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Rui Grácio

Duas formas de conceber «argumento» e uma forma de conceptualizar a argumentação

Os teóricos da argumentação falam de «argumento» em dois sentidos muito diferentes.
Para uns, argumento é tudo aquilo que resulta de uma selecção que se plasma num modo de ver ou, para utilizar a terminologia de Grize, que se constitui como uma «esquematização». De acordo com esta concepção a frase «as pessoas são muitos estranhas» ou «é melhor ir por este caminho» são argumentos na medida em que expressam pontos de vista. Para esta visão, todo o discurso é mais ou menos argumentativo e a argumentatividade é inerente à própria discursividade.
Para outros, argumento remete para a «apresentação de razões» que funcionam como suporte de uma afirmação. É assim que Toulmin escreve que «dados de alguma espécie devem ser produzidos para que aí possa existir uma argumentação; uma mera conclusão, sem que nenhuns dados tenham sido produzidos para a suportar, não é argumentação»1. Segundo esta concepção a presença de uma argumentação requer mais do que um uso instrumental da linguagem: «por uso instrumental referimo-nos àquelas asserções que é suposto atingirem directamente o seu propósito, tal como são, sem a necessidade de produzir ‘razões’ adicionais ou de ‘argumentos de suporte’. (…) Por uso argumentativo, ao contrário, referimo-nos àquelas asserções que têm êxito ou insucesso apenas na medida em que podem ser ‘suportadas’ por argumentos, razões, evidências ou coisas semelhantes e que são capazes de levar o leitor ou o ouvinte a acompanhá-las por terem uma tal ‘fundação racional’»2. Os teóricos da lógica informal, Johnson e Blair, seguem esta ideia de Toulmin quando distinguem entre opinião e argumentação: uma opinião remete simplesmente para a expressão de uma convicção ou de uma atitude. Para ilustrar o que seja a expressão de uma opinião, os autores dão o seguinte «exemplo claro»:

«Obrigado pela sua crítica de filmes, Judy Gerstel. Podemos contar com ela para boas apreciações de filmes. As suas críticas são habitualmente muito boas.
Contudo, preferimos o sistema de pontuação de 0 a 10 que costumava usar do que o de 0 a 4 que agora utiliza»3.

Nesta perspectiva uma argumentação requer mais do que a expressão de uma opinião: ela remete para «razões» adicionais que suportem as opiniões. Sendo assim, escrevem, «por ‘argumento’ referimo-nos a uma tese e a um ou mais conjunto de razões oferecidas por alguém para suportar a tese»4. Estamos pois na presença de modelo que vê a argumentação como um complexo de teses e razões.

Estas duas concepções apresentam dificuldades.
A primeira cai no problema do pan-argumentativismo» e coloca problemas ao identificar o plano dos conteúdos que nos guiam para uma determinada interpretação com o plano da argumentação. Dito de uma forma crua, a ideia é a de que todo o modo de discorrer remete para uma determinada interpretação, sendo a diversidade dos modos de interpretar o factor que torna o discurso argumentativo e susceptível de discussão: ele leva-nos sempre por determinadas modos de ver em detrimento de outros. Esses determinados modos de ver resultam das selecções implicadas na produção do discurso e, uma vez que uma tal selectividade é incontornável, assim o é a argumentatividade que configura o discurso como uma interpretação.  É nesta linha de ideias que Angenot escreve que «não há nunca ‘factos’ no discurso: existem enunciados onde as coisas deste mundo são filtradas, vistas sob um ângulo, de viés, traduzidas em termos que julgam sub-repticiamente e concluem antecipadamente. (…) Nada me garante a adequação das coisas e das palavras, dos processos e das inferências: é realmente por isso que argumento»5.
