante os limites de
problematização que são os nossos e de
tornarmos mais evidentes aqueles que constantemente nos
procuram impor à possibilidade de questionar.
Notas
1 Incapaz
de se focalizar na interacção na medida em que
perspectiva uma argumentação não como algo
que ocorre de argumentador para argumentador, mas —
segundo o modelo da oratória — como algo que
ocorre entre um orador (que tem a iniciativa discursiva) para
um auditório (que se cinge a ser influenciado), limitado
este à possibilidade de aderir ou não aderir, mas
não de contra-argumentar. É natural que, assim
enquadradas, as questões de argumentações
acabem por privilegiar a questão dos efeitos e da
eficácia que é uma das características do
paradigma persuasivo na abordagem da
argumentação.
2 Willard, C. A.,
1989, A Theory of Argumentation, Tuscaloosa/London, The University of Alabama
Press, p. 53.
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