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Rui Grácio
Do auditório à
interrogatividade: para uma crítica do paradigma
persuasivo no estudo da argumentação
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
«Chega-se sempre à
argumentação com um saber substancial sobre
‘o que é’ a argumentação. Este
saber comum deve ser posto em causa e problematizado».
C. Plantin, L’argumentation, Seuil, 1966, p. 16
«Uma pergunta não interroga:
uma pergunta diz a resposta. Porque uma pergunta está do lado
do problema a resolver, do ainda simplesmente desconhecido; e a
interrogação está do lado do
insondável. A pergunta desenvolve-se na clara horizontalidade; a
interrogação, na obscura verticalidade.
Como em jogo de cabra-cega, em que
há seres à nossa volta, a pergunta orienta-se
entre os que lhe não pertencem até achar o que
procura. Mas a interrogação não encontra,
porque nada há para achar. O limite da sua
esperança está menos no triunfo de um encontro do
que no cansaço, na resignação, ou na
evidência natural do que nos coube, como nos é
evidente e tranquilo o termos cinco sentidos e não mais.
Mas até lá o caminho é longo e
inimaginável na imobilidade desta noite. Verdadeiramente
é única a sorte que nos visitou. Legaram-nos a
tradição da pergunta-e-resposta como o passatempo
de um jogo. Porque até mesmo o interrogar degenerou
depressa em pergunta.»
Vergílio Ferreira, Invocação ao Meu Corpo
«Se esta objecção tem
alguma força, será contra os que sustentam que o
fim da oratória é persuadir. Mas, nem esta, tal
como a definimos, nem o ofício do orador, depende do
êxito. Sem dúvida que o orador procura persuadir e
triunfar, mas uma vez que fale a propósito, mesmo que
não persuada, já cumpriu com aquilo que a
retórica promete. (…) Do mesmo modo, o fim da
oratória é falar a propósito para
persuadir, pois, como logo demonstraremos mais claramente, esta
arte não consiste no efeito, mas no acto.»
Quintiliano, Instituciones
Oratorias, Livro Segundo,
capítulo XVIII.
Pretendo mostrar neste artigo em que
medida o paradigma persuasivo conduz a uma concepção acanhada e
desvirtuada do estudo da argumentação e,
simultaneamente, propor, como alternativa, aquilo que
designarei como o paradigma
configurativo dos assuntos em questão.
Começo com a
clarificação de uma expressão que
recorrentemente utilizarei e que é nuclear do ponto de
vista da teoria que proponho. Trata-se da expressão
«assunto em questão». À primeira
vista, mas também sintomaticamente, a leitura que
espontaneamente se fará é a de que a
expressão «assunto em questão»
é equivalente à expressão «aquilo
que está em causa». Para além do mais,
tratando-se de utilizar esta expressão no contexto da
teoria da argumentação, tender-se-á a
pensar na expressão «aquilo sobre o qual se debate
ou discute» e, na sequência, «aquilo sobre o
qual as pessoas não estão de acordo» e,
finalmente, «aquilo que se procura resolver». Toda
esta cadeia corresponde a uma associação que
podemos encontrar ao nível do senso comum sobre a
argumentação.
Mas, para nós, «assunto em
questão» deve ser tomado de outra forma: significa
interrogar, remontando do plano
discursivo das respostas às perspectivas que as
possibilitam. É nisto que um
«assunto em questão» se distingue de uma
mera pergunta. As perguntas e as respostas funcionam
solidariamente na discursividade e é nesta que podemos,
ou não, focalizar assuntos. Quando podemos ler a
discursividade como tematização de um assunto
(que é para nós a unidade mínima para que
falemos, não de argumentatividade, mas de discurso como
argumentação) é porque nela
encontrámos, se não respostas, pelo menos
elementos que nos orientam para respostas na medida em que
configuram, explícita ou denotativamente, o assunto
através das perguntas específicas que colocam.
Mas um «assunto em questão» não se
caracteriza, para nós, pelo jogo do perguntar e do
responder que faz parte dos procedimentos de
tematização e que são sempre discursivos.
Caracteriza-se, antes, por aceder e interrogar a perspectiva a
partir da qual se lida com o assunto e que, para acontecer
discursivamente, em si mesma fica fora de questão.
Interrogar uma perspectiva a partir do discurso não
é interrogar o discurso por aquilo que ele diz mas por
aquilo que ele tem de pressupor para afirmar uma tese sobre um
assunto.
Talvez uma analogia visual possa ajudar a
perceber o nosso conceito de «assunto em
questão». Imagine-se que peço ao leitor que
me descreva o que neste momento vê. A sua
descrição corresponde a um campo de visão
directamente determinado pelo local onde se encontra. O que me
poderá descrever é o que se encontra sob a
alçada da perspectiva do seu campo visual. E, no
entanto, podendo descrever uma quantidade de coisas não
lhe será possível descrever, como algo que esteja
no seu campo de visão, a perspectiva a partir da qual
vê. Porque uma perspectiva dá a ver mas não
se vê a si mesma. Assim com a discursividade: permite
tematizar assuntos em questão mas nunca enunciar a
perspectiva a partir da qual os tematiza. E quando procuramos
aceder a essa perspectiva temos de passar para um plano
metadiscursivo que já não toma o dizer como
resposta mas como aquilo que só pode ter sentido em
função dos pressupostos que configuram a
perspectiva. A perspectiva é o lugar de onde o discurso
fala a propósito de um assunto em questão,
não a própria discursividade e as suas respostas.