Deve notar-se que esta perspectiva decorre de duas assunções concomitantes. A primeira é a de que a linguagem não é o espelho do mundo, que há uma distância entre a linguagem e o real e que a «colagem» entre ambos implica uma organização discursiva sujeita a constrangimentos diversos, sejam eles o do própria subjectividade, os da língua, os das referências disponíveis a que se pode recorrer, os da dimensão histórica e social de todo o pensamento. Neste sentido, o discurso é sempre organizado através do recurso selectivo a um repertório heterogéneo que lhe pré-existe, nunca começa do nada e está sempre cheio de referências circunstanciadas. A segunda assunção é a de que o discurso, mesmo podendo ser aparentemente monológico, tem uma essência dialógica. É assim que Bakhtine escreve que «o diálogo — a troca de palavras — é a forma mais natural da linguagem. Mais: os enunciados, longamente desenvolvidos, e ainda que emanem de um único locutor — por exemplo, o discurso de um orador, a aula de um professor, o monólogo de um autor, as reflexões em voz alta de um homem solitário —, são monológicos apenas pela sua forma exterior, mas pela sua estrutura semântica e estilística, eles são, de facto, essencialmente dialógicos»6. Desta ideia conclui Amossy que a análise argumentativa remete para o dialogismo da linguagem, ou seja, «na medida em que toda a palavra surge no interior de um universo discursivo prévio, ela responde necessariamente a interrogações que frequentam o pensamento contemporâneo e que são tanto objecto de controvérsias em boa e devida forma, como de discussões larvares. Todo o enunciado confirma, refuta, problematiza as posições antecedentes, sejam estas expressas de uma forma precisa por um dado interlocutor ou de forma difusa no interdiscurso contemporâneo»7 acrescentando, na sequência, que «a análise argumentativa liga-se assim às informações difundidas pelos media, como às biografias dos homens célebres, às narrativas ficcionais, aos discursos eleitorais, às mensagens publicitárias, às polémicas de cidadania»8.
Por conseguinte, esta linha de considerar a noção de «argumento» parte de uma visão que coloca o dialogismo e a pluralidade de vozes como constitutiva do discurso, sustenta a inseparabilidade entre discurso e interpretação e deriva da natureza interpretativa de todo o pensamento o traço da selectividade com que ele chega sempre ao discurso («com que palavras e sem que palavras?», poderíamos perguntar) ou seja, argumentativamente. O extremar desta perspectiva é dada pela componente pragmática que Perelman introduz no dialogismo ao tematizá-lo em termos de «auditório» — o discurso não será compreensível sem referência a um auditório, mesmo virtual, que dê forma e intencionalidade aos raciocínios enunciados — e ao fazer do próprio pensamento em silêncio uma forma de argumentar perante um auditório: «o acordo consigo mesmo não é senão um caso particular do acordo com os outros. Assim, do nosso ponto de vista, é a análise da argumentação dirigida a alguém que nos levará a compreender melhor a deliberação consigo mesmo, e não o inverso»9. Também Angenot se insere nesta linha de pensamento quando, referindo-se aos sonhos, afirma que «mesmo a dormir estamos sempre a argumentar»10.
O problema que aqui surge é o seguinte: será que postular a natureza argumentativa de todo o pensamento faz de todo discurso uma argumentação? Será que podemos dar o passo que estabelece a identidade entre argumentatividade e argumentação? Amossy, vi-lo atrás, não hesita em dá-lo, afirmando mesmo que a argumentação «abrange tanto as informações televisivas como uma descrição, uma narrativa de uma viagem, uma conversa em família». Mas este passo conduz a uma consequência imediata, ou seja, a de considerar a argumentação como «um ramo da análise do discurso»11.
É aliás também essa a perspectiva de Angenot que, reclamando-se da «análise do discurso», afirma que «não há teoria da argumentação que possa subsistir isoladamente, numa autonomia heurística absoluta; a análise argumentativa é, em primeiro, inseparável do conjunto de factos da discursividade, do mesmo modo que ela é inseparável do dialogismo interdiscursivo, da imersão dos textos no discurso social do tempo, tal como o é da análise hermenêutica, ou seja, a da constituição do texto como estratificação de níveis do sentidos»12.
