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Rui Grácio
A ruptura argumentativa e o acesso ao
assunto em questão
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
Numa argumentação o acesso
ao assunto implica reflexividade e é algo diferente de uma
interacção imediata com o discurso.
Quando por exemplo alguém diz que
«É preciso lavar o carro», o assunto em
questão (caso queiramos levar a asserção
para aí) poderá ser o da importância da
limpeza, mas podemos responder dizendo: «Amanhã
trato disso». Uma tal resposta não é
argumentativa na medida em que não questiona a
importância de lavar o carro, antes dá
continuidade à concretização de uma dada
finalidade, integrando-se numa cadeia de raciocínio ou na suposta
orientação de sentido para que se considera que o
enunciado tende.
Uma das objecções e das
dificuldades que esta perspectiva coloca — ou seja, a
ideia de que a argumentação surge pelo acto de ruptura que
faz remontar de um enunciado, ou de um conjunto de enunciados,
à perspectiva que ele estabelece sobre um assunto em
questão — é a de que o assunto pode variar
muito consoante a leitura que fazemos do discurso. Assim, na
frase anterior, alguém poderá dizer que o assunto
não é a limpeza mas «o apreço pelo
carro». Descontextualizada como foi apresentada,
até se poderia dizer que o assunto da frase pode ser
«a necessidade de cumprir uma ordem». É
claro que se tivermos mais dados textuais ou contextuais eles
permitirão estabelecer hipóteses de leitura menos
sujeitas à arbitrariedade ou à subjectividade e
mais assentes em configurações inferenciais e
articulações raciocinadas (ou seja, razões
para interpretar desta e não daquela forma). Afinal,
quanto mais instruções um texto ou um contexto
nos der, mais objectivamente poderemos suportar as leituras que
fazemos. No entanto, uma coisa é certa: sem que seja
possível especificar partilhadamente de que assunto
afinal se trata, dificilmente se poderá questionar seja
o que for, a não ser que nos contentemos com as nossas
presunções de leitura e as consideremos
suficientes de um ponto de vista prático, que é
sempre algo de diferente de um ponto de vista crítico.
Pelo contrário, se nos quisermos posicionar criticamente
temos de aferir a nossa interpretação. Um
discurso escrito pode-nos levar a concluir que não
dispomos de elementos suficientes para focalizar o que
está em questão, e a sensatez será a de
não nos pronunciarmos criticamente sobre aquilo relativamente ao
qual não possuimos um discernimento mínimo. Mas,
no plano oral, o confronto da nossa interpretação
com a interpretação do enunciador pode permitir
aceder ao assunto e verificar se há
condições para que ele seja abordado enquanto
questão. A maior parte das vezes a negação
dessas condições dá-se por um fechamento
à consideração da própria
questão interpretativa («não há nada
a interpretar…») e pela recondução
dos enunciados ao plano estrito da finalidade dos actos de
linguagem por ele veiculados («só quero é
que…»). Mas há também
situações em que à
focalização, em termos de assunto, que fazemos de
um discurso é dada continuidade, seja para corrigir a
leitura («não é isso o que está em
questão…») seja para a aprofundar. A
aceitação em lidar com os discursos enquanto
assuntos em questão acontece com a
introdução de uma dimensão reflexiva
caracterizada pela acção de elementos
auto-referenciais no discurso. Eles estão na origem de
um processamento metadiscursivo que sinaliza quer estatutos aos
próprios enunciados (no caso da
argumentação, o estatuto de tese e de argumento,
mas também escalas de importância ou modos de
hierarquizar argumentos e itemizações de
organização temática) quer a forma como
eles devem ser postos a funcionar no contexto e na
organização do discurso. Ou seja, para
além do discurso, há meios metadiscursivos que
apontam para que numa interacção discursiva se
possa aferir de uma forma partilhada não só
aquilo que está em questão, como a forma de,
sobre isso, se perspectivarem respostas específicas.
Voltando agora à
objecção de que a leitura de um assunto é
pouco objectiva e muito subjectiva, poderíamos dizer que
de facto assim é quando se considera que o assunto se
configura no discurso e pela intencionalidade do enunciador, ou quando
não vemos que, no contexto interactivo da
argumentação, a leitura é não
só co-produtora do assunto como aferidora da sua
focalização.