Por isso, o que num assunto é susceptível de ser
posto em questão é, na realidade, a perspectiva
que o viabiliza e não as respostas que apresenta.
É claro que a discursividade e o seu jogo de perguntas e
respostas implicam também raciocínio e
inferências. E quando não é o assunto que
está em questão, ou não se tornou
suficientemente focalizado para se constituir como referente,
então podemos interrogar a discursividade de um ponto de
vista lógico, apontando eventuais erros ou fragilidades
de raciocínio, mostrando a existência de eventuais
falácias, salientando a solidez das cadeias de
raciocínio ou fazendo reparos sobre a
adequação dos termos. Todavia, o que aí
está em causa não é, ou ainda não
é, o assunto em questão, mas os nexos
inferenciais, seja do ponto de vista da sua validade formal,
seja do ponto de vista da sua adequação a uma
finalidade pragmática. A força da lógica
é aliás bem atestada por diversos jogos em que,
através de um mero sistema dedutivo, podemos conduzir o
raciocínio do arbitrário ao necessário (de
que o jogo Master Mind é, aliás, um belo exemplo).
E a visão pragmática saberá mostrar se a
articulação entre o discurso e o contexto cumpre
a razão de ser que é o êxito da sua
finalidade.
Mas, do nosso ponto de vista, o que
caracteriza um «assunto em questão» é
a interrogação do
discurso enquanto perspectiva e
não o pedido e apresentação de
razões e a sua eventual discussão, a simples
conferência de raciocínios e o debate sobre a sua
suposta correcção, a articulação
entre discurso e contexto e o possível comentário
sobre a sua adequação ou o rigor enunciativo e as
susceptíveis dúvidas sobre ambiguidades
terminológicas.
Uma segunda observação
é a de que a minha crítica ao paradigma
persuasivo não significa que conteste que uma das
finalidades possíveis do uso do discurso não seja a
persuasão, mas apenas que considero que a especificidade
da argumentação não se define pela
persuasão. Mesmo aqueles que defendem que toda a
argumentação é persuasiva não
deixarão de concordar que nem toda a persuasão
é argumentativa o que, por si só, coloca desde
logo o problema da especificidade
da argumentação enquanto
forma de persuasão diferente de outros modos de
persuasão.
Um das respostas mais generalizadas para
esta questão — para além da ideia
perelmaniana segundo a qual o simples uso do discurso como meio
de comunicação (e não como
«acção directa mágica»1)
caracterizaria, desde logo, a persuasão argumentativa2
— é a que afirma que esta se pautaria pela razoabilidade.
É aliás essa orientação que muitos
autores seguem referindo-se à argumentação
como «a teoria e a prática da
justificação baseada em concepções
do razoável»3 ou como «uma actividade verbal, social e
racional focalizada em convencer um juiz razoável da
(in)aceitabilidade de uma tese através da
apresentação de uma certa
constelação de proposições que a
visam justificar (ou refutar)»4.
O problema — e o equívoco
— do paradigma persuasivo surge justamente aqui. Uma
coisa é referir, com bem salienta Perelman, que a
transição que se opera, em termos
sociológicos, entre a autoridade exercida pela
força e pela violência e a autoridade baseada no
poder persuasivo da palavra e do discurso é uma
conquista da humanidade5. Neste sentido a persuasão não
pode ser dissociada do contexto das práticas sociais em
que se insere e de condições que a possibilitam.
Sabemos aliás que, segundo Vernant, o nascimento do
pensamento racional é indissociável do universo
espiritual da Polis6. Uma
das condições desse universo espiritual que se
revelou como fundamental foi a possibilidade de colocar os assuntos em questão e de com eles lidar através do discurso.
Ou seja, a própria ideia de
«persuasão» encontra-se ligada à
possibilidade de transformar os conflitos em assuntos em questão e, enquanto tal, susceptíveis de serem
dirimidos através do discurso. Com efeito, que sentido
teria persuadir se não houvesse assunto em
questão sobre o qual recaíssem interesses e
perspectivas diferentes?
Coisa distinta é, no entanto, que
esta formulação — em que a persuasão
ganha o seu sentido da possibilidade de se colocarem assuntos
em questão e de serem abordados em termos discursivos
— cedo tenha sido amputada à sua possibilidade
fundadora (colocar em questão) para ser focalizada em
termos de eficácia prática, em termos de
resultado: como condicionar através do discurso?
(Górgias) ou como fazer prevalecer através do
discurso uma posição em detrimento de outra?
