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Rui Grácio
Entre o «como se» e o «e
se», argumentamos
Há uma ideia muito difundida
segundo a qual a retórica se pode definir como «a
arte de persuadir através do discurso», que
é «discurso que visa persuadir» e que um tal
tipo de discurso se pode classificar como uma
argumentação. Não sei se as
argumentações persuadem ou não, nem mesmo
se essa é a sua finalidade, até porque o
próprio termo «persuadir» é muito
ambíguo. Mas, surpreende-me que se procure definir algo
por uma finalidade e afigura-se-me que um tal modo de definir
não se revela nem apropriado nem seguro. No
mínimo, é gerador de muita confusão e
tão arbitrário como definir um frango como uma
ave que se compra no supermercado ou um livro como um objecto
feito para ser lido.
Pense-se, aliás, em que medida uma
tal «definição» é
preferível às seguintes possibilidades: uma
argumentação visa esclarecer aqueles que nela
participam, ou, então, detectar a verdade, lançar
a confusão nas cabeças, alimentar o prazer do
debate, justificar opiniões, apresentar razões,
mostrar que se é coerente, manipular os
adversários, dar importância às pessoas que
nelas participam, socializar os cidadãos, revelar a
honestidade daquele que argumenta, etc., etc..
Um primeiro problema, aqui, é que
qualquer «definição» pela
atribuição de finalidades, mesmo que essas
finalidades de uso possam ser consideradas como «dados
empíricos», como «factos», nunca deixa
de ser mais uma forma de explicar um fenómeno ligando-o
a outro fenómeno cuja existência
«constatamos» (e quem nega que, de alguma maneira,
não foi persuadido pela argumentação de
alguém?) mas relativamente ao qual não temos
senão ideias vagas e ambíguas. Um segundo
problema é que, mesmo que possamos estabelecer uma
relação de explicação entre dois
fenómenos (a persuasão explica a
argumentação por uma intencionalidade
específica), tal não basta para definirmos um
fenómeno: o que é que nos impede de estarmos a
fazer uma associação arbitrária? E o que
impede, no caso da persuasão, mesmo admitindo que esta
possa ter a ver realmente com a argumentação,
não seja apenas uma das suas intenções
possíveis, um caso particular e específico
— dependente, aliás, das intenções
dos falantes — e não o seu caso
paradigmático? Nesse caso a
«definição» não resultaria de
mais do que de uma generalização abusiva que
tendeu a inferir de um facto aparentemente incontestável
um conceito sobre o que a argumentação é.
Em qualquer dos casos, um tal modo de definir só se pode
revelar como deveras problemático.
Poder-se-á objectar, invocando, por
exemplo, a perspectiva teórica conhecida como
«argumentação na língua»,
proposta por Anscombre e Ducrot, que não há uso
da linguagem sem recurso a uma língua e que a
língua é argumentativa. Mas também esta
observação parece desadequada, uma vez que para a
perspectiva destes linguísticas «a
argumentação linguística não tem
qualquer relação directa com a
argumentação retórica»1, ou
seja, nada de associar a noção de
argumentação conceptualizada por estes autores
com a ideia de persuasão através da
apresentação de razões, até porque,
escreve Ducrot, «de um ponto de vista puramente
linguístico, um tal logos é não apenas ilusório, a
sua própria existência é uma
ilusão»2. Desta forma, derivar da
argumentação na língua a persuasividade de
qualquer discurso é uma inferência que parece
indevida.
Poder-se-á invocar, mesmo assim, e
inserindo a argumentação no âmbito mais
alargado do disurso que, depois de Bahktine, o monologismo do
discurso é uma ilusão e que a linguagem tem uma
essência dialógica que comporta sempre
referências a outros discursos. Ou seja, não
há usos neutros da linguagem corrente, entendendo-se
esta «não neutralidade» como algo que remete
sempre para outras vozes que povoam qualquer discurso
monogerido. Neste sentido, todo o discurso faz parte de um
interdiscurso ou de uma rede discursiva com a qual interage. Da
ideia de que um discurso é polifónico, ou seja,
habitado por várias vozes, é fácil dar o
passo que imagina que aquelas dialogam entre si. O
monólogo é dialógico, logo argumentativo,
logo, uma argumentação. Mais uma vez esta
inferência depara-se com dificuldades. Se é
incontestável que podemos situar sempre um discurso numa
rede discursiva e estabelecer relações entre as
vozes que nele habitam, podemos tomar as diferenças
entre essas vozes de duas maneiras: ou como
«posições» alheias com as quais o
autor do discurso discorda e que contesta — o que nos
permitirá considerar que estas diferenças de
posição nos colocam desde logo no plano da
argumentação — ou como referências a
que o autor recorre para situar a sua perspectiva — e
neste caso, mais do que estar a argumentar, a argumentatividade
do seu discurso remete para o esforço deste fazer
compreender o seu ponto de vista, ou seja, de o tornar
interpretável e compreensível. A segunda
opção parece mais prudente por duas razões
principais: primeiro porque, como propõe Catherine
Kerbrat-Orecchioni3, o dialogismo é diferente do dialogal na
medida em que o primeiro remete para interacções
virtuais e o segundo para interacções efectivas,
ou seja, que se processam através de turnos de palavra.
Ora, reiterar o dialogismo da linguagem apenas possibilita
saber duas coisas: o que um autor eventualmente pensa de outros
a que se refere positiva ou negativamente, consonante ou
dissonantemente e aquilo que ele próprio parece pensar e
cuja especificação é ajudada, entre outras
coisas, pela referência à sua
interpretação de outras perspectivas. Dito de uma
forma sintética, se do dialogismo da linguagem podemos
inferir que ela é tecida de argumentatividade (de
referências que orientam para determinadas
especificações e se afastam de outras) na medida
em que um discurso se situa sempre num universo interdiscursivo
— remetendo a argumentatividade para
construção de um discurso através de
recursos de referenciação — já
é mais problemático inferir que o facto de
alguém se referir a alguém ou as suas ideias,
quer para concordar, quer discordar, seja considerada uma
interacção real. Para além do mais, caso
insistamos em considerar esses processos de
referenciação postos ao serviço daquele
que está a explicitar o seu ponto de vista como uma
interacção e, por essa via, como uma
argumentação, então ficamos perante aquilo
que designo como «o problema do
pan-argumentativismo» e que é um problema
definicional: se qualquer discurso é uma
argumentação, então nada a caracteriza
especificamente a argumentação, que assim se
torna um conceito trivial.