Os problemas que esta concepção coloca são os seguintes: apresenta um quadro teórico que remete as questões de argumentação para questões de interpretação e de análise interpretativa, ou seja, focaliza as questões de argumentação na relação entre o discurso e a leitura que o permite interpretar, desconstruir e questionar. Neste sentido, trata-se de uma concepção que privilegia os discursos monogeridos, o que se compreende na medida em que a tónica é posta na análise do discurso e não na interacção real entre argumentadores e que as argumentações são encontradas no discurso e não como algo que emerge de uma interacção real (entendendo-se aqui por «real» uma interacção composta por turnos de palavra) e não apenas virtual. A esta concepção pode ser apontado um certo intelectualismo, na medida em que privilegia a análise e a leitura — ler o discurso de modo a evidenciar os seus pressupostos argumentativos — mais do que descer ao plano prático e circunstanciado das interacções. Digamos que o ponto fraco desta perspectiva é a de tematizar a argumentação a partir de uma noção monológica do argumentar que fica longe de uma imagem prática do «choque de evidências» que vulgarmente é associada às situações argumentativas reais. A este respeito diremos que se toda a argumentação pressupõe uma leitura do discurso que nos encontra e que nos propõe certa tematização, ela não se torna efectiva sem que o seu questionamento dê origem a um intercâmbio dialéctico. Uma argumentação pressupõe os discursos e o seu dialogismo como condição necessária mas não suficiente: ao dialogismo dos discursos é preciso associar o movimento dialéctico dos turnos de palavra e mais do que analisar o que é discutível num discurso é importante ver o que é discutido numa interacção. Julgamos que esta passagem do discutível (ponto de vista da análise do discurso) para o que é discutido (discursos que entre si interagem polarizados num assunto em questão) permite introduzir um nível de objectivação mais rigoroso quer do ponto de vista do objecto de estudo dos analistas da argumentação, quer do ponto de vista do que seja uma prática argumentativa.
O seu ponto forte é o de evidenciar a natureza argumentativa da discursividade, a de mostrar que o todo o discurso se configura por operações selectivas — logo, discutíveis, ou seja, não redutíveis ao plano do raciocínio formal — através dos quais gere os recursos a que lança mão, a de permitir pensar a leitura de um discurso como forma de explicitar a perspectiva para que remete e que nela nunca se apresenta — nem pode apresentar — de uma forma explícita e, finalmente, a de permitir inventariar «tipos», «esquemas» e «lógicas» de argumentação.

Vejamos agora as dificuldades suscitadas pela segunda concepção de «argumento». Dois problemas se levantam de imediato: por um lado a ideia de «razões» e, por outro, a relação de «suporte» entre as «razões» e a «tese». O que são «razões»? E o que é uma «tese»? Dir-se-á que, de um ponto de vista argumentativo, uma «tese» é uma posição justificada por razões substanciais. Nesse sentido, uma tese é um corolário que resulta do modo como articulamos raciocinadamente um conjunto de considerandos de forma a fazê-los funcionar como seu suporte justificativo. No fundo, trata-se de lançar mão à ideia lógica de raciocínio como articulação entre premissas e conclusão e ajustá-lo a uma realidade não formal, ou seja, em que não estamos a lidar com uma linguagem matematizada mas com uma linguagem natural, em que não estamos a considerar os raciocínios como movimentos abstractos, mas como modos pessoais de argumentar nos quais as conclusões são também sempre posições e, finalmente, em que as razões apresentadas têm em consideração aqueles com quem se interage. A conclusão no sentido lógico tem o seu análogo na tese argumentativa, as premissas no sentido lógico, têm o seu análogo nas «razões» de suporte apresentadas e a função demonstrativa do raciocínio lógico terá o seu análogo na função justificativa. Do mesmo modo, o critério da validade lógica terá o seu análogo nos critérios da avaliação das argumentações os quais, não se podendo apresentar como imediatamente considerados em termos binários (verdadeiro ou falso) dada a componente sociológica da argumentação, terão de ser critérios que possibilitem uma avaliação em termos gradativos (muito ou pouco). É assim que Johnson e Blair propõem a receita ARS: aceitabilidade, relevância e suficiência. Será que as razões apresentadas são aceitáveis? Será que são relevantes? Será que são suficientes? Estes três critérios são de inegável valor e ninguém negará que — a par de muitos outros — são utilizados na apreciação das argumentações e da sua força. O problema começa quando se pretende fazer deles critérios definidores da racionalidade das argumentações independentes das fontes de autoridade que a sua aplicação sempre implica. O que, ou quem, define o que é aceitável, relevante e suficiente? A maioria, o bom senso, o impacto persuasivo das argumentações, os especialistas, os decisores, a prova dos factos, critérios transcendentais de razoabilidade?