(Protágoras)7 Tal significa, com efeito, que o
exercício da persuasão aberto e solidário
de abordar os assuntos enquanto questão é reduzido a uma
questão de eficácia, de consumação de objectivos
precisos, de conquista e de afirmação de poder.
Assim, e para retomar as palavras de Barthes,
«começámos no ocidente a reflectir sobre a
linguagem para defender o nosso quinhão»8.
Polarizado nos efeitos e nas finalidades
ou resultados que através dele se podem consumar, o
discurso tornou-se instrumento e a arte de o manejar tornou-se
uma técnica. A retórica estabeleceu-lhe a teoria
e a noção de auditório permitiu tornar
secundário o assunto em
questão em detrimento, por
exemplo, dos poderes persuasivos da eficácia
oratória9. Donde a possibilidade de, à revelia de
qualquer assunto específico, se poderem fixar pontos que
antecipadamente se sabe contribuirem para a adesão do
auditório e para a vitória ou a
afirmação do discurso, o que significa, na nossa
perspectiva, a definitiva valorização da
persuasão, arma de poder, sobre a
argumentação, possibilidade de questionamento. E,
com efeito, nada a contestar à ideia de que a
força persuasiva do discurso é não
só muito mais eficaz do que a
argumentação, como mais consonante com o tempo
útil da acção prática: porquê
abordar um assunto como questão se a resposta que
visamos se imporá mais rapidamente fazendo passar a
questão como resolvida? E não é o
político, essencialmente, um homem de
acção?
Com a polarização na
persuasão, a argumentação dilui-se
então na retórica à qual, por sua vez,
corresponde uma concepção instrumental da
linguagem. E o assunto em
questão, que caracterizava o
sentido do uso persuasivo do discurso, na visão
instrumental que caracteriza a retórica é
subsumido à única finalidade de que esta
prioritariamente se ocupa: a de defender o seu quinhão
através de um discurso que consegue
aceitação, reconhecimento social, adesão.
Ora é justamente esta ideia de
aceitação, de reconhecimento social e de
adesão que é expressa na noção de
razoabilidade. Ela representa mais um conformismo relativamente
aos padrões vigentes, e aponta mais para saber retirar a
força do discurso dos poderes simbólicos de
certas representações10 do que o de
abordar os assuntos sob o modo do «em
questão»11.
Assim, e para concluir este ponto, direi
que se a mediação discursiva como forma dos
homens resolverem os seus conflitos remete para uma ordem da
persuasão pensada no quadro de uma racionalidade
sociológica e política, representando esta um
passo na civilidade das relações humanas
(renúncia à violência física,
sociedade de direito), é todavia a possibilidade de
lidar e interagir com os discursos enquanto assuntos em questão —
é esse o registo da argumentação —
que nos permitirá perceber se, por um lado, o discurso
nos requer como leitores participantes na
construção de um referencial comum que produz
possibilidades de sentido a partir da interrogatividade12 ou
se, por outro, a persuasão não se tornou um fim
em si mesmo que, prescindido do questionamento, apenas nos
requer para nos tornar coniventes de respostas que pouco ou nada têm a ver
com um suposto assunto em
questão. Aos poderes
invasivos da persuasão que actuam sob a capa da
razoabilidade contraponho assim os poderes retardadores e
interrogativos da argumentação que olha para o
discurso não como mero responder, mas enquanto
tematização de um assunto em questão, e
que procura interagir com a perspectiva por ele aberta num
quadro referencial comum produtor
de possibilidades de sentido (tematizações). Por outro lado, ao paradigma persuasivo,
herdeiro de um logocentrismo que tem por missão
reconduzir a multiplicidade à unidade, as razões
à razão, e encenar a verdade para exercer o poder13,
contrapomos a ideia de que o assunto em questão pode ser
o espaço de um referencial comum que, podendo originar
tematizações diversas, amplia horizontes e abre
possibilidades e direcções sem obrigar,
necessariamente, a uma conclusividade que exclui e que a si
mesma se afirma como poder. Por isso, em vez de paradigma
persuasivo, falaremos de paradigma
configurativo de assuntos em questão, no qual as teses não têm de se
contradizer por remeterem para perspectivas diferentes, nem os
argumentos de estar ao serviço de um monismo da
conclusão ou, ainda, sob a premência de
opções de acção, as quais,
aliás, têm mais a ver com os hábitos das
práticas sociais do que com justificações
argumentativas.
Um terceiro aspecto que gostaria de focar
relaciona-se com o facto de o paradigma persuasivo acabar por
transformar qualquer uso do discurso em
argumentação (império retórico).
Neste aspecto, oponho-me ao que designo como
pan-argumentativismo, à ideia de que todo e qualquer
discurso é sempre, desde logo,
argumentação. Se, por um lado, posso reconhecer,
por exemplo no seguimento da teoria da
argumentação na língua de Anscombre e
Ducrot, que a argumentatividade é inerente ao uso da
língua, nem por isso penso que o reconhecimento da
argumentatividade seja suficiente para considerar um discurso enquanto argumentação. E isto por uma razão essencial:
é que lidar com o discurso enquanto
argumentação é organizar a sua leitura em
termos de assunto em questão. É óbvio que
a argumentatividade do discurso está presente no tecer
das perspectivas e nos dá instruções para as compreendermos na sua
configuração, isto é, quanto aos
pressupostos de que parte para determinar o que no assunto faz
questão e quanto aos pontos de partida que permitem
perspectivar como argumentos determinados enunciados que
viabilizam respostas. É também óbvio que
ler um discurso como assunto em questão é
também instruí-lo a partir da perspectiva que com ele interage.