Mas — e veja-se como já nos
tínhamos afastado da questão primeira —
menos ainda podemos inferir que o diálogo entre as vozes
que habitam o discurso sejam uma forma de persuasão. A
quem poderá querer persuadir o autor do discurso?
Aqueles que são referidos mas que não têm
palavra a não ser por via da interpretação
daquele que fala? Seria uma bizarra persuasão, um
estranho tipo de diálogo. Aqueles que o vão ouvir
ou ler? Seja. Mas o que é que isso tem a ver com a
natureza dialógica do discurso o transformar numa
argumentação ou, posto de outra maneira, em que
medida temos de ver a interdiscursividade em termos de
auditório e de persuasão? Se dissermos que o
discurso não será compreensível sem
referência a um auditório, mesmo virtual, que
dê forma e intencionalidade aos raciocínios
enunciados, então apenas fazemos da noção
da auditório uma componente pragmática importante
na interpretação dos discursos. No fundo, estamos
a dizer: atenção que se compreenderá
melhor o discurso de alguém se conseguirmos perceber a
quem é que ele se dirige. Uma questão, pois,
primacialmente de hermenêutica, não de
argumentação. Mas as suas potencialidades
argumentativas e o facto de se dirigir a um auditório
não o tornam-no desde logo persuasivo? E o problema
coloca-se: porque que é que dirigir-se a um
auditório é inevitável e exclusivamente
uma forma de o querer persuadir? Não há uma
diversidade imensa de intenções de
comunicação? E porque se teria a
argumentação de esgotar nesta suposta forma
específica que é a comunicação
persuasiva? E não será vantajoso dizer, antes de
mais, que o discurso tematiza, e compreender o dialogismo e o
auditório, tal como todas as intenções que
se podem vislumbrar no discurso, como recursos de
tematização, ou seja, como o tecido da
argumentatividade posta ao serviço daquele que procura
esquematizar discursivamente as suas ideias? Neste caso a
abordagem do discurso como argumentação
não precisaria de recorrer a uma intencionalidade
específica, mas situar-se-ia, antes de mais, nos
processos de tematização através dos quais
os discursos surgem como perspectivas específicas sobre
um assunto em questão. Mas essa
tematização, podendo apresentar maiores ou
menores graus de argumentatividade, não é ainda
uma argumentação. Para isso será preciso
que as perspectivas dela resultante sejam confrontadas (o que
implica turnos de palavra) e que em torno das diferenças
dos modos de tematizar surja uma interacção
dialéctica, isto é, em que os discursos dos
intervenientes se polarizam numa questão ou numa
esfera de relevância partilhada relativamente à
qual consideram que vale a pena argumentar.
Bom, pensar-se-á, mas se a
associação entre retórica e
persuasão — que vem de Aristóteles
até aos nossos dias4 e que é banalmente utilizada como
definição nos manuais em que se fala de
argumentação — permaneceu durante tanto
tempo, deve ter as suas razões de ser. Mas, uma vez
mais, o facto de até poder haver boas razões para
uma tal associação ter permanecido durante tanto
tempo não faz disso uma boa definição,
apenas um facto histórico, aliás passível
de diversas explicações.
Vejamos não a
explicação histórica — para isso
seria preciso percorrermos paralelamente, pelo menos, a
história da filosofia e história da
retórica — mas a definição tal como
ela se cristalizou na doxa: «arte de persuadir através do
discurso». Temos a ideia de «arte», que
remete para uma dimensão prática, para um saber
fazer; um «meio», o discurso, o uso da linguagem; e
uma «finalidade», a persuasão, a
influência sobre os outros, um modo específico e
agir sobre eles (mas esta especificidade é
problemática porque excessivamente vaga e
ambígua). Desta «definição»
— que afinal parece não passar de um
descrição mais ou menos arbitrária, ainda
que tenha as suas razões históricas de ser
— podemos pensar que uma
determinada forma artística de usar a linguagem (problemas filosóficos: mas a linguagem
é um instrumento? Qual o alcance e os limites de uma tal
visão instrumental? Até que ponto ao usarmos a
linguagem instrumentalmente não somos nós os
instrumentatizados? E que sentido dar aqui à
palavra «arte» quando aplicada ao discurso? Porque
que é que persuadir é uma arte? Será que
esta arte se liga ao kairós, ou seja, à habilidade de conjugar as
circunstâncias da interacção, tornando o
discurso empiricamente apropriado e oportuno, adaptado
às situações e aos auditórios e
assim mais eficaz? Será que uma tal arte é uma
arte meramente adaptativa e camaleónica ou também
reflexivamente criativa? E o que entender por discurso?
