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Rui Grácio
Argumentar a propósito... e algo
mais
a publicar no livro Perspectivas e discursividade. Questões de
argumentação.
Na nossa perspectiva, argumentar
significa, antes de mais, lidar com um discurso como
argumentação num plano metadiscursivo em que o
discurso é tomado como tematização
de um assunto em questão.
Quando falamos em «metadiscurso» não lhe
damos o sentido que usualmente é empregue no
âmbito mais restrito da linguística e em que o
discurso se torna glosa do próprio discurso,
caracterizando-se por um movimento formal de
auto-referencialidade. O nosso uso de palavra
«metadiscursivo» remete não apenas para a
organização formal de conteúdos linguisticamente
veiculados, para a sua operatividade ao nível discursivo, mas também
para o plano da organização do discurso enquanto configuração temática concreta de um assunto em questão, ou seja, para a singularidade de cada caso específico. Por exemplo, a expressão «no que
diz respeito a» é, na perspectiva da
linguística discursiva, um «tematizador», ou
seja, um operador metadiscursivo que, referindo-se ao discurso,
referencia a sua incidência sobre um assunto ou sobre um
seu aspecto. Se, no entanto, quisermos ir para além do
funcionamento formal do discurso, diremos que um tematizador
é também aquilo que configura
uma perspectiva sobre um
assunto, ou seja, aquilo que de específico é dito
sobre ele e que desse modo o perspectiva.
O plano metadiscursivo é assim,
para nós, o nível em que o dizer discursivo
é focalizado através de uma
organização específica do dito no dizer. E
essa organização é feita de modo a
destacar a tematização de um assunto em
questão.
O problema que imediatamente se coloca
é a de saber se a argumentação não
se reduzirá então a uma mera
construção do leitor. Para responder a esta
questão diremos, antes de mais, que a iniciativa argumentativa
não tem que ser pensada a partir do tradicional esquema
dual com que se pretende configurar uma
«situação argumentativa», a saber, a
existência de duas pessoas (o orador e o
auditório, o emissor e o receptor, o escritor e o
leitor, ou o proponente e o ouvinte). Para nós, a iniciativa argumentativa é a que converte
um discurso num assunto em questão, não sendo relevante, para a caracterizar, se
isso acontece numa situação de
interlocução presencial ou mediada por um texto
escrito.
Perante um texto escrito, e desde que o
focalizemos em termos de assunto em questão, é
sempre possível perspectivá-lo como
argumentação, mesmo que, na aparência mais
imediata, esse texto possa nem parecer muito argumentativo. No
entanto poderá não deixar de ser passível
de ser compreendido como orientação
temática para um
assunto que por nossa iniciativa podemos conduzir ao modo do
«em questão».
Vejamos dois exemplos de lidar com textos
enquanto argumentação, salientando,
através da nossa proposta de análise, o que
caracteriza uma tal abordagem.
Texto 1
A mãe da Marta está no seu
fim-de-semana. A sua filha, de sete anos, saiu de casa, virou a
esquina e atravessou a auto-estrada. A Marta sabia muito bem
que estava proibida de atravessar a auto-estrada. Era a segunda
vez que isso acontecia e os apelos à razão tinham
falhado. Por isso, a mãe da Marta sabia muito claramente
o que tinha de fazer. Disse à sua filha que se ela
voltasse a atravessar sozinha a auto-estrada, ficaria de
castigo, fechada em casa, durante duas semanas.
Aparentemente trata-se de um texto
narrativo em que é contado um episódio.
Aparentemente não há nenhum assunto em
questão que conduza à enunciação de
uma tese, mas apenas o relato de uma situação em
que o comportamento indevido de uma filha levou a uma
determinada decisão por parte da mãe. Será
então possível lidar com este texto como
argumentação? A nossa resposta é
afirmativa. De que modo? Em primeiro lugar procurando detectar
qual o assunto em questão nesta história. Como
poderemos considerar esta história de modo a sintetizá-la,
de modo a que essa síntese funcione como um quadro de
unidade de um assunto?
Podemos dizer que a história se
insere no contexto da «preocupação dos pais
relativamente aos filhos». Esta tentativa parece boa, mas
tem um pequeno senão: é que a
preocupação dos pais para com os filhos é
algo de excessivamente abrangente. Os pais preocupam-se com os
filhos a propósito de muitas coisas. Será que a
nossa hipótese não pode ser mais precisa, mais
específica?
O próprio texto dá-nos instruções para proceder a essa
especificação. Com efeito, se a atitude da
mãe pode ser vista como resultado de uma
preocupação genericamente considerada, sabemos
também pelo excerto que o que esteve em causa foi um
comportamento específico: foi uma desobediência.
Este elemento pode então tornar mais precisa a
enunciação do assunto: «a
preocupação dos pais perante comportamentos
desobedientes por parte dos filhos».