Ora é nesta interacção, que focaliza o
discurso enquanto assunto em questão como referencial
comum, que encontramos o cerne de qualquer
argumentação concreta e não na
persuasividade que através dela se possa querer
alcançar. O paradigma persuasivo condena a teoria da
argumentação a uma heteronomia dificilmente
sustentável. Pelo contrário, considerar que o que
se joga na argumentação não são
tanto os discursos como o modo
como interagimos com eles de uma forma específica (ou seja, enquanto veiculadores de perspectivas
sobre assuntos em questão) permite criar um
espaço teórico autónomo que, sem se fechar
às diferentes formas de discursividade e de
influência, se pode contudo afirmar na sua singularidade:
por que não pensar a persuasão a partir da
argumentação (como uma das suas possibilidades de
avaliação) em vez de pensar a argumentação
a partir da persuasão (como a finalidade intencional da
discursividade)? Não serão as tematizações de um assunto em questão necessárias
para as podermos avaliar em termos de persuasividade? E
não pressuporá esse, ou outro tipo de
avaliação (por exemplo, avaliar uma
argumentação como criativa), que saibamos ler essas
tematizações, ou seja, que as refiramos a um
assunto, que consideremos as respostas apresentadas em
função das questões a que respondem e os
argumentos apresentados no quadro da configuração
que perspectiva o assunto como questão? É neste
sentido que, ao paradigma
persuasivo, contrapomos o paradigma configurativo dos assuntos em
questão como
espaço teórico nuclear de uma teoria geral da
argumentação.
Sabemos que esta posição
colide com aquilo que designamos por ideologia da argumentatividade, a qual tende a transformar em expressões de
razoabilidade tudo o que remete para usos do discurso que
permitam gerar acordos e evitar o recurso à
violência física. Mas, ainda assim, pensamos que a
razoabilidade é sempre correlativa de um condicionamento
indevido da própria noção de
crítica cuja verdadeira função é,
afinal, a da acuidade e da resistência interrogativa e
problematizadora perante as leis do mercado social14 e
não a sua reprodução irreflectida, servil
e resignada. Se a argumentação está, na
sua génese, associada a uma antropologia do convencer,
nos nossos dias ela deve configurar-se como disciplina crítica metadiscursiva de leitura e
interacção com o discurso. Só assim ela poderá cumprir a
função problematizante que lhe é requerida
e que corresponde ao imperativo que Meyer enuncia nas seguintes
palavras: «É preciso que nos recusemos a todo o
custo a abolir o problemático, evitando que ele seja
triturado por quase respostas, as mesmas com que os homens se
satisfazem quando precisam de se assegurar por ilusões
que se revelam, muito frequentemente, como
exclusões»15.
É também neste sentido que
distinguimos entre retórica e argumentação:
a primeira como inerente à própria
discursividade16 e, mais especificamente, como uma operatividade
que se dissimula devido ao facto da finalidade de qualquer
operatividade ser a eficácia, e não o mostrar-se
enquanto operatividade; a segunda como orientação
disciplinada de ler e interagir com o discurso. Na primeira o
feixe da acção indissociada do ethos, do pathos e do logos trabalha
na própria discursividade; na segunda o discernimento
crítico exerce-se no plano metadiscursivo pela
organização reflexiva e problematizadora dos
discursos em torno de assuntos em questão. Para
persuadir? Talvez. Mas também porque somos curiosos, nos
sentimos incomodados ou ameaçados, sofremos
perplexidades, nos apetece reflectir, nos sentimos inspirados,
porque exigimos discernimento para nos convencer etc. e,
sobretudo, porque queremos resistir a soluções
que procuram passar como «naturais» e cuja
retórica do discurso tende a desviar do crivo do
problemático.
Seguimos assim a orientação problemática17 da
teorização da retórica presente na
articulação que Aristóteles faz entre
«a capacidade de descobrir o que é adequado a cada
caso [ou assunto em questão] com o fim de
persuadir»18 e a afirmação de que é
«evidente que ela [a retórica] é
útil e que a sua função não
é persuadir, mas discernir
os meios de persuasão mais pertinentes a cada caso»19. Uma distinção entre função e finalidade que ganha todo o sentido quanto sabemos que
Aristóteles atribui à dialéctica e aos
raciocínios dialécticos a propriedade destes
lidarem com assuntos em questão, pois «esta
é a tarefa própria, ou mais apropriada, à
dialéctica, porque em
virtude da sua natureza indagatriz,
ela nos abre o caminho aos princípios de todo o
método»20. Sabemos, aliás, que nos teorizadores da
retórica na época romana, nomeadamente
Cícero e Quintiliano, o momento da tematização,
que nós consideramos essencial na nossa teoria da
argumentação, foi designado pelo termo inventio. Assim, o
primeiro define a inventio no Livro I da obra De Inventione como
«a descoberta de tópicos verdadeiros ou falsos,
que podem tornar a nossa causa provável» e o
segundo, na obra Instituitiones
Oratorias afirma na mesma
linha de ideias que «para os pensamentos serve a
invenção» (Livro VII, Proémio), que
a invenção requer «um bom
discernimento» (Livro X, Cap. X) e, finalmente, que
«não se deve ter menos cuidado em propor um
assunto do que em saber prová-lo. Para isto se requer a
invenção que, se não é a principal,
é pelo menos a primeira» (Livro V, Cap. X).