Não será o discurso a menos persuasiva das formas
de influência? E trata-se de discurso monogerido, como o
do orador que fala perante um auditório propagando as
suas ideias e promovendo a imagem de si, ou discurso
poligerido, como aquele que decorre de
interacções como o debate, implicando turnos de
palavra e confronto de perspectivas? Ou questão de
língua e dos constrangimentos que esta impõe aos
discursos? Ou de tudo isso?) concretizada
através de certas técnicas (e eis que surge um campo de estudos: que
técnicas são essas? Resposta tradicional:
trata-se da apresentação de razões
através de raciocínios postos a funcionar no
discurso. Questão: então a
argumentação é uma questão de
lógica, entendida esta como o estudo normativo dos
processos de raciocínio? Questões decorrentes:
mas será que os princípios da normatividade
lógica — ou seja, a validade — é
aplicável ao raciocínio no discurso? Será
que a lógica tradicional contempla a especificidade
destes raciocínios ou isso passa ao lado da natureza dos
seus estudos? Problemas adicionais: a aliança entre
lógica e matemática não conduz a uma
imagem matematizada do pensamento que não é
consonante com a dimensão social e situada dos
discursos? Será preciso uma outra imagem do pensamento
para captar o movimento e os efeitos do raciocínio no
discurso? Ou será preciso uma nova lógica, dita
informal, que os possa considerar? Problemas emergentes: mas
uma perspectiva lógica da argumentação
não conduzirá sempre a uma visão normativa
que idealiza, mais do que permitir compreender que no campo
argumentativo todas as normas são susceptíveis de
serem transformadas em argumentos? As
argumentações pressupõem juízes
imparciais? O que é um juiz imparcial? Que papel
atribuir aos seus poderes discricionários? Fica
então em jogo a questão filosófica da
racionalidade: unidade ou pluralidade? Lógica ou
sociologia? Ideal ou empírico? Formalismo ou
pragmatismo? Absolutismo ou relativismo? E se relativismo,
absolutismo e relativismo no interior do relativo? Ou para
além do absolutismo e do relativismo?) conduzem a produzir determinados efeitos sobre
as pessoas a quem se dirige (eis
que surge um outro campo de estudos, susceptível de
desmultiplicações várias: como é
que as pessoas se deixam afectar pelo discurso? É uma
questão psicológica? Uma questão
cognitiva? Uma questão de geração de
confiança? De comunicação de massas? Uma
questão de inteligência emotiva? Uma
questão de crenças e de convicções?
De sociabilidade? De exploração dos homens como
máquinas desejantes? De lidar subliminarmente com os
níveis mais instintivos? Ou de seguir uma via mais
intelectualizada? Que relações entre o emotivo e
o intelectual? E que conexão tem a
produção desses efeitos com os contextos, sejam
eles mais circunstanciados ou mais epocais? E a natureza dos
auditórios, que relação têm com a
eficácia? Podemos tipologizar os auditórios de
modo a perceber que tipo de adaptação a ele
é preciso fazer para que a influência seja eficaz?
E como se mede a eficácia?).
Esta descrição da
retórica tornou-se numa definição (num topos definicional)
por razões históricas, dissemos. Ela insere-se no
contexto daquilo a que Jean-Pierre Vernant chamou «o
universo espiritual da Polis» e que tem no seu centro a
importância conferida à palavra, especificamente,
como arma política. Perelman — um dos renovadores
contemporâneos da retórica e da
argumentação — refere, por seu turno, que
«é o título de glória da filosofia
evitar, por princípio, para obter a adesão,
recorrer à violência, mas apelar à
razão e à força dos argumentos. A
protecção dos direitos do homem começou
pela protecção e pelo respeito à
actividade filosófica. Do direito do indivíduo
à verdade, à sua autonomia, ao respeito pela sua
dignidade e pela sua liberdade e por todos os direitos que este
respeito condiciona, há um longo caminho que é o
do progresso da consciência no Ocidente»5. A
persuasão significa, neste contexto, algo que se
opõe à violência física e que
remete, em primeiro lugar, para a capacidade dos homens se
relacionarem e entenderem entre si com base na troca de
argumentos (mas a questão de saber o que é um
argumento surgirá, tal como a tentativa de separar, no
discurso, o que é argumento do que não o é
através de uma fractura entre o racional e o emotivo.
Fracturado o que seja um argumento em duas possibilidades
— o verdadeiro argumento e o argumento que parece
sê-lo mas não o é — ficam abertas as
portas à teoria das falácias, desde as mais ou
menos acidentais e involuntárias — os paralogismos
— às manipuladoras — os sofismas) e, em
segundo lugar, que essa relação através da
qual as relações de força se deslocam do
plano do músculo para o plano da palavra é o que
constitui a racionalidade (colocando-se aqui o problema de
saber se devemos pensar a racionalidade no âmbito de uma
sociologia da comunicação — o que equivale
a assumir em primeiro plano uma perspectiva descritiva —
ou se o que define a racionalidade não são os
critérios e as regras da própria razão,
definidos em última análise pela validade
lógica dos raciocínios — o que equivale a
assumir uma perspectiva normativa para a qual existem, de
alguma maneira critérios transcendentes a que se pode
recorrer na avaliação das
argumentações. Outro problema: identificar a
argumentação com a persuasão significa
afirmar que a racionalidade tem uma natureza retórica e
que sociologicamente enquadrada ela representa um conceito
essencialmente avaliativo ou, como escreve Willard, «uma
forma de expressar aprovação»6. Mas
sabemos que existe toda uma tradição, iniciada
por Platão, que coloca a racionalidade nos
antípodas da retórica e que a define como
«não retórica», ou seja, expurgando
esta da forma de pensar racional — por isso referi
atrás que as questões da filosofia e da
retórica necessitam de ser articuladas: uma
definição nunca é menos compreendida por
aquilo que exclui do que por aquilo que inclui. Um problema
adicional: e será que a
«argumentação» e
«retórica» são termos
intermutáveis, ou será que eles designam
realidades diferentes, remetendo para campos separados um do
outro? E mais uma fractura: a argumentação
relaciona-se com a lógica e com a dialéctica,
sendo algo de diferente do discurso persuasivo, estudado pela
retórica. E debates sem fim: que interesse tem uma
lógica que idealiza e constrói mecanismos de
validação quando nas práticas sociais a
eficácia do discurso revela que a sua força
deriva de outros padrões menos matemáticos e
fixos do que aqueles que a lógica nos propõe?
Contra-posição: e como seria orientarmo-nos nas
argumentações se não tivéssemos
padrões de avaliação independentes da
contingência das situações? Pensar a
argumentação como um «vale tudo»,
enraizá-la num relativismo que não pode
senão conduzir ao cepticismo não é
«matar» a própria possibilidade da
força da razão ter um sentido? Nova
intervenção: a força da razão tem
sentido porque se enquadra numa sociologia relacional implicada
na própria ideia de sociedade: as normas societais
são a moldura mais ampla em que se tem de perceber o que
é que, para determinados agregados sociais vale como
sendo «razoável», ou seja, que se ajusta
à tópica social no interior do qual as pessoas
interagem, com a sua axiologia, os seus valores, os seus
lugares comuns, a sua doxa. Nova indignação: mas uma
racionalidade local não é verdadeiramente uma
questão de razão: uma racionalidade local
é uma contradição nos termos; a
razão ou remete para o plano da universalidade ou
não é razão; podemos constatar que existem
muitas «formas de racionalidade» de um ponto de
vista sociológico, mas a questão
filosófica da racionalidade é a de ver o que
é comum a todas elas! Nova contraposição:
e se não houver comum, se constatar-mos
incomensurabilidade entre as diferentes formas de
racionalidade? Não teremos de dizer que a unidade da
razão é um mito e que as racionalidades
múltiplas e locais são a realidade?)