Mas, se esta focalização do
assunto parece suficientemente precisa, ela não basta
para a colocarmos sob o ponto de vista da
argumentação. Para isso é preciso uma
tarefa adicional que consiste em perspectivar o assunto enquanto questão. E isso equivale, em termos práticos, a dar
uma forma interrogativa ao assunto. De novo temos de recorrer
às instruções do texto e deixarmo-nos
instruir por ele. Se o assunto é «a
preocupação dos pais perante comportamentos
desobedientes por parte dos filhos», o facto é que
na nossa história é também dito que a
mãe tomou uma atitude a esse respeito: a de
ameaçar a filha com uma punição. Com base
nessa informação, podemos então colocar o
assunto na forma interrogativa e atingir uma
focalização ainda mais específica que a
anterior, na medida em que conseguimos não só
focar o assunto como o problema que sobre ele se coloca. A
formulação final será, então:
«que atitude tomar perante comportamentos desobedientes
por parte dos filhos?» Sabemos que a opção
da mãe da Marta foi a de fazer uma ameaça de
punição, até porque formas mais
razoáveis de agir se mostraram ineficazes. Ora, podemos
formular esta resposta em termos impessoais e independentemente
da opção da mãe da Marta: «perante
comportamentos desobedientes por parte dos filhos há que
tomar atitudes, das quais a ameaça de
punição é uma possibilidade».
Podemos ainda dizer que, no caso concreto, o enunciado
«Era a segunda vez que isso acontecia e os apelos
à razão tinham falhado» funciona como argumento para
a resposta dada.
Lida desta maneira temos, assim:
Assunto em questão:
«Que atitude tomar perante
comportamentos desobedientes por parte dos filhos?»
Tese (ou perspectiva)
«Perante comportamentos
desobedientes por parte dos filhos há que tomar
atitudes, das quais a ameaça de punição
é uma possibilidade»
Argumentos
Quando os argumentos não
funcionam é razoável recorrer a formas de
persuasão coerciva.
Com base nesta leitura, podemos agora
interagir, ainda que as possibilidades de o fazer tenham sido
muito limitadas pelos dados factuais que a história nos
forneceu. Provavelmente quase todos se identificarão com
o procedimento da mãe, achando que ela procedeu bem
enquanto educadora e responsável pela filha. Para
além do mais a perspectiva ou tese enunciada corresponde
a um modo normal e socialmente razoável de actuar. Mas
pode acontecer que alguém defenda ser contra qualquer
tipo de persuasão coerciva e que por isso se recuse a
incluir a punição dos filhos como possibilidade
de actuação. Para o nosso efeito, as derivas
posicionais que poderão surgir encontram-se para
além do que era nosso propósito na análise
do exemplo: o de mostrar como o
tomar um texto como argumentação se torna
possível quando o podemos ler em termos de assunto em
questão para o qual é dada uma resposta e
apresentados eventuais argumentos e reforços
retóricos. Que o debate ou a
interlocução decorra daí tendo em conta
interlocutores reais numa dada situação, isso
é já entrarmos num outro fenómeno
discursivo que transcende o âmbito específico da
nossa abordagem do discurso enquanto
argumentação.
Texto 2
«A escrita é o desconhecido.
Antes de escrever não sabemos nada acerca do que vamos
escrever. Com toda a lucidez.
É o desconhecido de nós
mesmos, da nossa cabeça, do nosso corpo. Não
é sequer uma reflexão, escrever é uma
espécie de faculdade que temos ao lado da nossa pessoa,
paralelamente a ela, de uma outra pessoa que aparece e que
avança, invisível, dotada de pensamento, de
cólera, e que, por vezes, pelos seus próprios
factos, está em perigo de perder a vida.
Se soubéssemos alguma coisa do que
vamos escrever, antes de o fazer, antes de escrever, nunca
escreveríamos. Não valeria a pena.
Escrever é tentar saber aquilo que
escreveríamos se escrevêssemos — só o
sabemos depois — antes, é a
interrogação mais perigosa que nos podemos fazer.
Mas é também a mais corrente.»
Marguerite Duras, in Escrever
Numa primeira abordagem poderíamos
dizer que o texto de Duras é uma reflexão sobre a
escrita e sobre o escrever. E, de facto, assim enunciado, esse
é o assunto que permite sintetizar de uma forma
satisfatória o conteúdo temático do texto.
Mas podemos, contudo, ser mais específicos. Com efeito,
o texto fala-nos da escrita e do escrever, mas para salientar
aquilo que a autora considera ser a escrita que vale a pena ou,
se quisermos dar outra formulação, «em que
consiste a genuína experiência da escrita?»
Face a este assunto em questão, podemos dizer que a tese
ou perspectiva da autora é que aquilo que caracteriza o
acto de escrever genuino é o confronto com o
inantecipável. Esta perspectiva é suportada pelo
argumento segundo o qual «Se soubéssemos alguma
coisa do que vamos escrever, antes de o fazer, antes de
escrever, nunca escreveríamos».
Lida desta maneira temos, assim:
Assunto em questão:
«Em que consiste a genuína
experiência da escrita?»
