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Rui Grácio
Discurso, argumentatividade e
argumentação
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
É usual associarmos a
argumentação às práticas
discursivas. Dentro desta perspectiva somos facilmente
conduzidos à ideia de que falar
é argumentar e argumentar é falar. Uma tal ideia tem a suas razões de ser
e os seus problemas. A sua principal razão de ser
é a de acentuar que as práticas discursivas não
são neutras, no sentido em que não são
isentas de orientações de sentido que de algum
modo veiculam, seja esse sentido pensado em termos de
significação no quadro das categorias
linguísticas da sintaxe, da semântica e da
pragmática, seja ele pensado no contexto da
eficácia da interactividade interlocutiva. Em qualquer
destes sentidos, dizer que falar é argumentar significa
colocar a argumentatividade no coração dos usos
da linguagem. Essa argumentatividade pode ser assinalada quer
em termos da produção de ligações
para que os enunciados orientam, quer em termos das ligação entre
enunciados que entre si se articulam. No primeiro caso, as ligações
são da ordem dos topoi e relacionam-se directamente para a forma de
configurar assuntos através dos lugares temáticos
para que orientam. No segundo caso, as ligações
são da ordem da inferência e remetem para raciocínios, na medida
que se pode assinalar a presença no discurso de conectores que,
regrando a utilização dos enunciados, não
apenas são igualmente configuradores do assunto como,
para além do mais, permitem que a sua
tematização se desenvolva como cadeia de
raciocínio.
Mas, se a ideia de que falar é
argumentar tem o mérito de acentuar a incontornável presença da argumentatividade
ao nível da enunciação, nem por isso ela
se revela como problemática quando fazemos a usual
extrapolação de que «se falar é
argumentar, então todo o discurso é
argumentação». A inferência correcta
deveria ser «se falar é argumentar, então
todo o discurso é argumentativo». A
questão, e a dificuldade que então se coloca,
é a seguinte: se todo o discurso é argumentativo
(uma vez que a argumentatividade é inerente ao seu uso,
como demonstra a linguística) em que consiste uma argumentação?
Uma argumentação, poderíamos dizer,
é o produto da argumentatividade de um discurso, tal como
um resultado de uma conta de somar é a
adição das suas parcelas. Acontece todavia que
essa conta de somar, sendo o resultado de um processo de
adição, se inserida num contexto não formal de uso remete sempre para a tematização de um
assunto em questão. Assim, num restaurante, quando nos
apresentam «a conta», sabemos que ela resulta da
soma de parcelas que correspondem ao que se consumiu (e que
prudentemente devemos verificar) e que o que nos estão a
pedir é que a paguemos pelo consumo realizado. Neste
contexto «a conta» significa algo de diferente do
que o «resultado» de uma adição de
parcelas, pois sabemos que ela faz parte de um assunto cuja
questão é a de pagarmos pelo consumo realizado e
cujo valor é determinado através duma conta de
somar. Se a soma estiver bem feita, em si mesma ela não
constitui nenhum argumento, mas tão apenas o resultado
de uma operação de somar. Mas, inserida no
contexto do assunto em questão referido ela funciona
como argumento para a apresentação da quantia
específica que há que pagar.
Da mesma maneira a argumentatividade
veiculada pelos discursos tem de ser vista de uma maneira mais
ampla do que um simples processo de associações e
inferências. A argumentatividade do discurso, mais do que
as associações e inferências que apresenta,
remete para um assunto em questão e, sem este referente,
dificilmente a poderemos ler enquanto
argumentação, ou seja, como
tematização de um assunto em questão na
qual certos enunciados funcionam como argumentos tendo em conta
a perspectiva em que se inserem.
O operador que leva ao trânsito
entre um plano em que lidamos com o discurso enquanto
argumentatividade e um plano em que lidamos com o discurso
enquanto argumentação é o operador
«em questão». Este operador, por sua vez,
é o que permite desdobrar as noções de
assunto, tematização e perspectiva. O que
está em questão tem de ser lido em termos de
assunto; para um assunto estar em questão é
porque foi tematizado de determinada maneira; essa determinada
maneira é o que assinala uma perspectiva, por sua vez
é uma possibilidade
concretizada de
tematização do assunto em questão.
Ou seja, a presença da
argumentatividade, por si mesma, não basta para que
lidemos com o discurso enquanto argumentação.
Porque a argumentação é isso mesmo: uma
disciplina crítica de ler e interagir com os discursos e
não a argumentatividade «bruta» dos
discursos. Sem a sua organização em termos de
assunto em questão podemos sempre lidar com a
argumentatividade discursiva sem acedermos ao plano da
argumentação. Mas lidarmos com um discurso
enquanto argumentação é sempre lê-lo
como perspectiva, o que implica necessariamente reconduzirmos
as suas associações e inferências à
configuração de um assunto em questão e
às respostas que sobre esta ele perspectiva.
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