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Rui Grácio
Contributos para uma teoria geral da
argumentação: uma leitura da Retórica de
Aristóteles
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
Se em Perelman, e apesar de retomar
Aristóteles, a
argumentação é identificada com a
retórica, e com uma
retórica definida a partir da intencionalidade persuasiva, o facto
é que para
Aristóteles a função da retórica
não é persuadir, mas
sim ver os meios persuasivos de que se dispõe para cada
caso. É assim que, na sua Retórica, Aristóteles define esta como «a
capacidade de descobrir o que é adequado a cada caso [ou
assunto em questão] com o fim de persuadir»1 ou,
ainda, como «a faculdade de descobrir os meios de
persuasão sobre qualquer questão dada».
Ora, o que nesta definição
de Aristóteles se revela importante é que a
retórica
«era uma arte do logos, o instrumento que
habilitava o homem a exprimir e veicular os resultados da confluência do intelecto
especulativo e prático,
tornando-os acessíveis a todos (...). Não uma
mera técnica de elaboração de discursos, mas a essência do processo pelo qual o
homem tenta interpretar e tornar significativo, para si e para
os outros, o mundo real»2.
Ou seja, para Aristóteles,
retórica argumentativa é o resultado do processo
de descobrir, assentar e apresentar ideias que se procuraram,
procuram ou se vão procurando, para assuntos em
questão ou problemáticas, de modo a propor-lhes
uma resposta cujo suporte pode ser explicitado (donde a ideia
de persuasividade) e que funciona como
justificação ou como fundamentação
dessa resposta.
Por outro lado, Aristóteles afirma
que são os assuntos em questão que constituem o cerne da retórica,
ainda que admita que da retórica fazem também
parte outras dimensões acessórias. Estas últimas ligam-se directamente ao
objectivo de persuadir, à eficácia persuasiva, e
não a teorias e provas cuja força persuasiva
resulta da construção de argumentos
retóricos, ou entimemas.
É certo — sustenta ainda
Aristóteles a propósito da retórica em
contexto judiciário — que se coisas como «o
ataque verbal, a compaixão, a ira e outras
paixões da alma semelhantes a estas não afectam o assunto, mas sim o juiz»3, foram todavia a estes componentes que alguns
dos seus contemporâneos se dedicaram nos seus tratados
sobre a retórica.
Contudo, a
concentração do pensamento nos assuntos em
questão é
efectivamente o núcleo da retórica para
Aristóteles, e é isso que o faz afirmar, a dado
passo, que é claro que «os outros autores trataram
dentro desta arte o que é alheio
ao assunto»4 e, mais
adiante, que é «evidente que ela [a
retórica] é útil e que a sua
função não é persuadir, mas discernir os meios de persuasão mais
pertinentes a cada caso»5.
Finalmente, é ainda a fidelidade de
Aristóteles à ideia de que a retórica
é antes de mais procura de discernimento relativamente a
assuntos em questão através da
elaboração de argumentos e raciocínios, e
não a realização da persuasão, que
o leva a incluir na retórica o exercício de
argumentar persuasivamente sobre assuntos contrários:
«não para fazer uma e outra coisa — pois
não se deve persuadir do que é imoral — mas
para que não escape o real
estado da questão»6.
Como corolário, surge então
a distinção entre duas possibilidades de exercer
a retórica: «um será retórico por
conhecimento e outro por intenção»7. Ou
seja, um porque procura descobrir e discernir o que é
adequado para cada assunto em questão, outro porque visa
a persuasão directa através do discurso.
Significa isto que a retórica,
enquanto veiculada pelo discurso, comporta a possibilidade de
se desenvolver centrando-se nos assuntos em questão, na
procura do discernimento temático das questões e
na proposta de respostas e, simultaneamente, a possibilidade de se desenvolver
imediatamente em função das
intenções dos argumentadores relativamente ao
auditório e como estratégia e técnica de
persuasão.
A referência que fizemos a
Aristóteles é importante por vários
motivos.
