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Rui Grácio
Da retórica à
argumentação: tema, assunto, questão, tese
e argumentos
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
O subtítulo do presente texto
enumera cinco conceitos-chave da nossa concepção
de argumentação. Segundo esta perspectiva a
argumentação é essencialmente uma disciplina metadiscursiva de leitura e
interacção com o discurso. Poderíamos também dizer que é
um padrão de instrução do devir
argumentativo das efectuações discursivas.
Reconhecemos, no seguimento de Anscrombre e Ducrot, que a
argumentatividade é intrínseca à
própria língua que veicula os discursos (e nesse
sentido pensamos que a retórica está sempre
incontornavelmente presente no uso da linguagem natural), mas
consideramos que a argumentação não se
pode reduzir ao encadeamento, ou sucessão de
encadeamentos de enunciados num discurso, seja esta considerada
do ponto de vista da inferencialidade (argumento
——> conclusão) ou da
associação semântica-topológica
(enunciado1 ——> enunciado2, ou conteúdo
sintáctico ——> enunciado). A essas
concepções que nomeiam a
articulação das componentes atómicas do
discurso como argumentação, contrapomos uma
concepção que vê na
argumentação uma modalidade específica de
leitura dos discursos e não os próprios
discursos. Ou seja, segundo a nossa proposta, a
argumentatividade (o potencial de articulação dos
enunciados através do raciocínio) produz, antes
de mais, raciocínios, mas os raciocínios
são precisamente isso, articulações entre
proposições que, colocando certas
proposições como suporte, as fazem funcionar como
premissas para uma conclusão. Será isso o
suficiente para falarmos de argumentação?
Não é essa a nossa perspectiva. Para podermos
falar de argumentação a propósito de um
raciocínio é preciso lermos o raciocínio
para além da relação inferencial que ele
apresenta. E o que é esse além, esse
metadiscursivo? É a sua articulação, em
primeiro lugar, com um assunto em questão que constitui,
para nós, a unidade mínima de leitura de um
discurso enquanto argumentação.
Assim na frase: «É melhor
levares o guarda-chuva, porque vai chover», estamos
obviamente perante uma inferência: é apresentada
uma razão para que alguém que vai sair leve o
guarda-chuva. Mas este raciocínio só adquire uma
dimensão argumentativa por referência a uma
questão apresentada como resolvida, a saber, que as
pessoas preferem proteger-se da chuva do que molhar-se. Se este
pressuposto se tornar explicitamente um assunto em
questão, o que aconteceria se o discurso prosseguisse
com a pergunta «Mas porque é que achas que me
quero proteger da chuva?», isso representaria um devir
argumentativo do discurso. Faria com que a
relação argumento ——>
conclusão, mais do que ser um enunciado óbvio,
fosse remetido para a questão a que responde e cuja
resposta funciona como solução. O espanto perante
uma tal pergunta ou desafio levaria, por sua vez a inserir o
assunto em questão em parâmetros temáticos
mais amplos, por exemplo, os comportamentos generalizados das
pessoas perante a chuva, a manifestação da
preocupação pela saúde de quem se gosta,
ou numa mera questão senso comum. Tudo isso faria parte
da configuração temática do assunto em
questão (perspectiva à luz da qual se pode
perceber a inferência e a conclusão que é
proposta como solução para uma questão).
Ou seja, dá-se um devir argumentativo do discurso quando
este é lido de forma a fazer remontá-lo de uma
resposta dada como solução para uma
questão ao assunto em questão como não
resolvido. O que significa que, se o raciocínio
até pode ser bom (e, neste caso, seguramente bem
intencionado), isso não significa que a perspectiva a
que ele se liga o seja. É claro que, se a perspectiva
for aceite como boa, então não será
preciso aceder ao nível da tematização do
assunto, podendo-se desenvolver a argumentação ao
nível dos argumentos, caso em que a frase «A
gabardina é suficiente», convergindo na
perspectiva, apenas diverge quanto aos meios de lidar
especificamente com a questão.
No entanto, tais exemplos não
deixam de padecer de uma certa artificialidade. E porquê?
Porque compreender desde logo os enunciados como portadores de
teses é atermo-nos a uma visão da árvore
sem a perspectiva da floresta. Ou, se preferirmos, é
não conceder o tempo de escuta necessário para
proceder à clarificação interpretativa dos
discursos como um todo. Do mesmo modo que à
avaliação consistente de um livro convém a
sua leitura integral (ou seja, implica que ele seja considerado
como uma unidade), também na leitura dos discursos
é preciso deixar que corram para deles fazer uma
síntese avisada. E a leitura que sintetiza um discurso
como argumentação caracteriza-se por situar este
relativamente a um tema (circunscrição mais
genérica), encontrar o que nesse tema foi convertido
selectivamente como assunto em questão
(circunscrição específica), que
pressupostos permitem responder à questão (tese)
e através de que recursos a resposta é suportada
(argumentos) relativamente à perspectiva tematizada.
Neste sentido, uma tese nunca se define
pela dimensão de conflitualidade que ela pode
representar em termos de interlocução e de
divergência entre indivíduos. Quando se dimensiona
uma tese pela conflitualidade intersubjectiva que ela gera
acabamos por identificar a argumentação com a
retórica e por dar lugar de destaque ao acordo, à
adesão e às técnicas discursivas de
persuasão (Perelman). Ao invés, se pensarmos que
uma tese se define pela perspectiva que implica relativamente a
um assunto em questão, então podemos dizer que a
argumentação, mais do que uma questão de
comunicação, é uma questão de
pensamento, de elaboração e
apresentação de perspectivas sobre um assunto em
questão. E, neste sentido, é irrelevante, do
ponto de vista da argumentação, o estatuto de
opinião que pode ser atribuído a uma perspectiva.