Por outro lado, porquê pensar a argumentação em termos de resultados derivados de aplicação de critérios normativos, ligando desse modo a argumentação a uma decisão que pretende «ter razão»? E «razão» na forma como se infere uma conclusão ou razão no modo  de perspectivar o assunto em questão, ou seja no conjunto de considerandos a partir dos quais de raciocina? Porque uma coisa é dizer-se que, de um ponto de vista descritivo, os argumentadores recorrem amiúde a critérios como os da relevância, da aceitabilidade e da suficiência de forma a valorizarem ou a desvalorizarem certos aspectos trazidos às argumentações; outra é pensar que tais critérios, para lá de traduzirem modos valorativos de lidar com os assuntos em questão, podem remeter para uma base objectiva de avaliação. Claro que quanto mais delimitado é o assunto debatido, quando mais a sua abordagem é reconduzida a parâmetros de campo ou disciplinares e enquadrado no ponto de vista de certas metodologias, mais aparente se torna uma tal objectividade. Mas é importante não confundir objectividade com procedimentos de objectivação nem esquecer que toda e qualquer objectividade tem nos processos de objectivação a sua condição de possibilidade. Dito de outra forma, de um ponto de vista conceptual, a objectividade é um conceito a que subjaz sempre uma noção de ordem mais elevada: o de «perspectividade». E é ainda relativamente a esta noção que o conceito de objectividade se caracteriza, precisamente como um «quadro» que, cortando com outras formas de olhar, se centra em determinadas assunções (por exemplo: «a linguagem está escrita em linguagem matemática») e se organiza metodicamente como funcionamento interno (critérios, coerência, sistematicidade). Aceder, de um ponto de vista teórico, a um domínio de objectividade é entrar no jogo da objectivação ou no script que dita o real na versão dos valores de entrada com que aceitamos ou somos levados, pelo nosso próprio software cultural (adquirido pelos processos de socialização), a olhar para ele. De um ponto de vista prático o conceito de objectividade tem o seu paralelo na noção de «normal», do que é expectável, do não dissonante e habitual nas práticas comuns. Mas os domínios de objectividade não são meramente um jogo de conceitos e metodologias: eles são indissociavelmente teóricos e práticos, de modo que a própria objectividade não é separável de uma definição do que é «normal» por parte da comunidade que exerce a autoridade sobre as suas práticas. Ontologia e sociologia cruzam-se inevitavelmente nos usos da linguagem.