Tese (ou perspectiva)
«O que caracteriza o acto de
escrever genuíno é o confronto com o
inantecipável»
Argumentos
«Se soubéssemos alguma
coisa do que vamos escrever, antes de o fazer, antes de
escrever, nunca escreveríamos».
Com base nesta leitura (ou de outra
eventual interpretação) poderemos então
interagir, quer confrontando a perspectiva com outra («O
que caracteriza genuinamente a escrita é a capacidade de
transpor rigorosamente para o papel o fruto da nossa
reflexão») ou questionando o argumento
(«Isso diz quando muito respeito à escrita
criativa, mas há formas de escrita não criativa
que não deixam de ser genuinas»).
Esperamos que os nossos exemplos e as suas
análises tenham clarificado que lidar com um discurso
como argumentação é considerá-lo
como tematização de
um assunto em questão. Para
que tal possa ser feito há que ter em conta as instruções do discurso no que diz respeito ao modo como nele se
configura o assunto, se abrem perspectivas e eventualmente se
produzem teses explícitas, ou, quando tal não
é o caso, instruindo a
leitura de modo a colocar essa
configuração temática sob o modo do
«em questão». É afinal esse o
procedimento que permite submeter um discurso à
disciplina crítica sem a qual ele poderá
funcionar de muitos modos, mas não como
argumentação.
Duas últimas
observações.
A primeira para referir que, a despeito
das possibilidades interpretativas que um discurso
ofereça e das instruções de leitura que o
coloca sob o modo do «em questão», duas
situações, como bem assinalou Perelman, há
que considerar: a de que, por um lado, «a necessidade de
interpretar se apresenta como uma regra e que a
eliminação de toda a interpretação
constitui uma situação excepcional e
artificial»1, e a de que, por outro, «o estudo da
argumentação obriga, com efeito, a tomar em
consideração não apenas a
selecção de dados, mas também a maneira
como os interpretamos, a significação que
escolhemos atribuir-lhes»2. Ou seja, mais do que uma
situação de acordo (que Perelman considera
aliás como o ponto de partida de qualquer
argumentação que se queira eficaz), há que
fazer uma leitura do discurso de modo a devolvê-lo, na
interlocução, como argumentação. E essa leitura
é a que o faz surgir como tematização de
um assunto em questão à qual se procura dar
resposta, ou, se quisermos, é o que o faz remontar da resposta à perspectiva que a viabiliza.
A segunda para dizer que sobre um mesmo
discurso podem surgir múltiplas
interpretações, sendo que essa multiplicidade, de
um ponto de vista da interlocução, tanto pode ser
considerada em termos de complementaridade como em termos de
conflitualidade. No entanto, a produção de
qualquer interpretação não se pode fazer
sem que se configure o assunto em questão e sobre ele se
estabeleça uma perspectiva. Se, portanto, uma
interpretação se pode tornar, ela mesma, um
assunto em questão (no caso de um conflito de
interpretações) isso apenas significa que a
leitura nunca é neutra e que nas práticas discursivas de interlocução se joga também
uma questão de poder: não se argumenta quando se
quer, com quem se quer, nem como se quer. O devir
argumentação de uma interacção discursiva é uma possibilidade
precária e instável na medida em que não
se desenvolve sem que a sua abordagem sob o modo do «em
questão» seja autorizada e partilhada3, o que
aconselha a não perder de vista que a
argumentação, no contexto de uma prática discursiva de
interlocução, nunca
retira a sua força apenas dos próprios argumentos, «como se o contexto, o uso e a
experiência pessoal tivessem, por si próprios, um
poder de produção semântica»4, mas
das práticas sociais e de representações
de que são solidários. Nesse sentido há
que distinguir entre uma teoria
geral da argumentação
centrada na possibilidade do questionamento e aquilo que, configurando a
interlocução argumentativa a partir de padrões normativos, se
resume, de facto, a uma ideologia
da argumentatividade, ou seja, que
se limita a reproduzir critérios ancorados em
práticas discursivas sociologicamente sobredeterminadas
conferindo-lhes, simultaneamente, a aparência neutra de
um mero jogo de persuasão racional.
Notas
1
PERELMAN, Ch., OLBRECHTS-TYTECA, L.,1988, Traité de l’argumentation, Éd. de L’ Université de
Bruxelles, p. 168.
2 Idem
Ibidem, p. 161.
3
Escreve Moisés Martins: «O conceito de
prática discursiva é muito mais vasto e
abrangente do que o horizonte para que aponta qualquer teoria
argumentativa. (…) Remete para a vasta série de
práticas políticas e sociais, sem dúvida
descontinuadas mas em relação, que constituem o
mundo moderno na sua singularidade própria: um
determinado conceito de ordem, de verdade e de sujeito. Por
outras palavras, são as práticas sociais que
são solidárias das representações,
e não os jogos intelectuais que uma teoria argumentativa
pode proporcionar» (MARTINS, M. L., 2002, A Linguagem, a Verdade e o Poder, Fundação Calouste Gulbenkien /
Fundação para a Ciência e a Tecnologia, pp.
172-173.
4
Idem Ibidem, p. 179.
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