Uma nota final. Dado o cunho
político do contexto sócio-histórico que
presidiu à valorização grega da linguagem
— a palavra como arma política por
excelência — tornou-se natural que a
argumentação caísse de imediato no
domínio da retórica e dela não pudesse ser
discernida. Platão poderia ter apontado para uma
diferenciação entre retórica e
argumentação se não tivesse subordinado
esta última às exigências
epistemológicas duma
progressão dialéctica que visa o
an-hipotético21, ou seja, o verdadeiro conhecimento. Ao
fazê-lo, Platão acaba por estabelecer uma
oposição, destinada a perdurar, entre
sofística (aparência de saber) e filosofia
(verdadeiro saber). Porque, como bem observa Barbara Cassin,
«a retórica pela qual ele (Platão) luta e
aquela contra a qual luta são inteiramente distintas: no
Górgias estamos perante uma retórica sofística,
lisonja que se esconde sob a máscara da
legislação e da justiça, a
sofística em pessoa; no Fedro, trata-se de uma retórica
filosófica, a do dialéctico que analisa e
compõe as ideias, uma retórica enquanto
filosófica, a própria filosofia. De tal forma
que, a partir de Platão, o diagnóstico completo
torna-se, segundo a severa equação, dois igual a
zero: não há uma, mas duas retóricas, isto
é, nenhuma retórica, já que em lugar da
retórica ou encontramos a sofística ou
então a filosofia»22 . Ou seja, na sua concepção
teoricista do saber absoluto e universal não há
espaço para a dimensão relativa da prática
e de saberes sociologicamente dimensionados23.
Aristóteles, por seu lado, sempre atento às
questões da sabedoria prática (ao conhecimento
comum) não procurou submeter a realidade às
exigências da teoria, mas — e no caso
específico da retórica — fez justamente o
contrário. Não atribui à retórica
incumbências epistemológicas que ela não
podia fornecer e, em vez de diabolizar a persuasão, como
Platão, assinalou o contexto em que ela se revela
incontornável: não na construção de
teorias gerais, mas na abordagem de assuntos caso a caso
considerados; não quando se trata de raciocinar a partir
de premissas dadas, mas quando se trata de descobrir que
premissas seleccionar para melhor raciocinar sobre o caso
específico; e não quando se opõe o
plausível à verdade, mas quando os podemos
articular sem exclusão, até porque, escreve
Aritóteles «ser capaz de discernir sobre o
plausível é igualmente ser capaz de discernir
sobre a verdade»24.
Ao identificar as «provas por
persuasão» a uma «espécie de
demonstração»25 Aristóteles coloca o raciocínio
(entimema) no centro da retórica e concebe-a, tal como
à lógica, ao serviço do discernimento.
Mas, na retórica, este discernimento sobre o que
é adequado a cada caso lida com duas situações específicas: por um lado, e se é sempre possível recorrer
e utilizar aquelas a que Aristóteles chama «provas
inartísticas»26, o que constitui as provas que são
próprias da arte retórica são as
artísticas (aquelas «que podemos preparar pelo
método e por nós próprios»27) e
essas há que as inventar28, no sentido de descobrir e seleccionar o que se
revela importante considerar para o caso em questão
(diríamos, na nossa terminologia, tem de tematizar o assunto
em questão); por outro, as provas por persuasão são
transmitidas pelo discurso, o que, à questão do discernimento, vem agora juntar a questão
do auditório. O que
inicialmente era construir uma perspectiva plausível ou
verosímil sobre um dado assunto articular-se-á
agora com as potencialidades persuasivas da própria
discursividade. E essas potencialidades são três:
«Persuade-se pelo carácter quando o discurso
é proferido de tal maneira que deixa a impressão
de que o orador é digno de fé» (ethos),
«persuade-se pela disposição dos ouvintes
quando estes são levados a sentir emoção
por meio do discurso, pois os juízos variam conforme
sentimos tristeza ou alegria, amor ou ódio» (pathos) e
«persuade-se enfim pelo discurso quando mostramos a
verdade ou o que parece ser verdade, a partir do que é
persuasivo em cada caso particular»29 (logos).