Ora é justamente este cruzamento que os lógicos informais pretendem «neutralizar» quando propõem para a análise das argumentações o seu modelo do complexo de teses e razões. Para circunscreverem a ideia de tese consideram que esta se pode e deve exprimir numa proposição identificável, sendo que esta identificação é feita pela função distintiva da conclusividade de um enunciado. Assim identificada podem ser também isolados os enunciados que lhe servem de suporte. E, da mesma maneira que não faz sentido, do ponto de vista do raciocínio, que uma conclusão não derive de premissas, assim também, de um ponto de vista da argumentação, não faz sentido que uma tese não derive de razões, termo que se torna sinónimo de «argumentos». O grande problema que aqui surge é justamente a redução da ideia de tese a uma proposição. Nota a este respeito M. Gilbert que «quando se argumenta está sempre em jogo muito mais do que aquilo que possa ser identificado como uma proposição. A verdade de uma afirmação pode certamente ser uma questão numa argumentação, mas como é que essa afirmação se tornou um assunto em questão, como é identificada, para que associações remete, que conexões emocionais tem, a que atitudes se liga e qual o tipo de relacionamento entre os argumentadores são apenas alguns do largo espectro de factores envolvidos e relacionados com a argumentação. Nas situações interpessoais, a argumentação pode frequentemente ser ‘realmente’ sobre um assunto relacionado e não sobre a aparente tese que está sobre a mesa. Tal não significa que a alegada tese não tenha um papel a desempenhar ou não seja significante. Com efeito, pode ser proveitosa para nos conduzir às raízes do desacordo, quanto mais não seja por mostrar que a aparente tese é trivial e sem consequência real para os argumentadores. Em contextos académicos, o ponto de desacordo apresentado pode ser apenas um aspecto lateral ou um ícone para algo de muito mais complexo»13.
Uma tal complexidade pode fazer-nos pensar que a metáfora do encadeamento (que é uma metáfora de inspiração matemática), das «longas cadeias de razões», não sendo certamente exclusivo, pode não ser igualmente o mais apropriado para abordar as argumentações. Douglas Walton refere frequentemente uma aplicação informática — o Araucaria14, desenvolvido por Glenn Rowe e Chris Reed — como um útil instrumento na análise das argumentações. Resumidamente uma tal aplicação oferece vários modelos de análise das argumentações (Toulmin, Walton, Polllok e outros) — e é , para o dizer sumariamente, uma ferramenta para decompor textos em unidades (tese e razões) e a organizá-los de modo a mostrar como é que se encadeiam.
A questão é que em tais processos diagramáticos todos os caminhos vão dar a uma conclusão (topo da hierarquia esquemática), podendo haver vários níveis de hierarquização das proposições entre si. Ora, se optarmos por pensar a argumentação não segundo o esquema exclusivo do encadeamento mas de várias forças a funcionarem em feixe, a ideia de argumentação que obteremos será mais consonante com a ideia de tematização e de perspectivação do que com a redução da argumentação a questões de raciocínio, redução tornada possível pela proposicionalização do discurso, pela sua atomização proposicional e pela relevância dada às micro cadeias inferenciais.
É assim que Gilbert comenta: «quando procuramos argumentar é típico fazê-lo relativamente a uma posição e não a uma proposição. Aquilo que é vulgarmente identificado com uma ‘tese’ ou um ‘ponto de vista’ não é tanto aquilo sobre o qual versa o argumento quanto um ícone ou algo que representa um complexo de convicções, atitudes e finalidades (Gilbert, 1995). As posições são muito mais complexas do que declarações que servem apenas para encapsular a rede de componentes multimodais que formam a posição complexa que está realmente em questão»15. Por outro lado, escreve ainda o autor, «a consideração de que o núcleo das noções de argumentação é o acordo requer uma análise complexa tem consequências para qualquer tipo de abordagens tradicionais nesta área. A Lógica Informal, por exemplo, apresenta invariavelmente os argumentos como acontecimentos estáticos focados numa conclusão. Se o Pro consegue demonstrar que o Contra não tem meios de refutar a conclusão, então o Contra é forçado a concordar com o Pro. A argumentação pode até ser transposta para um diagrama com pequenas setas e linhas que mostram como as várias afirmações conduzem todas para a conclusão de uma forma mais ou menos aceitável. Pressupõe-se que a argumentação é sobre a afirmação designada como tese, mas é muito pouco frequente que chegar a um acordo sobre uma única afirmação acabe com a interacção argumentativa»16. Vemos pois as dificuldade que com que o modelo do complexo de tese e razões se defronta. Para citar ainda Gilbert, «o modelo da ‘máquina-lógica’ da argumentação no qual um dos participantes deve abandonar uma posição quando não é capaz de responder de modo a legitimar contra-argumentos quase nunca se aplica. Na grande maioria das situações está mais em jogo e tem de se lidar com mais do que com a aparente tese. (…) As posições são muito mais complexas do que declarações que apenas servem para encapsular a rede de componentes multi-modais que forma a posição complexa que está realmente em questão»17.
