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Rui Grácio
Da persuasão à
argumentação: desafiar enunciados a partir de
assuntos em questão
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
«Um parte importante da
argumentação consiste, por conseguinte, no
‘pensamento criítico’, o que envolve estar
preparado para colocar questões sobre o reforço
subjacente às formas de pensar e de raciocinar que a
nossa cultura inculcou em nós e que tomamos como
garantidas. Não é bom sermos arrebanhados por chavões.
Mesmo as frases mais bem intencionadas como ‘o direito
à vida’ têm uma força e
relevância que depende da experiência proveniente
do modo como crescemos; elas apenas dão peso à
nossa argumentação se as utilizarmos como seres
humanos e não como papagaios. Para referir aqui uma
distinção que veremos cuidadosamente na Parte VI,
podemos chamar ‘regulares’ aos argumentos nos quais
as regras, garantias e procedimentos aceites são
aplicados sem questionamento, em contraste com os argumentos
‘críticos’ nos quais as próprias
regras são desafiadas e refinadas».
TOULMIN, S., Rieke, R., Janik, A., 1984, An Introduction to Reasoning, London: Collier Macmillan (1979) Macmillan
Publishing Company, p. 67
Ao procurarmos elaborar uma teoria geral
da argumentação a nossa hipótese de
trabalho consistiu em partirmos da noção de discursividade e
considerarmos que a argumentação é
indissociável do uso de uma língua. No entanto,
ao contrário da abordagem linguística que
é seguida por Anscombre e Ducrot, a nossa perspectiva
interessou-se pela forma como, através da linguagem, os
discursos revelam não só uma orientação argumentativa ao nível dos enunciados, como os
apresentam e os interligam também de modo a referirem-se
a um assunto que focalizam e tematizam. Deste modo, em vez de
partirmos da unidade «enunciado», a nossa
perspectiva foi a de encontrarmos o requisito mínimo
através do qual a linguagem se organiza como discurso
que pode ser lido em termos de assunto em questão. Esse
requisito, encontrámo-lo na possibilidade do discurso
instruir um assunto, apresentando para isso elementos
temáticos que o permitirão ler como resposta a
uma questão a partir de uma determinada perspectiva1.
Assim, segundo a nossa hipótese
teórica, a argumentatividade é, como bem
assinalam Anscombre e Ducrot, inerente à discursividade
(e os autores assim o mostraram analisando enunciados do tipo
«É bizarro: é um rapaz rico mas tem poucos
amigos»2. Mas aquilo que pode transportar esta
argumentatividade para o plano de uma argumentação é o facto de
a podermos ler de modo a interrogarmos aquilo que ela
pressupõe, a saber, neste caso, a ideia de que a riqueza
é sinónimo de ter muitos amigos. Ao
fazê-lo, procuramos ligar o enunciado — que poderia
ser uma mera cogitação de momento, expressa em
voz alta — a um assunto em questão relativamente
ao qual o enunciado é tomado como uma perspectiva. Neste
sentido, operamos o trânsito do que poderia ser, por
exemplo no âmbito de uma conversa, uma mera resposta
à pergunta «Já viste que aquele rapaz
é muito solitário?» para o plano em que
procuramos lidar com o enunciado como perspectiva sobre um
assunto em questão. Dito de outra maneira, a
argumentação parte da argumentatividade dos
enunciados para os focalizar no âmbito de um assunto em
que o que é relevante deixa de ser o enunciado enquanto
tal para passar a ser o que se pressupõe pensar para enunciar dessa
maneira, desafiando-o assim enquanto perspectiva sobre um assunto em
questão. O termo desafio — que aliás é muito grato
a Toulmin para caracterizar a especificidade da dinâmica
argumentativa — tem aqui uma importância decisiva3.
Voltemos ao enunciado «É
bizarro: é um rapaz rico mas tem poucos amigos».
Muitos estudiosos verão neste enunciado um caso
típico de argumentação.