Em primeiro, para realçar que, para
o Estagirita, as questões de retórica são
antes de mais relativas a «teorizar sobre as
premissas» de modo a descobrir o que, sendo adequado a
cada assunto, se revela na sua persuasividade. Que, portanto,
ao contrário do que muitas vezes se afirma, a
retórica não tem a função de
persuadir, mas de «formular um juízo»8. (E
note-se que formular não é fazer prevalecer). E,
se tem a finalidade de persuadir, é porque a sua
persuasividade decorre da forma como se pensam os assuntos e se
responde aos problemas, do modo como se estrutura o pensamento
dos assuntos no discurso sob a forma de tese ou resposta
(entimema) e não porque resulte de uma mera
intenção que, secundarizando os assuntos na sua
explicitação temática, se desenvolve em
função de efeitos a obter. A própria
teoria dos tópicos — e um tópico é o
primeiro meio para escolher entimemas9 remete para
o processo de estruturação do tema em
questão. Com efeito, explica Aristóteles,
«primeiro convém saber que o assunto sobre o qual
se vai falar ou raciocinar (...) tem necessariamente de contar
com argumentos pertinentes, se não todos, pelo menos
alguns; porque, se não dispomos deles, não
teremos nada donde retirar a conclusão»10. Ora,
e na medida em que os argumentadores nunca convocam todos os
pressupostos do assunto, mas apenas aqueles que são
relevantes para o caso11, torna-se então
«indispensável, antes de tudo, ter seleccionado
sobre cada assunto o conjunto de propostas do que é
possível e mais oportuno»12. A
organização do pensamento retórico
realiza-se assim através da descoberta dos
tópicos relevantes para o assunto e que servirão
de pontos de partida ou premissas dos entimemas ou silogismos
retóricos: «Em primeiro lugar, e de acordo com a natureza do assunto, examinou-se aquilo que é naturalmente
primeiro, ou seja, os elementos [tópicos] a partir dos
quais se obtém a persuasividade»13.
Em segundo lugar, ainda que não
deixando de falar de persuasividade e de finalidade de
persuadir, Aristóteles não nos apresenta a
retórica a partir de um paradigma persuasivo,
exclusivamente centrado no auditório (com o qual a sua Retórica se
preocupa também), mas antes a ideia de que a
persuasividade é intrínseca à
configuração temática dos assuntos sem a
qual os entimemas que propõem respostas para os
problemas não teriam recursos para serem afirmados e
desenvolvidos. A persuasividade torna-se então o elo que
possibilita — no sentido em que a afirma como não arbitrária — a configuração
temática e problemática do pensamento,
fazendo-lhe corresponder uma resposta, e não aquilo que
no discurso é usado como meio para (e com a
intenção de) a obtenção imediata de
persuasão.
Mesmo quando Aristóteles aborda, a
partir do Livro III da Retórica, os aspectos relativos ao discurso e,
particularmente, quando se refere às partes do discurso,
é ainda a polarização da persuasividade no assunto que
comanda a sua concepção:
«É forçoso enunciar o
assunto de que se trata e depois proceder à sua
demonstração. Por isso fica sem efeito expor algo
sem se proceder à demonstração ou
demonstrar algo sem se ter previamente exposto o assunto. Pois
demonstrar uma coisa implica a existência de algo a
demonstrar; e expor previamente determinado assunto tem em
vista a sua demonstração»14.
Fica assim claro que, na
teorização geral da argumentação,
há que considerar que os argumentos aduzidos para
suportar uma tese e, eventualmente, convencer alguém
não podem ser dissociados da perspectiva sobre um assunto em questão à luz da qual os argumentos
são compreendidos na sua funcionalidade e na medida em
que, para além de permitirem produzir inferências
e raciocínios, desempenham também o papel de
tematizadores que configuram o assunto em questão.
Notas
1
ARISTÓTELES, 1998, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 48.
Doravante R.
2
JÚNIOR, Manuel Alexandre,
«Introdução», in ARISTÓTELES
(1998), Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 18.
3 R, p. 44. Subl.
meu.
4 R, p. 47. Subl.
meu.
5 R, p. 47. Subl.
meu.
6 R, p. 47. Subl.
meu.
7 R, p. 48.
8 R, p. 143.
9
Cf. R, p. 155.
10
R, p.
154.
11
Cf. R, p. 155.
12
R, p.
155.
13
R, p.
175. Subl. meu.
14
R, p.
207.
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