A retórica de Aristóteles
surge assim do cruzamento da argumentação e da
oratória, da articulação entre a
selecção de recursos e modos de raciocinar e a
adaptação ao auditório perante o qual se
discorre e que se quer influenciar.
Do nosso ponto de vista a
distinção, a propósito da discursividade,
entre perspectiva e resposta é a que permite diferenciar
a argumentação da retórica: a
argumentação situa-se no plano das perspectivas a
propósito de um assunto em questão, sendo que o
acesso ao que é uma perspectiva num discurso não
é dado pela própria discursividade, mas sim por
uma leitura de nível metadiscursivo que interage com o
discurso e o considera como uma perspectiva sobre um assunto em
questão. As respostas, pelo contrário, actuam ao
nível da própria discursividade, apontando para
uma persuasividade (que é também um resolver, uma
solução) que funciona sem a necessidade de se
reportar à perspectiva que veicula e para um uso da
argumentatividade que se revela persuasivo sem ter necessidade
de se focalizar num assunto em questão. Dito de outra
forma, a argumentação implica que interroguemos o
discurso enquanto perspectiva sobre um assunto em
questão. A retórica é inerente ao jogo das
perguntas e das respostas próprias da discursividade, o
que significa que procurando a melhor resposta não nos
preocupamos em focalizar o assunto e não nos
interrogamos se o seu «em questão»
representa uma boa perspectiva.
Donde o nosso acordo com a proposta de
Michel Meyer sobre a importância de compreender a
argumentação e a retórica sem as
identificar nem as opor:
«Na realidade, a
argumentação apresenta uma especificidade inegável que, fazendo parte da retórica, não convém identificar nem opor a
esta. Aquilo que caracteriza
especificamente a argumentação é o
raciocínio, o qual assenta não na forma, como a
lógica, mas em elementos materiais, no assunto tratado.
Por outro lado, para falar como Aristóteles, é a
oponibilidade da tese, o seu aspecto problemático, que
faz com que a alternativa se encarne numa
oposição — dialéctica — entre
indivíduos que acreditam, dado um deles, num dos termos
da alternativa e não, é claro, no mesmo. Depois,
visando a argumentação produzir a adesão a
apenas uma resposta, de que se trata de persuadir o Outro, o
problema inicial conduz a uma resposta final que deve
também responder à problemática do Outro
para a ele se impor. Mas isso não é senão
o ponto de chegada da argumentação, o resultado
do processo argumentativo. Daí infere-se demasiado
rapidamente, por ricochete, por assim dizer, que a
distância entre os indivíduos não é
importante, que apenas as técnicas de adesão
são a marca da argumentação (Perelman). De
facto, a argumentação faz parte da
retórica porque a finalidade desta é reduzir a
distância entre sujeitos, resolvendo sobre aquilo que os
divide. Mas em argumentação, todo o esforço de concentração
incide sobre a questão e
não sobre a distância que ela traduz: debatemos,
discutimos uma questão e é ela que determina o
raciocínio a seguir»30.
Neste sentido podemos distinguir o plano
discursivo onde opera o jogo das perguntas e das respostas e um
plano metadiscursivo relativo à
configuração das perspectivas. Que a
discursividade remeta para uma dimensão persuasiva isso
apenas mostra que a retórica é inerente ao uso da
linguagem. Que possamos fazer da discursividade um meio de
defender teses, isso apenas significa que podemos analisar as
respostas como asserções suportadas, fundadas,
socialmente aceitáveis. Mas considerar as respostas em
relação às questões a que respondem
procurando aceder à perspectiva que veicula sobre um
assunto em questão, ou seja, à forma como, no
jogo de respostas e de perguntas, se configuram os assuntos em
questão para que uma tal resposta seja possível,
essa é a tarefa da argumentação. Mais do
que uma advocacia de teses, ela representa uma abordagem
interrogativa do discurso, detectando neste lances
temáticos configuradores do assunto que formam a
perspectiva a partir da qual qualquer discurso discorre, pelo
menos se pretender versar sobre um assunto enquanto questão.
É também neste sentido que,
ao paradigma persuasivo, adequado para uma visão que
dilui a argumentatividade na persuasão mas que, por isso
mesmo, se defronta com dificuldades teóricas quanto
à especificidade da própria
argumentação, propomos, como alternativa, o
paradigma configurativo dos assuntos em questão como
aquele que, ligando a discursividade à
interrogatividade, mais do que com resultados do discurso lida
com a orientação (perspectiva) do pensamento. Se
uma perspectiva não pode, enquanto tal, ser dita no jogo
das perguntas e das respostas da discursividade, ela é
contudo imprescindível para referirmos essa
discursividade a um assunto em questão e assim o lermos como
portador de teses e argumentos.
Notas
1
PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L., 1988, Traité de L’Argumentation, Éd. de L’ Université de
Bruxelles, p. 11.