Ora, do nosso ponto de vista, o assunto
é o resultado de uma interacção que o
focaliza. Este pode ser requerido enquanto questão tal
como pode, pura e simplesmente, não ser reflexivamente
focalizado nem questionado. Por exemplo, nos actos de linguagem
que exprimem uma ordem («Fecha a porta») o que
imediatamente é visado é o desencadear de uma
acção. Mas também pode originar a resposta
«E quem és tu para me mandar fechar a
porta?», derivação que leva a focalizar um
assunto em questão, a saber, o da autoridade e da sua
legitimidade. É esta passagem do plano contínuo
da interacção discursiva para um plano em que os
discursos são considerados por
referência a um assunto
em questão que caracteriza o devir
argumentação do discurso.
A dependência da nossa
conceptualização da argumentação
relativamente à interactividade pode também
levantar objecções de outra ordem. Assim,
poder-se-ia dizer que uma teoria científica, por
exemplo, contém uma argumentação
independentemente da leitura que dela se possa fazer. O teorema
de Pitágoras é, por exemplo, uma
argumentação em si mesma. Isso seria
inegável se considerássemos que a
argumentação se pode reduzir a uma questão
de raciocínio e de encadeamentos inferenciais e se
considerarmos que o seu ponto essencial é a validade da
passagem que se opera das premissas para as conclusões.
Ora, no nosso entendimento, a argumentação
não se caracteriza pela presença do
raciocínio mas pela questionação
dos recursos seleccionados para
tematizar e perspectivar um assunto1, inserindo
assim as conclusões de raciocínios no assunto em
questão, ou seja, colocando-os em perspectiva2.
Acontece aliás que, no uso
coloquial do discurso, os raciocínios apresentam
diversos defeitos e insuficiências de um ponto de vista
lógico, mas tal não significa que, do ponto de
vista do assunto, não se perceba qual a questão
que está em causa. Ou seja, a instrução de
um assunto em questão não depende nem do rigor
nem da validade dos processos inferenciais (ainda que esta
possa vir a ser importante do ponto de vista da
avaliação das respostas). Com efeito, aquilo de
que se trata é, antes de mais, de configurar assuntos,
sendo que para a sua tematização e
perspectivação concorrem diversos tipos de
associações, dissociações e
raciocínios3.
É esta dimensão reflexiva
— que representa também sempre uma ruptura com a
evidência das conclusões a que conduzem as cadeias
de raciocínio e um distanciamento que leva a inserir os
raciocínios e as conclusões no quadro mais
alargado de uma perspectiva sobre um assunto — que
verdadeiramente confere uma dimensão
crítica à
argumentação e a distingue de outras formas de
interacção com o discurso. O que nos leva a
considerar que, se se pode considerar que as
mediações discursivas argumentativas visam a
persuasão e a adesão (Perelman), já na
nossa perspectiva a argumentação é o que
permite retardar a adesão e relativizar as propostas que nos são dirigidas,
inserindo-as no quadro de uma perspectiva sobre um assunto em
questão que convoca, necessariamente, a reflexividade.
Mas isso implica, é claro, que não vejamos a
argumentação como algo que é inerente ao
discurso, mas como uma disciplina crítica metadiscursiva
que o lê e com ele interage.
É também por essa
razão que pensamos serem importantes os contributos da
linguística que estuda as propriedades e a
funcionalidade do metadiscurso, nomeadamente enquanto
organizador e focalizador do assunto em questão e
também na medida em que as funções do
metadiscurso se correlacionam com os «papéis
discursivos que os locutores assumem relativamente à
natureza do acto comunicativo que protagonizam»4.
Ora, um acto comunicativo que obstaculiza
a abordagem de um assunto enquanto questão ou que se
recusa a reflectir sobre o discurso como modo de perspectivar
assuntos pode ser extremamente eficaz e útil, mas
não está certamente aberto ao criticismo.
Será por isso, aliás, que a
argumentação não é uma actividade
tão banal quando a maior parte dos seus teorizadores faz
crer5.