Poderíamos prolongar quase
indefinidamente estas questões em que, partindo da
argumentação, fomos conduzidos à
questão filosófica da racionalidade e à
fractura que existe entre aqueles que se movem polarizados no
par absolutismo/relativismo e aqueles que querem pensar sem
colocarem as questões da argumentação e da
retórica nos termos daquela distinção.
Parece que, ainda neste caso, estamos perante modos
incomensuráveis de colocar as questões, logo, de
articular as suas respostas. Estamos, para retomar o
título de uma obra de Angenot, perante um
«diálogo de surdos», ou seja, aqueles em que
as pessoas falam entre si sem se terem entendido minimamente
sobre o modo de colocar as questões.
Voltemos à retórica —
persuasão — argumentação —
razão. A definição de que partimos referia
«discurso» e remetia a argumentação
para os usos da linguagem. Mas os usos da linguagem foram
imediatamente subsumidos por uma questão mais abrangente
que foi a da racionalidade. Através deste movimento as
questões da argumentação e da
retórica passaram a estar sob um foco filosófico
e, mais especificamente, sob o foco regulador da filosofia
entendida como guardiã da razão. Sob a
perspectiva deste olhar — que sempre aspirou a ser um
puro ver, sem perspectiva ou parcialidade — a identidade
persuasão = retórica só podia apontar para
o «outro» da razão. A receita estava,
aliás, dada por Platão: há que subsumir a
retórica à normatividade filosófica, fazer
guerra a todo o movimento de emancipação da
retórica, reduzi-la o fruto espúrio do humano. Um
projecto que durou até aos nossos dias, onde, por via do
relevo contemporâneo conferido à linguagem e
à anunciada «morte da filosofia como
metafísica», ou seja, como pensamento
rizomático e fundador, as «novas
retóricas» progridem — defende Amossy7
— pela sua integração nas ciências da
linguagem. Nesta integração a
argumentação e a retórica são
enquadradas no registo mais amplo da análise do
discurso, ele mesmo amplificado pelo alargamento da
linguística ao registo do discursivo e pela
inclusão nos seus estudos das ópticas
pragmáticas. Uma boa conjunção para uma
«retoma» da retórica, desta feita tornada
como unidade dos mecanismos da língua e do discurso
dirigido a finalidades. E a ideia de persuasão torna-se
de novo boa para especificar o discurso argumentativo. Mas
desta vez com um acréscimo de oportunidade: a ideia de
discurso persuasivo vende e cola aos modos de vida regulados
pelo «mercado», onde o sucesso é saber criar
quotas de mercado, ter quotas de mercado, e falar a linguagem
negocial dos preços. Porque o mundo é agora
tecido de «discursos», tudo é discurso e
dialogismo, que é como quem diz, tudo é
argumentatividade, que é ainda como quem diz,
persuasão, efeitos, resultados. Há que pensar por
«objectivos» — diz-nos a racionalidade
pragmática e utilitária — e são os
objectivos que realmente interessam e moldam o pensamento digno
desse nome, agora também aferidos por um tempo
útil que se quer cada vez menor e mais eficaz.
São os tempos e os novos ritmos da vida,
dir-se-á. À tirania da razão parece agora
suceder-se uma tirania da persuasão8, e a
argumentação, já de si mole e fraca no
modelo clássico da razão, insere-se agora num
justificacionalismo funcional, espécie de
alçapão onde a validade coexiste com direitos de
cidadania, com a liberdade de opinar, com o dever de cada um
ter o seu ponto de vista. E é no quadro deste
justificacionalismo que se revela a pertinência do
sentido dos discursos, palco de ilusões que organiza o
discurso político como discurso daquilo que
«eles» querem ouvir e do discurso empresarial como
discurso daquilo que o mercado «exige». E, no
entanto, existe um pudor remanescente que impede de misturar o markting com
a argumentação, como se fossem duas ordens
distintas de assuntos. Vai nesse sentido a
admiração de Angenot quando escreve que
«aquilo que me surpreende é que, nas nossas
bibliotecas haja, de um lado, livros de retórica e de filosofia da
argumentação, de
outro, livros (de psicologia
social, de marketing, por exemplo) que têm por objecto e
que prometem nos seus títulos tratar da
‘persuasão’. Ora, é penosamente
necessário dizer, estes últimos discutem uma
quantidade de coisas, um grande número de
técnicas, mas pouco ou nada de
argumentação! Nenhum põe em primeiro plano
os meios puramente racionais de ‘persuadir’»9. Numa
obra verdadeiramente demolidora quer da ideia de que a
argumentação persuade e visa persuadir, quer das
abordagens «doutas» dos lógicos informais
sobre a argumentação, Angenot faz desfilar um
conjunto de modalidades de inferências e de
raciocínios para concluir que «os esquemas de
raciocínios supostamente válidos nunca o
são para todas as pessoas nem em todas as
circunstâncias; os sofismas formam uma zona cinzenta mais do que
uma classe de imposturas ou absurdidades»10.