2
E note-se que, segundo o próprio Perelman, a passagem
para o sociedade regulada por práticas de
persuasão foi uma das grandes conquistas da humanidade e
uma das grandes legados gregos:« «O que é
excepcional, pelo contrário, e que constituiu um marco
na história da humanidade, é ter-se permitido que
em matérias fundamentais, reservadas à
tradição religiosa e aos seus porta-voz, o uso da força pudesse ser
substituído pelo da persuasão, que se pudessem colocar questões e receber
explicações, avançar opiniões e
submetê-las à crítica de outrem. O recurso
ao logos, cuja força convincente dispensaria o recurso
à força física e permitiria substituir a
submissão pelo acordo, constituiu o ideal secular da
filosofia desde Sócrates» (PERELMAN, Ch., 1970, Le Champ de L’Argumentation, Presses Universitaires de Bruxelles, pp.
289-290).
3
LEE, R.; LEE, K., 1989, Arguing
persuasively, Longman, 6.
4
EEMEREN, Franz H. van, 2002, in «Argumentation: an
overview of theoretical approches and research themes»,
in Argumentation, Interpretation,
Rhetoric — On line
Journal, 2 — http://argumentation.ru /2002_1/
papers/1_2002p4.html.)
5
Numa reflexão muito próxima desta está
Alcione Araújo quando escreve: «A palavra é
a nossa maior arma na luta contra o caos. É o
diálogo, jardim onde floresce a palavra, que afugenta a
barbárie. E a linguagem, maior de todas as
criações humanas, seu inexcedível
património, meio de orar aos deuses, imprecar contra o
destino, lamentar a dor, glorificar o prazer, é,
sobretudo, o meio do homem entender o homem. O resto é
silêncio» (ARAÚJO, A., 2004, Urgente é a vida, Record, p. 253).
6
Escreve Vernant: «Entre política e o logos, há
assim uma relação estreita, vínculo
recíproco. A arte política é
essencialmente exercício de linguagem; e o logos, na sua
origem, toma consciência de si mesmo, das suas regras, da
sua eficácia, através da função
política». (VERNANT, J.-P., 1986, As origens do pensamento grego, Difel, p. 35).
7
Conley caracteriza a retórica de Górgias como
unilateral e assimétrica e a de Protágoras como
bilateral e simétrica, tendo a primeira uma
orientação behaviorista (a persuasão como mera questão de
estímulo-resposta) e a segunda uma
orientação pragmatista (que vê na controvérsia a
única opção razoável à
força e ao engano). Ambas as concepções
apresentam as suas fraquezas: «O debate
protagórico, por outras palavras, facilmente podia
degenerar num diálogo entre dois interlocutores
igualmente ignorantes e desorientados, e a persuasão de
Górgias podia facilmente tornar-se num exercício
cínico de manipulação por parte daquele
que dominasse as técnicas de seduzir o seu
ouvinte» (CONLEY, T. M., 1990, Rhetoric in the European Tradition, Longman, p. 7). O autor chama ainda a
atenção para o facto de dificilmente se poderem
perceber as respostas de Platão e de Aristóteles
aos ensinamentos dos sofistas sem considerar as
diferenças entre as concepções
retóricas de Górgias e de Protágoras.
8
BARTHES, Roland, 1970, “L’ancienne
rhéthorique”, Communications, n. 16, p. 176. Plantin, contanto a narrativa
fundadora da argumentação, refere que o primeiro
«método raciocinado», ou primeiro tratado de
argumentação, elaborado por Coráx e por
Tísias, surgiu da necessidade de, após os tiranos
que os espoliaram terem sido derrubados, os
proprietários reclamarem as suas terras perante o
tribunal (PLANTIN, C., 1996, L’argumentation, Seuil, p. 4). A argumentação
origina-se assim a propósito de uma questão de
propriedade. Vai também no sentido da questão da
propriedade o relato que Toulmin nos oferece sobre o
significado da palavra inglesa claim: «A palavra tese tem uma longa
história. Um dos seus usos primários relaciona-a
com os direitos e com as prerrogativas legais — incidindo
especialmente nos direitos de propriedade. Assim a utilizavam
os mineiros em busca de ouro: ‘reclama a terra (stake a
claim)’. Tal significava delimitar uma área na
qual tinham direito a tudo quanto escavavam. É claro que
eles não esperavam que outros mineiros não os
desafiassem e por isso aceitavam a necessidade de defenderem o seu direito publicamente. Estabelecendo apropriadamente o seu
‘título’ de propriedade sobre uma
área, criavam uma posição legal. E assim
refreavam a tentação de outros mineiros escavarem
nas suas áreas.» (TOULMIN, S.; RIEKE, R.; JANIK, A., 1984, An
Introduction to Reasoning,
Macmillan Publishing Company, p. 30).
9
«Todos nós possuimos uma pequena dose de
espírito crítico para as coisas da nossa
profissão; mas fora deste horizonte circunscrito, apenas
revelamos alguns fracos traços críticos.
Não se deve acreditar demasiado no cepticismo dos
cépticos. O essencial é saber repetir, cada vez
com mais insistência e com mais força. Em
técnica oratória, valem mais dois argumentos
impressionantes, repetidos com frequência e com firmeza,
do que dez ou vinte argumentos, referidos, cada um deles, uma
única vez, no decorrer do discurso» (Le Bon) in
VIANA, Mário Gonçalves, Técnica oratória, Editorial Domingos Barreira, pp. 35-36.