A lógica formal, dissemo-lo anteriormente, apresenta ainda uma visão normativa e procura detectar, através da sua teoria das falácias, os critérios que permitem distinguir os raciocínios falaciosos daqueles que não o são.
Sob este aspecto Plantin, apesar de reconhecer que a teoria moderna dos paralogismos tem o mérito de encaminhar o estudo da argumentação para uma direcção crítica, foca contudo quatro aspectos delicados de que podem ser alvo os teóricos que colocam no seu centro de atenção a teoria das falácias: é uma visão reducionista (na medida em que privilegia o critério lógico em detrimento dos contextos em que a argumentação suspende a questão da verdade), conduz a uma visão atomizada do discurso (na medida em que procede à sua reconstrução em termos de proposições isoladas do ambiente da argumentação), implica colocar fora do jogo o árbitro que determina algo como falacioso e, como consequência dos pontos anteriores, acaba por eliminar o uso natural da linguagem (que deve sofrer uma depuração para poder ser abordada segundo o critério lógico)18.

As dificuldades teóricas referidas merecem que nos detenhamos sobre elas. O que é que elas mostram? Em primeiro lugar fazem-nos chocar com os problemas que se colocam quando pensamos a argumentação a partir de uma teoria prévia de argumento. Dito de outra maneira, a via de acesso ao estudo da argumentação torna-se complicada quando a procuramos teorizar a partir de uma definição a priori do que seja «argumento». Quando por «argumento» entendemos o tecido de uma construção discursiva, tornamos a argumentatividade coextensiva à discursividade mas deparamo-nos com a falta de especificidade que faz de um discurso uma argumentação. Quando por «argumento» consideramos uma determinada estrutura de raciocínio, tornamo-nos capazes de esquematizar os seus encadeamentos, mas fica-se com a sensação que, ao privilegiarmos a forma dos raciocínios e os esquemas argumentativos nos escapa algo de essencial: o assunto que está em questão.
Do meu ponto de vista, uma teoria de argumentação que pretenda ter um alcance geral e autónomo deve munir-se de uma conceptualidade diferente, erguida sobre uma base empírica e descritiva. Willard dá indicações decisivas neste sentido quando situa o estudo da argumentação no plano da comunicação e da perspectividade19. Comunicação significa para ele uma interacção da qual emergem discursos co-construídos no mesmo sentido que, situando-se numa perspectiva da ADI (Análise do Discurso em Interacção) Catherine Kerbrat Orecchioni lhes dá ao falar de «mecanismos de ajustamento recíproco dos comportamentos dos participantes na troca à medida que esta de desenrola»20. Mas se a ADI se foca nos mecanismos de ajustamento, uma teoria da argumentação tem um objecto diferente, centrando-se nos assuntos e na forma como é que eles são desenhados interactivamente numa comunicação em que é manifesta uma dissonância de perspectivas. Desta delimitação decorre que a teoria da argumentação se distingue quer da análise do discurso, quer da própria análise do discurso interactivo. Privilegiando a interactividade que faz com que a identificação de uma argumentação pressuponha a emergência de uma co-construção discursiva (ou, como propõe Plantin, que estejamos num plano dialogal) baseada na dissonância de perspectivas quanto a um assunto em questão, as questões que se colocam não são, em primeiro lugar, as dos esquemas argumentativos utilizados ou as dos critérios de avaliação a que os argumentadores recorrem, mas o modo como o assunto em questão é configurado pelas partes. Cada discurso dos participantes tematiza o assunto em questão de certa forma, propõe sobre ele uma determinada esquematização ou seja propõe sobre ele uma perspectiva. Que para tornar visível e impactante a sua perspectiva ele avance com declarações que se assemelham a teses e desenvolva raciocínios que procuram fazer concluir de uma forma convincente, nada disso perceberemos enquanto não os inserirmos no contexto mais alargado da perspectiva veiculada pelo seu discurso. Mesmo em frases que se assemelham a teses, como «A educação deveria ser gratuita pois doutro modo estamos a descriminar as pessoas em função das suas posses económicas», estamos antes de mais perante uma tematização do assunto em questão «acesso à educação» perspectivado pelo lado da justiça e da injustiça da descriminação económica. Deste modo, uma parte importante da teoria da argumentação refere-se ao acto de leitura dos discursos de modo a fazer remontar da discursividade aos assuntos e à perspectivas veiculadas pelos discursos.  Mas, como atrás referimos, a objectividade de uma teoria da argumentação passa pela assunção da interactividade. O exemplo que anteriormente demos, sendo argumentativo, não é ainda uma argumentação. Para isso seria preciso que um tal discurso desse origem a um outro que o problematize, o que poderia acontecer na seguinte sequência:

«— A educação deveria ser gratuita pois doutro modo estamos a descriminar as pessoas em função das suas posses económicas.