Reconhecerão que existe uma tese ou conclusão
(«É bizarro») e que ela é suportada
por razões («é um rapaz rico mas tem poucos
amigos»). Outros converterão o enunciado num
silogismo fazendo surgir a premissa escondida («É
natural que os rapazes ricos tenham muitos amigos»). Mas
isso é reduzir a argumentação ao estudo do
raciocínio. Ver que se trata de uma
asserção suportada por razões ou
reconstruir o raciocínio que é posto em marcha
nesse enunciado são perspectivas legítimas e
podem até revelar-se interessantes para certos fins, mas
não podem, a nosso ver, aspirar a serem teorias gerais
da argumentação. Porque o que caracteriza a
argumentação é o desafio das perspectivas
a partir das quais se produzem determinadas
asserções e se desenvolvem determinados
raciocínios. A leitura de um discurso enquanto
argumentação será sempre insuficiente se
nos ativermos ao nível dos enunciados ou dos
raciocínios (mesmo quanto os procuramos articular com o
contexto, como é típico da abordagem
pragmática). Do mesmo modo, a ideia de associar a
argumentação a uma situação de
comunicação (de que partem, por exemplo, os
teóricos que tematizam a argumentação a
partir da retórica4) representa uma abordagem heterónoma da
argumentação. Mas o que será,
então, uma abordagem autónoma da
argumentação?
É aquela em que a discursividade
permite instruir e ser instruída por uma leitura de modo
a considerá-la como veículo de uma perspectiva
sobre um assunto em questão, o que, se por si só
pode não representar o desafio explícito dessa
perspectiva, é todavia condição sem a qual
esse desafio não poderá ser lançado: o
reconhecimento de que se trata de uma
perspectativa e não de algo
que passa como dizendo «o que é» (ou, como
refere o texto em epígrafe, um chavão). Mas para
a fazer surgir como perspectiva é sempre preciso
focalizá-la como estando referida a um assunto, que
nós tomamos por unidade mínima para considerar um
discurso como argumentação. Neste sentido a
argumentação não coincide com a
discursividade, mas remete para um modo específico de
lidar com ela.
É também por isso que
considero que lidar com os discursos como
argumentação não é uma coisa
tão banal quanto o fazem crer os teorizadores da
argumentação. A banalização da
argumentação corresponde, de facto, à sua
diluição na persuasão, na qual o que
está em causa são menos as perspectivas sobre um
assunto em questão do que o atingirmos objectivos
pessoais para os quais o «em questão»
representa justamente, e a maior parte das vezes, um
obstáculo que é preciso contornar.
A eficácia de um chavão não
consiste, afinal, na sua capacidade de actuar através de
um impacto imediato que nos faz aderir a algo que, considerado
de um ponto de vista crítico metadiscursivo, se poderia
revelar como irrelevante, ridículo, estranho, vergonhoso
ou mesmo absurdo? O que nos faz lembrar a ideia de Sartre
segundo a qual, quando espreitamos por uma fechadura, somos
aquilo que vemos e só tomamos consciência de
nós quando apanhados pelo olhar de um outro. Assim as
perspectivas, na discursividade.
Notas
1
Note-se que para nós a argumentação
é uma possibilidade de interagir com a discursividade, interrogando o discurso em termos de
perspectiva sobre um assunto em questão. Neste sentido ela pressupõe a
intervenção de um plano metadiscursivo. Por
exemplo, determinar um enunciado como tese ou como argumento
é desde logo colocarmo-nos num plano metadiscursivo em
que o próprio discurso se torna objecto de uma
reflexão específica. Ao colocarmos a
argumentação no âmbito das possibilidades
de interacção com a discursividade (e não como algo de
inerente às próprias interacções
discursivas) pensamos conferir-lhe um campo teórico mais
autónomo do que qualquer teoria da
argumentação por nós conhecida. É
essa autonomia que nos abre as portas à pretensão
de lançarmos as bases de uma teoria geral da
argumentação. Porque, e para nos atermos
às definições dos refundadores da
argumentação no século XX, não
é a interacção
com a discursividade o denominador
comum das suas concepções de
argumentação? Perelman define-a como «as
técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a
adesão dos espíritos às teses propostas ao
seu assentimento» (PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,
1988, Traité de
L’Argumentation, Éd.