É assim que em Dialoques de
Sourds. Traité de rhétorique antilogique o autor faz sucederem-se processos
argumentativos — como a ignoratio
elenchi (que se caracteriza pela
negligência da objecção principal) o straw man (em
português, «espantalho» ou «homem de
palha», relacionado com as fugas ao assunto em
questão), secundum quid (demonstração correcta mas
só para um ponto de vista, constituindo uma
generalização abusiva), petitio principii (ou
demonstração circular, de que a assumptio non probata é uma derivado), non sequitur (não
fazer prova daquilo que está em questão), ad consequenciam
(alegar a invalidade de um raciocínio pelas más
consequências que dele derivam), ad verecundiam (sustentar
perspectivas que não são veneráveis, forma
de apelo à autoridade), ad
misericordium (apelo às
emoções), ad
ignorantiam (tomar por verdadeiro
aquilo que não foi demonstrado como falso), ad baculum (recurso
à intimidação), ad populum (apelo ao
povo, à força dos preconceitos generalizados), consensus omnium
(apelo ao que é consensual, ao que todos aceitam), ad odium
(acusação de processo de intenção,
de más intenções), ad metum (meter medo), tertium non datur
(raciocínio pela alternativa), ad personam (que incidem
sob os actos e as ideias anteriores do argumentador) e o ad hominem
(pôr-se no terreno do adversário e dos seus
interesses para mostrar a parcialidade da sua perspectiva)
— mostrando que eles nada têm de regra universal, o
mesmo acontecendo como as diversas formas de inferência
— e o autor aborda a indução
generalizante, as explicações causais, os raciocínios
a duas possibilidades, o raciocínio apagógico ou por
absurdo, a abdução ou
inferência para a melhor hipótese, as formas do raciocínio probabilístico,
previsional e conjectural, os
raciocínios contrafactuais e as lógicas dos mundos
possíveis, o raciocínio por analogia e os
raciocínios axiológicos. Conclui, desta elencagem, que «nem todos
partilham das mesmas formas de raciocinar, de construir o real,
de avaliá-lo, de escolher e de decidir para agir»11.
Com efeito, as argumentações
não podem ser reduzidas a questões de
raciocínio pensando que há, à partida,
formas correctas e formas incorrectas a priori de raciocinar.
Compreende-se a cisão entre perspectivas ditas
«descritivas» das perspectivas ditas
«normativas», as primeiras querendo limitar-se
à análise e as segundas avançando pelo
terreno da avaliação das
argumentações. E compreende-se também que
esta bipolarização revela uma fractura mais ampla
entre aqueles que para quem a retórica e a
argumentação trabalham num mesmo espaço
discursivo comandada pela tríade
imcompartimentável do ethos, pathos e logos (é assim que Michel Mayer sustenta que
«na realidade, a argumentação apresenta uma
especificidade inegável que, fazendo parte da
retórica, não convém identificar nem opor
a esta [retórica]»12) e aqueles que, tendo partido de uma
posição manifestamente anti-retórica
(nomeadamente por acharem possível separar o que
é da ordem das emoções daquilo que
é da ordem da razão13) — procuram agora estabelecer aquilo que
designam como um «delicado balanço» entre
dialéctica e retórica. Os termos desse
balanceamento são claros: a retórica é
agora vista em termos de estratégia e — eis a
grande concessão! — nem todas as
estratégias são más: «a
questão é então — escreve van
Eemeren — a de saber que estratégias
retóricas usadas no discurso são dialecticamente
aceitáveis»14.
Parece, por conseguinte, que a
colocação das questões de
argumentação no plano descritivo versus normativo se
revela estéril porque deriva de concepções
incompatíveis. Note-se que para quem assume uma
perspectiva descritiva não está fora de
questão a existência de normas, que aliás
sempre são convocadas nas argumentações,
mas apenas a convicção de que à linguagem
é inerente o perspectivismo, que perspectivar é
valorar e que a todos os processos de avaliação
não são feitos de nenhures, mas estão
sempre associados a perspectivas questionáveis por quem
tem outras perspectivas. A argumentação
liberta-se então do paradigma justificacionalista da
apresentação de razões para um modelo mais
amplo em que o que está em causa são
concepções, formas de pensar, modos alternativos
de ver e de dar a ver. E a mais valia das
argumentações não é a de trazer
justificações persuasivas sobre aquilo que nela
se vai surgindo como «teses», mas a de ser capaz
perturbar pela sua capacidade de «vidência»,
pela perspicácia e pela surpresa dos seus insights relativamente
aos assuntos em questão nela abordados e aos quadros
resolutivos em que os queiramos encerrar.
Uma argumentação é o
que permite manter os assuntos em questão e da sua
natureza não faz parte a motivação de
«concluir». De quantas tematizações
se faz um assunto? De quantas conclusões se faz uma
argumentação? E com quantas
reformulações e re-perspectivações
se olha para um assunto? Sim, a premência da
acção obriga-nos a decidir, sim queremos
acreditar (imagem de si) que são os argumentos que nos
dão as razões e que fundamos as nossas
decisões em razões e argumentos. Sim, temos de
reduzir a complexidade para podermos confiar.
Argumentação? — caminhar caminhando. Uma
analogia que se revela capaz de compreender as práticas
argumentativas atendendo à «multiplicidade fluida
das opiniões, das emoções, das
reviravoltas possíveis, com a riqueza das respostas
às quais aderimos sem o sabermos expressamente, e que se
entrechocam por vezes sob o preço de uma coerência
que soa no outro como chamada à ordem que nos é
dirigida»15. Porque, com efeito, a capacidade de equacionar
assuntos problematicamente, ou seja, apelando a recursos
configurativos que permitem vislumbrar a complexidade que
decorre das várias perspectivas passíveis de
aplicação a cada caso é um dos
pressupostos da argumentação.