Notas
1
D. Walton pensa que o raciocínio está presente
quer nas explicações quer nos argumentos e
propõe que identifiquemos a diferença do seu uso
através do critério
dialéctico que permite
distinguir o tipo de «porquê?» (why-question)
que está em jogo. Assim, se o
«porquê?» incide sobre uma
proposição (A) sobre a qual não há desacordo ou
dúvidas, o que está em causa é o uso do
raciocínio como uma explicação. Se o «porquê?» incide numa
proposição (A) cuja consideração suscita
esclarecimentos adicionais, o que está em causa é
o raciocínio com argumento. A destrinça destes dois usos —
propõe ainda Walton — pode ser testada
através do modo de responder a duas perguntas e
consoante o «porquê?» se encaixe numa e
não na outra: «1. Estará o ouvinte a
adoptar uma posição de dúvida ou de
desacordo com A, e portanto a pedir ao orador que lhe dê
razões para aceitar A como um compromisso, baseado em premissas que o
ouvinte já aceita (ou que pode vir a aceitar no
diálogo subsequente)? 2. Será A uma
proposição que ambas as partes já aceitam,
de que não estão a duvidar ou que não
estão a disputar seja a que nível for?»
(WALTON, Douglas, 1997, «How can logic best be applied to
argument?» in, L. J. of the IGPL, Vol. 5, nº 4, p.
612). No quadro da conceptualização que propomos,
consideramos que na configuração de um assunto em
questão intervêm dois níveis de
tematização: o da perspectivação do assunto inerente ao modo de o colocar enquanto
questão e da fundamentação das respostas enquanto quadro resolutivo. O
«porquê» pode incidir sobre a perspectiva (caso
em se que visa a tematização do assunto
através do modo de o apresentar como questão) ou
sobre a fundamentação
da resposta (caso em que se
questiona o modo de raciocinar no interior de uma dada questão,
isto é, de uma questão objectivada em
função de um propósito resolutivo
específico). A necessidade de Walton destrinçar
entre dois usos da «why-question» deve-se, a nosso
ver, à sua pretensão de reconduzir tudo a uma
questão de tipologia de raciocínio em contexto do
diálogo e de não considerar que os processos de
configuração dos assuntos têm na sua base
associações e dissociações que
não resultam de procedimentos dialécticos, ainda
que perfilem perspectivas e pontos de partida para articular
raciocínios num diálogo. Na realidade, seria mais
simples distinguir entre «why-question» e
«how-question»: o «porquê» como
colocando em causa a perspectiva e o «como?» colocando em causa o
raciocínio enquanto via de fundamentação daquilo que antecipadamente se pretende que
funcione como resposta.
2
Note-se que, na leitura que fazemos do padrão da
análise das argumentações tal como nos
é proposto por Toulmin, esta revela-se como um
«modo de argumentar» (warrant) sujeita a reforço (backing). No entanto,
dado que para Toulmin o «modo de argumentar»
é visto como regra de passagem que autoriza um procedimento inferencial, para ele a questão crítica é
«How do you get there?» (TOULMIN, S., 1958, The Uses of Argument, Cambridge: Cambridge University Press, p. 98)
enquanto para nós será «porquê
perspectivar desse modo?», ou seja, inserindo o
«modo de argumentar» no quadro da
tematização de um assunto em questão que,
através do recurso a um «modo de
argumentar», modela a perspectiva no interior do qual
essa questão poderá ser respondida e resolvida.
3 Neste
sentido, as ambiguidades, a vagueza e as imprecisões que
encontramos na linguagem natural quando a consideramos de uma
ponto de vista lógico-formal podem também ser
vistas como aptidões excepcionais para configurar
assuntos e perspectivar respostas sem sacrificar as
possibilidades de criação ou de
inscrição de significação ao jugo
das exigências de um impraticável rigor
lógico-analítico.
4
Cf. RISSO, Mercedes Sanfelice and JUBRAN, Clélia
Cândida A. Spinardi. Self-reflexive discourse:
Metadiscoursive processing of the text. DELTA. [online]. (1998),
vol. 14, no. spe [cited 2007-07-19]. Em: <http:
//www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=
S0102-44501998000300015&lng=en&nrm=iso>. ISSN
0102-4450.
5
A maior parte dos teorizadores dilui a
argumentação na argumentatividade, ou seja,
pensa-a como um meio discursivo com vista a atingir fins
práticos. Pensada a partir do resultado ou de um
objectivo prático visado, o seu ponto de
incidência teórico transfere-se para o como do fazer
discursivo, esvaziando-se dos poderes suspensivos da
reflexão em detrimento do ponto de vista técnico
e normativo (ético, pedagógico e lógico).
Também aqui se dissocia o sucesso dos poderes de uma reflexividade que
transforma a inutilidade em tempo de maturação e
solidariza o perspectivismo com a prudência trazida pelo
alargamento de horizontes.
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