10
Donde a importância dos topoi, dos lugares comuns, como modos de tematizar o
assunto de modo a que, correspondendo às expectativas do
auditório, dele se possa esperar o retorno da
adesão.
11
Escreve Meyer: «A equação que por vezes se
estabelece entre democracia e argumentação
é demasiado simplista para chegar a ser filosofia, mesmo
se, aqui e ali, ela convém a alguns. A priori, todavia, o que
haverá de melhor do que fornecer e exigir razões?
Mas isso seria esquecer que em princípio podemos
justificar tudo com base em ‘boas’ razões.
(…) A retórica deve estar ao serviço da
filosofia e não o inverso, porque o que importa é tematizar as questões antes de esperar
dar-lhes resposta. Caso
contrário encontrar-nos-emos rapidamente perante
retóricas feitas e servis, mesmo quando se apresentam
como instrumentos de convivialidade» (MEYER, M., 1993, Questions de rhétorique. Langage, raison
e séduction, Librairie
Générale Française, p. 143. Subl. meu).
12
Escreve Gadamer: «contra a firmeza das opiniões, o
perguntar põe em suspenso o assunto com todas as suas
possibilidades» (GADAMER, H.-G., 1977, Verdad y Método,
Ed, Sígueme, p. 445).
13
Cf. MARTINS, M. L., 2002, A
Linguagem, a Verdade e o Poder,
Fundação Calouste Gulbenkian /
Fundação para a Ciência e a Tecnologia, p.
9.
14
Escreve Sousa Dias acerca do estado actual da crítica:
«Sufocar toda a inovação e toda a
diferença. Excluir os valores da criação e
da inteligência. Fazer a promoção
mediocrática da incultura, toda uma ostensiva
política anti-pensamento. Não é outro,
para tudo resumir, o efeito da prática crítica
actual, funcionalmente pervertida pela sua
formatação massmediática.» (DIAS,
Sousa, 2004, Questão de
estilo. Arte e Filosofia, Pé
de Página Editores, p. 133).
15
MEYER, M., 1993, Questions de
rhétorique. Langage, raison e séduction, Librairie Générale
Française, p. 143-144.
16 No
mesmo sentido em que Nietzsche afirmava que «não
é difícil provar que o que se chama
‘retórica’ para designar os meios de um arte
consciente se encontra já em acto, como meios de uma
arte inconsciente, na linguagem e na sua
formação, e mesmo que a retórica é
um aperfeiçoamento dos artifícios já
presentes na linguagem. (...) Não há uma
‘naturalidade’ não retórica da
linguagem a que se pudesse fazer apelo: a própria
linguagem é resultado de artes puramente
retóricas» (NIETZSCHE, F., 1971,
«Rhétorique et langage», trad. fanc. NANCY,
J.-L. e LABARTHE, P.-L., in Poétique, nº 5, Paris,
Seuil, p. 111.
17
Conley afirma que se a retórica, tal como é vista
por Platão e Górgias, pode, respectivamente, ser
considerada como dialéctica e operativa, já o mesmo não acontece com a
retórica de Aristóteles, que classifica como problemática:
«Chamamos ‘problemática’ à
retórica de Aristóteles uma vez que a
‘persuasividade’ disponível varia consoante
a natureza do problema em questão numa
situação retórica» (CONLEY, T. M.
(1990), Rhetoric in the European
Tradition, Longman, p. 23-24).
18
ARISTÓTELES, 1998, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 48.
19
ARISTÓTELES, 1998, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 47. (Subl.
meu)
20
ARISTÓTELES, Tópicos, Guimarães Editores, 100b-102a, Sub.
meu.
21
Lembremos que para Platão a dialéctica
«procede por meio da destruição
das hipóteses, a caminho do
autêntico princípio, a fim de tornar seguros os
seus resultados, e que realmente arrasta os olhos da alma da
espécie de lodo bárbaro em que está
atolada e eleva-os às alturas» (PLATÃO, República,
VII, 533 c-d. Subl. meu).
22
CASSIN, B., «Bonnes et mauvaises rhétoriques: de
Platon à Perelman», in MEYER, M.; Lempereur, A.
(Ed), 1990, Figures et conflits
rhetoriques, Éd. de
L’Université de Bruxelles, p. 17.
23
Cf. GRÁCIO, R., 1998,
Consequências da retórica, Pé de Página Editores, p. 25-36.
24
ARISTÓTELES, 1998, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 46.
25 Idem,
ibidem.
26
Aristóteles dá exemplos: «testemunhos,
confissões sobre tortura, documentos escritos e outras
semelhantes» (ARISTÓTELES, 1998, Retórica,
Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 49).
27
ARISTÓTELES, 1998, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 49.
28 Idem
ibidem.
29
ARISTÓTELES, 1998, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 49-50.
30
MEYER, M., 2005, Qu’est-ce
l’argumentation, Vrin, p. 15
e 16. Subl. meu.
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