A analogia com o caminho, com os
caminhantes desenhadores de percursos por entre encruzilhadas
de sítios, territórios e pessoas, em que o
caminho se faz caminhando e em que as opções
são sempre circunstanciadas e interactivas ajusta-se com
efeito à teorização
argumentação e parece-me heuristicamente mais
potente do que partir para a um tal esforço
teórico tomando a contrario uma imagem matematizada do pensamento (assim a
distinção perelmaniana entre
demonstração e argumentação16 ou a
pergunta de Grize «como é que o pensamento
funciona quando não matematiza?»17) ou um
modelo jurídico (assim a ideia de Perelman segundo a
qual os filósofos devem aprender com a prática
jurídica18 ou a de Toulmin segundo o qual a lógica
se pode tornar numa «jurisprudência
generalizada»19). Propomos, pois, que o nosso modelo inspirador
para pensar a argumentação seja a analogia do
caminho, que aqui iremos desenvolver associando-a a um
léxico que caracteriza o campo dos estudos da
argumentação: também a propósito de
caminho falamos de orientação (questões, perguntas, respostas), de locais de partida (premissas, pressupostos, adquiridos), de pontos de paragem (verosímil), de trechos que englobam várias
passagens e delas decorrem (inferências,
raciocínios), conduzindo a
pontos de chegada (conclusões) que no dia a seguir se podem tornar em novos
pontos de partida (assunções), de percorrermos trajectos num ou noutro
sentido (perspectivas), de poder haver becos sem saída (validade, falácias), de
existirem momentos em que nos sentimos perdidos (interrogações, presunções) e de outros em que estamos convictos e certos
da direcção a seguir (evidência), de
recorrermos a mapas nos quais se podem desenhar
itinerários seguidos e outros possíveis (distinções), da aventura que é percorrer caminho sem
endereço previamente definido (ensaio), de pensarmos na
melhor forma de rumarmos o mais rapidamente possível ao
destino (estratégia). Mas também, no caminho, temos de ter
em consideração os outros (preconceitos) com quem nos
interceptamos (sociabilidade), ver que territórios cruzam os caminhos
que estamos a percorrer (delimitações, regras), lidar com aqueles que de muitos modos nos
querem tornar peões de itinerários já
feitos (persuasão), confrontarmo-nos com pessoas de bem que nos
querem dar os melhores conselhos (boa
fé) e pessoas de mal que
não hesitarão em nos utilizar como carne para
canhão (manipulação), cruzarmo-nos com gente que repete certas
ideias (clichés,
inércia) de acordo com as
suas convicções locais, com pessoas que nos
parecem confiáveis (provável) e outras que decididamente têm um ar
suspeito (estilos), perceber a geografia das palavras de ordem dos
sítios por onde passamos (autoridade,
legitimidade), estar atentos
às entidades reguladoras que representam os poderes do
território em que transitamos (poder), adaptarmo-nos (discurso social, crítica) cautelosamente (prudência) às regras (racionalidade, razoabilidade) e aos costumes (senso
comum, lugares comuns, doxa) para
evitar dissabores (mal-entendidos,
violência).
Mas foquemo-nos, para finalizar, no fulcro
filosófico onde se enraíza a ideia de
argumentação: a distinção entre
realidade e real20.
Uma descrição — e este
é o conceito fundamental que associa incontornavelmente
a linguagem a uma codificação da
experiência — implica sempre um momento «como
se»21. A analogia com o cinema pode ser fecunda para
perceber este ponto. Tal como uma descrição
dá a ver pressupondo que nos «limitamos» a
ver — logo, o discurso traduz a realidade —
também a sucessão das imagens de um filme nos
dão a ver «como se» não houvesse um
realizador que as objectivou para que elas se tornassem a
realidade que estamos a ver. Dir-se-á que o realizador
«esconde» ao fazer um filme, que
«engana» aqueles que o vão ver? Não.
É da natureza do cinema apresentar perspectivas sendo
contudo impossível que do filme final faça parte
o trabalho de bastidores das objectivas de que resulta essa
perspectivação. Será que a realidade
é real? Todo o discurso remete para perspectivas
susceptíveis colocar a questão de saber no que
é que alguém está pensar para dizer as
coisas que diz e da forma que as diz. Procurarmos um referente
para esta realidade é sempre confrontarmo-nos com as
realidades que aceitamos ou não tomar por reais, e com
aquelas que, quer as aceitemos ou não, se fazem sentir
como reais, quanto mais não seja porque o outro fala
delas. Entre a realidade e o real, argumentamos. Tentamos,
através de abduções, fazer
raciocínios para a melhor hipótese,
problematizamos a realidade recorrendo a raciocínios
contrafactuais que imaginam outro real22 (e
não é que toda a filosofia de Descartes parte do
raciocínio contrafactual que supõe a
existência de um génio maligno?) transitamos
constantemente do «como se» para o «e
se?» e vice-versa, e adaptamos criativamente essa arte da
mobilidade, de descobrir e de inventar, de associar e de
dissociar, de configurar os recursos adequados à
tematização dos assuntos em questão de
modo adaptado aos contextos e aos seus constrangimentos de
inclusão e de exclusão. Escreve Angenot: «O
argumentador configura [bricole] o seu raciocínio
e os seus encadeamentos de raciocínios a partir de
um repertório heterogéneo, não
constringente, de esquemas disponíveis e de
estratégias persuasivas possíveis; recorre, ou
não, à alternativa, aos esquemas binários,
a tal tipo de explicação causal, à
abdução e ao contrafactual, ele gere de formas
diversas as passagens ou as rupturas entre factos e
valores»23. Situados no interior de uma perspectiva, ou
seja, na imagem caleidoscópica que figura o real das
realidades é fácil fazermos
induções e deduções, generalizar e
extrair consequências, transformar os seus recursos
temáticos em reforços persuasivos24 e
até «quase lógicos», para retomar a
feliz e maliciosa classificação usada por
Perelman para recusar a redução das
questões de argumentação aos planos formal
e matemático.
A revolução argumentativa
não consiste em descobrir e afirmar uma outra forma de
racionalidade, mas em abandonar o justificacionalismo no
interior do qual para tudo podem ser encontradas razões,
como se a continuidade com que se pretende caracterizar a
razão não englobasse rupturas e descontinuidades
inexplicáveis e incomensuráveis e como se o mundo
existisse independentemente dos discursos. Consiste, por um
lado, em perceber que todo o pensamento social e historicamente
dimensionado opera tematicamente— e tal significa que
chegamos aos assuntos depois de eles já terem de algum
modo chegado a nós —, configurando e
reconfigurando assuntos, possibilidades de ver e de dar a ver,
inventando hipóteses alternativas de vida e, por outro,
que a racionalidade não é senão uma forma
de submeter aos constrangimentos sociais a expressão de
aprovação ou desaprovação pelo
já pensado de modo a produzir uma confiança que
sempre apazigua a inquietude do risco, a temência da
complexidade e a premência de decidir em tempo
útil. Neste sentido, reclamar-se de racionalidade
através de apresentação de razões
tem sempre um lado de persuasão. Mas nenhuma
persuasão tem de permanecer independente (é
aliás essa «independência»
relativamente a uma qualquer perspectiva que a torna
verdadeiramente eficaz) de uma tematização que
pressupõe. É que, nota Angenot, «não
há nunca ‘factos’ no discurso: existem
enunciados onde as coisas deste mundo são filtradas,
vistas sob um ângulo, de viés, traduzidas em
termos que julgam sub-repticiamente e concluem antecipadamente.