— Por acaso até me parece que se não for paga a educação deixará de ter qualquer qualidade…
— Sim, mas o ideal é que seja gratuita e tenha qualidade. Não te parece que deve ser esse o sentido do desenvolvimento?»

Eis-nos aqui plenamente numa argumentação: ela apresenta uma interacção plasmada em turnos de palavra; pode assinalar-se que em uma tal interacção se polarizou num assunto em questão, ou seja, numa esfera de relevância; e, finalmente, percebe-se que os discursos de cada um dos participantes remete para o assunto e para as intervenções do outro participante. E será a partir desta base empírica e descritiva (turnos de palavra, contexto temático, contexto geral da argumentação e co-contrução discursiva) que se torna possível ver o que é que, circunstanciadamente, funciona como argumento e como contra-argumento, sendo que os argumentos são aqui pensados em primeiro lugar como configuradores temáticos de perspectivas sobre assuntos em questão e só depois como formas de justificar conclusões de forma a conferir-lhe força persuasiva.
Trata-se, assim, de pensar a argumentação a partir do argumentar efectivo e não a partir da inerência da argumentatividade à discursividade nem a partir de uma teoria prévia do argumento.
Argumentar, dissemo-lo já, implica turnos de palavra (interacção), tematização de assuntos (configuração de recursos com que se desenha uma perspectiva), dissonância de perspectivas (o que faz com que as argumentações não versem apenas sobre assuntos que tematizam, mas sobre assuntos em questão relativamente aos quais se registam perspectivas dissonantes), co-produção de discursos (no sentido em que as intervenções não só se polarizam numa zona de relevância comum como se desenrolam tendo em conta as intervenções dos participantes). Do ponto de vista prático dos argumentadores o vai-vem entre o que é discutível e o que é discutido é essencial: eles procedem regra geral à leitura do que é tematizado e discutido em termos do que se revela discutível e organizam os seus discursos trazendo este para a discussão. Esse é o fulcro da dinâmica argumentativa, a qual não dissocia os assuntos das tematização que os argumentadores deles fazem, as perspectivas dos modos de discorrer avançados no discurso, os raciocínios das perspectivas em que se inserem e o que, em tudo isso, se revela como discutível e susceptível de ser chamado à co-construção discursiva em que os participantes de encontram envolvidos.
Neste sentido, e se quisermos falar em termos técnicos, os grandes questões de argumentação não são as de inventariar técnicas discursivas ou esquemas argumentativos (cuja importância não negamos), mas as de perceber como é que as perspectivas se desenham no modo de tematizar os assuntos, de saber ler os discursos em função das perspectivas para que eles remetem e dos raciocínios em que se apoiam, de assinalar os pressupostos focais de compreensão que subjazem às perspectivas e o modo de inferir dos raciocínios, de os problematizar e, desse modo, alimentar o trânsito, ou o vai-vem entre o que é discutido e o que, sendo considerado como discutível pelos argumentadores, é por estes trazido à discussão, dando ou não continuidade à interacção argumentativa.