de L’ Université de Bruxelles, p. 5) e Toulmin
como «a actividade de apresentar teses,
desafiá-las, reforçá-las através de
razões, criticar essas razões, refutar essas
críticas, e por aí em diante» (TOULMIN, S.; RIEKE, R.; JANIK, A., 1984, An
Introduction to Reasoning,
Macmillan Publishing Company, p.14). Ou seja, o primeiro coloca
em termos de «adesão» a especificidade que
caracteriza a interacção com a discursividade
como argumentação. O segundo coloca em termos de
«desafio» a especificidade que caracteriza a
interacção com a discursividade como
argumentação. Do nosso ponto de vista, a
argumentação é a disciplina crítica
metadiscursiva de ler e interagir com os discursos, de que
justamente a «adesão» ou o
«desafio» são perspectivas metadiscursivas
particulares de encarar a discursividade enquanto assunto (no
caso a argumentação) em questão.
2
ANCOMBRE, J-C., DUCROT, O., 1997, L’argumentation
dans la langue, Pierre Mardaga
Editeur, p. 61.
3
É a nosso ver exemplar a forma como Toulmin sintetiza no
seu padrão o movimento que leva a considerar um discurso
como argumentação. Segundo ele este esquema
básico é composto por: tese, razões,
garantia e reforço. A articulação entre
estes elementos é sempre feita em termos de desafio
crítico. Assim, posta uma asserção que
deve especificar e tornar clara uma posição sobre
um assunto («O que é que estamos exactamente a
discutir? Em rigor, como é que encaramos o
assunto?»), o assertor é desafiado a apresentar
razões ou informações relevantes
(«Com que informação seguimos? Em que
razões assenta a tese?») que devem ser
consideradas do ponto de vista da sua articulação
com a tese, isto é, articulando a regra de passagem que
permite ligar razões e tese («Como se justifica o
movimento das razões para a tese?») e desafiada em
termos de fiabilidade («E com que outra
informação geral teremos de reforçar a
confiança nesta garantia particular?»). Em suma,
escreve Toulmin: «As teses envolvidas nas
argumentações da vida real são, por
conseguinte, bem fundadas apenas se razões suficientes
do tipo relevante e apropriado tiverem sido oferecidas como seu
suporte. Estas razões têm de estar ligadas
à tese através de garantias fiáveis e
aplicáveis, capazes de serem, por seu turno,
justificadas através do recurso a reforços
relevantes» (TOULMIN, S.; RIEKE, R.; JANIK, A., 1984, An Introduction to Reasoning, Macmillan Publishing Company, p. 27). No entanto,
apesar de considerarmos que é exemplar a forma como
Toulmin faz constar na argumentação um conjunto
de elementos mínimos sem os quais a questão do
desafio não poderia ser apontada como caracterizadora do
processo de argumentação, o seu esquema é
essencialmente um processo de análise monológico
que procura averiguar a consistência de uma tese e a sua
boa fundação mas não se esta remete para
uma boa perspectiva sobre o assunto. É um facto que as
pessoas são sensíveis à relevância
das razões e dos reforços, nomeadamente para
perceberem a posição do outro. Mas isso
não significa que partilhem da mesma ordem de
relevância quanto às razões
específicas com que se configuram os assuntos, o que
desloca a questão dos argumentos como suporte de uma
tese para a questão das tematizações com
que se perspectiva o que nos assuntos faz questão e
dá relevância aos argumentos.
4
Perelman, por exemplo, faz do auditório um elemento
característico da situação argumentativa,
considerando mesmo que a «deliberação
íntima» remete para um auditório: «O
acordo consigo mesmo não é senão um caso
particular do acordo com os outros» (PERELMAN, Ch.,
OLBRECHTS-TYTECA, L., 1988, Traité
de L’Argumentation,
Éd. de L’ Université de Bruxelles, p. 54).
Também O. Reboul, na senda de Perelman, afirma que
«argumentamos sempre perante alguém»
(REBOUL, O., 1991, Introduction
à la rhétorique,
P.U.F., p. 101).
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