(…) Nada me garante a adequação das coisas
e das palavras, dos processos e das inferências: é
realmente por isso que argumento»25. Quando
retrocedemos do discurso às perspectivas é
então a argumentatividade enquanto modo de construir
visibilidades que nos conduz às questões do
pensamento, dos modos de pensar, do emergir dos assuntos sob
uma dada perspectiva que desenha a realidade como real
através da valorização que selectivamente
faz dos recursos que privilegia e da configuração
através da qual o real da realidade se torna
visível como um mundo possível e eventualmente
improvável porque para-doxal.
Notas
1
DUCROT, O., «Argumentation rhétorique et
argumentation linguistique» in DOURY, M. e MOIRAND, S.
(Org), L’Argumentation
aujourd’hui. Positions théoriques en confrontation, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle, p. 17.
2
DUCROT, O., «Argumentation rhétorique et
argumentation linguistique» in DOURY, M. e MOIRAND, S.
(Org), L’Argumentation
aujourd’hui. Positions théoriques en confrontation, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle, p. 32.
3 Cf.
KERBRAT-ORECCHIONI, C, «Rhétorique et
interaction» in KOREN, Roselyne e AMOSSY, Ruth (Org.),
2002, Après Perelman: quelles politiques pour les
nouvelles rhétoriques?, L’Harmattan
4
A ambiguidade, poderemos dizer, vem desde Aristóteles.
Porque, com efeito, segundo este, a relevância da
retórica é posta, em primeiro, na ideia de
«descobrir», como aliás mostra a sua
definição de retórica como «a
capacidade de descobrir o que é adequado a cada caso com
o fim de persuadir» (ARISTÓTELES, 1998, Retórica,
Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 48) sendo ainda que, para o
Estagirita é «evidente que ela [a retórica]
é útil e que a sua função
não é persuadir, mas discernir os meios de
persuasão mais pertinentes a cada caso» (Idem
ibidem, p. 47).
5
Perelman, Ch., «La sauvegarde et le fondement des
droits de l’homme», Perelman, Ch., 1991, Éthique
et Droit, Bruxelles,
Éditions de l’Université de Bruxelles, p.
486.
6
WILLARD, C. A., 1983, Argumentation
and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p. 153.
Angenot vai também neste sentido ao afirmar que
«no fundo, aquilo que decreto como racional é
aquilo que posso compreender. De forma que qualificar o meu
adversário como irracional não, no fim de contas,
senão um noise of
disapproval, um bater de
língua — tt tt tt! — para lhe dizer que
não o compreendo. É um raciocínio
circular. (…) O não razoávewl é
frequentemente esta situação ou esta
decisão com a qual não posso empatizar. O não
razoável é, em suma, uma categoria
afectiva» (ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de sourds. Traité de
rhétorique antilogique,
Paris, Mille et une nuits, p. 421).
7
Cf. «Nouvelle rhétorique et linguistique du
discours» in KOREN, Roselyne e AMOSSY, Ruth (Org.), 2002,
Après Perelman: quelles
politiques pour les nouvelles rhétoriques?, L’Harmattan.
8
Esta tirania da persuasão liga-se, aliás, a uma
concepção pós-moderda de sujeito. Depois
da consciência reflexiva ou racional ter perdido o seu
peso na caracterização do humano, vem a primeiro
plano uma outra categoria que é a da atenção:
de facto a ideia é a de que o homem, sendo dotado da
capacidade de concentar a sua atenção naquilo que
o mobiliza, é essencialmente um ser persuasível,
sendo fundamental captar-lhe a atenção e
«sugá-lo» para o «filme» em que
se envolveu. É neste sentido que a racionalidade se
revela hoje como sendo pensada em função da
capacidade de captar a atenção — e a
proponderância das imagens torna-se aqui um instrumento
fundamental — e de alguma forma conduzi-lo a orientar-se
segundo o que sugestivamente lhe cativa a
atenção.
9
ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de
sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, p. 95.
10 Idem ibidem, p. 258.
11 ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues
de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, p. 259. Sublinhado
meu.
12 MEYER, M., 2005, Qu’est-ce
que l’argumentation?, Paris,
VRIN, p. 15.
13 «A argumentação é uma
actividade da razão, o que indica que o argumentador pensou sobre
o assunto. Avançar um argumento significa que o
argumentador tenta mostrar que pode ser dado um enquadramento
racional à sua posição relativamente ao
assunto. Tal não quer dizer que as emoções
não possam desempenhar um papel na adopção
de uma posição, mas que estes motivos internos,
que foram assimilados no discurso, não são
directamente relevantes como tais. Quando as pessoas
avançam os seus argumentos numa
argumentação elas colocam as suas
considerações no reino da razão»
(EEMEREN, F.H. van; GROOTENDORST, R.; SNOECK HENKEMANS; et al.,
1996, Fundamentals of
Argumentation Theory. Mahwah, NJ,
Lawrence Erlbaum Associates Publishers, p. 2.
14 EEMEREN, F. H. van e HOUTLOSSER, P. «Rhetoric
in pragma-dialectics» in Argumentation,
Interpretation, Rhetoric —
On-line Journal, 1, 2000 http:
//argumentation.ru/2000_1/papers/1_2000p1.htm
15 Idem ibidem, p. 41.
16 Cf. PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988, Traité de l’argumentation, Bruxelles, Éd. de L’
Université de Bruxelles, pp. 17/-19.