Nesta perspectiva há que distinguir um conjunto de aspectos:
• os que se ligam ao devir-argumentação de uma interacção (nomeadamente a maneira como os assuntos se convertem em assuntos em questão sobre os quais vale a pena argumentar, ou seja, a polarização da interacção comunicativa numa esfera de relevância restrita que é a do assunto);
• os que se ligam às estratégias discursivas e não discursivas através das quais o assunto é focalizado (através de questões, por exemplo, mas também através de certas atitudes simbólicas);
• os que se ligam à manutenção das interacções dentro da zona de relevância (nunca totalmente definida) para que remete o assunto em questão;
• os que se ligam às tematizações com que desenham as perspectivas (através dos vários recursos configuradores a que os argumentadores lançam mão na orientação do seu discurso);
• os que se ligam ao uso de raciocínios como forma de justificação persuasiva;
• os que se ligam a recursos retóricos cuja função é tornar a comunicação persuasiva (e em que o logos, o pathos e o ethos trabalham em feixe);
• os que ligam à produção de contra-perspectivas e contra-argumentos.

Vistas deste ângulo, as técnicas argumentativas são as que dizem respeito à problematização das perspectivas em confronto, problematização de que se alimenta a própria interacção argumentativa e que tem o seu cerne na tematização dos assuntos e dos recursos por elas convocados para que o assunto seja mantido em questão relativamente à diferença de modos de o tematizar por parte dos particitipantes.


Notas
1 UA, p. 106
2 ITR, p. 5
3 Johnson, R.H. & Blair, J. A.,  2005, J.A., Logical Self-Defense, NY, Idebate Press, p. 6.
4 Idem ibidem p. 10.
5 ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, pp. 393-394 e p. 426.
6 Grize, J.-B., 1996, Logique naturelle & communications, Paris, P.U.F, p. 61.
7 Amossy, Ruth, 2006, L’argumentation dans le discours, Paris, Armand Colin, p. 35.
8 Idem ibidem, p. 37.
9 PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988, Traité de l’argumentation, Bruxelles, Éd. de L’ Université de Bruxelles, p. 54
10 ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, pp. 444.
11 Amossy, Ruth, 2006, L’Argumentation dans le discours, Paris, Armand Colin, p. 246.
12 ANGENOT, Marc, 2008, Dialogues de sourds. Traité de rhétorique antilogique, Paris, Mille et une nuits, pp. 418.
13 GILBERT, Michael A. 2000. “Agrement/Disagreement.” Proceedings of the 3rd International Conference of the Ontario Society for the Study of Argumentation. Hans Hansen & Chris Tindale, Eds., p. 1.
14 Consultar http: //araucaria.computing.dundee.ac.uk/
15 GILBERT, Michael A. 2000. “Agrement/Disagreement.” Proceedings of the 3rd International Conference of the Ontario Society for the Study of Argumentation. Hans Hansen & Chris Tindale, Eds., p. 5.
16 GILBERT, Michael A. 2000. “Agrement/Disagreement.” Proceedings of the 3rd International Conference of the Ontario Society for the Study of Argumentation. Hans Hansen & Chris Tindale, Eds., p. 9.
17 GILBERT, Michael A. 2000. “Agrement/Disagreement.” Proceedings of the 3rd International Conference of the Ontario Society for the Study of Argumentation. Hans Hansen & Chris Tindale, Eds., p. 2.
18 Cf. PLANTIN, Chr., 1995, «L’argument du paralogisme», in Hermès, 15-16, pp. 241-258.
19 «O constructo de mais elevada ordem para propósitos epistémicos é ‘comunicação’ e a sua noção imediatamente subordinada é ‘perspectividade’» (WILLARD, C. A., 1983, Argumentation and the Social Grounds of Knowledge, Alabama, The University of Alabama Press, p. 4)
20 KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine, 2005, Le discours en interaction