A ênfase colocada na dimensão opinativa do
discurso ajusta-se à retórica, que, para
além do logos, articula também o ethos e o pathos. Mas
é todavia prejudicial se nos quisermos ater à
especificidade da leitura do discurso como
argumentação porque, aí, o que está
em causa não é quem diz, nem o modo discursivo de
o dizer, mas a compreensão do dito, ou seja, que
perspectiva é veiculada sobre um assunto em
questão e que resposta é proposta para essa
questão. Compreender um discurso como
argumentação implica, nesse sentido,
elevá-lo a uma leitura impessoal em que o que
está em causa não são pessoas, mas formas
de configurar o pensamento. É aliás nesse sentido
que nos sentimos próximos das palavras de Gadamer quando
escreve que «contra a firmeza das opiniões, o
perguntar põe em suspenso o assunto com todas as suas
possibilidades»1 e com a tese de que a compreensão
implica sempre ganhar o horizonte do perguntar: «A
estreita relação que surge entre perguntar e
compreender é o que confere à experiência
hermenêutica a sua verdadeira dimensão. Aquele que
quer compreender pode desde logo deixar em suspenso a verdade
da sua referência; pode desde logo retroceder da
referência imediata da coisa à referência de
sentido como tal, e considerar esta não como verdade mas
simplesmente como algo com sentido, de forma que a
possibilidade de verdade fique em suspenso: este pôr em
suspenso é a verdadeira essência original do
perguntar. Perguntar permite ver as possibilidades que ficam em
suspenso. (...) Tal é a razão pela qual todo o
compreender é sempre algo mais do que reviver uma
opinião alheia. Quando se pergunta, deixam-se abertas
possibilidades de sentido, de maneira que aquilo que tenha
sentido se possa introduzir na própria
opinião»2. Ora, é esta dimensão
hermenêutica da pergunta como suspensão opinativa
com vista à compreensão e à
determinação de um modo de pensar enquanto
perspectiva que é totalmente desatendida quando,
instrumentalizando a linguagem, ela é considerada como
técnica ao serviço de finalidades práticas
(como, por exemplo, a persuasão). É também
por isso que recusamos qualquer definição da
argumentação em termos de finalidade. Tal
não significa que o discurso não possa ser usado
como instrumento. Significa, sim, que se perdeu o horizonte do
perguntar — que em termos de argumentação
remete para a capacidade de escutar — e que a
única coisa que está nela está em
questão não são modos de pensar e de
perspectivar mas meios de fazer prevalecer opiniões.
Também aqui, a argumentação vê a sua
especificidade diluída na retórica, na qual o
assunto em questão, sendo considerado em
função das respostas, é subsumido à
eficácia do processo discursivo.
Muitos dos teorizadores da
argumentação associam esta ao raciocínio
prático. Com isso pretendem conferir-lhe um alcance que
cobre as práticas discursivas quotidianas, pautadas por
constrangimentos temporais e por interlocuções
circunstanciadas pelas necessidades de resolução
de divergência de pontos de vista. Neste sentido
encontram na argumentação modos de lidar com as
exigências práticas das tomadas de decisão,
fazendo corresponder à argumentação a
característica da razoabilidade como modo de lidar com a
conflitualidade. Já na nossa perspectiva esta
caracterização sociológica da
argumentação confunde, uma vez mais, a
dimensão retórica do discurso e a especificidade
da argumentação. A razoabilidade é a
retórica da ideologia democrática e aponta para
um determinado conceito de legitimação das
práticas decisórias. Mas a leitura dos discursos
como argumentação nada têm a ver, em
primeira instância, com a justificação de
decisões, mas sim com os modos de perspectivar os
assuntos enquanto questão. E se para as decisões
é mais adequado falar de motivos do que de argumentos
(assim, o juiz pode e deve motivar a sua decisão com
base em argumentos, mas nunca pode ir contra a perspectiva com
que a justiça é abordada num tribunal, que
aí não é susceptível de fazer
questão), devemos contudo sublinhar que se os argumentos
podem funcionar como motivos, já o inverso não
acontece, excepto se, uma vez mais, confundirmos a
argumentação com a retórica. Nesta
última os motivos são uma forma de
reforçar o impacto do discurso e tem efeito
assinalável ao nível do ethos e do pathos. Mas, se
podem fazer compreender as situações e as
atitudes das pessoas nessas situações, elas
não se revelam de mais valia para focalizar o assunto
enquanto questão e para confrontar a perspectiva
aí implicada com outras perspectivas possíveis.
Da mesma maneira que um médico se tem de afastar do
sofrimento de um doente para considerar os seus sintomas como
manifestação de um padrão que permite
identificar a doença (o que não implica falta de
solidariedade para com quem padece), também a leitura do
discurso enquanto argumentação tem que suspender
o imediatismo da sua acção retórica para
aceder à compreensão da perspectiva em que se
joga a colocação do assunto em questão. E,
aí, o enquadramento do assunto em questão
através do âmbito mais largo que é o tema e
a compreensão da especificidade problemática que
é veiculada pelas teses e pelos argumentos são
parâmetros de leitura sem os quais um discurso não
pode ser considerado como argumentação, o que, de
modo algum, significa que não possua eficácia
retórica.
Notas
1
Gadamer, H.-G. (1977), Verdad y
Método, Trad. Esp., Ed.
Sígueme, Salamanca p. 445.
2
Gadamer, H.-G. (1977), Verdad y
Método, Trad. Esp., Ed.
Sígueme, Salamanca p. 443-454.
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