17 Grize, J.-B, 1996, Logique
naturelle & communications,
Paris, P.U.F., p. 115.
18 Cf. Perelman, Ch., «Ce que le philosophe peut
apprendre par l’étude du droit» in Perelman, Ch.,
1976, Droit, morale et philosophie, Paris, Librairie Generale de Droit et de
Jurisprudence, pp. 191-201 e também, « Ce
qu’une réflexion sur le droit peut apporter au
philosophe» in Perelman, Ch., 1972, Justice
et Raison, Bruxelles,
Éditions de L’Université de Bruxelles,
2ª ed., pp. 244-255.
19 TOULMIN, S., 1958, The
Uses of Argument, Cambridge,
Cambridge University Press, p. 7.
20 Acerca desta distinção escreve
António Pedro Pita: «só pela
distinção entre real e realidade nós
poderemos referir o que nos é proposto imediatamente
como facto e circunstância (e é a realidade) a uma
outra dimensão das coisas, o real, que é uma
condição da realidade e a inclui mas transcende
porque envolve também o que não estando perante
nós, como a realidade está, no modo do presente,
existe todavia como possível» (PITA, A. P., 2007, O aprendiz do mundo e outros fantasmas, Pé de Página Editores, p. 36).
21 Amplamente este «como se» é o
movimento fundador da possibilidade de fazer
distinções. Na terminologia de Eugen Fink e de
Max Müller, estes momentos do «como se»
correspondem às «decisões
especulativas» que permanecem impensadas para que o
pensamento possa optar por seguir um caminho. (Cf.
respectivamente, FINK, E., 1951, «L’analyse
intentionnelle et le problème de la pensée
spéculative» in Problèmes
actuels de la phénoménologie, Desclée de Brouwer, Bruxelles, p. 59 e
MÜLLER, Max, 1961, «Fenomenologia, ontologia y
escolástica» in Crisis
de la metafísica, Editorial
S.U.R., Buenos Aires, p. 118 e 126). O poeta Ramos Rosa exprime
de uma forma sublime esta condição nos seguintes
versos: «Nunca a pesquisa cessa / E todavia há um
momento em que não cuidamos / como se nada antes
houvesse sido / e é fim sem fim e
princípio». Retomando à nossa maneira a
expressão, podemos dizer que neste gesto estamos perante
a «falácia fenomenológica», ou seja,
aquela em que a tensão com o limite dá origem
à atribuição de um estatuto
ontológico-metafísico à ideia de
«fenómeno e nada mais do que o
fenómeno» (Cf. GRÁCIO, R., «A
noção de fenómeno em Husserl e em
Heidegger» in Caderno de Filosofias, 1995, nº 9,
Coimbra, pp. 17-84).
22 Segundo Angenot, «os raciocínios que
trabalham sobre mundos possíveis ou raciocínio
sobre o mundo empírico a partir de mundos alternativos,
a partir de imaginações
contrárias à
empiria, começaram a atormentar os lógicos e os
cognitivistas a partir dos anos de 1970 (Lewis Carrol é
o percursor desta reflexão)» (ANGENOT, Marc, 2008,
Dialogues de sourds. Traité
de rhétorique antilogique,
Paris, Mille et une nuits, p. 227). Esclarece ainda o autor que
os raciocínios contrafactuais são condicionais
contrários aos factos e podem ser contrafactuais
co-variacionais e contrafactuais absurdos ou quiméricos.
Ambos fazem intervir uma ficção contrária
aos factos (e nesse sentido diferem dos abdutivos, que formulam
hipóteses sobre o real), não remetendo para uma lógica
probabilista mas de imaginação, que coloca o
possível entre aquilo que não é real mas
também não é impossível. Depois de
analisar várias formas de raciocínio
contrafactual, Angenot pergunta se estes raciocínios
estarão fora da alçada da lógica. Ao que
responde: «sim, segundo a definição
estreita da lógica que exclui a hipótese, a
manipulação da duração, a
ficção, os ‘mundos possíveis’.
(…) A possibilidade de rebobinar
os acontecimentos e de retocar o
passado, tal é por vezes exasperante, mas não
é possível dissociar a ficção da
razão» (ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de sourds. Traité de
rhétorique antilogique,
Paris, Mille et une nuits, p. 236).
23 ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues
de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, p. 273.
24 Analisados à luz do padrão toulmineano
da argumentação, será fácil
verificar que muitos anúncios televisivos não se
preocupam em articular a garantia (warrant) que permite
ligar as razões (data,
grounds) à tese (claim): eles
limitam-se a reforçar directamente a ideia que procuram
passar de uma forma persuasiva. Este á aliás um
dos critérios propostos (articular a garantia) para ver
se estamos perante um raciocínio argumentativo (cf. Toulmin, Rieke, Janik, 1984, An Introduction to Reasoning, 2.ª ed., NY, Macmillan Publishing Company).
25 ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues
de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, pp. 393-394 e
p.426.
26 Eis como Angenot caracteriza o pensamento
para-doxal, típico dos filósofos: «O
pensamento para-doxal aparece, através dos
séculos, submetido a cinco exigências
concomitantes: — purga das paixões, sejam as
paixões pessoais ou as do vulgo, — apagamento,
tanto quanto se possa, do sujeito, dos seus interesses e
descentramento do seu ‘olhar’, — vontade de
escapar à entropia das ideias recebidas,
suspeição sistemática,
colocação em dúvida dos factos
supostamente conhecidos, das categorias e dos topoi
estabelecidos, — exploração de uma via
diferende da via comum, eventualmente uma via divergente,
oposta e, por fim — desconfiança mantida a
respeito dos seus próprios procedimentos que
serão submetidos a um ‘método’, a
testes ad hoc e a contra-verificações. (…)
Juntaria, ou anexaria uma sexta regra, uma regra de
suspeição desta vez relativamente à linguagem
ordinária, as suas polissemias, os seus equívocos
e as suas imagens» (ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de sourds. Traité de
rhétorique antilogique,
Paris, Mille et une nuits, pp. 396-397).
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